Roger Agnelli, da Vale, quer acabar com a pobreza
Ontem o presidente da Vale (do Rio Doce), Roger Agnelli, escreveu um artigo no jornal Folha de S. Paulo sob o título “A melhor forma de enfrentar o desmatamento é investir em educação, em saúde e na geração de oportunidades”.
Aproveitou as informações divulgadas recentemente pelo Ibama, que mostravam que os assentamentos do Incra estão na frente na lista dos maiores desmatadores, para cutucar um dos maiores inimigos da empresa: os trabalhadores rurais sem-terra. Não vou entrar no mérito desse cálculo (será que se juntássemos todas as terras de algumas famílias de sojicultores e pecuaristas do Norte do Mato Grosso, como o Ibama fez ao juntar os lotes de assentados, o número não seria absurdamente maior?…) Prefiro pinçar a tentativa de Agnelli de dobrar a realidade para se encaixar ao seu argumento.
Escreveu ele: “Não devemos perder tempo com discussões sobre a importância da reforma agrária. É necessário levarmos novos processos para os assentamentos e ajudar a banir de lá a pobreza, que, desumana, flagela homens, mulheres e crianças. É hora de promover a inclusão social dos assentados, porque, no fim das contas, o maior inimigo do ambiente é a miséria.”
Bonito. Mas o que ele não diz é que a imensa maioria das terras na Amazônia está na mão de grandes proprietários, que produzem gado, soja, algodão, milho para exportação e para o mercado interno. E, são eles, na quantidade total de hectares, que mais desmatam. O que ele também não diz é que os posseiros da região ainda são expulsos de suas terras para dar lugar aos latifúndios. Ou que a própria Vale comprou ilegalmente propriedades de assentados para garantir sua produção mineral. Ou seja, quando ele diz “banir de lá a pobreza” ele quer dizer isso literalmente, afastando os “impedimentos” para exploração do minério.
O maior inimigo do meio ambiente é o desenvolvimento predatório praticado pelo grande capital, que leva a riqueza a alguns e a miséria a muitos. A miséria, portanto, não é causa, mas conseqüência do desrespeito às terras e suas gentes. Em outros tempos, chamaríamos isso de “acumulação primitiva do capital”: aquela pilhagem de recursos naturais e de força de trabalho que acontece quando empreendimentos estão sendo implantados ou em expansão. Como na fronteira agrícola da Amazônia e do Cerrado brasileiros. Porém, hoje, chamamos isso de “aumento da capacidade produtiva”.
Não vou me adentrar nessa seara. Quem segue este blog há um tempo, sabe que já escrevi sobre isso antes. Mas é que as pessoas estão, cada vez mais, perdendo o pudor.
