A Folha de S. Paulo publicou neste domingo uma reportagem sobre o sistema de endividamento das meninas que vêm tentar a sorte em São Paulo como modelos. Os custos de transporte e hospedagem são bancados pelos contratadores das Agências, que depois descontam a dívida dos primeiros cachês que elas receberem. Há casos que as meninas não fazem sucesso e voltam para casa de mãos vazias.
As principais agências de São Paulo trabalham em esquema de “adiantamento”. Ou seja, pagam para as modelos que vêm de outras cidades a passagem, o book, o aluguel em um apartamento que será dividido com outras modelos e, em alguns casos, até uma “semanada” (mesada semanal). Mas tudo é descontado dos primeiros cachês que elas recebem. O “adiantamento” transforma em devedoras garotas que ainda não completaram a maioridade e os “descontos” fazem com que elas demorem a ter em mãos o dinheiro fruto do próprio trabalho.
Isso lembra muito o sistema de aliciamento que leva trabalhadores rurais a serem escravizados em fazendas e carvoarias do interior do país. Eles também são trazidos de longe – não do Rio Grande do Sul, de onde veio uma das personagens da matéria e também boa parte das chamadas “new faces”, mas de regiões pobres de estados como o Maranhão e o Piauí – e acabam se tornando escravos na fronteira agrícola da Amazônia e do Cerrado.
Também são obrigados a bancar o transporte, a hospedagem e instrumentos de trabalho, que depois são descontados de seus salários. De uma modelo que desistiu da profissão, na Folha:
“Eu trabalhava, trabalhava e quando via não sobrava nada na minha mão.”
De um depoimento que tomei de um trabalhador que conseguiu fugir de uma fazenda:
“O gato [aliciador de serviço para a fazenda] já dizia que nós estávamos devendo muito. A gente trabalhava e eles não falavam o preço que iam pagar pra gente, nem das coisas que a gente comprava deles, nem nada.”
Uma das formas de manter um trabalhador rural cativo é retê-lo através de uma dívida contraída com o gato, enquanto o salário não é pago. O trabalhador pode ser repassado a outra pessoa, bastando bancar essa dívida. Com as modelos, segundo a matéria da Folha, não é muito diferente:
Se ela quiser mudar de agência, de acordo com ele [Jardel Turgante, da agência Way], a dívida será negociada com o próximo empregador.
Durante uma reportagem em Eldorado dos Carajás, em 2001, eu quase consegui “comprar” um trabalhador em um “hotel peoneiro” – pequenas pensões que recebem trabalhadores que estão em busca de emprego. Quando precisam de mão-de-obra, funcionários das fazendas vão até essas pensões, pagam as contas dos peões e os levam para onde quiserem.
Depois de um tempo, quando não fazem sucesso, as modelos chegam a voltar para casa sem receber nada – o pagamento ficou na dívida com a agência. Igual aos peões.
A legislação garante, contudo, que esses gastos sejam arcados pelo contratador – para modelos ou peões. Quando o empregador vai buscar o trabalhador em outra região, ele deve bancar esse transporte. Mesmo o “book”, se for produzido para beneficiar a Agência, pode muito bem ser considerado um instrumento de trabalho e, portanto, arcado pelo empregador. Não é porque um álbum de fotos é mais glamouroso que uma enxada que ele deva ser pago pelo trabalhador.
Não estou igualando as condições das modelos de 15 anos a dos trabalhadores rurais escravos. Mas a comparação serve para mostrar que essas agências descumprem claramente a legislação trabalhista ao adotar esses métodos. E com a anuência de uma sociedade que enxerga na mercantilização de suas crianças uma possibilidade de ascensão social.