Post de André Campos, da Repórter Brasil:
Hoje, foi publicado o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em Paris, mostrando que a temperatura do planeta deve subir entre 1,8ºC e 4ºC até o final do século. Com base nisso, vale a pena fazer algumas considerações do que, nós brasileiros, poderemos enfrentar.
Com o aumento da temperatura, projeções feitas em diversas partes do mundo indicam que o clima fica mais variável. Nesse contexto, secas, chuvas intensas e enchentes devem acontecer com mais freqüência.
Para o Brasil, país com ocupação do solo notoriamente desordenada, essa é uma péssima notícia. Somente no Estado de São Paulo, existem 1,5 milhões de pessoas vivendo em áreas de mananciais. São vítimas em potencial das inundações e histórias de tragédia familiar que, invariavelmente, inundam os meios de comunicação a cada verão. Isso sem falar das populações nos morros, que devem tornar-se ainda mais suscetíveis aos deslizamentos de terra provocados por fortes chuvas.
No semi-árido brasileiro, onde o regime hídrico já é bastante traiçoeiro à ocupação humana, o aquecimento do planeta pode dificultar ainda mais a vida dos sertanejos. O cálculo é simples: com o aumento da temperatura, evaporam com mais intensidade as águas do solo e dos milhares de pequenos açudes que abastecem a região. Estudos têm demonstrado que, já nos dias atuais, aproximadamente 40% das águas armazenadas nesses açudes se perdem devido à evaporação.
Em 2005, a Floresta Amazônica sofreu a mais severa seca registrada na região em 40 anos. Não se sabe ao certo o quanto dela pode ser creditada às mudanças climáticas, mas, ao menos, a situação deixou claro como a intensificação de eventos do gênero pode trazer impactos profundos na vida da população local. Num lugar onde os rios são as principais estradas, foi a falta de água que deixou milhares de pessoas ilhadas.
O aumento do nível dos mares, uma das principais conseqüências do aquecimento global, também pode trazer impactos significativos para o país. Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos principais estudiosos do tema no país, acredita que tal realidade pode provocar um avanço de centenas de metros do mar em cidades litorâneas muito baixas – como, por exemplo, Recife. Obras de engenharia tornar-se-iam imprescindíveis, inclusive para evitar a intrusão salina em lençóis freáticos que abastecem as cidades. Ou seja, salgar a já tão escassa água potável.
Pesquisas capitaneadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostram que o aumento da temperatura pode ter influência drástica no mapa agrícola do país. Em cenários extremos, o território nacional propício o cultivo de arroz pode reduzir-se em mais de 30%, enquanto que outras culturas, como o milho e o feijão, também sofreriam perdas substanciais. As plantações de café em Minas Gerais e São Paulo podem estar com seus dias contados: em busca de temperaturas mais amenas, elas tenderiam a ir para o sul do país.
Para quem não se lembra, há pouco mais de dois anos o litoral de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul foi atingido pelo primeiro furacão já registrado em águas do Atlântico Sul. Na ocasião, milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Trata-se de um evento isolado ou representa a entrada do Brasil na rota dos furacões? Não há pesquisas conclusivas a respeito, porém vale lembrar que há estudos do Met Office – o centro de meteorologia da Grã-Bretanha – mostrando que o fenômeno ocorreu justamente em uma área onde é esperado um aumento significativo de ciclones extra-tropicais ainda para este século. O Catarina originou-se exatamente a partir de um desses ciclones.