Blog do Sakamoto

O midiático ministro, a madeira e a multinacional

O ministro do meio ambiente Carlos Minc é midiático demais… Ele acaba de assinar um termo de compromisso com a Vale em que a empresa se compromete a vender minério de ferro apenas para os seus clientes que comprovem a legalidade da extração da madeira e do carvão vegetal usados em suas cadeias produtivas.

Não custa lembrar que isso é chover no molhado. No ano passado, a Vale, após ser pressionada por organizações da sociedade civil e pela mídia nacional e internacional, já havia divulgado essas mesma medidas, tanto para questões ligadas a desmatamento quanto para questões sociais, como trabalho escravo. Guseiras ficaram sem conseguir comprar minério da empresa por conta disso. Por exemplo, em outubro de 2007, quatro siderúrgicas deixaram de receber da Vale. Deu na mídia, é só dar um Google.

Agora, Minc lança uma ação que já estava em andamento. Não seria melhor lançar instrumentos de controle e monitoramento desse termo? A “lista suja” do desmatamento que nasceu neste ano, da mesma forma que sua irmã mais velha, a “lista suja” do trabalho escravo, que nasceu em 2003, são ótimas ferramentas de referência para corte de crédito e de relações comerciais. Portanto, seria mais útil se o ministro firmasse com a Vale um termo para que ela abrisse seus arquivos, comprovando que deixou de comprar de determinadas empresas. Ou pedir para que a Receita Federal do Brasil torne público o relacionamento comercial entre desmatadores e o capital.

Para a Vale, esse tipo de mídia é bom e de graça. Ela não apresenta nada de novo e ainda ganha pontos através de um discurso de felicitações vindo de um ministro de Estado. Em um momento em que a empresa é pressionada pelo Incra e por movimentos sociais por ter invadido áreas de assentamentos para produzir níquel, o evento foi lucro. Pago por todos nós, que bancamos o salário do ministro Minc.

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Trabalho escravo: pauta para o próximo prefeito de SP

(Evito, ao máximo, esses textos longos. Mas esse vale a pena.)

Os preços baixos de roupas em ruas de comércio paulistanas como a José Paulino ou a Oriente, que tanto atraem os consumidores do varejo e do atacado, muitas vezes são obtidos através da redução dos custos no processo de produção. A maior parte dos funcionários utilizados na confecção dessas roupas é composta por imigrantes latino-americanos em situação ilegal no Brasil. Bolivianos, paraguaios, peruanos, chilenos formam um verdadeiro exército de mão-de-obra barata e abundante em São Paulo. Saem de seus países de origem em busca de uma vida melhor em solo brasileiro, fugindo da miséria. Das comunidades latino-americanas na capital paulista, os bolivianos destacam-se por constituir a mais numerosa. Além disso, encontram-se nas situações mais graves de exploração e degradação do trabalho humano.

Para buscar soluções para essa situação, medidas estão sendo avaliadas por entidades da sociedade civil e governo federal, mas não com a celeridade necessária. A própria Câmara dos Vereadores chegou a instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o trabalho escravo no município – predominantemente formado por imigrantes ilegais.

As autoridades brasileiras não têm números precisos que permitam quantificar esses trabalhadores. O Centro Pastoral do Migrante – entidade ligada à Igreja Católica que fornece apoio aos imigrantes no país e que é considerada uma das maiores especialistas no tema – já chegou a estimar que existissem, na capital paulista, de 600 mil a 700 mil latino-americanos, dos quais 40% em situação irregular.

A situação socioeconômica na Bolívia hoje é delicada. O país possui os piores indicadores sociais da América do Sul. Em busca de melhores condições de vida, os bolivianos entram no território brasileiro através de cinco portas principais: Corumbá (Mato Grosso do Sul), Cáceres (Mato Grosso), Foz do Iguaçú (Paraná), Guajará-Mirim (Rondônia, por via fluvial) e Manaus (Amazonas, por via fluvial). Aqueles que não conseguem cruzar a fronteira por meios legais – porque não têm documentos ou não querem ou não podem pagar pelo visto – têm de desviar da fiscalização da Polícia Federal. Uma opção é seguir até o Paraguai e aguardar nos chamados “ninhos”. Nestes pequenos apartamentos, em que os coiotes colocam até 40 imigrantes, os bolivianos esperam o momento de poder atravessar a fronteira. Em alguns, a superlotação é tão grande que fica impossível deitar-se para descansar. A situação de higiene também não é das melhores, com um único banheiro atendendo a todos, que chegam a ficar o dia inteiro sem água e comida.

Para atravessar a fronteira do Paraguai com o Brasil em Cidade do Leste/Foz do Iguaçu, a estratégia dos gatos é esperar o momento em que os policiais federais não estejam checando a documentação de todos (o que ocorre quando há muita gente trafegando pela Ponte da Amizade, que liga os dois países, e os policiais não dão conta da tarefa). Do lado brasileiro, um ônibus espera os bolivianos aliciados para levá-los a São Paulo.

Muitas oficinas estão instaladas em porões ou locais escondidos, pois a maior parte delas é ilegal, sem permissão para funcionar. E para que suspeitas não sejam levantadas pelos vizinhos, que acabariam alertando a polícia, as máquinas funcionam em lugares fechados, onde o ar não circula e a luz do dia não entra. Para camuflar o barulho das máquinas, música boliviana toca o tempo todo. Os cômodos são divididos por paredes de compensado. Essa é uma estratégia para que os trabalhadores fiquem virados para a parede, sem condições de ver e relacionar-se com o companheiro que trabalha ao lado – o que poderia resultar em mobilização e reivindicação por melhores condições.

Em muitos casos, o dono da firma, quando se ausenta, tranca a porta pelo lado de fora, para que ninguém entre ou saia do recinto. Além disso, os locais não oferecem as mínimas condições de segurança e higiene: a fiação é exposta e traz riscos de choques e incêndios. O valor das três refeições diárias – café da manhã, almoço e jantar, com duração de cerca de 20 minutos cada uma – é descontado do saldo a receber, assim como água, luz e moradia.

Outro ponto que alimenta a manutenção do sistema é a coerção psicológica a que são submetidos os bolivianos. Por estarem, a grande maioria, em situação ilegal no país, sofrem ameaças por parte dos patrões de que, se tentarem fugir ou reclamarem daquela situação degradante, serão denunciados à Polícia Federal. Os patrões adotam ainda uma outra prática que contribui para manter o trabalhador sob seu domínio. Logo no primeiro dia de trabalho, o dono da oficina recolhe os documentos dos imigrantes e os guarda em seu poder. A prática de retenção de documentos é largamente utilizada entre os fazendeiros da região de fronteira agrícola.

Todas as medidas preventivas passam por encontrar alternativas de tratamento legal aos imigrantes latino-americanos que vivem no Estado de São Paulo. Há algumas possibilidades, que envolvem mudanças no Estatuto do Estrangeiro e a legalização do trabalho do imigrante. Outras incluem uma espécie de anistia às pequenas oficinas de costura, para que elas possam se legalizar e a seus funcionários. A partir daí, seria possível fazer um acompanhamento da situação.

Parte do processo de combate ao trabalho escravo rural no Brasil tem passado por uma ação de conscientização junto aos consumidores e pressão sobre a cadeia produtiva. No caso dos imigrantes latino-americanos, não é diferente. Ações vêm sendo tomadas junto a grandes empresas como C&A, Marisa e Renner para verificar a situação de seus fornecedores, evitando assim financiar essa forma de exploração.

O Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815, de 19 de agosto de 1980) veda aos estrangeiros com visto de turista, temporário ou de trânsito, o exercício de qualquer atividade remunerada. Exceção é feita quando o estrangeiro tem uma comprovação da entidade que o contratou. Como este não é o caso dos imigrantes latino-americanos que vêm trabalhar ilegalmente nas oficinas de costura em São Paulo, o trabalho deles é considerado, pela legislação brasileira, ilícito, ilegal. Dessa forma, não recebem qualquer direito trabalhista e dificilmente podem reivindicar algo quando são libertados. Os Ministérios do Trabalho, da Justiça e das Relações Exteriores pretendem modificar o Estatuto e dar mais direitos a esses trabalhadores. O que é importante, mas não suficiente. A regularização é cara e deixa muitos deles nas mãos dos donos de oficinas.

A solução passa por algo mais sistêmico. Como disse em outro post, é mais fácil ouvir nossos governantes pregarem a integração econômica do que a livre circulação de pessoas e o trabalho livre em qualquer lugar por qualquer cidadão do Mercosul, por exemplo. Queremos menos barreiras tarifárias, mas deixamos as barreiras sociais intactas.

Os bolivianos não vem para cá atrás das belezas naturais de São Paulo, mas sim de oportunidades de vida melhores, fugindo da miséria. Miséria da qual, muitas vezes, somos co-responsáveis por explorar terra, trabalho e recursos naturais lá. Guardadas as proporções, é a mesma coisa que o pessoal do hemisfério norte faz com a gente aqui. Reclamamos dos estrangeiros operando no Brasil, porém, quando alguém na Bolívia ou no Paraguai pensa em rever contratos para tornar menos dolorosa a exploração, a opinião pública daqui brada aos quatro ventos o absurdo que é essa ousadia. Repensar o livre trânsito de trabalhadores é uma saída radical, mas que pode dar humanidade a essa discussão.

O próximo prefeito da cidade terá um papel importante para tentar trazer à tona dezenas de milhares de imigrantes que vivem abaixo da linha da dignidade por não serem considerados brasileiros. Quem circula pelo centro da cidade percebe que os rostos indígenas já fazem parte da paisagem e o quéchua e o aymará já são ouvidos nas ruas, nas rádios (que sistematicamente são fechadas pela Polícia Federal sob a pecha de “piratas”), nas feiras. Os jovens bolivianos, muitas vezes sem acesso aos serviços básicos que outros paulistanos dispõem, juntam-se em gangues para reafirmar sua identidade e se proteger do mundo e de todos.

Assunto do governo federal? Sim, mas o município tem uma grande parcela de responsabilidade. Até porque não me lembro de nenhum governante da cidade reclamar dos impostos gerados pelo setor têxtil do Bom Retiro e do Brás, que têm exploração de imigrantes em suas cadeias produtivas… A implantação de centros de atendimento social e jurídico e de centros de atendimento ao trabalhador imigrante já seria um bom caminho, desde que dessem apoio e que nunca fossem usados como portas de deportação. Impedir o funcionamento das oficinas ilegais seria outro – e a prefeitura tem poderes para tanto, uma vez que poucas delas têm autorização para funcionar. Pode-se até em pensar em alguma lei que revogue a licença de funcionamento de empresas que se beneficiam, mesmo que indiretamente, de produtos têxteis feitos com essa mão-de-obra. Acima de tudo, não tratar o tema como um caso “de polícia”, mas de um problema social – que nós mesmos ajudamos a causar.

Afinal, qual o conceito de “paulistano”? A história da nossa cidade é uma história de migrações, de acolher gente de todos os cantos do mundo e do país. Não tão bem, é claro, pois somos a maior cidade nordestina fora do Nordeste e, ao mesmo tempo, ostentamos um preconceito raivoso. Mas não faz sentido que viremos às costas aos que vêm de fora e adotam São Paulo, mesmo que a contragosto. Eles são tão paulistanos quanto eu e você, trabalham pelo desenvolvimento da cidade, mas passam invisíveis aos olhos da administração da cidade e do resto de nós.

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Empresa de cana é excluída de Pacto contra Trabalho Escravo

O Comitê de Monitoramento do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo excluiu, hoje, o Grupo José Pessoa do rol de signatários. A razão foram os flagrantes do governo federal que encontraram graves problemas trabalhistas em empresas do grupo.

O Pacto Nacional tem como missão envolver e dar subsídios para que o setor empresarial e a sociedade civil atuem no combate a esse crime contra os direitos humanos. Hoje, ele congrega mais de 160 empresas e associações, cujo faturamento equivale a mais de 20% do PIB.

NOTA PÚBLICA

O Comitê de Monitoramento do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo comunica que estão excluídos em caráter definitivo da lista de signatários as empresas Agriholding, Agrisul Agrícola Ltda, Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool, Debrasa e Jotapar, ligadas ao Grupo José Pessoa. Em dois momentos distintos, operações de fiscalização do governo federal encontraram condições em áreas de responsabilidade do grupo que não condizem com os preceitos defendidos pelos signatários do Pacto Nacional.

No dia 13 de novembro de 2007, a equipe móvel de fiscalização formada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal encontrou 1.011 trabalhadores, a maior parte deles indígenas, em condições degradantes de serviço na fazenda e usina de cana-de-açúcar Debrasa, unidade da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), em Brasilândia (MS).

O Comitê de Monitoramento solicitou aos controladores da CBAA explicações sobre o ocorrido. Na resposta, o presidente do grupo, José Pessoa de Queiroz Bisneto, afirmou que os problemas encontrados nas condições de alojamento haviam sido corrigidos, reclamou da atuação da mídia no caso, acusou a operação de fiscalização de buscar o espetáculo e disse que a empresa é a maior empregadora de mão-de-obra indígena do Mato Grosso do Sul. As colocações foram consideradas insatisfatórias frente às provas reunidas pelo grupo móvel de fiscalização e as empresas que fazem parte do Grupo José Pessoa foram suspensas do Pacto Nacional.

Mesmo assim, a empresa veio novamente a incidir em grave delito.
Entre os dias 03 e 14 de junho de 2008, 55 trabalhadores foram resgatados no município de Icém (SP) na Usina Agrisul. A usina faz parte da CBAA, empresa que, cumpre reafirmar, integra o Grupo José Pessoa.

Neste último caso, fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego constataram servidão por dívida. Diligência autorizada pela Justiça encontrou documentos pessoais de trabalhadores que atuavam na Agrisul retidos numa mercearia da região. De acordo com o governo, o grupo resgatado foi vítima de aliciamento ilegal por empresas terceirizadas. Foram transportados de forma clandestina do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, para as proximidades da usina. Vieram para trabalhar no corte de cana-de-açúcar em abril e foram arregimentados por um intermediário de mão-de-obra, funcionário de uma das subcontratadas da Agrisul. No início da empreitada, conforme relatos obtidos pela fiscalização, foram submetidos a condições degradantes: dormiram no chão e passaram fome.

Novamente, o Comitê de Monitoramento do Pacto Nacional solicitou aos controladores da CBAA explicações sobre o ocorrido. Na resposta, enviada no dia 27 de junho do presente, a empresa afirmou que “repudia com veemência a prática do trabalho em condições análogas à escravidão, quer por aliciamento de mão-de-obra, quer por condições degradantes no meio ambiente do trabalho e, principalmente, decorrente de servidão por dívidas”. Disse, ainda, que desconhecia que parte de seus trabalhadores estava presa a dívidas em estabelecimentos comerciais nos quais realizavam compras de mantimentos. Segundo a CBAA, a empresa não possui relacionamentos com esses supermercados e mercearias, além de ter efetuado o “desligamento dos funcionários como medida de imposição da fiscalização”.

Por fim, a CBAA reiterou “apoio às ações fiscalizadoras, plenamente justificáveis enquanto política pública de combate ao trabalho análogo à escravidão, reforçando que empregará todos os esforços e medidas possíveis de modo a esclarecer a verdade dos fatos decorrentes dessa fiscalização”.

A justificativa fornecida pela Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool foi, mais uma vez, considerada insatisfatória frente às provas reunidas pelo grupo móvel de fiscalização.

O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo tem como missão envolver e dar subsídios para que o setor empresarial e a sociedade civil atuem no combate a esse crime contra os direitos humanos. Hoje, ele congrega mais de 160 empresas e associações, cujo faturamento equivale a mais de 20% do Produto Interno Bruto Nacional.

Após deliberação do Comitê de Monitoramento do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que tem o objetivo de zelar pelo cumprimento desse acordo, decidiu-se por excluir em definitivo as empresas que fazem parte do Grupo José Pessoa.

Atenciosamente,

COMITÊ DE MONITORAMENTO DO PACTO NACIONAL
PELA ERRADICAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO

Instituto Ethos
ONG Repórter Brasil
Organização Internacional do Trabalho

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Em 2008, pecuária responde por 58% dos casos de escravidão

A Comissão Pastoral da Terra divulgou dados que mostram que a pecuária ainda é a atividade econômica com maior ocorrência de trabalho escravo no Brasil, ostentando a maioria de produtores e propriedades flagrados com esse crime. O que confirma que o problema é mais presente nesse setor do que em qualquer outro. Neste ano, 58% dos casos fiscalizados, ou seja, número de fazendas verificadas com esse tipo de crime, estão na pecuária. A cana ficou com 8% do total.

Essa cultura, por demandar grande quantidade de força de trabalho e reunir centenas de braços de uma só vez nas colheitas, aparece com mais libertados da escravidão. Em 2008, até agora, 47% do total de escravos estava na cana, enquanto que 23% na pecuária. E é graças a cana que o Estado de Goiás se encontra em primeiro lugar em número de libertados neste ano, com 861 de um total de 2.468 pessoas retiradas da condição de escravos.

Segundo a CPT, de 1995 até hoje, 30.971 ganharam a liberdade em operações do governo. O Pará continua no primeiro lugar geral, com 10.571, seguido pelo Mato Grosso com 4.876.

Para ver as estatísticas completas da CPT, clique aqui.

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Sigam os bois de Dantas

Daniel Dantas possui mais de meio milhão de cabeças de gado. A Agropecuária Santa Bárbara, sob seu controle, mantém a maior parte das suas operações no Sul do Pará.

A região é conhecida pela violência contra os trabalhadores rurais, camponeses e indígenas, pela grilagem de terras, pelo trabalho escravo e pelo desmatamento ilegal. Não é todo mundo que vive à sombra da lei, é claro. Mas a grande incidência de crimes faz com que a luz de alerta permaneça constantemente acesa.

Dantas foi preso ontem, junto com outros cidadãos ilustres como Celso Pitta e Naji Nahas, acusado de uma série de crimes, entre eles lavagem de dinheiro. Qualquer passarinho que voa a Amazônia e o interior paulista sabe que uma das formas mais usadas para lavar dinheiro é através da compra e venda de gado. Renan Calheiros que o diga… Há muitos mugidos nas denúncias contra a lavanderia de Dantas.

E pelo o que corre no Sul do Pará, os problemas por aquelas terras não estão apenas restritos ao lavar mais branco possível. Até agora, só a ponta do capim apareceu. Muita coisa vai rolar.

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Viva Maria da Penha!

Em 1983, o ex-marido de Maria da Penha – o covarde Marco Antônio Herredia Viveiros – atirou nas costas da esposa e depois tentou eletrocultá-la. Não conseguiu matá-la, mas a deixou paraplégica. Muitos anos de impunidade depois, ele pegou seis anos de prisão, mas ficou pouco tempo atrás das grades.

A sua busca por justiça tornou-a símbolo da luta contra a violência doméstica. Em agosto de 2006, foi sancionada a lei 11.340, a Lei Maria da Penha, para ajudar no combate à violência doméstica. Ainda assim, há juízes e policiais que cismam em não aplicá-la, arquivando casos e deixando a justiça naufragar em nossa sociedade patriarcal e machista. Hoje, Maria da Penha recebeu R$ 60 mil do governo do Ceará devido a uma condenação de 2001 da Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). Não alivia o que teve que enfrentar, mas faz com que a responsabilização do Estado fique cada vez mais clara.

Enquanto isso, passo na rua e ouço um grupo de marmanjos cantando que um “tapinha não dói”. É por essas e por outras que, às vezes, me bate uma vergonha de ser homem e de tudo o que isso representa.

O que me lembra um velho e sábio ditado feminista: todo o homem é inimigo, a menos que tenha sido educado para o contrário.

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Incra entra com processo contra empresa da Vale

Nota divulgada, hoje, pelos escritórios da Comissão Pastoral da Terra de Xinguara, Tucumã e Marabá, no Estado do Pará:

A Procuradoria do Incra de Brasília ingressou com uma Ação Civil Pública na Justiça Federal de Marabá, contra a Mineração Onça Puma Ltda (MOP), empresa do Grupo Vale, em 18 de junho. A companhia tem um projeto de exploração de níquel, em fase avançada de implantação, em áreas incidentes sobre os Projetos de Assentamento Tucumã e Campos Altos, nos Municípios de Ourilândia do Norte, Tucumã e São Felix do Xingu, Sul do Pará.

O Incra pediu ao Juiz Federal que seja imediatamente suspensa toda e qualquer atividade da Mineração Onça Puma que prejudique o meio ambiente e à reforma agrária, retirando-se todo maquinário destinado à extração mineral que provoque algum tipo de poluição ambiental e que finalmente sejam reestruturados os Projetos de Assentamento, voltando ao estado em que se encontravam antes da chegada da Mineradora, com produção agropecuária, funcionamento das escolas, postos de saúde e transporte coletivo.

Atendendo a pedido do Incra, o Juiz deve anular a compra irregular dos lotes dos assentados, feita pela Empresa e fixar indenização em favor do órgão, pelos prejuízos sofridos em relação ao valor da terra nua, benfeitorias e créditos concedidos aos assentados que venderam suas parcelas.

Ressalta-se a grande importância desta iniciativa do Incra em impetrar esta Ação Civil Pública contra a Vale, que tem cometido uma série de irregularidades na área, desestruturando dois importantes Projetos de Assentamento no Sul do Pará, e prejudicando a vida de muitas famílias pobres, que estavam indefesas e totalmente à mercê do poderio econômico da Mineradora.

A Comissão Pastoral da Terra foi a primeira a denunciar os desmandos da Vale no Projeto Onça Puma, por meio de uma Representação proposta junto ao Ministério Público Federal de Marabá, em 16 de abril de 2008, e posterior divulgação na imprensa.

Assim, espera-se que a Justiça Federal tome uma decisão firme de preservação do patrimônio publico e do bem ambiental, determinando a necessária suspensão das atividades nocivas ao meio ambiente, à reforma agrária e à coletividade. Da mesma forma espera-se que o Presidente do Incra, prudentemente, aguarde a decisão da Justiça antes de pronunciar-se sobre o pedido da Mineradora de desafetação da área.

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Ausência

Gostaria de pedir desculpas aos leitores pela ausência nos últimos dias. Questões de saúde, problemas de quem faz muito esforço repetitivo no trabalho. Mas coisa leve se comparada com duas malárias, dengue, pericardite e o monte de perebas que peguei viajando por aí. Vaso ruim não quebra fácil.

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Espanhóis maltratam brasileiros, que maltratam bolivianos

Os imigrantes são maltratados e considerados cidadãos de segunda categoria. Quando ilegais, apesar de trabalharem duro para o crescimento do país, são presos e deportados quando encontrados pela polícia. Passam por todo o tipo de preconceito racial, religioso, lingüístico. E enquanto devolve imigrantes, o país e suas empresas exploram os recursos naturais e a mão-de-obra do país de origem dos imigrados, ganhando muito dinheiro com isso e não trazendo desenvolvimento sustentável.

Poderia estar falando dos Estados Unidos e da União Européia, que implantam novas regras de imigração, tornando lei o preconceito que já impera nas fronteiras secas, nos portos e aeroportos. Mas também poderia estar falando do tratamento que o Brasil dá aos trabalhadores dos países vizinhos que vêm tentar a sorte por aqui – como é o caso de bolivianos submetidos a condições degradantes no Centro de São Paulo. Ou o tratamento que o capital tupiniquim que cruza a fronteira dispensa aos trabalhadores locais – como nas fazendas de soja de brasileiros no Paraguai.

Somos imperialistas e preconceituosos, mas diante do preconceito vindo de outras nações, acabamos esquecendo nosso próprio. Viramos as costas para a América Latina e a África, apesar de dividirmos uma mesma história de colonização com eles.

É mais fácil ouvir o governo federal pregar a integração econômica do que a livre circulação de pessoas e o trabalho livre em qualquer lugar por qualquer cidadão do Mercosul, por exemplo. Queremos menos barreiras tarifárias, mas deixamos as barreiras sociais intactas.

Os bolivianos não vem para cá atrás das belezas naturais de São Paulo, mas sim de oportunidades de vida melhores, fugindo da miséria. Miséria da qual, muitas vezes, somos co-responsáveis por explorar terra, trabalho e recursos naturais lá. Guardadas as proporções, é a mesma coisa que o pessoal do hemisfério norte faz com a gente aqui. Reclamamos dos estrangeiros operando no Brasil, porém, quando alguém na Bolívia ou no Paraguai pensa em rever contratos para tornar menos dolorosa a exploração, a opinião pública daqui brada aos quatro ventos o absurdo que é essa ousadia.

Ousadia, que leio como coragem de lutar por seus direitos sociais, que eles têm e nós não.

Adoraria que o Brasil desse um exemplo aos países do Norte, derrubando os muros que criam cidadãos de primeira e segunda classe por aqui, possibilitando o livre trânsito de trabalhadores. Não sou ingênuo de ignorar os impactos que isso traria. Mas, certamente, a partir disso os encarregados de nossoas relações internacionais dariam mais atenção ao desenvolvimento social de nossos países vizinhos. Nosso destino está ligado ao deles, quer a nossa elite queira ou não.

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