Uma esquizofrenia racional
Quem assistiu ao Jornal Nacional ontem teve a impressão de que o principal telejornal do país sofreu um surto esquizofrênico.
Inicialmente, foi veiculada uma reportagem sobre o veto presidencial à emenda 3 – aquela que tira dos auditores federais o poder de reconhecerem vínculos empregatícios. E que tem conseqüências negativas para as relações trabalhistas, uma vez que dificultaria o combate a terceirizações ilegais e mesmo ao trabalho escravo.
A matéria tinha cara de editorial. A Globo é uma das principais interessadas na aprovação da emenda, junto com outros grupos de mídia que gostariam de legalizar a forma com que contratam empregados sob a forma de prestadores de serviço, pessoas que ganharam salário via nota fiscal. Nesses últimos meses de tramitação no Congresso Nacional, houve a visita de lobistas da emissora carioca ao ministro Luiz Marinho, solicitando apoio à proposta. Marinho foi um dos que mais agiram para que o presidente vetasse a emenda.
Ontem em sua coluna na internet, Lauro Jardim, da revista Veja, deu mais informações da ação da Globo em notas sob o título “Globo aflita”:
“Na sexta-feira passada, Lula infligiu uma derrota a Globo. E ninguém pareceu dar-se conta disso. Lula vetou a chamada Emenda 3, aprovada no Congresso e que favorece os contratos de prestação de serviços por profissionais liberais que atuam como pessoa jurídica – na Globo boa parte dos contratos são de pessoa jurídica, sobretudo os de salários mais altos.
Aqui não se está discutindo a natureza técnica da emenda ou do veto do presidente. Ressalte-se que entidades empresariais também são favoráveis a emenda – a Globo não está só. Mas o ponto é: durante meses, Evandro Guimarães, diretor de Relações Institrucionais da Globo, empenhou-se pessoalmente pela Emenda 3. Procurou centenas de parlamentares na tentativa (afinal, bem sucedida) de convencer-lhes da sua necessidade.
Mas a guerra não está perdida. Hoje, os líderes partidários discutirão no Congresso a convocação de uma sessão conjunta para discutir o veto do presidente à Emenda 3.”
Repito o que jáhavia escrito: discordo da emenda, mas acredito que deva haver um debate amplo e democrático sobre o assunto para que seja tomada uma decisão no caso de profissionais liberais – resguardando, é claro, os direitos de trabalhadores de faixas salariais mais baixas.
Dada essa introdução, voltemos ao telejornal de ontem. Depois da reportagem editorializada a favor da emenda 3 (um editorial não explícito, ou seja, sem o Arnaldo Jabor sentado num banquinho como no Jornal da Globo), veio uma matéria sobre… o problema da falta de carteiras de trabalho assinadas, ou seja, de empregos formais! E com caráter de cobrança ao governo. O que soou estranho. A edição do telejornal teria feito um deslize? Tenho certeza que não.
Jornalistas da própria Globo aventaram a este blog a hipótese dessa matéria ser uma pequena manifestação da redação, contrariada com o editorial. Seria uma entrelinha bem tênue, mas possível, uma vez que é comum repórteres, editores e apresentadores manterem uma “resistência” dentro das redações.
Eu, particularmente, acho que a veiculação seqüencial das duas matérias foi feita de forma pensada pela empresa. Para o telespectador soaria irracional um telejornal defender a carteira de trabalho e o emprego formal num momento e, em outro, a flexibilização do emprego através da transformação de funcionários em pessoas jurídicas. A Globo jogou com isso para afastar a imagem de que a emenda 3 vai facilitar o fim de empregos formais.
Somado a isso está o fato da empresa estar sistematicamente dando mais espaço aos defensores da emenda do que aqueles que atuam por seu veto. O nível de informação sobre o tema é limitado ao que a emissora, e outros grupos de comunicação, quer que seja tornado público, ou seja, a imagem de “liberdade para empreender” da emenda. Com isso, a empresa manda um recado aos formadores de opinião e políticos e, ao mesmo tempo, garante que a população em geral não entre na discussão.
Uma esquizofrenia racional. Bem coisa do empresariado brasileiro.


