Blog do Sakamoto

Cozinhando com Sakamoto: Timor Leste

(Eu tô péssimo de títulos ultimamente!)

De todas as modalidades de turismo, uma das que eu mais gosto é a gastronômica, pois acho que uma das melhores formas de conhecer a cultura de uma região ou país é pela boca. Experimentar a mistura de sabores, odores e texturas de determinado povo ou comunidade é entender como, ao longo dos anos, seus costumes e práticas foram se moldando e sob quais influências.

Bem, a idéia não é fazer uma análise antropológica e sociológica da alimentação, mas transmitir algumas receitas populares boas (ou seja, sem ovas, fungos ou especiarias caras) que fui ouvindo e experimentando ao longo das minhas viagens.

Vou começar com uma do Timor Leste, uma pequena metade de ilha, ex-colônia portuguesa, entre a Indonésia e a Austrália. Estive lá em 1998 para fazer uma reportagem sobre a luta do povo maubere contra a invasão indonésia – um ano antes de um plebiscito que levou o país à independência.

Os altos Vales de Maubessi,onde há produção de café. As fotos são minhas, com exceção da que eu apareço – é claro

No dia 30 de agosto de 1999, 78,5% da população do Timor Leste votou a favor de sua autodeterminação e contra a integração definitiva com a Indonésia – o auge de 24 anos de resistência à dominação e guerra pela independência.

A ocupação, mantida à força pelo governo do general Suharto, causou o maior genocídio do século 20, com 44% de timorenses mortos direta ou indiretamente pelo conflito – tendo como base o número de habitantes em 1975.

Guerrilheiro pró-independência timorense durante missão de reconhecimento

Uma nova onda de violência tomou conta do país próximo à data do plebiscito, quando grupos paramilitares armados pela Indonésia espalharam o terror entre os timorenses. Enfim, o país foi desocupado, eleições foram realizadas e, apesar de trancos e barrancos, há uma estabilização em curso. Hoje, Timor continua um país pobre, mas livre para tentar construir um futuro diferente do que servir a um outro país, que explorava seus recursos naturais e matava sua gente.

Eu, bem mais magro, hospedado com a guerrilha timorense na selva, tomando partido na história

Maria Olandina Isabel Caeiro Alves, viúva e mãe, era deputada na assembléia provincial de Timor Leste quando estive na ilha. Torturada e presa algumas vezes, possuía dois restaurantes de comida portuguesa em Dili. Em suas mesas, desenrolaram-se várias reuniões da resistência timorense na clandestinidade.

Os portugueses quando colonizavam uma terra deixavam casais de cabras e bodes para que se procriassem e servissem de comida aos futuros moradores do local. Quem visita a ilha de Santa Bárbara, no Arquipélago de Abrolhos, vê o que significa uma infestação de caprinos. No Timor, animais andavam soltos de uma lado para o outro nas ruas e estradas. Abaixo, está a receita do Tuquir, prato típico do Timor Leste feita a base de carne de cabrito, como é feito por Olandina, em seu Restaurante Massau.

Tuquir

Ingredientes (quando perguntei a quantidade, ela disse para colocar o suficiente)

Tripas de um cabrito ou vitelo
Fígado e coração
Costelas
Carne de um pernil de cabrito ou vitelo
2 cebolas grandes
2 dentes de alho
1,5 xícara de sopa de azeite
1 colher de chá de açafrão em pó
2 colheres de sopa de molho de tamarindo ou 2 colheres de chá de vinagre
Sal, pimenta e gengibre a gosto
Água suficiente para cozinhar a carne

Modo de preparo

Nas palavras dela: “As cebolas são cortadas às rodelas e os dentes de alho são picados. Junta-se as tripas já limpas e bem lavadas, o fígado, o coração, as costelas e a carne, cortados tudo em pedaços e misturados, não esquecendo o resto dos temperos e o azeite ou óleo. Mistura-se tudo muito bem já na panela onde vai ser cozinhado. E, por fim, junta-se a água e leva-se ao fogo. Deixe cozinhar em fogo brando. Quando a carne estiver já fofa, retire e sirva com arroz branco e um bom vinho”.

Olandina cozinhando em seu restaurante

E de preferência que o prato seja feito em um bom fogão à lenha. Assim como o dos restaurantes de Olandina, quase todo o Timor usa a lenha para cozinhar. Na beira das estradas você encontra feixes de madeira à venda e é muito comum ver garotos ou mulheres cortando lenha nas matas e carregando na cabeça por quilômetros até chegar em casa.

Herman Soares tinha cortado lenha para levar para casa naquele 16 de junho de 1998. Tudo pronto e amarrado, pôs-se a caminhar. De repente, soldados indonésio requisitaram o seu feixe, ordenando que carregasse a madeira para um acampamento do exército. Herman negou. Hoje, há um monumento na estrada entre Dili e Manatuto que indica o local onde isso aconteceu. Uma pequena inscrição explica o resto da história aos viajantes que por ali passam: “Mati di tembak abri”. Morto pelo exército indonésio. Timor é uma nação jovem de um povo antigo. Torçamos para que cenas como essa não sejam copiadas nunca mais.

Sei que fica do outro lado do mundo, mas se passarem por lá, visitem Timor. É um dos lugares mais bonitos que eu já vi, com belas praias e montanhas e gente hospitaleira. Vale a pena para fugir do mais do mesmo do turismo engaiolado dos pacotes.

Barco tradicional de pesca na costa de Dili, a capital

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Da capital do Império – Parte 3

Washington - O inglês é uma língua mais sintética que o português. Ou seja, você consegue passar a mesma idéia com menos palavras. Em Washington, às vezes nem palavras são necessárias para sintetizar. Sabe aquele ditado de que uma imagem vale por mil palavras? Visitei o Departamento de Estado e o Departamento de Trabalho (equivalente aos ministérios de Relações Exteriores e do Trabalho e Emprego no Brasil) para algumas reuniões. Na entrada deste último, há duas fotos gigantes do presidente e do vice-presidente na parede, meio que saudando os visitantes.

Bush Jr. está com a cara de Bush Jr., ou seja, de nada – lembrando como sempre Alfred E. Neumann, mascote das revistas Mad. Não parece que está pensando em muita coisa – talvez em um pretzel, como aquele com o qual ele se engasgou tempos atrás. Do seu lado, Dick Cheney, o vice, sobrancelha levantada, aquele olhar safado de estar fazendo alguma coisa errada e – ao contrário do supremo mandatário – com o jeito de que está pensando em algo que envolve dinheiro e poder. Em duas fotos, o resumo do atual mandato: um presidente fraco, mas que representa e é sustentado por raposas ultraconservadoras da política e por grupos econômicos ligados ao petróleo e à indústria da guerra.

(Não pude tirar a foto das fotos por questões de segurança…)

A campanha já estás nas ruas, com os nomes dos democratas Barack Obama e Hillary Clinton rodando na mídia, para bem ou para mal. Há adesivos de Cheney’08 em parachoques de automóveis utilitários SUVs e circulação do nome do ex-prefeito republicano de Nova Iorque, Rudolph Giuliani. Mas, em menor número, por exemplo, que as camisetas sendo vendidas em lojinhas com os dizeres: “Amo meu país e não tenho culpa por esse governo” ou “20.01.09 – Bush’s Last Day”. Há chaveiros que trazem um mostrador com a contagem regressiva para o prazo de validade do atual governo sendo vendidos em banquinhas.

Comprei um adesivo com a idéia da camiseta. Taí.

Peguei uma van com um cara que estava indo morar em Las Vegas para trabalhar na campanha de Hillary. Disse que a eleição seria decidida nas primárias (quando os partidos democrata e republicano escolhem seus candidatos) e que se os democratas perdessem com esse governo que está aí, estariam perdendo para eles mesmos. Considerando que o índice de popularidade de Bush anda baixo, por questões econômicas internas e dos atoleiros da invasão do Iraque e do Afeganistão, vai ser difícil ele eleger um sucessor.

Nas ruas da capital, tomada por um governo republicano, há evidências disso. Encontrei em um calçada uma caixa transparente gigante, com centenas de sapatinhos, cada qual com uma etiqueta com o nome de uma criança que morreu devido à guerra no Iraque.

A iniciativa é da ONG Code Pink, fundada por mulheres para lutar por paz e justiça social e pelo fim da guerra. Elas reivindicam aumento de recursos para saúde e educação, o fechamento do campo de concentração norte-americano de Guantánamo, a ajuda a Darfur, o fim da utilização de combustíveis fósseis. Exigem também que o presidente e seu vice sofram um processo de impeachment.

Passo o link do site da ONG (em inglês). Dêem uma olhada, é bem interessante.

Uma das conseqüências da “guerra” é o reforço de segurança nos prédios do executivo federal por aqui. Enquanto no Congresso você pode entrar e ir até a sala do seu representante para abraçá-lo ou criticá-lo, nos ministérios o negócio é diferente. Identidades, hora marcada com alguém, detectores, perguntas, esperas – enfim, o medo.

Só não sei se é medo das hordas bárbaras de fora ou da reação do próprio povo americano.

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Da capital do Império – Parte 2

Washington -O dia foi de maratona por aqui. Conversas com organizações sociais, reuniões com políticos, encontros com entidades internacionais, enfim, trabalho de articulação. No final, ganhei uma bolha no pé. A minha sorte é que eu havia comprado no Brasil um sapato social com air bag embutido (ok, a idéia é brega), mas que foi a salvação da lavoura.

Para quem passou o dia inteiro dentro do Congresso norte-americano, duas coisas saltam os olhos: primeiro é o intrincado labirinto que é aquilo ali. Quando você assiste a um filme de um grupo armado tentando tomar o prédio do Capitólio (fato que é sempre impedido na última hora por algum herói de plantão, com coração bom mas sérios problemas psicológicos decorrentes de alguma guerra bizarra em que o país se enfiou à toa) não imagina a quantidade de corredores, túneis, acessos, elevadores unindo os vários prédios do complexo que forma o senado e a casa dos representantes (a Câmara dos Deputados daqui). Conheço os mesmos buracos de minhoca no Congresso em Brasília e posso dizer que se perder aqui é mais fácil.

(Tá bom, admito, a gente se perdeu e chegou atrasado para uma reunião.)

Segundo, a grande quantidade de jovens que trabalham por aqui. Talvez os mais velhos estivessem acompanhando os congressistas em algum lugar, de férias ou na sauna, mas o que vi foi uma profusão de estagiários e povo na casa dos vinte e pouca coisa, provavelmente recém-formados. A maioria assessores e conselheiros que ajudam na formulação de leis e políticas públicas – ou seja, não é o cara que vai tirar o xerox, trazer os donuts e rasgar papel.

Nesta terça, demos um depoimento em uma audiência sobre tráfico de seres humanos no Congresso para falar do trabalho escravo no Brasil (eu fui convidado para um evento similar em Berlim, no ano passado, mas – é claro – aqui os cuidados acabam sendo bem maiores devido a possíveis interferências norte-americanas nos negócios alheios).

A audiência foi um informe do que é o trabalho escravo no Brasil e o que vem sendo feito para combatê-lo. É claro que as estrelas foram o carvão vegetal (matéria-prima para a fabricação de ferro-gusa e, portanto, do aço) e a cana-de-açúcar (etanol, açúcar, enertgia elétrica…) Não houve ataques, foi um encontro bastante tranqüilo.

Entre 25 de novembro de 1º de dezembro, uma comissão de 14 congressistas, democratas e republicanos, irá visitar o Brasil. No roteiro, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus. Há gente que deve vir para dicutir política, mas tenho certeza que uma parte se interessou para pegar carona para o verão brasileiro… Na pauta, discussões sobre cooperação econômica, comércio, meio ambiente e, é claro, biocombustíveis e trabalho escravo. O coordenador é o democrata Eliot Engel, presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental da Comissão de Relações Internacionais da Câmara. Ele, que havia denunciado no ano passado o trabalho escravo no ferro-gusa exportado pelo Brasil (que para nós, não é novidade), estava presente na audiência. Elogiou os esforços brasileiros (“lista suja”, Instituto Carvão Cidadão, sociedade civil…), reclamou do corte no repasse a projetos assistenciais dos EUA ao Brasil e disse que mais precisa ser feito.

Em muito a discussão causada pelo aço aqui se deve a uma reportagem da revista Bloomberg, divulgada no ano passado, sobre o trabalho escravo na cadeia produtiva do ferro-gusa brasileiro, que se estende até os EUA. Agora, na edição de novembro, a revista soltou outra matéria que deve causar arrepios nos produtores brasileiros de cana, sobre os problemas ambientais e trabalhistas do setor. A matéria é bem feita e retrata bem o quadro de degradação a que está submetido o bóia-fria.

No final do dia, me deu uma preguiiiiça (sem parafrasear Macunaíma). Não com o povo daqui, necessariamente, mas com alguns produtores rurais brasileiros. OK, mais indignação do que o costumeiro. Nosso trabalho é tentar ajudar os trabalhadores a ter uma vida mais digna. Só que as pessoas que atuam no combate ao trabalho escravo acabam tendo que agir para evitar que o tema seja utilizado pelo lado sombrio da força. Ou seja, acabamos atuando para proteger a economia brasileira de olhos mal-intencionados. Explico.

Que temos trabalho escravo isso é público e notório. O fato foi reconhecido pelo presidente Fernando Henrique, em 1995, e reafirmado por Lula em 2003, que criaram ou aprimoraram sistemas para combater essa desgraça. Mas há associações de produtores rurais brasileiros que quando visitam outros países afinam o discurso para dizer que trabalho escravo é uma invenção da sociedade civil e de setores esquerdistas do governo. E que tudo vai às mil maravilhas nos seus setores.

Será que eles acham realmente que compradores de outros países não têm acesso à informação? Além dos documentos do governo brasileiro mostrando que o problema existe e está sendo combatido, as libertações de trabalhadores de escravos são documentadas por jornais, TVs, revistas, agências de notícias do Brasil e do mundo inteiro há anos.

É muita cara de pau dizer que não há nada! Será que eles acham realmente que alguém acredita nisso? Aí, o problema sobra na mão da sociedade civil. Empresas e organizações (brasileiras e estrangeiras) nos dizem que se os produtores rurais mentem tão descaradamente assim é porque o problema deve estar em todo setor. Aí, lá vamos nós dizer que não é bem assim, que trabalho escravo é um problema pequeno comparado com a economia brasileira, que ele é localizado e está sendo combatido, que erguer barreiras comerciais contra o nosso país é estupidez porque ajudaria a aumentar a pobreza em várias áreas, que a solução passa pelo apoio internacional à erradicação da escravidão por aqui, que o Brasil não pode ser penalizado por sua transparência. Nós mostramos, a China e a Índia normalmente não.

Repetimos exaustivamente que há instrumentos de restrição comercial produzidos pelo governo brasileiro e pela sociedade civil que garantem que o comércio fique livre de trabalho escravo, como a “lista suja” (cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego que relaciona os empregadores que usaram esse tipo de exploração). Além do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne mais de 100 empresas, como Petrobras, Coteminas, Walmart que cortaram fazendas com trabalho escravo de seus fornecedores. E que, por isso, qualquer tentativa dos EUA ou da Europa de fazer uma lista de produtos proibidos ou tentar fazer eles mesmos fiscalizações, além de criar um problema internacional, será inútil. Nunca terão o alcance que o governo e a sociedade têm para atacar esse problema e vão acabar fazendo algo parcial e, portanto, danoso. Ou que poderia ser usado para o protecionismo barato sob a bandeira da justificativa social.

Percebem uma coisa? Deveríamos gastar o nosso tempo aqui dialogando com eles em outro nível, como formas de apoio multilateral, intercâmbio técnico, apoio a projetos, engajamento das empresas daqui para serem responsáveis no Brasil (tá cheio de multinacional que na própria casa tem um comportamento e na do vizinho fazem e não dão descarga). Mas temos que dividir o tempo e ficar resolvendo problemas criados pelos produtores rurais que querem vender uma imagem de conto de fadas.

Fiquei sabendo de um evento na Alemanha para “desmistificar” as mentiras contadas sobre a carne brasileira. Fizeram até um churrascão grátis ao ar livre. Claro! Isso é genial! A prova de não há escravos na carne (que representa mais da metade dos casos de trabalho escravo no Brasil) é que ela é suculenta. Cada uma…

Pô, custa chegar aqui fora e falar: “há trabalho escravo, infantil e superexploração, como também no seu país (há trabalho escravo nos EUA, na Europa, e em dezenas de países do centro ou da periferia). Mas no Brasil, esses problemas vêm sendo combatidos com efetividades e transparência superior aos países desenvolvidos”. O nível dos assessores do pessoal da agricultura no Brasil vem se mostrando bem baixo.

Mas uma coisa que não fazemos é defender fazendeiro sacana. Para esses, sugerimos, dentro e fora no Brasil, a bancarrota. Ou melhor dizendo, o confisco das terras em que trabalho escravo seja encontrado – projeto que está tramitando há 12 anos no Congresso brasileiro sem sinais de que será aprovado.

Desculpem o texto árido e nervoso. Ia comentar algumas outras coisas de leis e políticas, mas deixo para outro texto.

Como o frio deu uma baixada, vou lá fora dar comida aos esquilos para desestressar.

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Da capital do Império – Parte 1

Washington - OK, o título não é inteligente ou criativo. Muito menos inédito – acho que já vi alguma matéria ou artigo com essa alcunha. Mas mesmo sendo um lugar comum, tem seu charme, por isso resolvi utilizá-lo, pois parece que a viagem fica mais importante…

Não esperem algo mais elaborado como foi no Paquistão. Estou aqui só de passagem, por assim dizer – quatro dias de estadia (bate e volta de luxo). Eu e Xavier Plassat, da Comissão Pastoral da Terra e velho companheiro de viagens, viemos dar um depoimento sobre o trabalho escravo no Brasil e como o país está combatendo essa praga. Falo disso amanhã quando o evento e as reuniões correlatas acontecerem.

Aliás, falando em Paquistão, que loucura aquilo lá no Sul da Ásia. No quesito segurança, eu tive sorte. Saí antes do atentado contra a comitiva da ex-primeira ministra Benazir Bhutto (se eu estivesse ainda por lá, ia querer ver de perto o retorno dela do exílio e – cabum! – seria alvo de bomba na certa) e antes do ditador Musharraf decretar estado de emergência e sacudir a já remexida república islâmica. Ou seja, no quesito jornalismo, eu me lasquei legal. Seriam grandes histórias a serem contadas. E o troféu de timing errado vai para…

E a cara de terrorista não muda, vou ter que fazer uma plástica se quiser viajar bem. Em Londres, eu havia sido barrado na imigração. Dessa vez, fui suspeito no meu próprio país! Após algumas perguntas e respostas na fila do check in da United Airlines uma moça disse para eu acompanhá-la que minha mala seria revistada. É aleatório, explicou. A cada 20 pessoas uma é levada para a salinha.

(O divertido é que o japonês que estava logo atrás na fila também foi “sorteado” para ir à sala. Um senhor branco e bem vestido não. Eu adoro essa aleatoriedade seletiva! Até porque, como sabemos, homens brancos não fazem bombas.)

Washington é uma capital planejada, mas é mais convidativa para o uso do espaço público que Brasília. Aqui o eixo principal, que vai dar no Congresso, é cercado de museus e galerias de arte com entrada gratuita (como só tínhamos uma tarde livre e nada na carteira foi ótimo porque pudemos dar uma espiada em vários). O povo se apropria desse espaço, traz os filhos, lê jornais e namoram nos banquinhos, enfim. Bem diferente da esplanada dos ministérios que, com seu gramadão sem árvores e prédios administrativos, é um grande monumento a céu aberto. A função de cada cidade ganha um contorno mais claro nessas horas. E viva Lúcio Costa!

Em compensação, a maior parte dos edifícios é austera, dura, uma arquitetura burocrática. A altura é baixa, pois as construções devem ser menores que a altura do Capitólio, o prédio do Congresso.

Passei na frente da Casa Branca só para poder transmitir uns pensamentos negativos que estavam em gestação há tempos. Esperava encontrar alguém protestando contra a invasão do Iraque ou a guerra do Afeganistão. Ou mesmo um paquistanês revoltado com os EUA por ajudarem a tornar a vida política do seu país um absurdo com sua guerra ao terror (os jornais daqui só falam nas burradas que vêm sendo feitas pelo aliado Musharraf). Tem tanto motivo que a gente até esquece. Ao invés disso, chegando lá, me deu um mal-estar de ver um grupo de estudantes europeus freneticamente esgueirando-se pelas grades para tentar enxergar melhor a sede do poder executivo. De repente, ver o supremo mandatário sair e dar um tchauzinho. Fiquei constrangido por eles. Se esses são os netos de maio de 1968, os pais fizeram um trabalho ruim.

O poder é sedutor, mas discernimento ainda é importante – ainda mais nesses tempos obscuros. Se ainda fosse o cidadão médio americano, vá lá (aliás, uma cutucada: uma pesquisa apontou que um número representantivo dos jovens daqui acha que os EUA lutaram ao lado da Alemanha na Segunda Guerra. Eixo Hitler-Roosevelt – hehe).

Bem, amanhã eu escrevo mais, já estou de olhos pregados. Mas vou comer uma rosquinha e tomar uma coca antes de dormir.

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Cemitério desmente que enterre pessoas de pé

Só porque hoje é feriado, vou pegar mais leve.

Os trabalhadores rurais da região do Bico do Papagaio, no Norte do Tocantins, enfrentam muitas dificuldades para ter um pedacinho de terra em comparação com o mundaréu de cercas dos latifundiários de lá. Muitos deles conseguem isso só quando passam desta para a outra vida e recebem a parte que lhes cabe nesse latifúndio – como diria João Cabral de Melo Neto.

Agora, correm boatos por lá de que querem mexer no santo direito ao cadáver possuir uma cova dois por um. Um amigo de Araguaína, na região do Bico, me enviou hoje, dia de Finados, o seguinte folheto que estava sendo distribuído na porta do cemitério.

Talvez os boatos tenham surgido devido ao preço em conta do jazigo diante do que é costumeiro. Afinal de contas, quando a esmola é muita, o santo desconfia.

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Seguranças de fazendeiros agridem comunidade guarani no MS

Do Conselho Indigenista Missionário:

Na última semana, duas senhoras do povo guarani foram violentadas por pessoas identificadas como seguranças de uma fazenda que invade a terra Ñanderu Marangatu, próximo ao município de Antônio João (MS). Desde 2005, quando o Supremo Tribunal Federal os efeitos da homologação da terra e os guarani foram despejados, a tensão entre indígenas e seguranças é constante.

Após seis meses vivendo na estrada à beira da terra, as famílias Guarani voltaram a viver em cerca de 100 hectares da propriedade, em agosto de 2005, para que a estrada fosse asfaltada. O fazendeiro concordou com o retorno, mas mantém um grande número de seguranças vigiando o restante da fazenda.

Segundo Léia Aquino, liderança guarani, as senhoras violentadas estavam colhendo lenha na área onde as famílias estão vivendo, quando foram atacadas. O marido de uma das vítimas foi espancado ao tentar defender a esposa. Outras agressões e ameaças ocorreram recentemente.

“Sem lenha, não tem como cozinhar, as crianças ficam sem comer. A situação aqui está ficando mais difícil desde o início de outubro. Já denunciamos o que aconteceu, mas a Funai ainda não veio aqui”, explica Léia preocupada. As denúncias foram encaminhadas semana passada ao Ministério Público Federal em Ponta Porã.

Na última Aty Guasu (assembléia) guarani, ocorrida entre 26 e 28 de outubro, na aldeia Sombrerito, as lideranças de Marangatu disseram eles estão praticamente impedidos de viver na área. Eles reafirmaram que, para resolver a questão, o STF precisa decidir em favor da homologação da área. Assim, os invasores podem ser retirados e eles podem viver na terra.

A terra Ñanderu Marangatu foi homologada pelo presidente Lula em 23 de março de 2005, com 9.316 hectares. Em julho de 2005, o então presidente do STF, Nelson Jobim, decidiu liminarmente suspender os efeitos da homologação. Os fazendeiros, por meio de um mandado de segurança, pediram que a intevenção do STF até que seja concluído um processo de interrupção da demarcação que corre na Justiça Federal em Ponta Porá.

Em 15 de dezembro de 2005, mais de 200 polícias federais, usando helicópteros e armas, tiraram cerca de 700 indígenas que viviam em 500 hectares. Expulsos, eles montaram acampamento na estrada ao lado da fazenda e lá ficaram por seis meses. Desde o despejo, os guarani tem pedido ao STF que julgue o mérito do mandado de segurança e mantenha o direito do povo à terra homologada. O relator do caso é o ministro Cezar Peluzzo.

Em meio a este conflito, seguranças da empresa Gaspem contratados pelo fazendeiro mataram, no dia 24 de dezembro de 2005, o líder guarani Dorvalino Rocha.

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