Blog do Sakamoto

Juízes põem em prática em casa o que defendem nos tribunais?

Esse judiciário me mata.

Um juiz de Sete Lagoas (MG) rejeitou uma série de pedidos de medidas, baseadas na Lei Maria da Penha, contra homens que agrediram e ameaçaram suas parceiras. Sancionada em 2006, a lei torna mais rigorosa a punição da violência contra a mulher.

A Folha de S. Paulo, em reportagem de ontem, pinçou algumas justificativas do juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues, presentes em uma das suas sentenças – que, agora, podem ser revistas no Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

- “Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher, todos nós sabemos, mas também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem (…) O mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem!”

- “Para não se ver eventualmente envolvido nas armadilhas dessa lei absurda, o homem terá de se manter tolo, mole, no sentido de se ver na contingência de ter de ceder facilmente às pressões.”

- “A vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo, como inclusive já está: desfacelada, os filhos sem regras, porque sem pais; o homem subjugado.”

Esse caso bisonho vem a tona dois meses depois do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, de São Paulo, ter destilado homofobia em um caso que envolvia o jogador são-paulino Richarlyson.

Só para refrescar a memória, Manoel disse no processo:

- “Quem se recorda da Copa do Mundo de 1970, quem viu o escrete de ouro jogando (…) jamais conceberia um ídolo ser homossexual.”

- “Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme seu time e inicie uma Federação”.

- “Cada um na sua área, cada macaco no seu galho, cada galo em seu terreiro, cada rei em seu baralho. É assim que penso.”

(O melhor de tudo são os argumentos riquíssimos usados por ambos. É de espantar a capacidade de articulação e conhecimento.)

Repito o que falei há dois meses: um juiz (que deveria garantir que os direitos sejam válidos a todos e proteger os cidadãos ameaçados) vem com uma imbecilidade dessas. Age, dessa forma, não para fazer valer o Estado de Direito, mas sim para incentivar a violênca, empurrando a sociedade à barbárie.

O pior não é encontrar peças jurídicas com um grau de preconceito, estupidez, machismo e ignorância como essas. Se elas fossem apenas distorções, vá lá, uma instância superiora célere, competente e honesta seria capaz de revertê-las e um conselho de justiça aplicaria um corretivo no magistrado em questão. O problema é saber que, infelizmente, essas análises rasas refletem um naco da sociedade brasileira formado por ricos e pobres, letrados ou não.

(Os referidos juízes passaram pelos duros processos de seleção para se tornarem magistrados. Portanto, não são portas burras. Ou seja, não é uma questão de educação pura e simples, como queria fazer crer um livro lançado recentemente. É consciência. E isso não se aprende na escola, nem é reserva moral passada de pai para filho nas famílias ricas. Mas sim na vivência comum na sociedade, na tentativa do conhecimento do outro, na busca por tolerar as diferenças.)

De certa forma, os Três Poderes refletem a sociedade em que estão inseridos. Tristemente, esses dois juízes representam o pensamento de uma parcela da população. Fizeram uma decisão judicial – que tem na sua origem o mesmo preconceito das piadas maldosas contra gays ou dos pequenos machismos do dia-a-dia.

Da mesma forma, o toma-lá-dá-cá obtido nos conchavos no Congresso Nacional é parente direto daquele cafezinho entregue ao guarda para evitar uma multa. O que muda é o tamanho, não a natureza.

Pesquisas apontam que a violência doméstica não é monopólio de determinada classe social e nível de escolaridade. Homofobia e machismo são problemas que ocorrem em toda a sociedade. Ok, coloquemos a culpa no processo de formação do Brasil, na herança do patriarcalismo português, nas imposições religiosas, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil atestar que somos frutos de algo, determinados pelo passado, do que tentar romper com uma inércia que mantém cidadãos de primeira classe (homens, ricos, brancos, heterossexuais) e segunda classe (mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais etc.). Tem sido uma luta inglória, mas necessária. Que inclui uma profunda reflexão sobre nossos próprios comportamentos e a exposição daqueles que, em cargos públicos, rasgam os preceitos básicos dos direitos fundamentais.

Torço para que o juiz Edilson não exerça em casa o que ele pronuncia no ofício.

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Comentários

6 Responses to “Juízes põem em prática em casa o que defendem nos tribunais?”

  1. Romeu disse:

    Não duvido nada de gente assim…

  2. Thiago Rodrigues disse:

    Concordo plenamente com você Sakamoto. Os poderes que representam o Estado deveriam fazer cumprir a igualdade de direitos e o bom convívio entre todos. Entretanto, o que se vê, é um Estado influenciado pelas mazelas intrínsecas na nossa sociedade e, ainda por cima, citam um passado obscuro, que já deveria ter sido ultrapassado a séculos. Educação amigos… educação é o que falta nesse país. Não que em países altamente “intelectualizados”, como os europeus, não existam preconceitos e diferenças. Entretanto, lá ( e não aqui), uma parte da população ainda tem a capacidade de se enojar com atos como esse e, principalmente, ainda possuem uma característa inerte em nós brasileiros: a capacidade de mudança. A verdade é que estamos presos a um passado medíocre e insolente e não temos se quer, a vontade de sair dele.

  3. Rogério Tomaz Jr. disse:

    Muito bom, Léo! O judiciário é o poder mais conservador do Brasil e a esquerda nunca dedicou a ele a atenção que merece na disputa política…

  4. Alex74 disse:

    Vai ter ferrar! O juiz tá certo. O mundo é dos homens. As mulheres têm que ficar quietas. Tô de saco cheio de discurso de igualdade. Aqui ;é assim: o mais forte vence.

  5. Thiago Rodrigues disse:

    E ainda temos a capacidade de falar mal de políticos corruptos, policiais violentos, juízes que não fazem cumprir a justiça, deputados salafrários…. Isso tudo nada mais é do que um nítido reflexo da nossa própria sociedade. Não é só questão de igualdade de direitos, mas também uma questão humana de um ser presente no sec. 21. “cada estado, tem o governo que merece”. Foi assim com os alemães e o nazismo e vai continuar sendo assim conosco durante muitos e muitos anos. Solução??? Fugir pra longe, para que nossos filhos não tenham a possibilidade de ler comentários idiotas como esse abaixo.

  6. Tiyoko disse:

    Realmente é muito triste saber que existem pessoas com tamanho poder nas mãos que preferem se encarcerar em falsa felicidade, em falsa amizade, em falsas verdades.

    Verdade que a mulher é a parte fraca, que enfraquece e que faz com que o mundo seja a lastimável casa que estamos destruindo.
    Verdade também, na minha opinião, que é fácil lançar aos outros a culpa, também faço e já fiz muito disso.

    Arrepender-se e mudar, transformar o mundo é coisa pra gente forte. E gente não se divide em “macho” ou “fêmea” e sim em gente ou não-gente.
    Chamar algum não-gente de animal seria uma ofensa… ao animal. Tantos animais e plantas são não só sacrificados à toa como também por motivos tristemente centrados nesta palavra tão adorada pela mídia sensacionalista e por nós, vorazes consumistas: EU!!! EU!!!! EU!!!

    Não acredito que o mundo vá mudar de uma hora para outra mas acredito em um Brasil forte e rico, quando os 3% que riem às custas dos outros 97% se virem frente-a-frente com a verdadeira justiça, que emana de cada um de nós.

    Assim, talvez cada criança seja uma saída ou o fundo do poço, que exemplos daremos a ela? Que é bom maltratar e ser falsamente feliz? Ou que se é possível viver com o suficiente e ser verdadeiramente feliz?

    Diz, alguém que é rico, com terras, bois, homens e almas a seus pés…. você é verdadeiramente feliz??