Blog do Sakamoto

A floresta que virou hamburguer

O ministro da Agricultura Reinhold Stephanes anunciou, nesta segunda (16), que o bioma amazônico deverá ser uma das áreas de restrição total para expansão da cana no país no zoneamento econômico a ser divulgado em julho. Mas a decisão ainda não é final.

Vale lembrar que esse tipo de ação, no Brasil rural, tem que passar antes pelo crivo dos interesses econômicos que influenciam os interesses políticos.

Um lembrete: foi no Pará, em uma fazenda e usina de cana-de-açúcar, que ocorreu a maior libertação de escravos da história do país. Na Pagrisa, em Ulianópolis (PA), 1.064 pessoas ganharam a liberdade no ano passado. É verdade que não há muita cana no bioma amazônico. O trágico é que no pouco que há já ocorreu esse tipo de problema. Imagine então se a cana entra de vez na região, unindo a superexploração dos canaviais com a escravidão da fronteira agrícola…

De qualquer maneira, aposto minhas calças que o ministério vai continuar apoiando a expansão de fazendas de gado e soja, que são os maiores responsáveis pelo desmatamento da floresta. Tudo por um PIB mais gordo, mas concentrado, tipo colesterol ruim. Que, mais cedo ou mais tarde, cobra o seu preço e mata.

Alguém topa a aposta?

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Preparem-se: a guerra de discursos já começou na Amazônia

Toda semana aparece alguém, seja político, militar ou empresário, reclamando de entidades não-governamentais que atuam na Amazônia, alertando para o risco delas tramarem a internacionalização da região. É claro que há muita ONG picareta cuja ação degrada as pessoas e o meio de lá. Mas há também muita gente fazendo coisas boas, que fizeram mais pela Amazônia do que uma penca de governos.

Contudo, o que me assusta é a cara de pau dos reclamantes, pois ninguém diz um “opa” sobre as dezenas de empresas estrangeiras que estão por lá, muitas degradando a gente e o meio, e que internacionalizaram a Amazônia há tempos. Boa parte da soja, da carne e do minério da região vai para fora, commodities que são produzidas para responder à demanda mundial.

Há gente séria, mas também grandes companhias que funcionam como nuvens de gafanhotos, comendo o que há pela frente, madeira, terra, água, minério, burlando leis ambientais e desobedecendo as trabalhistas. Alguém reclama disso? Nada, imagina! É o progresso, discurso impregnado entre formadores de opinião, mídia, parte da sociedade civil, que faz esquecer o que significa a expressão “dois pesos, duas medidas”.

Ao mesmo tempo, o governador do Mato Grosso Blairo Maggi, diante das acusações de aumento no desmatamento, eleva o tom e faz chantagem. Traduzindo suas declarações: o país tem que escolher entre seguir as regras ambientais, e passar fome, ou desmatar – e garantir soberania alimentar. Como se houvesse apenas duas alternativas, o que convém a parte dos empresários que lucra fácil com a expansão agropecuária.

Que tal uma terceira alternativa? Uma que inclua um zoneamento econômico da região, dizendo o que pode e o que não pode se produzido, uma regularização fundiária geral, confiscando as terras irregulares, a realização de uma reforma agrária e a garantia que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – as verdadeiras responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes. Preservar os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país. Manter o exército na caserna e longe da política, como deveria ter acontecido na transição da ditadura para a república. Enfim, mudar o modelo de desenvolvimento, o que inclui alterar o padrão de consumo, uma vez que nós do Sul Maravilha comemos e bebemos a Amazônia e o Cerrado, arrotando alegria.

Preparem-se. A guerra de discursos apenas começou.

Espero que o sotaque americano que hoje fala pelo Plano Amazônia Sustentável não se esqueça de que a região não é de uns, mas de muitos, fugindo do maniqueísmo fácil do discurso do “progresso”.

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O fim melancólico de uma idéia bizarra

Depois de fazer muito barulho e ganhar a antipatia da sociedade civil, a Comissão Temporária Externa do Senado criada para “investigar” a libertação de 1.064 trabalhadores rurais da fazenda e usina Pagrisa, em Ulianópolis (PA), no ano passado, recebeu sua pá de cal no dia 15 de maio, entrando para os anais de idéias bizarras do Congresso. Como não houve notícia do óbito, só fiquei sabendo agora, semanas depois.

A comissão não conseguiu seu principal objetivo: deslegitimar a operação do grupo móvel de fiscalização, que atua no combate ao trabalho escravo, uma vez que a libertação foi mantida. Contudo, ganhou pesadas críticas por alguns de seus senadores terem saído em defesa da fazenda e criticado o combate à escravidão. Por fim, o caso fortaleceu a mobilização da sociedade civil em prol da proposta que prevê o confisco das terras de escravagistas e que está parada no Congresso. Ou seja, o tiro saiu pela culatra.

Termina sem um relatório, deixa alguns político órfãos, mas não fará falta aos homens de boa vontade.

Para ler a íntegra do caso, clique aqui.

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OIT aponta educação como a arma contra o trabalho infantil

Para lembrar o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, a ser comemorado nesta quinta (12), a Organização Internacional do Trabalho divulga um estudo que aponta que a maioria das 75 milhões de crianças sem acesso à educação básica começam a trabalhar em idade precoce.


Fotos de fiscalização que encontrou trabalho infantil degradante em matadouros no Rio Grande do Norte

Baseado em pesquisas realizadas em 34 países, o relatório reconhece que o número de crianças envolvidas em atividades econômicas está diminuindo. O que mostra que, apesar da globalização-salve-se-quem-puder em curso, é possível mitigar o problema. Entre 2000 e 2004, o número de crianças e adolescentes entre 5 e 14 anos economicamente ativos diminuiu em 20 milhões.

Mas ainda restam 165 milhões na mesma faixa etária envolvidos em trabalho infantil, muitos em longas jornadas e expostos a condições insalubres.

O relatório destaca que os altos índices de trabalho infantil estão diretamente associados à queda na qualidade da educação e à desigualdade de gênero em um país. Ou seja, compromete a sua capacidade de desenvolvimento econômico e social. Além disso, os meninos e meninas trabalhadores rurais tendem a estar entre os mais desfavorecidos.

E (como era de se esperar de uma humanidade machista) as meninas com frequência têm uma carga dupla de trabalho dentro e fora de casa, o que atrapalha sua escolaridade. “Quando uma família tem que escolher entre enviar à escola um menino ou uma menina, com frequência é a menina que sai perdendo”, afirmou o diretor-geral da OIT Juan Somavia.

A solução, segundo a OIT, passa por garantir educação gratuita e obrigatória, levantar as barreiras existentes contra educação de meninas, garantir rapidamente a capacitação de profissionais da educação, reforçar as leis que punem o trabalho infantil e atacar a pobreza, gerando emprego e renda.

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Curtas e grossas do Brasil profundo

A Monsanto lançou um prêmio “agroambiental” para incentivar “projetos universitários de pesquisa científica, direito e comunicação social para uma agricultura mais sustentável”. A Monsanto – aquela dos problemas ambientais, dos trangênicos, que sofre protestos em todo mundo por seu comportamento temerário com relação ao planeta.

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O senador Dulcídio Amaral (PT-MS) apresentou uma proposta para abrir o capital da estatal Embrapa em bolsa. Segundo ele, a sua atividade operacional “vem sendo engessada ante os rigores da legislação federal”. A Embrapa – aquela que é referência internacional em pesquisa agropecuária e cada vez mais dedica-se ao agronegócio.

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Hoje, na jornada de protestos da Via Campesina contra a atuação das grandes empresas agrícolas e os danos causados por projetos de infra-estrutura ligados à produção industrial, mais de 800 ativistas ocuparam o pátio da multinacional de alimentos Bunge, em Passo Fundo (RS). Foram reprimidos com balas de borracha pelo governo do Estado, que fez papel de segurança privada. O Rio Grande do Sul – aquele estado em que a promiscuidade entre público e privado foi escancarado com as últimas denúncias trazidas à público pelo vice-governador do DEM contra a governadora do PSDB.

Nada de novo no reino tupiniquim. Mas não canso de me surpreender.

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Nós usamos escravos, mas os Estados Unidos também

O Departamento de Estado norte-americano divulgou, na semana passada, o seu relatório anual sobre o tráfico de pessoas, em que classifica os países de acordo com o tratamento que dão ao problema. No grupo melhor colocado (Tier 1), países do centro mundial, com alto IDH, mas também Geórgia (ex-república soviética e origem de muitas das prostitutas que trabalham de forma forçada na Europa Ocidental) e Colômbia (que usa trabalho escravo na agricultura e não possui um programa eficaz de combate ao problema). Estes dois exemplos mostram como nada escapa às necessidades da política externa dos EUA de salvarem seus amigos.

O relatório tem suas qualidades. Há exageros, erros e fatos mal contados, mas também acerta ao apontar o que acontece em diversos países. Colocaram a gente em um grupo intermediário (Tier 2), mesma classificação do ano passado. No texto sobre o Brasil, o de sempre, com um pouco mais de atenção ao trabalho escravo na cadeia do etanol. Meses atrás, em um artigo, eu já tinha calculado a quantidade de escravos libertados na cana, dados que foram usados depois por outros veículos de comunicação e, talvez, pelo próprio relatório. Mais da metade dos que ganharam a liberdade estavam nesse setor. Apesar disso, fiz um alerta – mas pouca gente prestou atenção, talvez porque não era conveniente: os 3131 libertados na cana estavam em apenas nove fazendas. Isso acontece porque a cultura demanda mão-de-obra intensiva. Sem desconsiderar a situação deplorável, bizarra e cruel com que são tratados os bóias-frias da cana, o trabalho escravo é mais “endêmico”, por assim dizer, na cabeça dos criadores de gado de regiões de fronteira agrícola. Apesar do número de libertados ter sido menor, dezenas de fazendas de gado foram alvo de libertação no ano passado, com as situações mais deploráveis possíveis em comparação com fazendas de qualquer outro produto.

Trabalho escravo na cana é preocupante, mas não é o pior problema. Pelos relatos que colhi nos últimos anos da Comissão Pastoral da Terra de Xinguara (PA), Marabá (PA), Araguaína (MA), Alta Floresta (MT) e do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (MA), em comparação ao restante do país, a pecuária nessa região ainda é a pior situação para o trabalhador rural. Como o etanol está na crista da onda e sua área está em processo de expansão, é claro que ele vai chamar mais a atenção. Por razões humanitárias e comerciais.

Falando em comerciais, sempre sinto a falta do governo norte-americano em se colocar em relatórios como esse. Apontar o dedo sempre é fácil, ainda mais quando isso pode servir como instrumento comercial. Para não soar como “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”, seria necessário uma auto-análise aprofundada. Ainda mais em um momento em que o Departamento de Trabalho está organizando uma lista internacional de mercadorias produzidas com trabalho escravo e em que países isso ocorre. Há setores do governo americano que querem usar isso para contribuir com os governos de outros países no financiamento de projetos contra o trabalho escravo, enquanto outros já pensam em impor barreiras comerciais e em protecionismo.

Sou um dos primeiros a defender que produtos com trabalho escravo não consigam compradores em nenhum lugar do mundo. Aliás, seria ótimo se pudéssemos confiscar os produtos de fazendas escravagistas e doar para distribuição em locais carentes. Mas erguer barreiras setoriais tem cara de má-fé ou preguiça de usar os sistema de inteligência para verificar a procedência exata do produto.

Estimativas de centros de pesquisa dos Estados Unidos apontam que há, pelo menos, 17 mil trabalhadores em situação de escravidão no país. A Comissão Pastoral da Terra estimou que, a cada ano, 25 mil pessoas se tornam escravas no Brasil. Ou seja, tá pau a pau. Lá, eles já têm uma lei que confisca a propriedade daqueles que utilizaram escravos. Aqui penamos para aprovar isso há anos. Mas aqui temos um sistema de denúncia, resgate, ressarcimento e indenização aos trabalhadores e damos visibilidade ao nome escravagistas, garantindo-lhes prejuízos, o que eles não têm por lá.

Vale lembrar que parte desses escravos nas terras do Tio Sam são imigrantes ilegais, muitos latino-americanos que trabalham em fazendas. Inclusive em plantações de milho, em atividades que as máquinas não fazem. O mesmo milho que eles utilizam para fazer etanol.

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Quem ganha, quem perde, quem manda e obedece

Duas manchetes tiradas da mídia que mostram quem manda:

Com barulho dos agricultores governo admite negociar dívidas

Ministério da Agricultura vai renegociar dívidas de produtores rurais

Esta, de hoje, mostra quem ganha:

Agronegócio vende US$ 7,5 bilhões e bate recorde de exportações em maio

E esta, quem perde:

Bancada ruralista cresce 58% e barra combate ao trabalho escravo no campo

Quem tem, fica mais rico. Com mais dinheiro, elegem mais gente. Com isso, se apostarem e perderem, é só chiar que o Estado ajuda a fechar as contas e a garantir força de trabalho.

Por isso é que tenho orgulho de ser brasileiro!

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Congresso debate impactos dos agrocombustíveis na terça

O Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis (CMA) da Repórter Brasil e a Frente Parlamentar da Terra vão promover no próximo dia 10 de junho, em Brasília, o debate “Os impactos das culturas de agroenergia”. No evento, o CMA apresentará os primeiros resultados do projeto “O Brasil dos Agrocombustíveis – Impactos das Lavouras sobre a Terra, o Meio e a Sociedade”. Especificamente sobre

O objetivo do debate é contribuir para o aprofundamento da análise do tema Agroenergia a partir da avaliação do que ocorre no campo. A iniciativa parte do princípio de que a discussão de impactos neste momento é fundamental, uma vez que os efeitos dos agrocombustíveis sobre clima, alimentos e direitos humanos, além de normas ou certificações e suas implicações/efetividades, estão no topo da pauta nacional e internacional.

O evento também discutirá as políticas públicas do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), o posicionamento do governo brasileiro frente à questão e as perspectivas das organizações sociais que representam os diversos atores envolvidos na cadeia produtiva.

Em um momento em que se fala muita besteira sobre agrocombutíveis, tanto na defesa quanto no ataque ao etanol e ao biodiesel, esse debate ajuda a iluminar melhor a questão.

Programação
Coordenação da mesa: Deputado Adão Pretto

9:30 – abertura: Deputado Adão Pretto e Senador José Nery

10:00 – CMA: apresentação dos resultados da primeira etapa da pesquisa de impactos das culturas de agroenergia, focando soja e mamona

10:45 – Mesa de debate:
- Marina dos Santos, membro da coordenação nacional do MST
- Antoninho Rovaris, secretário de políticas agrícolas da Contag
- Isidoro Revers, assessor da CPT Nacional
- Francisco Lucena, Coordenador do Projeto de Produção de Oleaginosas para produção de agrobiocombustiveis, Fetraf
- Arnoldo Campos, Coordenador do Programa Nacional de Biodiesel do MDA
11:45 – abertura para perguntas da platéia
12:50 – encerramento

Serviço
Debate “Os impactos das culturas de agroenergia”
Data: 10 de junho
Horário: das 9:30 h às 13:00 h.
Local: Plenário 3 da Câmara dos Deputados

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A luta pelo meio ambiente e pela sobrevivência da humanidade

Já havia postado o texto abaixo, mas acho que vale a pena trazê-lo à tona para celebrar o Dia Mundial do Meio Ambiente:

“Cabíamos todos dentro de uma kombi. Éramos vistos como caçadores de borboletas ou algo semelhante.” Paulo Nogueira Neto, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), foi um dos precursores da luta pela defesa do meio ambiente no país nos anos 60 e 70. Naquela época, afirmar que a preservação de um bosque de araucárias era mais relevante que o “progresso” trazido por uma fábrica causava indignação, não só em empresários e no governo, mas também na sociedade civil. E o resultado disso é que, hoje, ecossistemas como o da Araucaria brasiliensis se encontram à beira da extinção. Mas, ao longo dos anos, houve uma mudança na forma de encarar o impacto de nossas ações no meio ambiente. Continuamos a destruir, mas agora cientes das conseqüências de nossos atos.

A humanidade enfrenta a pior crise ambiental de sua história, sob risco de entrar em colapso com o esgotamento e a degradação dos recursos naturais. Os países da periferia levam a culpa pelo desequilíbrio ecológico mundial e são criticados pelo modelo de desenvolvimento que adotam, agressivo ao meio ambiente. O julgamento parte das nações ricas, as quais, por mais de dois séculos, destruíram seus patrimônios naturais e continuam poluindo. As elites dos países periféricos clamam, por sua vez, pelo direito de também poluir, a fim de poder alcançar o nível de consumo das sociedades desenvolvidas.

Em meio a essa discussão, o quadro não poderia ser pior. Dentro de duas décadas, não haverá água potável suficiente para suprir as necessidades de dois terços da população mundial – regiões metropolitanas, como a Grande São Paulo, já vivem uma crise de abastecimento. O efeito estufa está aumentando a temperatura global e provocando mudanças climáticas, enquanto a desertificação de áreas cultiváveis compromete a produção de alimentos. Uma nuvem de poluição paira sobre o sudeste asiático, levando crianças e idosos aos hospitais diariamente. Demorou, mas o planeta começa a dar o troco.

Um marco importante para a percepção de que o mundo caminhava no sentido errado surgiu na Conferência das Nações Unidas, em Estocolmo, em junho de 1972, da qual resultou a Declaração do Meio Ambiente. Ela proclama que “a proteção e a melhora do meio ambiente são questões fundamentais, que afetam o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo”, e por isso constituem um anseio das sociedades e um dever dos governos. Seus 26 princípios fundamentais influenciaram várias Constituições, inclusive a brasileira de 1988, em seu artigo 225.

Um ano após a conferência, criou-se a Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), ligada ao Ministério do Interior, para orientar a conservação e o uso racional dos recursos naturais. Em 1981, foi estabelecida a Política Nacional do Meio Ambiente, que indicava as ações do poder público na preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental, compatibilizando-as com o desenvolvimento econômico e social. Com ela e com a posterior implementação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), as responsabilidades governamentais e os deveres da sociedade civil tornaram-se mais claros.

No início dos anos 70, começam as primeiras ações ambientalistas, ainda que de forma pontual. Os protestos de trabalhadores de uma fábrica de cimento em Perus, bairro paulistano, contra a poluição, e os desfiles em São Paulo do artista plástico espanhol Emilio Miguel Abellá, usando máscara contra gás, são alguns exemplos. A atuação das universidades fez surgir uma consciência crítica no país: parte dos formados voltava-se às pesquisas. Os demais seguiam para pôr em prática a teoria.

Com a anistia, em 1979, exilados políticos puderam retornar ao Brasil, trazendo consigo a vanguarda do debate ecológico europeu. O fim da ditadura e o processo de democratização possibilitaram um aumento na quantidade de informações disponíveis, atingindo um público que antes desconhecia o problema.

Nos anos que antecederam a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92, no Rio de Janeiro, o trabalho de defesa do meio passou a contar com uma visão mais integrada e profissional para enfrentar os novos tempos. Surgiram organizações não-governamentais, como a Fundação SOS Mata Atlântica, e chegaram ao Brasil a Conservation International (CI) e o World Wildlife Fund (WWF). Biodiversidade, conservação, meio ambiente começavam a deixar de ser coisas de bicho-grilo e passavam a integrar as preocupações da classe média.

A Eco 92 reafirmou Estocolmo, acrescentando o desenvolvimento sustentável como um dos princípios fundamentais. Deixou claro que o crescimento deve ser feito de forma a garantir a qualidade de vida às gerações presentes e futuras. E que os países são soberanos para escolher o melhor caminho para explorar seus recursos naturais, tendo o cuidado de não causar danos a outros Estados. A mensagem de que é possível crescer em comunhão com o meio foi clara, mas fraca. Como a ONU não possui força afirmativa real para pôr em prática os princípios da Declaração do Rio de Janeiro, o apelo caiu por terra uma década depois. Até porque os maiores poluidores, como os Estados Unidos, Japão e parte da Europa, não acenaram com mudanças no seu modelo de desenvolvimento.

O exemplo mais crítico da posição adotada pelas nações ricas foi dado pelos Estados Unidos, que se negam a assinar o Protocolo de Kyoto, que visa à redução gradativa da emissão de gases que provocam o efeito estufa, alegando possíveis prejuízos às suas indústrias. Com isso, o presidente George W. Bush abraçou o terrorismo que tanto critica, ameaçando a vida das gerações futuras em troca da manutenção do estilo de vida norte-americano.

Apesar de ser reconhecido internacionalmente por bons projetos de desenvolvimento sustentável, o Brasil passa por vexames como o assassinato do seringueiro e líder sindicalista Chico Mendes, em 1988, por defender a preservação da floresta em Xapuri, no Acre.

Nas discussões sobre meio ambiente ainda não se leva em consideração a integração entre homem e natureza. Mesmo que a criação de reservas esteja contribuindo para a preservação da fauna e da flora, estamos longe de garantir meios de sobrevivência às populações que dependem desses ecossistemas. A pobreza e a falta de perspectivas ainda levam muitas pessoas a dilapidar o patrimônio natural em busca de sustento para seus filhos, através da captura de animais silvestres no Pantanal Mato-Grossense, da coleta de palmito na Mata Atlântica ou da produção agropecuária na Amazônia.

O país possui uma das mais modernas legislações ambientais do mundo, a Lei de Crimes Ambientais, de 1998, que estipula multas de alto valor e até prisão em caso de agressão ao meio. O problema é que muitas vezes a lei é deixada de lado ou é mal aplicada por incompetência ou conivência com os infratores. Há, por exemplo, denúncias de estudos e relatórios de impacto que teriam sido comprados para facilitar a aprovação de obras pelos órgãos responsáveis. Além disso, mesmo com os avanços ao longo dos anos, entre eles a criação de um ministério dedicado apenas ao meio ambiente, o governo continua a apresentar uma contradição entre ação e discurso. De um lado, brada-se pela preservação da Amazônia, de outro financiam-se projetos que desmatam a floresta ou há relaxamento nas exigências quando existe a possibilidade de investimento estrangeiro.

O debate sobre o meio ambiente emerge no século 21 como uma discussão sobre a qualidade de vida, não tratando apenas de rios poluídos e derramamento de petróleo, mas também da atual idéia de progresso – alta tecnologia aliada a uma postura consumista -, que não está conseguindo dar respostas satisfatórias à sociedade. De forma preventiva ou paliativa, haverá uma mudança no comportamento da sociedade. Faz parte dessa discussão a busca por modelos alternativos de desenvolvimento humano.

Que só serão efetivos caso não excluam a população dos benefícios trazidos pela exploração atual e futura dos recursos naturais do planeta.

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A gravata não é o nó da questão

Brasília – Quando viajo a Brasília, sempre vou paramentado. Desta vez, como ia a um ato civil na Câmara dos Deputados, achei que poderia deixar a língua de pano em casa e ir só de terno. Contudo, fui impedido de entrar no Salão Verde, espaço em frente ao Plenário, por estar sem gravata.

- O regimento tem que ser respeitado, disse o segurança.
- Mas estão chegando muitas pessoas de organizações sociais, que não possuem terno. Como vão poder participar do ato?
- Está havendo uma sessão e só entram pessoas de gravata.

Já havia sido barrado em um dos andares do Palácio do Planalto, em outra ocasião, porque estava sem gravata. Mas achei que a Câmara dos Deputados, por ser – em tese, bastante em tese – a Casa do Povo, não cobraria essa formalidade.

Eu, que sou chato, tanto reclamei daquela situação bizarra que consegui entrar. Para quem me perguntava porque estava do lado de fora, contava em alto e bom som o que acontecia. Eu sei, eu sei, um pouco de exagero, mas ações de constrangimento servem para isso mesmo. Depois, me conseguiram uma gravata, que deixei comigo no bolso por segurança para evitar que algum segurança me colocasse para fora.

Esse tipo de coisa dá várias teses de doutorado… Primeiro, por excluir a esmagadora maioria da população brasileira de transitar por aquele espaço, esse é um ato de preconceito de classe levado a cabo por quem deveria atuar pela defesa da igualdade de direitos. Segundo, mostra como funcionam as prioridades do Congresso ao ater-se a uma coisa tão imbecil enquanto o toma-la-da-cá e o compadrio come solto no Plenário.

Entendo que existam ritos e formalidades, mas que deveriam ser restritas a ambientes privados, não públicos. Respeito não se manifesta através da vestimentas, mas de ações. Ah, mas aí complica, porque haveria muita excelência que não teria visto de entrada em seu próprio gabinete.

Essa não é a primeira vez que alguém reclama disso e também não será a última. Até porque dá próxima vez que eu for ao Congresso, irei sem gravata e sem terno.

No mínimo, renderá outro post.

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