Blog do Sakamoto

Cortando a conversa fiada

Viena - O painel “Engajando o setor privado em uma luta ativa contra o tráfico humano: oportunidades e desafios”, apresentado ontem (13) durante o Fórum das Nações Unidas sobre Tráfico Humano, estava bem disputado, até com gente sentada no chão – inclusive este que vos escreve. Mas, a meu ver, houve muito blá-blá-blá. A discussão tratou de como levar as empresas a atuarem de forma responsável em suas cadeias produtivas para evitar o tráfico de seres humanos. Sobre respeitar o tempo do setor privado em sua suposta mudança lenta e contínua a caminho da sustentabilidade. Algumas críticas a corporações, mas também cobranças sobre mais participação de governos e organizações da sociedade civil. A necessidade de diminuir a pobreza foi levantada algumas vezes, mas de forma desconectada. O que é uma pena, uma vez que isso é condição fundamental para atacar o problema.

Deu preguiça… Impacientes com o conteúdo, algumas pessoas começaram, como eu, a sentir a bunda quadrada e fria devido ao chão do inverno vienense.

No Brasil, a discussão com o setor empresarial já está bastante adiantada – temos inclusive um pacto nacional que envolve a iniciativa privada no combate ao trabalho escravo. Não que todas as empresas tupiniquins ou gringas em solo de Pindorama que assinaram esse documento tenham comportamentos exemplares. Até porque há grandes empresas que continuam operando na idéia do lucro a todo o custo.

Mas parte delas não ficou com a bunda na cadeira e tem cortado fornecedores escravagistas ou pressionado quem lhes fornece mercadorias a adotar uma postura mais responsável.

Acho, porém, que todo o diálogo tem um limite. Chega o momento que o embate se faz necessário, principalmente quando algumas empresas não querem, em prol da qualidade de vida alheia, largar o osso que vêm roendo há tempos. Nessa hora, é partir para o enfrentamento – social, econômico e político.

Em pequena escala foi o que aconteceu ontem na parte final do painel, quando uma participante de uma organização não-governamental indiana fez o contraponto que faltava. Algo assim: “gostaria de ressaltar que a questão da responsabilidade das corporações deveria ser analisado por outro ângulo. São elas que estão provocando a geração de milhares de pessoas vulneráveis ao trabalho escravo, que só terão como alternativa serem traficadas. São deslocadas, expulsas de sua terra e nunca recebem as compensações que poderiam contrapor os danos”.

Adoro esses constrangimentos.

O setor empresarial fala muito em investimento social privado (que é botar dinheiro em projetos, investir em ações da comunidade, coisas desse tipo), mas se furta a cumprir uma verdadeira responsabilidade social empresarial – que, grosso modo, é evitar que a sua existência atrapalhe a vida da comunidade que mora à sua volta ou da sociedade em que ela está inserida. E é exatamente a iniciativa privada a geradora de trabalho escravo, ao usar homens, mulheres e crianças descartáveis para poupar custos e lucrar. Direta ou indiretamente.

Ou seja, não é um favor ou um ato de bondade elas atuarem no fim do tráfico. É obrigação delas que não provoquem impactos desse tipo com suas atividades.

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Trata-se gente como bicho. E ganha-se muito com isso

Viena - Tá frio pra diabo lá fora.

E, ainda por cima, fiz questão de esquecer meu único casaco em São Paulo. Não estou sendo dramático: quando cheguei aqui hoje, vi o que me esperava pela janelinha do avião, com plantações que circundam a capital austríaca cobertas com uma fina camada branca de gelo. No campo, uma lebre fugia de um predador, talvez uma raposa, como naqueles documentários da National Geographic. Sakamoto, pensei, vais ter que lutar pela sobrevivência…

Gosto do frio. Mas frio demais corta o humor. Dá cãimbra na maçã do rosto. Não que o meu humor seja bom, longe disso, mas ele está em frangalhos por conta das horas não-dormidas no caminho daí para cá. Cheguei horas depois do programado devido a uma paralisação dos controladores de vôo. E antes que alguém xingue brasileiro de vagabundo, saiba que a greve em questão foi na França, onde fiz a conexão. Pelo o que conversei com um funcionário do aeroporto, o protesto deve continuar até sexta – exatamente quando eu volto (hehe).

Antes de continuar, um parágrafo panfletário, mas necessário: Apóio os controladores de vôo, brasileiros ou franceses. Apóio os cobradores e motoristas de ônibus. Apóio os bancários e metalúrgicos. Apóio os garis. Apóio os residentes médicos e todos os que fizeram suas greves e paralisações em 2007 e foram xingados por setores da sociedade. Apóio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não à exploração e entrar em greve até que a sociedade pressione e os patrões escutem. É claro que fiquei no aeroporto um bom tempo por conta desse apoio todo. Mas é a cota de sacrifício pessoal que temos que dar.

Dessa vez, a imigração não me barrou, ao contrário de outras viagens que fiz – quem acompanha este blog sabe a dificuldade que enfrento por ter cara de terrorista do Sudeste Asiático. Dessa vez, estava crente que Alá me concedera um milagre!

Mas na felicidade de ser tratado como gente na imigração – fato raríssimo – peguei o passaporte e – pernas para que te quero – nem olhei para trás. Depois, folheando o dito enquanto eu virava picolé no ponto do busão, percebi que esqueceram de carimbá-lo. Pergunto: se eu não entrei oficialmente, vão me deixar sair na boa? De repente a policial de fronteira tirou uma com a minha cara e vai estar lá para ver a minha desgraça. Sobre isso, não perca os próximos capítulos.

Aliás, falando em imigração… A irmã de uma amiga foi deportada da Espanha nesta semana. Tinha ido para Madri participar de um congresso. Chegando lá, aquele pessoal bem educado que cuida de fronteiras não foi com a cara dela e de outros brasileiros e os deixou em uma salinha por três dias. Não adiantou explicar que ela é mestranda em Física, que estava lá só para o evento, que não queria morar no exterior. Foi deportada.

O aumento da imigração de pessoas que procuram uma vida melhor em um país com maior oportunidade de emprego tem mostrado o que certas nações têm de pior. Os Estados Unidos erguem uma cerca entre eles e o México, uma vez que o fluxo de faxineiros, operários e serventes já está maior do que o desejado. Em muitos cantos da Europa os africanos, sul-americanos e asiáticos são carne de segunda.

Não precisamos ir muito longe. No Brasil, consideramos os vizinhos bolivianos, que tentam ganhar a vida em nossa terra, como trabalhadores descartáveis. E não é raro o trabalho escravo e degradante nas tecelagens da capital paulista que os empregam, ou melhor, os exploram.

Migrar e trabalhar. Quando eles se conjugam da pior forma temos o tráfico de seres humanos com fins econômicos ou para exploração sexual. É por isso que estou por aqui. Fui convidado a participar do “Vienna Forum to Fight Human Trafficking”, organizado pela iniciativa global para o combate ao tráfico de seres humanos das Nações Unidas, que está sendo realizado de hoje a sexta (16). Estão presentes especialistas, entidades internacionais, governos, sociedade civil, mídia e o setor empresarial para discutir como combater o problema. O Brasil trouxe sua delegação.

Um relatório da Organização Internacional do Trabalho – “Uma Aliança Global contra o Trabalho Forçado” – publicado em 2005, estima em cerca de 2,5 milhões de pessoas traficadas em todo o mundo, 43% para exploração sexual, 32% para exploração econômica e 25% para os dois ao mesmo tempo. O tráfico de trabalhadores rende cerca de 32 bilhões de dólares em lucro anualmente em todo o mundo.

Em 2007, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, 5.968 escravos foram libertados no Brasil. Desde 1995, quase 28 mil pessoas foram libertadas, em mais de mil fiscalizações realizadas. Os direitos trabalhistas pagos somaram mais de R$ 38 milhões e foram lavrados quase 20 mil autos de infração. Boa parte desses trabalhadores foram vítimas de promessas fraudulentas e aliciamento por “gatos”, contratadores de mão-de-obra, que traficam pessoas para explorá-las em fazendas e carvoarias.

De acordo também com a OIT, um estudo de 2002 sobre o tráfico de mulheres para exploração sexual no Brasil identificou 241 rotas nacionais e internacionais. A grande maioria das rotas internacionais tem como destino principal a Espanha, seguida da Holanda, Itália, Portugal, Paraguai, Suíça, Estados Unidos e Alemanha. As vítimas são, predominantemente, mulheres, negras e pardas, com idade entre 15 e 25 anos. Mulheres que vão buscar uma condição de vida melhor em outros países e que não possuem informações sobre seus direitos são as mais atingidas pelo problema.

Vou trazer alguns pontos que serão discutidos no evento. Darei especial atenção às iniciativas (ou falta delas) que envolvam ações que atinjam o bolso de quem lucra direta ou indiretamente com o tráfico.

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Carne bovina e Amazônia – sugestão de leitura

Posto, abaixo, texto divulgado pelo portal Amazonia.org.br. A discussão é interessante e toca em um dos principais instrumentos para se combater crimes e irregularidades sociais e ambientais, que é o monitoramento da cadeia produtiva de commodities. E do comportamento dos atores que fazem parte delas.

Neste momento em que a Amazônia vive um crescimento rápido no número de frigoríficos e também na quantidade de cabeças de gado (Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?…), faz-se necessário fortalecer as estruturas sociais de vigilância. E garantir prejuízo a quem financia a destruição da floresta.

Na Amazônia, cuca vai pegar o Carrefour

A rede Carrefour acaba de lançar, na imprensa nacional, a campanha e caderno “Eu uso a cuca”, contendo “dez mandamentos” para seus clientes. O décimo reza “Escolha empresas comprometidas com o desenvolvimento sustentável”. Mas, pelas informações disponíveis até o momento, parece difícil para o consumidor implementar este mandamento nos supermercados da rede, pelo menos no que disser respeito aos produtos da Amazônia.

O Carrefour possuia até 2007 mais de 100 mil cabeças de gado na Amazônia Legal, cujo abate é realizado em parte pela Friboi e cuja origem parece ser, em sua maioria, ilegal. Quem o sugere é o próprio Carrefour, em seu site. Das várias fazendas que possuia, a empresa menciona apenas aquela supostamente melhor em termos de desempenho ambiental, isto é a São Marcelo, em Juruena, no Noroeste de Mato Grosso. Eis o que consta no site da rede varejista: “Só para se ter uma idéia, da importância que o Carrefour dá ao tema (sic), quase a metade da Fazenda São Marcelo, no Mato Grosso, tem suas matas nativas totalmente intocadas.”

Na realidade, as fazendas de gado da rede Carrefour, no Mato Grosso, foram vendidas no segundo semestre de 2007 para a viúva e filhos do fundador da rede, o francês Jacques Defforey. Mas o site da rede varejista continua mencionando a São Marcelo como de propriedade do Carrefour. De qualquer forma, a produção das fazendas continua sendo adquirida pela rede, conforme apurou o site amazonia.

De qualquer forma, se “quase a metade” da fazenda São Marcelo tiver ainda mata nativa – admitindo portanto que ela tenha aproximadamente 40% de cobertura florestal – metade da produção adquirida pelo Carrefour desta fazenda seria ilegal, pois o mínimo que a lei exige nesta região é uma cobertura florestal de 80%. O Carrefour nem sequer menciona as outras fazendas. Entre elas há a Vale do Sepotuba e a Matovi, que possivelmente devem apresentar indicadores de ilegalidade maiores, pois nem sequer aparecem na lista “Garantia de Origem” do mesmo site. De acordo com informações divulgadas pela Secretaria de Comunicação do estado de Mato Grosso, a fazenda Vale do Sepotuba teria 4.300 hectares, dos quais seriam preservados apenas um quarto, ou seja 1.104. Já no caso da Matovi, de 1.200 hectares, apenas 160 seriam mantidos como reserva. Ainda de acordo com o site da SECOM/MT, o grupo teria também parceria com outros 15 pecuaristas no estado, além de arrendar mais fazendas nas regiões de Juína e Juruena. Dessa forma, na mais otimista das interpretações a rede teria, por sua própria admissão, a maioria de seu fornecimento bovino da região oriundo de práticas ilegais. Além disso, o Carrefour não divulga ter adotado qualquer sistema de controle da legalidade ambiental de fornecedores terceiros.

Mas o dever de casa que a rede terá de cumprir, caso deseje se enquadrar em seus próprios mandamentos, vai muito além da questão da carne. De acordo com Karina Aharonian, gerente do Grupo de Compradores de Produtos Florestais Certificados, o Carrefour também não faz parte até hoje desta associação empresarial, que reúne as empresas que buscam madeira, carvão, papel, castanhas e outros produtos com certificação de origem pelo FSC. Da mesma forma, no site da empresa não consta qualquer compromisso relacionado com a certificação florestal, ou até mesmo uma priorização de tais produtos perante seus fornecedores. O Grupo de Compradores relata que tem recebido algumas demandas para compra de produtos certificados pela matriz do Carrefour, na França, mas nada por parte da empresa no Brasil, até o momento.

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Para não dizer que não falei das flores

Buenos Aires - A imagem não é muito boa (meu celular, coitado, já foi melhor do que isso), mas achei interessante e postei. Nas noites de domingo, na praça da tradicional feirinha de San Telmo, na capital argentina, casais se reúnem para dançar tango a céu aberto. Não é apresentação de show de restaurante ou de churrascaria. Cada um pega seu par e vai para a praça s divertir, levado por tangos antigos. Ainda mais em uma noite agradável e estrelada como a de ontem, emoldurada por ruas estreitas, prédios antigos e uma paineira coberta de flores.

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Soja, trabalho escravo e uma vista para a Casa Rosada

Buenos Aires - Estou na capital argentina para participar de uma reunião sobre soja, realizada por organizações não-governamentais, para discutir como reduzir os impactos no meio ambiente e no homem causados pela expansão e cultivo irresponsável desse grão. Que são muitos, diga-se de passagem.

Alguns pontos sobre a questão do trabalho escravo na soja, que é a parte que me cabe neste latifúndio: Tomando a “lista suja” (cadastro do governo federal que mostra os fazendeiros flagrados com mão-de-obra escrava) de janeiro de 2007 como referência, as propriedades que cultivam o grão aparecem em terceiro lugar no total das que mais usam esse tipo de exploração, atrás das que criam gado e das que produzem carvão vegetal.

A situação na soja é menos difícil de resolver do que em outras atividades agropecuárias que usam desse expediente bizarro. Os sojeiros escravagistas costumam dar a paulada no trabalhador no momento de preparação do terreno para a primeira produção. Depois, na maioria das vezes, é mecanizado (em outras atividades, como a pecuária ou a carvoaria, o trabalho escravo aparece também durante o processo de produção). Se a cadeia produtiva da soja agir firme nesse problema, a situação tende a melhorar. E rápido.

É claro que, com as cotações de soja crescendo na Chicago Board of Trade, a pressão para o aumento na área plantada de soja é grande. Mais interesse pela soja, mais trabalhadores convertendo de floresta e cerrado para a soja ou para a pecuária – que, muitas vezes, foi desalojada pela pressão econômica do grão e foi atrás de terras de outras terras. Vou analisar os dados do biênio 2007/2008 sobre trabalho escravo para verificar se houve aumento de casos nessa cultura por causa da alta do preço. Cobrem-me depois.

Considerando que um punhado de megaempresas controla quase todo o comércio de soja no Brasil (ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, Caramuru…), se elas agirem junto aos produtores e limarem o pessoal que brinca com a dignidade alheia, teremos bons resultados. Há avanços importantes feitos por empresas que devem ser reconhecidos. Mas algumas continuam titubeando em passar a faca nos galhos podres – para dizer isso de forma leve. Correm o risco de deixar a árvore inteira ficar doente.

A reunião acontece do lado da Casa Rosada, sede do governo argentino. Chamei por Cristina, mas ela não apareceu na janela.

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Em 2008, o direito ao aborto está em pauta

Buenos Aires - Posto abaixo comentário da jornalista Maíra Kubík Mano, ativista pelos direitos da mulher, sobre o direito ao aborto. Só para começar um diálogo. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) acaba de lançar a Campanha da Fraternidade com o lema “Escolhe, pois, a vida” – de ataque ao direito ao aborto, às pesquisas com células-tronco embrionárias e à eutanásia. A despeito das críticas à CNBB (a entidade é livre para fazer o que quiser e, graças a Deus, nós também), este é um bom momento de levar o debate à sociedade. Talvez para que deixemos de pensar apenas no caminho que apontam nossas próprias crenças e passemos a considerar a liberdade alheia de procurar qualidade de vida.

Prometo voltar ao tema, para apresentar melhor minha opinião. Mas já adianto que defendo incondicionalmente o direito da mulher sobre seu corpo (e o dever do Estado de permitir esse direito) e o direito de todo o indíviduo de aliviar seu próprio o sofrimento físico, quando ele for extremo e irremediável.

“Este ano o aborto está em pauta. Além dos 17 projetos de lei que tramitam no Congresso Nacional, ele é um dos temas da Campanha da Fraternidade. Virou assunto de filme romeno que ganhou o último Festival de Cannes e mereceu até uma caravana do papa Bento 16.

Como todo tema polêmico, especialmente num país tão católico quanto o Brasil, gera debates acalorados e posições divergentes. O presidente Lula, por exemplo, declarou que pessoalmente é contra, mas como chefe de Estado é a favor – desde que a interrupção voluntária da gravidez seja tratada como tema de saúde pública.

Na linha de frente contra o aborto está a Campanha Brasil Sem Aborto. Em seu site, a coordenadora do comitê paraibano, Célia Urquiza de Sá, defende que nem mesmo a gestação resultante de um estupro seja interrompida (o que hoje está previsto em lei). De acordo com ela, a mãe que aborta está fazendo algo pior do que o estuprador fez com ela: “ele a violentou, mas a deixou viva, e o aborto vai matar o seu filho”.

O posicionamento caminha de mãos dadas com um projeto de lei do ex-deputado e ex-presidente da Câmara – por favor, não se esqueçam – Severino Cavalcanti, que proíbe o aborto em qualquer hipótese. Nada. Mesmo que a mãe corra risco de vida. Mesmo que o feto seja acéfalo. Mesmo que o bebê nasça morto.

Enquanto isso, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres estima que cerca de 1,2 milhão de abortos de interrupções voluntárias de gravidez são feitas por ano no país, causando 9% das mortes maternas e 25% das esterilidades. É ainda a quinta causa de internações hospitalares, com 250 mil casos de complicações. Em Salvador (BA), é a primeira causa de mortes maternas.

Pior que acreditar que uma mulher ser considerada assassina por abortar um feto é compactuar com todas as mortes e seqüelas resultantes de abortos mal feitos, em locais sem qualquer higiene. As mulheres, e a sociedade brasileira, devem optar sim pela vida, como tanto quer a CNBB. Por uma vida digna para todos, principalmente para os filhos que escolherem ter.”

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Como saber que um produto não foi feito por escravos?

Por meio do interesse crescente dos consumidores, questões relativas à sustentabilidade socioambiental da cadeia produtiva dos produtos que chegam às prateleiras dos supermercados ganham cada vez mais repercussão na opinião pública. Esse crescente interesse se reflete na reprodução e no volume de matérias referentes a temas como o trabalho escravo na imprensa nacional e internacional.

A Folha de S.Paulo, no seu caderno de consumo, publicou a matéria abaixo, do repórter Cyrus Afshar. Apesar de eu ter dado um depoimento para o texto, vale a pena dar uma lida.

Não há um certificado definitivo para saber quem não usou mão-de-obra análoga à escrava. Mas existem instrumentos criados por instituições sérias que ajudam empresas e consumidores a saberem quem está comprometido com a erradicação e quem explora esse tipo de trabalho.

O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo tem a adesão de cerca de 150 empresas, que podem ser conferidas na internet. Essas empresas se comprometem a coibir na sua rede de fornecedores o uso de mão-de-obra escrava e estão sujeitas a monitoração.

Quem ajuda a garantir o cumprimento do acordo é o comitê gestor formado pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), pelo Instituto Ethos e pela ONG Repórter Brasil. “Hoje não há um selo, mas com o pacto feito com as empresas você tem mais chance de não estimular o trabalho degradante”, diz Caio Magri, 52, assessor de políticas públicas do Instituto Ethos.

“Ao fazer parte do pacto, a empresa mostra que está buscando adotar práticas de responsabilidade social. Mas nós não certificamos ninguém, não é um selo”, afirma Leonardo Sakamoto, 31, coordenador da Repórter Brasil, que faz o monitoramento das empresas.

Para saber quem são os maus empregadores, existe a “lista suja” do trabalho escravo. Ela serve de referência para empresas que não querem fazer negócios com grupos (como fazendeiros de gado ou donos de carvoarias) envolvidos na superexploração de trabalhadores rurais. A lista, formulada pelo Ministério do Trabalho, está disponível na internet com os nomes de quem usou mão-de-obra escrava.

No ano passado, uma fiscalização do Ministério do Trabalho libertou 5.877 pessoas que trabalhavam em condições de semi-escravidão nas zonas rurais.

Também há fiscalização nas cidades. Em 2007, depois de denúncias, as lojas de departamento Renner, Marisa, C&A e Riachuelo assinaram “termos de ajustamento de conduta” com o Ministério Público do Trabalho, nos quais se comprometem a cancelar pedidos das confecções que empregam trabalhadores estrangeiros em situação irregular.

Para ver os membros do pacto, clique aqui.

Para acessar a “lista suja”, clique aqui.

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Latinhas, piratas e confetes no carnaval do Brasil

A fantasia nova era seu orgulho. E ele, o orgulho dos pais. Espada de plástico, calça, colete, botas e lenço na cabeça – sem esquecer de um indefectível tapa-olho – faziam do menino um pirata no carnaval de rua daquela cidadezinha do interior. A mãe municiava seu pequeno corsário de confete, com o qual ele atacava, sem cerimônias, os transeuntes. Enquanto isso, o pai registrava tudo com uma câmera de vídeo digital – para a posteridade, sabe como é, os filhos crescem rápido demais.

Sem que fosse sua intenção, um dos ataques de bolinhas de papel acertou em cheio um outro menino, fantasiado de catador de latinhas de alumínio. Fantasia sem graça aquela, feita por uma camiseta esburacada, bermuda encardida e pés descalços. Ao invés de uma reluzente cimitarra de plástico, cinco ou seis latinhas de cerveja carregadas na improvisada bacia formada pelos braços. O tamanho dos dois era o mesmo, tiquinhos de gente de seis anos, no máximo.

O menino fantasiado de catador de latinhas, que seguia em uma marcha firme, se detém. Sem dizerem nada, por um instante, se olham. O pirata deve ter pensado que fantasia estranha era aquela, cheirando a cerveja. Não seria melhor deixar aquelas latinhas ali e vir brincar com ele? Havia confete para todo mundo no saco da mamãe. E a rua era grande o suficiente.

O olhar do outro parou em misto de inveja e resignação – apesar dele não ter idade para entender o que é inveja, muito menos resignação. Ter um fantasia bonita e colorida como aquela seria bom demais. Não ter que trabalhar na noite de domingo, poder brincar com os pais, melhor ainda. Mas o tempo corria – o tempo sempre corre. Tinha que procurar mais latinhas porque a concorrência estava alta e a festa, como a infância, não ia durar muito mais tempo.

Virou o rosto para frente, continuou sua marcha e se perdeu na multidão. O outro ainda ficou parado um instante. Depois, enfiou a mão no saco de confetes e jogou novamente para cima, formando uma chuva de papel.

Afinal de contas, é carnaval. Na Quarta-feira de Cinzas tudo volta ao normal.

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O calote agropecuário: o lucro é deles, o prejuízo de todos

Dá paúra no estômago ver o governo federal discutindo a renegociação da dívidas dos produtores rurais. Entra ano, sai ano, é sempre a mesma lenga-lenga. Produtores agropecuários colocam o governo contra a parede para postergar o pagamento das dívidas com as agências públicas de financiamento (só o Banco do Brasil é responsável por 70% dos R$ 140 bilhões de dívidas). Enquanto isso, o governo procura a melhor moeda de troca possível com a bancada ruralista no Congresso Nacional. Aprovação de emendas, de leis, desobstrução de pautas. Tudo está à venda.

Emprestar para produzir a juros baixos é função do Banco do Brasil (aliás, eles deveriam baixar os juros ainda mais, forçando o restante do mercado de crédito e facilitar o acesso a crédito dos pequenos produtores, mas isso é outra história). É por essa razão que ele é público, para fomentar o desenvolvimento. O problema não é emprestar e sim não devolver o empréstimo ou devolvê-lo muito tempo depois. Considerando o fato do banco ser estatal, o calote é em cima de todos nós.

Problemas acontecem, quebras de safra, catástrofes, enfim. Porém, essas desgraças não somam R$ 140 bi – conseqüência de péssimas gestões, financiamentos fantasmas, entre outras causas menos naturais.

Sobra óleo de peroba na dispensa dos grandes produtores rurais. Durante o período de bonança, fazem gastos pessoais e investimentos empresariais além de suas possibilidades. Quando vem uma fase difícil – a queda do preço da soja no mercado internacional, por exemplo – eles pedem para dividir os prejuízos.

É um capitalismo de brincadeira. Eles são capitalistas selvagens quando superexploram trabalhadores, retalham terra pública, roubam os recursos naturais. Mas tornam-se bastante “socialistas” quando nuvens negras se aproximam no horizonte. Não querem nem ouvir dizer de participação mínima do Estado.

Afinal de contas, no discurso, critica-se o Estado e sua ingerência. Na prática, mama-se nas tetas públicas quando as coisas não saem como o planejado. O lucro é depositado. O prejuízo repartido.

Mas os grandes produtores brasileiros têm bons exemplos. O mercado dos Estados Unidos, lar do neoliberalismo e do discurso do Estado mínimo, recebeu a notícia de que o governo iria fazer uma injeção de dezenas de bilhões de dólares nos últimos dias para frear o pânico de uma recessão. Jogam o jogo, perdem e chamam a mamãe para dar um jeito. Lá como aqui, a mãe é o resto da população que não tem fazenda, indústria ou ações. Na hora de cobrir rombos, o Estado é útil.

Não estou esquecendo que endividados estão todos os produtores rurais e não só os latifundiários. Mas os grandes (em menor número, com dívidas gigantes) juntam-se aos pequenos (em maior número, mas com dívidas pequenas) para engrossar o caldo, dizer que o problema é de todo um setor (ou seja, dividir os ônus) e aumentar a pressão. Quando essa ação termina, tudo volta ao normal. Com os grandes bem de vida e os pequenos lutando pela sobrevivência.

Deixo uma sugestão: que tal vetar renegociação de empréstimos com propriedades que desmataram além do limite permitido por lei? Vamos começar pelos 36 municípios sob embargo do governo. Que fique claro a esses proprietários rurais: paguem a dívida ou sejam acionados pelo calote. Garanto que teria muita gente perdendo terra e tomando vergonha na cara.

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