Ribeirão, da cana, ganha favelas e condomínios de luxo
Ribeirão Preto, a 314 km da capital paulista, é o centro de uma região que foi apelidada de “Califórnia brasileira”, comparando a prosperidade trazida pelo agronegócio ao mais rico estado norte-americano. Com o etanol brasileiro em foco no mercado internacional devido às discussões sobre mudança climática, a importância relativa de Ribeirão Preto na economia nacional está aumentando, uma vez que a região é referência na produção de álcool e no desenvolvimento de tecnologia para essa cultura.
Mas o crescimento não vem para todos. Um levantamento divulgado recentemente aponta que, em 2005, haviam 31 favelas na cidade, com 18 mil moradores. No ano passado, já eram 34 favelas com 22 mil pessoas – um aumento de 22%. O município tem população estimada em 560 mil, de acordo com o IBGE.
Simultaneamente ao aumento de submoradias, não param de crescer os loteamentos de fazendas no entorno da cidade para a instalação de condomínios de luxo. Um exemplo é o AlphaVille Ribeirão Preto, com lançamento previsto para 2008. Com área total de 200 hectares, terá lotes de, em média, 450 metros quadrados e deverá comportar 1390 residencias, além de setor comercial e clube privativo. No momento, aguarda a análise do relatório de impacto ambiental pelo governo estadual.
Os próprios filhos de moradores da outra Alphaville, localizada na Grande São Paulo, apelidaram o seu condomínio de “bolha”. Um ilha de prosperidade, criada pelo medo e pela comodidade, que pode criar pessoas desconectadas da realidade e dos seus problemas. Como um castelo medieval, erguido para deixar as classes indesejáveis e a violência do lado de fora.
Mas, até aí, nada de novo. O bolo continua crescendo, mas nunca é dividido. O cinismo dessa história fica pelo fato de governo, empresas e mídia tentarem vender a idéia ao resto da população de que o aumento de nossa produção de etanol é motivo de orgulho nacional por ser “ambientalmente correto”. Não que o etanol não seja mais limpo que o petróleo, mas esse discurso está sendo usado para enterrar os problemas – literalmente. Em três anos, 19 bóias-frias morreram no corte da cana em São Paulo e, ao que tudo indica, por exaustão. O último foi um jovem de Axixá, Tocantins, município pobre que é uma das fontes de mão-de-obra barata para o agronegócio. Como previsto, a expansão dos biocombustíveis já está sendo feita em cima do sangue e do suor dos trabalhadores.
É interessante como quem está no poder se utiliza de ferramentas no plano ideológico para justificar sua incessante busca pelo lucro, fazendo crer que o desafio a ser enfrentando não é só dele, mas de toda a sociedade. Para impor seus objetivos por meio do aparelho jurídico e administrativo do Estado, constrói um suporte de legitimação que mostre que os seus próprios interesses são, na verdade, interesses de todos e, principalmente, dos próprios subordinados. Quer garantir, com isso, que as contradições sociais inerentes ao sistema não se interponham sobre a sua evolução econômica.
Tomando como exemplo o processo de ocupação da Amazônia durante a ditadura, a construção desse suporte ideológico culminou no slogan “Terra sem homens para homens sem terra”. Ele tinha o objetivo de transmitir a idéia de que a Amazônia era um grande deserto verde, desabitado. Contudo, uma análise rápida demonstra a falácia presente na utilização desses discursos, uma vez que terras almejadas pelo capital eram, na verdade, habitadas por populações indígenas, ribeirinhas, quilombolas, posseiros e colonos. O que esse slogan encobre é que a Amazônia não é desabitada e que a imagem de “deserto verde” é uma construção que serve às forças econômicas interessadas em ocupar a região.
Sob a justificativa do desenvolvimento e do meio ambiente, algumas pessoas ganharão muito dinheiro e terão o apoio de uma parcela significativa da mesma sociedade que vai sofrer as conseqüências negativas disso. Os resultados positivos dessa prosperidade ficarão dentro dos condomínios enquanto crescerão favelas – reservatórios de mão-de-obra barata para a economia local. E a cana pressionará a fronteira agrícola sobre áreas não devastadas, sendo ela mesma vetor de destruição.
Com tudo isso, lembrei-me de uma charge do Angeli, que saiu na Folha de S. Paulo uns anos atrás:


Belíssimo texto!
Você quer o que? Que a gente deixe esses selvagens devorarem nossas famílias É bolha sim e com orgulho! Dane-se!
Gostei. Vou usar no meu trabalho de escola.
Sr.Sakamoto, boa tarde:
parabéns pelo comentario.
Os ricos encastelam-se nos condominios por temerem serem incomodados ou até mesmo serem assaltados pelos pobres que eles mesmo criam, através das condições escravizantes a que submetem este nossos irmãos relegados a segundo plano.
Lembrando um pronunciamento do senador Christovam Buarque, se o Brasil oferecesse possibilidades de escola do mesmo nível para todos (pobres e ricos) , o rico não precisaria morar atraz de muros e o pobre não precisaria morar em favelas.
Na questão da Amazonia, que nos EUA é ensinada às crianças ser uma area internacional, pelo que tenho acompanhado, boa parte da região já está nas mãos de estrangeiros.
grato.
Alguém, algum dia, sai da bolha. Aí é que eu quero ver. A corda, qdo excessivamente esticada, arrebenta sem freios. A sorte é que nesse país a classe dominante sabe exatamente qdo afrouxar. É o que mantém.
Caro Sakamoto,
É mesmo muito ignorância neste mundo…O pior é a ignorância de gente que deveria ser mais esclarecido. Mas para muitos os humildes, os necessitados, são mesmo uns SELVAGENS. A maioria dos que nasceram em “berço esplendido”, Vêm somente seus umbigos enão acreditam na luta pelo bem comum. Estes sim, são os verdadeiros selvagens.
Elio Amorim – Geógrafo
O BRASIL VAI CONTINUAR ASSIM!!!