Blog do Sakamoto

“Alembrar do passado é sofrer duas vezes”

Atendendo a pedidos de leitores deste blog, curiosos sobre histórias de quem caiu na escravidão, trouxe uma que ouvi para cá.

Antônio, vendido como escravo no Maranhão, foi obrigado a trabalhar para Miguel de Souza Rezende, fazendeiro mais de uma vez flagrado pelos grupos de fiscalização do governo federal utilizando mão-de-obra escrava. Esteve na “lista suja” – que reúne empregadores comprovadamente envolvidos com esse crime.

Antônio foi aliciado para limpar o pasto e derrubar mata. Miguel vendia o gado produzido em suas fazendas para frigoríficos que comercializavam com grandes redes de supermercados. Antônio conseguiu, no ano passado, uma indenização de Miguel, que esta recorrendo para não ter que pagá-la.

A fala de Antônio, com a ajuda do documentarista Caio Cavechini, foi transcrita do jeito que foi dada – livre, sem as correntes da língua portuguesa.

“Rapaz… dessa fazenda, como eu fui parar lá… Que naquela época era mais difícil serviço aqui dentro. Hoje não, já tem muito. A todo canto a gente acha um servicinho pra fazer. Pra quem quer trabalhar, pra quem não quer, não acha não. É roubar… Então, eles vieram atrás de gente para levar lá pro Miguel Rezende. Então, ele chegou e o cara foi na rua e aí anunciou que queria 42 peão. Então esses 42 peão foi junto, tudo. Com dois dias eles deram conta de ajuntar esses 42 peão.

No dia que nós saímos para a casa do Miguel Rezende, em Imperatriz, nós cheguemos lá, nós fumos vendido! Oitenta reais pra cada cabeça, os 42. O vagabundo morava lá no Casqueiro, num sei se ainda mora, num cabaré ali. Então ele pegou esse dinheiro lá com patrão e passou nós já pra outro. Quando nós cheguemos em João Lisboa, nós fomos pedir que queríamos merendá ele disse: “que merendá, nada! Cês pegarem muito chiado, cês pega tapa logo”. Barroso… Aí nós fiquemos por ali. Aí nós fumo pegá a mercadoria para botar no tapa. Aí o cantineiro, rapaz, disse que nós num podia ficar sem comer não, “eles merendaram em açailândia”. Aí ele passou um bocado de pacote de bolacha pra nós. Quando nós chegamos lá na sede, foi dez horas da noite. E o que comemos mesmo foi só um banho e dormimos com essas bolachinhas. No outro dia, todo mundo se arregaçou de se caminhar três quilômetros de pé, atravessemos o rio, fumo pro outro lado. Quando chegou lá, todo mundo com fome-de-manhã-caiu-na-cacaia-pra-cortar-pau-de-motosserra-uns-carregando-outros-só-limpando-outros-derribando.

Aí nos fizemos o barraco. Quando deu seis horas, nós cabamos de fazer um barracos de 30 metros assim, de comprido. Com os caibros no chão, coberto com plástico de uma lona preta. Aí pegou uma empreita, pra nós era quatro. Desses 40, nós fiquemos em quatro. Aí nós peguemos dez alqueires em branco. Quando deu com 25 dias eu falei pro Barroso, Barroso eu quero um dinheiro para mandar pra a minha família em casa, porque lá não ficou nada, vocês não me deram nada. Então pra comer eu tenho que trabalhar e mandar dinheiro. Ele disse: “hum, rapariga de filha de uma égua nenhuma desses que têm aqui não vai nenhum dinheiro. Tirando antes de 90 dias não vai nenhum dinheiro pra essas raparigas de vocês na rua”. Aí parou, trabalhemos o resto do dia. Jantemos, quando foi o outro dia, tornemos a ir pro serviço, trabalhar. Quando completou 30 dias eu disse: meninos, quem quiser ir embora mais eu, nós vamos. Aí o cantineiro avisou nós: “rapaz não sai de nenhum de vocês, se saírem vocês morrem. Tem muito jagunço na fazenda”. Nessas alturas, tinha um rapaz que era veeado, de Chapadinha. Esse rapaz nós escutemos os tiros seis horas. E esse rapaz, até hoje, ele nunca voltou pro barraco.

Rapaz, eu não tenho medo de homem não! Eu posso morrer, mas eu vou me embora. Eu não vou ficar aqui trabalhando a vida todinha, escravizado, para não mandar nada pra minha família. Aí quando nós acabemos de arrumar ali, eles tinham ido prum jogo lá no Jabuti, que é um povoadozinho de sem-terra. Aí chegou a corriola todinha que estava pra lá bebendo cachaça. Chegou tudo. Chegou o cantineiro e passou logo pra eles: “olha tem quatro homem que vai sair”. Aí ele começou logo a bordar taca mais os jagunços dentro do barraco, batendo, jogaram o cavalo no Deodete, o cavalo pisou no aqui assim dele, arrancou as duas unhas dele, ficou só a carne. Aí começaram o quebra-quebra.

Aí nós saímos, eles ficaram em argumento com os outros e eu sai com mais três. O menino que ficou com as unhas arrancadas ficou lá, eu disse depois nós volta pra buscá ele. Deixa esfriar mais. Aí quando nós sai, quando nós andemos uns 200 metros, vieram aqueles cães grandes, dois cachorros grandes, do tamanho de um bezerro. Dois se jogou pra dentro do capim.

Eu sou aquele homem que embora eu quero ver meus pés dentro dum caixão, mas não corro com medo dum homem, eles chegaram e me cercaram. Barroso era o mais de frente, eu peguei e meti a faca na barriga dele. Eles disseram mata o homem. Eu disse não mata o homem, se ele me mata, ele me mata, aí ele me atira, no que ele me atirá, vocês atirá nele, ele me mata, porque tinha uma faca entrando na minha barriga. Aí fiquemos ali, mata num mata, mata num mata, mata num mata. Aí chegou o gerente e disse pra eles: “rapaz, vocês libera esse homem, libera esse velho, porque se vocês mata ele, tem 42 homem, esses homem entrega essa fazenda”. Aí liberaram nós.

Aí quando nós viajemos um pouco, de noite, pra todo canto tinha piquete, pra todo canto piquete para matar nós. Ainda voltei pra pega o homem doente, carreguemos ele nas costas um pouco, aí ele melhorou, rasguemos uma camisa, marremos no pé dele. Nós viajemos três quilômetros perdidos, voltemos viajemos outros três, e os meninos dentro de uma coxas velha de farinheira.

Um friiiiio! E foooome! E de lá nós tiremos pra sair no… no Córrego Novo. Três dias comendo mamão véio e verde, raizinha de macaxeira e baiguinho de feijão verde. E foi nesses três dias o que nós comemos.

Mais isso já tava com seis anos, já tava esquecido… Alembrar do passado é sofrer duas vezes… O cara massacrado, panhar, cheguei em casa todo inchado de boca de arma, todo massacrado, a comida ficou a quinze reais cada pratinho de refeição, as bolachas ficou a seis reais, cada um pacote – naquele tempo não tinha esse preço. O de comer e esse serviço que nós fazemos nós não recebemos um tostão inté hoje. Nós já fomos em audiência duas vezes em São Luís, três vezes em Imperatriz, três aqui em Açailândia. Quando eu caí doente, eu não pude ir pra Brasília, foram no meu lugar, duas vezes. Aí parou, pra mim já tava esquecido. Agora, lembrar disso magoou de novo. Pra mim foi mesmo que tenha sido agora como perguntando nós, falando aqui.

Rapaz, eu hoje adepois que me aposentei, eu não sai mais para trabalhar pra fora pra ninguém. Que sempre eu tenho uma famizinha de trabalhar. Porque na idade que eu tô…tá faltando três meses para 75 anos…eu trabalhando é saúde pro meu corpo. Porque se eu parar, pronto, a carne vai indo, engorda, amolece o bucho e não tem coragem nem de andar! Eu trabalho todo o dia como eu tô te falando tem dia que eu faço diária de 50, 60. Mas minha morada é seca, seca mesmo, eu não paro não. Essa mulher, tem de dois anos que estamos junto, essa mulher foi uma grande coisa que Deus me deu. Porque eu vivia com quatro vagabunda ali, cuidando da filha que destruíam tudo o que eu tinha. Hoje tá com dois anos que eu tô nessa casinha, mas eu num acabei de fazer ela, porque eu vivo empregando em lote: essa áréa pro lado é minha, lá na esquina é minha, esse lote que travessa pro lado é meu. Tô com 11 lotes, e eu não devo a ninguém desses lotes.

Pra adquirir terra só se vir uma reforma pra cortar terra. Mas invasão que nem eu vejo a polícia matando, batendo, não quero não. Eu fico mesmo aqui dentro da minha areazinha, roçando pra riba e pra baixo, mas não vou não. Mas se vier reforma eu ainda vou tentar. Cortada e entregada, que eu não tenho mais idade, a mulher ainda tem idade, mas eu não tenho não.

Eu desde da idade de 11 anos que meu pai me executava em mexer com lãzinha do Ceará lá pelos campos de Caxias. Desde os 11 anos que eu mexo com roça. Meu pai morreu, minha mãe morreu, tá tudo enterrado ali em Caxias. Nós somos 32 irmãos dentro de três famílias de meu pai. E eu não sei aonde tem nenhum, vivem largado no mundo. Minha mulher morreu, outra também morreu e tá enterrada no município de Caixas, a ex vagabunda eu larguei aqui. Hoje, eu vivo só mais essa aí e uma criancinha que eu tô criando. Dali eu tenho um filho, tenho dois netos, tenho uma filha que tá pra acolá.

A Federal tá baixando aí, tá dando regulagem na turma. Tem alojamento, tem tudo. E hoje só entra pra dentro de uma fazenda pra roçar juquira, carteira assinada… 90 dias… no contrato. Quando sai ainda paga os direitos dele. Mas aqui nego já sofreu demais, demais. Hoje, ta mió… Os fazendeiros fazem isso porque são poderoso. Eles são poderoso. Então não tem cuma, o cara tem que ir roçar juquira, fazer qualquer coisa pra dar de comida pra família. Aqui mesmo nessas pontas de ruas que eles chama de pólo moveleiro aqui tem gente, menino, que se ele ferve a água de manhã, de noite ele não tem para ferver a água para os filhos. Anda pedindo nas casas pra poder escapar, porque não tem um emprego”.

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Cresce a pressão para diminuir a proteção da Amazônia

De Palmas (TO) - As siderúrgicas do lado paraense do pólo Carajás querem reduzir a reserva legal de floresta para garantir o aumento da produção de carvão vegetal – matéria-prima para a fabricação de ferro gusa. Hoje, a legislação limita em 20% o total de área que pode ser desmatada em uma propriedade localizada na Amazônia Legal.

Na prática, são poucos os fazendeiros e carvoeiros que respeitam a lei e mantém 80% de suas propriedades para a preservação. Pois a ação fiscalizatória do Ibama não têm sido suficiente para impedir a derrubada da floresta. E, mesmo assim, as autuações que conseguem ser feitas têm enfurecido produtores de carvão no Maranhão, Tocantins e Pará, que chegaram a bloquear rodovias no ano passado em protesto.

Para evitar essas dores de cabeça, proprietários rurais têm defendido a diminuição no tamanho da reserva legal ou mesmo a exclusão de determinadas áreas da abragência dessa lei. Há pressões da bancada ruralista no Congresso Nacional nesse sentido, mas a atuação de atores da sociedade civil e da mídia nacional e internacional tem mantido esse limite, mas não se sabe por quanto tempo.

E não é são apenas as reservas legais. Está em curso também uma tentativa de diminuição de áreas de proteção que estejam em locais de interesse do agronegócio. Por exemplo, a Assembléia Legislativa do Mato Grosso aprovou uma lei para reduzir o Parque Estadual Cristalino para beneficiar agricultores. Na mira, também está o Parque Nacional de Grande Sertão Veredas, na região de cerrado entre Minas Gerais e a Bahia.

Apesar da boa vontade do governo federal, não foi ele o principal responsável pela queda do desmatamento nos últimos anos e sim a diminuição do preço internacional pago por determinadas commodities. Isso freou o ímpeto expansionista do agronegócio brasileiro, que ficou mais preocupado em conseguir dinheiro público (nosso dinheiro, mas isso é outra história) para saldar suas dívidas do que em aumentar a área plantada. A verdade é que, na prática, o acontece dentro do Chicago Board of Trade e da New York Board of Trade influi mais na realidade amazônica do que o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama.

Se os preços internacionais de commodities subirem, a busca por novas áreas será acelerada. A expansão da cana, para atender a demanda mundial por etanol, já está causando isso, comprando terras já amansadas e empurrando outras culturas para áreas até então preservadas.

Com o agronegócio a pleno vapor e o discurso governamental de que é preciso crescer a qualquer custo (PAC, PAC, PAC…), duvido se será possível manter a Amazônia Legal com a reserva legal em 80%. Aliás, duvido que seja possível impedir que a Amazônia vire carvão, soja, pasto e cana.

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Um voto para Joás Brandão, o Guerreiro da Chapada

No final do ano passado, eu havia publicado um post sobre Joás Brandão, o guerreiro da Chapada Diamantina. Joás Brandão é um daqueles caras que são capazes de convencer a gente a largar tudo e seguir uma causa. A dele é a defesa da vida na Chapada – tanto da terra e da água quanto do homem que delas comunga com respeito. O Grupo Ambientalista de Palmeiras, que ele coordena, é considerado um dos anjos da guarda do parque nacional e uma das melhores brigadas de incêndio do país.

Conheci o Joás durante uma reportagem há sete anos. Sem medo de ser acusado de ser parcial com a fonte, ele se tornou uma das minhas grandes referências.

Pois bem, Joás e o GAP são finalistas do projeto Generosidade, da Editora Globo. Nos últimos meses, as revistas da editora publicaram histórias de vida de pessoas que estão transformando o mundo – entre elas a de Joás. Após uma seleção, dez delas foram escolhidas como finalistas e entregues à votação pública. A mais clicada, receberá recursos para desenvolver suas atividades.

Sem demérito das outras iniciativas, quero recomendar o voto para o guerreira da Chapada. Se com quase nada O GAP já fez uma pequena revolução, imagine então com recursos. Eles já imaginaram: “Com R$ 10 mil, compraríamos equipamentos de proteção e rádios, além de adaptar a caminhonete para o combate ao fogo. Investiríamos R$ 25 mil para ampliar a coleta seletiva do lixo para todo o município – hoje é restrita a um povoado. Usaríamos R$ 20 mil para a reforma do viveiro de mudas. Com outros R$ 25 mil, montaríamos a infra-estrutura para a preservação do Morro do Pai Inácio. Os R$ 20 mil restantes seriam usados para a compra de um palco portátil e de equipamentos para o registro das manifestações culturais da região”.

Matéria da Repórter Brasil -Os tuaregues da Chapada Diamantina

Matéria da Revista Época -O tuaregue do verde

Para votar, clique aqui.

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A fantástica idéia de Serra – parte I

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), assinou, na sexta (16), um anteprojeto que regulariza as propriedades rurais com mais de 500 hectares na região do Pontal do Paranapanema – Oeste do Estado. Para virar lei, ele precisa ser aprovado pela (governista) Assembléia Legislativa. O problema é que boa parte dessas terras são alvo de processos judiciais, sob a acusação de terem sido griladas por fazendeiros.

Traduzindo: para dar um basta aos conflitos agrários da região, o governo estadual optou por entregar, de uma vez por todas, as terras para possíveis grileiros.

Fantástico! Os iluminados formuladores de tal política merecem os parabéns! Por que não fizemos isso antes se era tão fácil? Dar a terra a quem a tomou e tem dinheiro para pagar pistoleiros e capangas. E se algum pé rapado reclamar, bala nele.

Mas a idéia é tão boa que, me pergunto: seria justo com o resto do país mantê-la restrita às fronteiras paulistas? Por que não fazer isso em todo o Brasil?

Dessa forma, o Ministério Público Federal não precisaria ter gasto seu tempo e dinheiro para retomar a terra grilada por Cecílio Rêgo de Almeida, dono da construtora CR Almeida. Ele se autodeclarou proprietário do equivalente a 5 milhões de campos de futebol no coração do Pará e pôs para correr indígenas, populações tradicionais e quem mais quisesse adentrar seu país (literalmente, porque isso é mais do que a Bélgica e a Holanda juntas). A Justiça Federal ordenou a desocupação da terra e a sua entrega ao real proprietário, ou seja, a União – vulgo, todos nós.

Cecílio deve estar pensando como seria melhor se a lei de São Paulo valesse também para o Pará – ou se o mandatário paulista também tivesse poder sobre aquelas bandas.

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A fantástica idéia de Serra – parte II

O MST reclamou do anteprojeto de Serra, como era de se esperar. O interessante é que a União Democrática Ruralista (UDR – sim, ela ainda existe) também torceu o nariz para a proposta.

O ruralistas vão sempre reclamar, não esperaria menos de uma categoria que ganha dezenas de bilhões de reais do governo federal e continua afirmando que são injustiçados. Mas o que (ainda) me espanta é que a mídia, ao tratar do tema com sua pretensa imparcialidade, acaba legitimando uma proposta sem pé nem cabeça como essa.

Por exemplo, ao dizer que a proposta desagrada ruralistas e sem-terras, mas sem analisar o seu conteúdo e possíveis desdobramentos, apenas ouvindo fontes, os veículos de comunicação que trataram do tema fazem parecer que o anteprojeto é ponderado, pois desagradaria dois grupos. O que não é verdade. Qualquer pessoa pode reclamar de uma ação mesmo que ela o beneficie, seja para tentar obter mais benefícios ou para manter aquele que acaba de conseguir.

Aliás, essa prática é muito utilizada por donos de mídia ao afirmarem que a prova de que seu jornal é imparcial é o fato dele ser criticado tanto pela direita quanto pela esquerda. Mas quando você analisa o teor dessas críticas, constata que as reclamações da direita são mais cosméticas e, na maioria das vezes, estão lá para marcar terreno, enquanto as da esquerda são mais graves e dizem respeito a informações erradas.

Não acho que isso seja só manipulação. Há uma carga grande de preguiça e ignorância por parte de colegas. No final, quanto menos questionamos a realidade, mais contribuímos para manter o status quo, ou seja, ajudamos a garantir a perpetuação da concentração de renda e da injustiça social.

Bem, mas de repente é isso mesmo que a minha categoria quer…

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Morreu Alencar. E o jornalismo ficou mais triste

Nesta terça (12), faleceu o grande repórter José Roberto de Alencar. Passei os últimos dias querendo escrever algo para este blog, para celebrar sua memória e apresentá-lo a quem não teve o prazer de ler seus textos. Bernardo Kucinski, com mais competência do que eu teria, fez isso e eu tomei a liberdade de trazê-lo para cá. Lembrar de Alencar é fundamental, ainda mais nesses tempos de jornalismo janota-burocrático em que vivemos.

Jornalismo, paixão e morte

Morreu José Roberto de Alencar. Azar de quem sobrou. O mundo sem ele ficou mais pobre, mais chato e burro. Dias antes havia morrido Murilo Felisberto. Dois grandes jornalistas. Com eles lá se foi mais um pouco do pouco que restava entre nós do jornalismo como paixão. Duvido que surjam no futuro próximo pessoas tão apaixonadas pelo jornalismo como eram José Roberto de Alencar, o “Zé Grandão”, e Murilo Felisberto.

Ambos veneravam o jornalismo, os grandes jornais e os grandes jornalistas. Viviam a profissão à moda antiga, “romântica”, como definem com desdém os moderninhos, com muito papo de botequim depois do fechamento, e também engajada, não politicamente engajada, simplesmente engajada. O jornalismo como um engajamento em valores humanos e estéticos, não meramente como uma forma de saber, ou um jeito de ganhar dinheiro. (para ler o restante, clique aqui)

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Com tanta terra vazia, violência é a miséria nos campos

Distribuir terra já não basta para garantir qualidade de vida aos trabalhadores rurais. Faz-se necessário uma nova reforma agrária, que mude o modelo econômico vigente – incapaz de garantir desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental e social. E o caminho da mudança passa, necessariamente, por um enfrentamento entre os atuais detentores do poder econômico e os trabalhadores.

As idéias acima foram algumas das principais defendidas durante o 5º Congresso Nacional do MST, que se encerra hoje em Brasília. Recomendo a leitura das reportagens de Maurício Hashizume, na Repórter Brasil, sobre o encontro.

Muitas pessoas detestam o movimento. Abominam a idéia de que a propriedade privada e o desenvolvimento econômico não podem ser valores absolutos, que acima deles está a dignidades das pessoas. Reclamam da violência das ocupação de terras – “um estupro à legalidade”, como dizem os seus críticos – através de uma legião de pés-descalços empunhando armas de destruição em massa, como enxadas, foices e facões.

Para reflexão, deixo o texto “Provocações”, de Luís Fernando Veríssimo. E desejo boa sorte a quem dormirá, mais esta noite, sob uma lona preta em algum lugar do interior do Brasil.

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano… Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

- Violência, não!

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Até os EUA reconhecem importância do veto à emenda 3

O Departamento de Estado norte-americano divulgou nesta terça (12) o seu relatório anual sobre a situação internacional do tráfico de pessoas. Em comparação ao do ano passado, o Brasil foi melhor avaliado, principalmente por seus esforços no combate ao trabalho escravo e ao tráfico de seres humanos para a exploração sexual.

Um das ações citadas no relatório foi o veto do presidente da República à emenda 3 – aquele projeto que retira poderes dos auditores fiscais de reconhecerem vínculos empregatícios, o que levaria à precarização das relações de trabalho. Essa proposta foi arduamente defendida pelo setor empresarial e combatida por sindicatos e movimentos sociais.

“Em março de 2007, o presidente Lula vetou uma lei aprovada pelo parlamento brasileiro que reduziria o poder de auditores fiscais do Ministério do Trabalho que determinam a responsabilidade do local de trabalho e impõem multas onde trabalho escravo seja encontrado”, diz a página 70 do relatório, traduzido da versão em inglês disponível para download.

Como me apontou a repórter Beatriz Camargo, os veículos que deram notícia sobre o relatório não citaram que essa lei era a emenda3 – que ficou famosa por conta dos protestos de trabalhadores a favor da manutenção do veto presidencial. Por desconhecimento e preguiça (os colegas deveriam ter feito a lição de casa) ou má-fé (haja visto que há empresas de comunicação fazendo lobby pela aprovação da lei).

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Pesquisa aponta que maioria quer Vale reestatizada

A coluna da Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, citou uma pesquisa do instituto GPP:

VALEBRÁS
A maioria dos brasileiros quer que o governo federal “retome” (nesses termos) a empresa Vale do Rio Doce, que foi privatizada no governo de Fernando Henrique Cardoso. O resultado, meio escondido entre várias outras perguntas do instituto GPP, está deixando deputados e senadores que tomaram conhecimento dos números de queixo caído: 50,3% são “a favor” da reestatização da empresa, contra 28,2% que são contra. No norte, onde a presença da Vale é mais forte, 62% querem a empresa “de volta”.

Não só onde ela é “mais forte”, mas onde ela causa mais impacto negativos às populações tradicionais e ao meio ambiente.

Dez anos após a sua privatização, ainda há ações populares tramitando na Justiça questionando a legalidade do leilão.

Vale lembrar que está previsto um plebiscito popular, para o início de setembro, organizado por movimentos sociais sobre a anulação do leilão de privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Ela não terá força de plebiscito oficial, mas apontará o desejo da sociedade sobre qual deveria ser o destino da ex-estatal, empresa privada que mais lucra no país.

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Cortadores de cana ameaçam greve geral. Finalmente!

A Folha de S. Paulo traz hoje uma interessante notícia do repórter Jorge Soufen Jr.: SP pode ter 1ª greve geral de cortadores de cana em 21 anos.

Segue um trecho:

“Entraves na negociação salarial com usineiros ameaçam levar 120 mil cortadores de cana do Estado, o equivalente a 70% do total, a iniciar uma greve geral. O alerta é da Feraesp (Federação dos Empregados Rurais do Estado de São Paulo).”

Já há trabalhadores da cana que estão de braços cruzados por melhores salários e condições de serviço em Américo Brasiliense, Araraquara e Sertãozinho. Há outras cortadores em Dois Córregos, Catanduva e Ibaté que estão em estado de greve. Os usineiros dizem que o movimento é pontual. Por enquanto.

A Feraesp quer um piso de R$ 1600,00 (hoje é R$ 450,00), com jornada de trabalho máxima de 30 horas semanais, mudanças na forma de contar a cana cortada por cada trabalhador, além da melhoria das condições de trabalho a eles oferecidas.

A reivindicação é mais do que justa e vem em boa hora. Lula roda o mundo vendendo o etanol como alternativa ambientalmente sustentável ao petróleo. Mas não diz que o crescimento das lavouras de matérias-primas para os biocombustíveis muitas vezes está baseado na exploração intensa e desumana do trabalhador. Chama até os usineiros de “heróis”.

As usinas dizem que operam dentro da lei e que há exagero. Sobre os 19 cortadores de cana mortos de exaustão no interior de São Paulo nos últimos três anos, afirmam que não há resultados médicos conclusivos sobre o tema.

Como se cortar 16 toneladas de cana por dia fosse bom para saúde.

Já escrevi diversos posts sobre isso nos últimos meses, então não vou me repetir. Mas vem em boa hora essa possibilidade de greve geral. Vendo essa pujança dos usineiros e a miséria de sua condição, os trabalhadores da cana estão novamente se conscientizando e se organizando. O que não acontecia há anos.

A mais famosa greve foi a que começou em Guariba, interior de São Paulo, realizada em 1984, e que repercutiu por todo o país, inspirando até novela da TV Globo. Afinal de contas, era um absurdo a insubordinação desses trabalhadores, que depredaram o patrimônio público e privado, só porque eram tratados com menos respeito que a cana. Sobre a revolta de Guariba, sugiro a leitura do bom texto de Carlos Juliano Barros.

Se a greve sair, será um bom sinal. De que o avanço do agronegócio que coloca o dinheiro antes da vida dos trabalhadores não se dará de forma tão fácil assim como alguns empresários e parte do governo esperava. Não sem resistência.

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