Uma nova tentativa do Senado de tirar direitos trabalhistas
De Brasília - De forma disfarçada e encoberta pelos quiprocós relativos à não-cassação do presidente do Senado Renan Calheiros está em curso uma nova tentativa para deixar os direitos dos trabalhadores mais vulneráveis.
Em um país onde milhões de pessoas são tratadas como ferramentas descartáveis, a fiscalização do trabalho desempenha um papel fundamental. Ela não é perfeita, sabemos disso, mas sem esse aparato de vigilância, as relações de trabalho seriam bem piores do que realmente são. A desregulamentação não levaria à auto-regulação pela sociedade, como profetizam alguns economistas (sic), mas sim ao caos total. Se com regras já temos trabalho escravo, infantil, degradante, imagine sem.
Fazendeiros que se sentem injustiçados por terem que cumprir leis há anos pressionam para tirar poderes dessa fiscalização ou para (desculpem o palavrão) descontratualizar essas relações. Em suma, transformar aqueles direitos mínimos garantidos ao trabalhador em pó. Seria mais fácil, dessa forma, concorrer aqui dentro e lá fora sem reduzir sua margem de lucro. Que em nosso país é mais sagrado que todos os santos e orixás.
A última tentativa nesse sentido havia sido a de aprovar uma lei (no caso a emenda 3 ao projeto que criou a Super Receita) que previa que os auditores fiscais não teriam poder para reconhecer vínculos empregatícios no caso de contratos de pessoas jurídicas, ficando esse dever a cargo da Justiça. Na prática, isso tirava os poderes da fiscalização, haja visto que tem muito fazendeiro picareta que monta uma empresa de fachada para o seu contratador de mão-de-obra empregar safristas. Dessa forma, ele se livra dos direitos trabalhistas que também nunca serão pagos pelo contratador – boa parte das vezes tão pobre quanto os peões. Para entender melhor essa novela, sugiro a leitura do especial da Repórter Brasil.
O Congresso aprovou, Lula vetou e os trabalhadores foram às ruas para apoiar veto, o que pesou no Congresso. Enquanto o Senado se divertia com o caso Renan, a tentativa de derrubar o veto ficou parada.
Mas há empresários e seus representantes políticos que não se dão por satisfeitos. Agora, estão usando a libertação de mais de mil pessoas na lavoura de cana-de-açúcar da fazenda Pagrisa, no Pará, para levantar suspeitas sobre o grupo móvel de fiscalização. Dizem que o Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e a Polícia Federal mentiram sobre a situação dos trabalhadores de lá e, desde então, tem feito de tudo para desmoralizar a operação. Os senadores que defendem a fazenda pressionaram o ministro do Trabalho, xingaram a responsável nacional pela fiscalização, armaram audiências para massacrar os fiscais e até uma visita à fazenda. Esse tour está marcado para a semana que vem e levará uma comissão de senadores para conhecer a Pagrisa.
Para que? Mostrar as condições de trabalho? Com um aviso de semanas de antecedência até as prisões norte-americanas de Abu Ghraib, no Iraque, e Guantánamo, em Cuba, seriam arrumadas para parecer uma colônia de férias.
Na verdade, não é a defesa da Pagrisa que está por trás de toda essa movimentação. É claro que a suspensão de compra de seu etanol por grandes distribuidoras, como Petrobras e Ipiranga, signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, é um baque contra o grupo econômico que controla a empresa. E quem tem dinheiro consegue apoio político. Mas é mais provável que o Senado e as entidades patronais estejam usando o caso como justificativa para tentar aprovar medidas que restrinjam a fiscalização do trabalho. Novamente.
Essa visita – marcada realizada hoje mas foi adiada devido à sessão de ontem de não-cassação do presidente do Senado – tem cara de construção de um fato político. Os sendores vão encontrar tuo em boas condições e questionar se tudo não foi um exageroou má fé. Esse factóide seria desdobrado na implantação de medidas que restrinjam a fiscalização rural ou usado para requentar o que já está pronto, ou seja, empurrando o veto presidencial à emenda 3 para a pauta de votações do Congresso a fim de tentar derrubá-lo.
Vivemos tempos difíceis. O aumento do interesse mundial por biocombustíveis e a grande demanda por outras commodities, como carne bovina, faz com que o governo e parte do empresariado e até dos trabalhadores pense tão somente nos ganhos econômicos que isso vai trazer. O resultado disso é que criticar os impactos sociais, ambientais, fundiários e trabalhistas da cana hoje é ser antipatriótico. Mas meu país é a classe trabalhadora, não a garapa.
O problema é: crescer para quem ou para que se isso não vai significar melhoria na qualidade de vida da população mais pobre? Que, por outro lado, será quem vai tornar tudo isso possível, sacrificando-se em canaviais e plantações de soja para tornar o sonho da elite econômica e política realidade.
Os trabalhadores devem ficar atentos para que esse caso não vire um cavalo de tróia, trazendo para dentro do campo mais problemas que ele já tem.
