Gargalo velho, gargalo novo
O movimento sindical foi uma pedra no sapato do capitalismo, garantindo importantes conquistas para a classe trabalhadora durante o século 20. As reivindicações operárias levaram ao 13º salário, férias remuneradas, jornada de trabalho. Foram (e ainda são) chamadas pela indústria de gargalos ao crescimento. O que significa que ajudaram para que os chãos de fábrica não fossem senzalas atualizadas.
Em um desses gargalos foi forjado o atual presidente da República.
Agora, o mesmo Lula – que teve que brigar contra esse discurso bizarro durante as greves do ABC – o repete em alto e bom som ao taxar de gargalos as ações das populações tradicionais, como indígenas e quilombolas, na luta pela sobrevivência de seu modo de vida.
(suspiro…)
Pelo menos não foi propaganda enganosa. Tudo isso já estava no texto do programa de governo: enquanto obras públicas de infra-estrutura, que beneficiarão a iniciativa privada, como o asfaltamento da Cuiabá-Santarém e a construção das hidrelétricas de Belo Monte e do rio Madeira, são citadas nominalmente, as políticas para preservação das populações locais são genéricas e não assumem nenhum compromisso de peso.
Mas ainda dá tempo. Durante oito anos, FHC esqueceu o que escreveu. Lula tem mais quatro para se lembrar do que discursou.

Trabalhei na Volkswagen naquela época. A gente se sentia mesmo como um gargalo diante das justificativas dos diretores.
Como diria Chico Buarque (será que ele diria mesmo?): Quem te viu, que te vê…