Blog do Sakamoto

Via Campesina e MST protestam pelo país contra Syngenta

A Via Campesina realizou um protesto na área da empresa suíça Syngenta Seeds, em Aracati (CE), na manhã de hoje. O protesto faz parte da campanha “Syngenta Fora do Brasil”, lançada após o assassinato de Valmir Mota de Oliveira, dirigente do MST, durante ocupação da propriedade da multinacional, no dia 21 de outubro.

De acordo com testemunhas, cerca de 25 homens que vestiam coletes da NF Segurança, contratada pela empresa, desceram de um ônibus e dispararam contra os militantes (outros seis ficaram feridos e um segurança morreu. A empresa de segurança foi indiciada por homicídio e formação de quadrilha no caso).

“A Syngenta assassinou com sua milícia armada um trabalhador rural e deixou mais seis feridos e segue ameaçando a nossa biodiversidade com experimentos transgênicos ilegais. Queremos essa empresa fora do Brasil”, afirmou Roberto Baggio, da coordenação nacional da Via Campesina.

Na semana passada, a Justiça Federal decidiu que as atividades desenvolvidas pela Syngenta em Santa Tereza do Oeste, na área de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu são ilegais, confirmando multa dada em março de 2006 pelo Ibama. A decisão, de 30 de novembro, foi distribuída ontem pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Segundo decisão da juíza Vanessa de Lazzarin Hoffman, a produção de organismos geneticamente modificados em zona de amortecimento de unidade de conservação pela Syngenta desrespeita a lei.

Também na manhã desta segunda, cerca de 300 trabalhadores rurais da Via Campesina e do MST ocuparam um trecho da rodovia BR-101, entre os municípios de Cachoeiro de Itapemirim e Itapemirim, no Espírito Santo, em protesto contra a atuação das empresas transnacionais no Brasil, em especial da Syngenta.

Quatro municípios da Paraíba também foram palcos de protestos. Em Sapé, 500 pessoas fecharam a BR-230 e na capital, João Pessoa, uma mobilização reuniu outras 200. Em Campina Grande, uma passeata contou com mais 200 pessoas e em Patos, 300 pessoas fizeram palfletagem com material sobre a morte de Valmir.

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A Economist concorda com Fidel. E agora?

Fidel falou que o aumento da produção de etanol iria causar fome no mundo e foi chamado de louco.

A Economist, bíblia do liberalismo econômico, divulgou ontem um editorial descendo a lenha no crescimento de etanol feito a partir de milho (padrão nos Estados Unidos). Diz que isso vai causar uma alta mundial no preço dos alimentos.

O impacto vai ser sentido também em outros produtos, uma vez que os fazendeiros americanos estão migrando para este grão em detrimento de outras commodities, haja visto que os subsídios disponíveis são mais altos. De acordo com a revista, concorrência desleal com os produtores do terceiro mundo.

As alternativas não são das melhores. A Economist lembra que boa parte das novas terras estão em locais remotos do Brasil, Rússia, Cazaquistão, Congo e Sudão – o que significa botar abaixo florestas. Isso em um momento em que se discute a preservação de cobertura vegetal na reunião sobre o clima em Bali, para tentar diminuir o impacto do – irreversível – aquecimento global.

E com o aumento da temperatura mundial, diminui também a quantidade de terras aráveis – inclusive no Brasil.

Mas nossa cana não é tão verde como apontam seus defensores quando comparada com o milho.

A demanda por etanol está levando a uma busca incessante por terras para plantar cana em locais de agricultura consolidada, expulsando outras culturas em direção ao Cerrado e à Amazônia. Em Goiás, por exemplo, é visível a disputa entre cana e soja. Nessa briga, quem sai perdendo é o meio ambiente e as populações tradicionais. Isso sem contar os trabalhadores, que vêm sofrendo com a superexploração e o trabalho degradante em canaviais. Em São Paulo, há laranjal sendo colocado abaixo para dar lugar à cana.

E o pior é que vamos dispor de terras que são destinadas à alimentação para produzir mercadorias cujos lucros não serão nem de longe divididos pelos trabalhadores. Dessa forma, eu me pergunto: crescer para quê? Se ainda assim os cortadores de cana fossem tratados com dignidade no país, vá lá. Mas as mais de 20 mortes de bóias-frias só no principado paulista, devido à exaustão do corte da cana, e a situação de miséria das cidades de aliciamento (ops, desculpe), contratação de trabalhadores, no Nordeste mostram que não é bem assim que as coisas acontecem.

Agora que a Economist concorda com Fidel, como disse um amigo, será que os arautos do liberalismo também vão chamar a revista de louca?

Para ler o editorial (em inglês), clique aqui.

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Repórter Brasil lança boletim sobre pacto contra escravidão

Chega aos correios eletrônicos das mais de 130 empresas, associações e entidades setoriais do país, nesta semana, a primeira edição do boletim semanal sobre o Pacto Nacional da Iniciativa Privada pela Erradicação do Trabalho Escravo. O conteúdo enviado está disponível no site www.pactonacional.com.br.

O boletim reúne informações sobre novas adesões, agendas e debates relativos ao Pacto, bem como atualizações da “lista suja” do trabalho escravo – cadastro de empregadores que foram flagrados explorando esse tipo de mão-de-obra, elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Notícias e dicas de conteúdo de referência (estudos, pesquisas, teses, etc) sobre as cadeias produtivas nas quais a prática do trabalho escravo tem sido mais freqüente – como nos segmentos de carne bovina, produção de carvão vegetal, soja, algodão e álcool combustível – compõem a newsletter semanal.

Está previsto ainda a publicação de painéis sobre os esforços, os caminhos e as vantagens – sem esquecer das dificuldades – para a promoção do trabalho decente, no Brasil e no mundo. O conteúdo do boletim busca problematizar questões socioambientais e trabalhistas que sejam relevantes para a tomada de decisões estratégicas por parte dos signatários do Pacto Nacional.

Também faz parte do boletim uma seção de clipping comentado com material divulgado pela imprensa sobre o tema. Será dado espaço para análises sobre políticas públicas e corporativas, com informes e avaliações sobre ações adotadas por governos e empresas (brasileiras e estrangeiras) no sentido de combater o trabalho escravo contemporâneo e o trabalho degradante.

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Justiça mantém autuação da Syngenta no Paraná

A Justiça Federal decidiu que as atividades desenvolvidas pela empresa transnacional de sementes Syngenta Seeds em Santa Tereza do Oeste (PR), na área de amortecimento do Parque Nacional do Iguaçu são ilegais, confirmando a multa dada em março de 2006 pelo Ibama. A decisão, de 30 de novembro, foi distribuída ontem pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Segundo decisão da juíza Vanessa de Lazzarin Hoffman, a produção de organismos geneticamente modificados em zona de amortecimento de unidade de conservação pela Syngenta desrespeita a lei.

A área atualmente está ocupada pela Via Campesina, em protesto contra a tentativa da Syngenta de retomar os experimentos ilegais.
Em 21 de outubro, na reocupação da área, seguranças de um empresa terceirizada contratada pela Syngenta executaram um integrante do MST e feriram outros seis trabalhadores.

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Reeleições e pecados

Se a Venezuela não é uma democracia, como a população conseguiu rejeitar as mudanças constitucionais em referendo, decisão que o poder executivo afirmou que irá acatar?

Pessoalmente, acho a idéia de reeleição ad infinitum péssima e não concordo com certas ações de Chavéz. Mas a verdade é que havia outros pontos interessantes, como o fim do latifúndio, a subordinação da propriedade ao interesse social e o fortalecimento dos conselhos locais e regionais, aumentando a participação popular, que acabaram sendo rejeitados no pacote. Não se impõe essas coisas por decreto, mas a sinalização disso como norte é relevante.

Pontos que não passaram e muito por conta da vinculação da imagem das reformas às medidas que garantiriam concentração de poder pelo chefe do Estado. Até ontem, pesquisas davam vitória para o governo no plebiscito. Abertas as urnas, a realidade foi outra. Vivendo e aprendendo como nascem os pecados políticos.

Sou contra a possibilidade de uma segunda reeleição por aqui. Não por causa deste ou daquele ocupante, mas pelas conseqüências negativas de não haver renovação de quadros políticos com a manutenção de uma só pessoa ou grupo político no poder.

Dito isso, é risível o posicionamento de alguns colunistas que apontam a pesquisa Datafolha, que indicou 63% dos entrevistados sendo contra mais uma reeleição, ser a vontade popular e caso encerrado. Se assim fosse, me pergunto: não seria mais barato operar a democracia através de pesquisas de institutos privados ao invés de urnas? Para que eleições? As pessoas estariam eleitas com pesquisas nacionais, respeitando, é claro, a margem de erro…

Pesquisas podem pautar e subsidiar as discussões da arenas política, não substituí-las. Por exemplo, pesquisas já mostraram que a maioria da população é contra a legalização do aborto, por orientação religiosa, posicionamento pessoal ou má informação – mas não significa que isso seja motivo para enterrar a discussão.

Até porque, isso seria deixar de acreditar que a sociedade brasileira possa evoluir ao ponto de a questão ser tratada como um problema de saúde pública e um assunto de liberdade individual e não como pecado.

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Pamonhas, pamonhas, pamonhas somos nós

Final da tarde de ontem. Um Beetle (o Fusca reestilizado da Volkswagen) cor-de-rosa pára no cruzamento da avenida Henrique Schaumann com a rua Cardeal Arcoverde, área nobre da cidade de São Paulo. No interior, apesar dos vidros fechados, dá para ver uma moça por volta de seus 20 anos e um rapaz da mesma idade, ambos aparentando alta classe social. Um velho homem, sem-teto, se aproxima do carro para pedir uma esmola. A idade pesa e ele encosta no capô enquanto faz o pedido aos ocupantes.

Pânico rosa-choque. A menina gesticula freneticamente. Aperta um botão no painel de seu carro e liga um alto-falante para falar com o mundo exterior: “Tire as mãos do carro!”

O velho, surpreso, obedece. O semáforo abre e o carro arranca.

Ações explícitas de preconceito social no trânsito, travestidas do verniz de “temor por segurança”, não páram de me surpreender. De início, foram os carros blindados, que levam para as ruas da cidade a sensação de encastelamento dos condomínios fechados ou das mansões muradas. Sentimento falso, pois não são muros, chapas de aço ou um sisteminha de microfone/alto-falante de carro de pamonha que garantirá segurança aos moradores de uma metrópole como São Paulo. É bom como efeito placebo, para se enganar, mas, mais dia ou menos dia, as “hordas bárbaras” vão engolir a “civilização”. Uma hora a bomba estoura.

São Paulo tem mais de 11 milhões de habitantes, apenas uns 10% têm acesso a todos os seus direitos previsto em lei. Lembra a antiga Atenas, com uma democracia para uns poucos iluminados e o trabalho pesado para o grosso da sociedade, composta de escravos. Enquanto uns aproveitam uma vidinha “segura” dentro de clubes, restaurantes, boates, residenciais e carros com alto-falantes, outros penam para sobreviver e ser reconhecidos como gente. A Folha de S. Paulo noticiou hoje que para cada assassinato ocorrido em Moema (renda média de R$ 5.576,78), 130 são mortos no Grajaú (renda média de R$ 597,70). Só que a morte de uma jovem em Moema causa mais impacto do que a de 130 na periferia, como já aconteceu em outros tempos. Tem vida que vale mais que outras, por causa do dinheiro.

Qual a causa da violência? A resposta não é tão simples para ser dada em um post de blog, mas com certeza a desigualdade social e a sensação de desigualdade social está entre as principais razões.

O preconceito da proprietária do Fusca estiloso vai no sentido contrário a uma solução, isolando os ricos ainda mais, deixando-os alheios ao sofrimento do resto da cidade. E, pior, dando aos mais pobres a sensação de que são lixo. Corta-se com isso a dimensão de reconhecer no outro um semelhante, com necessidades, e procurar um diálogo que construa algo e não destrua pontes. Há riscos de assaltos? Sempre há e eles vão acontecer. Mas deve se ter em mente que há atitudes que pioram o quadro. Ou a cidade será boa para todos ou a aristocracia que sobrar após o caos não conseguirá aproveitar sua pax paulistana.

Sou contra a violência, mas não culparia o velhinho se resolvesse revidar a bordoada social que levou atirando uma pedra no fusquinha.

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