No Aeroporto de Congonhas, esperando Godot
Passei ontem o dia na sala de embarque de Congonhas, em São Paulo, esperando Godot. E Godot não veio.
Foram nove horas quentes, até porque a Infraero resolveu economizar no ar condicionado.
A espera, o calor… O tumulto, o calor… A desinformação, o calor… A fome, o calor… E no calor do momento, rolaram tapas entre passageiros e funcionários, entre passageiros e passageiros. Um funcionário-descontrolado chegou a tomar o celular de uma repórter-passageira que registrava um coronel-suado dando explicações.
Sobre o que? Não deu para ouvir. Muita gente…
Eu ia receber um prêmio em Brasília. Mas como eu e os outros premiados estavam esperando Godot em São Paulo, a cerimônia teve que ser adiada.
Não culpo controladores de vôo. A situação deles é desesperadora. E situações desesperadoras levam a medidas desesperadas.
(Como não estamos mais nos primórdios da revolução industrial, não faz mais sentido jogar tamancos – do francês, sabots – nas engrenagens para paralisar a produção e se fazer ouvir. Há formas mais modernas de sabotagem, mas com o mesmo efeito.)
O governo federal deveria tomar vergonha na cara. Terrorismo não é parar de trabalhar. Terrorismo é fazer a população ficar contra um grupo de trabalhadores, enquanto encobre as incompetências do poder público, acumuladas na área por vários presidentes da República. Se outra nave cair, a culpa é estatal.
Durante anos, a “modernização” do sistema aéreo esbanjou dinheiro em piso de granito de aeroportos. À medida em que o capital fixo crescia (o visível, porque radar para eliminar “ponto cego” nem pensar), o capital variável (salários) continuava insuficiente para o nível de exigência da profissão.
Nossa esquerda está se saindo uma ótima aluna do capitalismo mais selvagem.
As classes média e alta estão dando piti agora. Bem feito. Experimentam, de leve, o que a massa de trabalhadores pobres sente todo o ano com as greves de ônibus em São Paulo, que deixam milhões a pé. Que faz moradores de bairros afastados caminharem 20 km para chegar no trabalho.
Que tal, independente de classe social, descermos ao nível da realidade e discutir a melhoria na qualidade de vida do trabalhador? Tenho fé que ou esse país dá certo para todo mundo, ou alguns poucos não vão conseguir desfrutar o seu butim.
Apóio os controladores de vôo. Apóio os cobradores e motoristas de ônibus. Apóio os bancários e metalúrgicos. Apóio os garis. Apóio os residentes médicos. Apóio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não à exploração e entrar em greve até que a sociedade pressione e os patrões escutem.
Mesmo que isso torne minha vida um absurdo.
Mesmo que Godot nunca chegue.


