Blog do Sakamoto

As vendas crescem e precisamos cortar direitos?

As vendas neste Natal cresceram em comparação às do ano passado, mas foram em um ritmo menor do que o esperado. Em outras palavras, em um embalo mais fraco do que a expressiva toada de crescimento vivenciada em 2007 e em boa parte de 2008. De acordo com a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), as vendas em dezembro cresceram 3,5% em comparação com o mesmo mês do ano passado.

Dois comentários: primeiro, reflexos da crise já se fazem sentir no comércio, nem tanto pela falta de dinheiro em si no bolso, mas pela cautela do consumidor em gastar. Bombardeado com tanta notícia ruim é claro que a percepção de crise no cidadão comum seja maior do que os efeitos da própria, apesar do apocalipse não estar tão perto quanto a mídia e os “especialistas” alardeiam por aqui. Segundo, mesmo com tudo isso, as pessoas foram às compras. Não vou computar isso na conta do presidente, dizendo que milhões atenderam ao seu pedido de consumir para fortalecer o mercado interno e espantar a crise, mas é fato que ele apostou e teve sucesso.

De qualquer maneira, 3,5%, em um cenário internacional tão sinistro, é uma boa notícia. Apesar disso, os “especialistas” (vai entre aspas porque minha cachorra cega e surda de 17 anos acerta mais previsões de cenários do que eles. Aliás, eu deixaria meu fundo de investimento – se tivesse um – na pata dela e não na mão de muitos deles, mas isso é uma outra história) tratam esse crescimento como uma má notícia.

Quando interessa, aparecem comparações com a situação atual em economias pelo mundo. Quando não interessa eles fecham a comparação considerando a situação interna brasileira ao longo do tempo? O ano passado e o primeiro semestre deste foram excepcionais, economicamente falando. Crescer 3,5% é bastante, tendo em vista a situação e a base de comparação.

Ouvi uma entrevista no rádio de Nabil Sahytoun, presidente da Alshop, dizendo que eles esperavam o dobro desse crescimento em vendas e explicando como foi o Natal dos lojistas. Preocupado, quer a flexibilização dos direitos trabalhistas para que o comércio possa agüentar a fase difícil que se aproxima e não demitir. Culpa encargos como o FGTS e o INSS pagos mensalmente, taxando-os como entraves. Pede que o governo reflita sobre isso e diz que vai atuar para as mudanças necessárias.

Não acho que seja fácil para micro e pequenas empresas, com baixos lucros, arcarem com todos os impostos e tributos. Mas eles fazem parte da regra do jogo, da mesma forma que o direito ao lucro em uma sociedade capitalista também é, e são importantes para garantir qualidade de vida para o empregado, seja através da criação de uma poupança própria que lhe dê perspectivas no futuro e uma garantia maior em caso de demissão, seja pela manutenção de um sistema público de seguridade social. Que se mostra cada vez mais necessário em um mundo em que os sistemas privados de previdência, antes vistos como a alternativa, vão mostrando que são frágeis. Um empregado com qualidade de vida melhor rende mais e trabalha melhor. Há um retorno em produtividade que vai além dos cálculos de economia mensal.

Quanto às grandes empresas, não preciso nem dizer que muita gente entupiu os bolsos de dinheiro nos últimos anos, nadando de braçada. E agora os mesmos vêm chorar para o governo, dizendo que não têm condições de se manter? Façam-me um favor! Entre 2006 e 2007, as vendas de Natal em shoppings cresceram mais de 10%. E essa bonança toda, que, por exemplo, refletiu-se na construção de dezenas de novos shoppings neste ano, foi para onde?

E nem estou entrando no mérito de que são direitos conquistados com base em sangue e suor ao longo de décadas de lutas trabalhistas.

Ninguém nega que tempos difíceis virão, mas a situação deve ser tratada analisando-se caso a caso, dando espaço para negociações entre patrões, empregados e sindicatos, tentando atravessar esse período da melhor forma possível. E não aproveitar as nuvens negras que se avizinham no horizonte para aprovar em toque de caixa uma série de medidas que, há anos, estava no bolso de parte do empresariado para aumentar a lucratividade. Medidas que vão apenas manter o abismo de desigualdade.

No começo de outubro, o discurso era de “precisamos cortar custos trabalhistas porque senão iremos falir” (que, em muitos casos, era uma falácia). Depois, foi o “precisamos cortar custos trabalhistas para enfrentar esse período de turbulência internacional” (mantendo o lucro obtido até aqui intocado, é claro). O que ouvi no rádio vai na mesma linha, a do “temos que cortar direitos, senão iremos lucrar, mas menos do que gostaríamos”. Não que o discurso de alguns empresários tenha se aprofundado nesse sentido. Mas nada como uma crise para dar um banho de sinceridade no significado das coisas.

Qual vai ser o próximo? É preciso cortar direitos porque…porque…porque sim, ora!

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Comentários

20 Responses to “As vendas crescem e precisamos cortar direitos?”

  1. Diego Alves disse:

    Querem colocar o prejuízo deles nas nossas costas, será que quando voltarem a ter lucro, digo lucro exorbitante uma vez que nunca pararam de lucrar, e isso vai acontecer já no próximo semestre, vão dividí-lo conosco?

  2. jacinto disse:

    pra espantar essa crise e so o presidente mandar o povo comprar fiado e prometer se tivesse algum problema no pagamento ele dar uma anistia para as dividas sai mais baroto do que ele dar dinheiro pra bnqueiros

  3. alberto disse:

    Parabéns pelo artigo. Os predadores nunca estão satisfeitos. Na atual crise mundial, provocada pela ganância, não soube de nenhuma das grandes empresas, que advogam a supressão do Estado, se manifestar (colocar a mão no bolso) para minimizar o golpe .Em contrapartida vimos todos governantes tentando consertar a “obra prima” resultante da liberdade excessiva que foi concedida à esses sofistas/falaciosos.

  4. Elton dos Santos Gregory disse:

    Artigo de excelente qualidade e muito bem embasado, de fácil compreensão. É sabido que os empresários faz tempo, querem modificações na CLT, que por sinal está muito defasada, porém ainda é o único ponto de segurança ao trabalhador da iniciativa privado, pois aos públicos, tudo e sem redução alguma, só o crescimento dos já gordos vencimentos e vantagens. Os empresários de grande porte, quando se apertam, suplicam ajuda governamental, mas quando estão com folga de caixa e de faturamento alto, não se lembram de devolverem ou de distribuírem aos que suaram para que isso acontecesse.

  5. Antônio Eugênio disse:

    A flexibilização de direitos trabalhistas tem sentido em uma situação: as contratações de serviços domésticos.
    Antigamente havia a figura do autônomo, que pagava seu próprio INPS para ter direito a aposentadoria, “encosto” e atendimento médico.
    Com o advento do SUS e LOAS, além do aumento da alíquota, não existe mais o autônomo.
    Assim, quem faz uma obra em casa, ou contrata um contador para fichar os trabalhadores ou uma construtora com patrimônio, pois se o trabalhador entra na justiça do trabalho, sobra para o dono do imóvel, mesmo que tenha pago o combinado.

    É bom lembrar, donos de imóveis também são trabalhadores.

  6. Evandro disse:

    Essa conversa de cortar direitos trabalhistas começou com aquele executivo da Vale(se não me engana chama-se Agnelli)que está lamentando o prejuízo da empresa,que aliás compraram a preço irrisório do governo,lucraram muito nos últimos anos e sequer repartiram parte dos lucros com os seus colaboradores,e agora ele e os demais(empresário,comerciantes e até economistas)que pegaram carona na onda “DIREITOS TARABALHISTAS CORTADOS JÁ” querem repartir o prejuízo com seu colaboradores.

  7. Arnoldo Furtado disse:

    E o nosso lendo e maravilhoso sistema capitalista de plantão, o seja, o lucro da minoria tem que está acima dos direito da maioria. Eles já desrespeitam as leis trabalhista de algum modo “posso dizer isso por experiência própria por ter visto em uma empresa que eu trabalhava, em torno de 10 horas semanais e ainda obrigava a trabalhar o sábado a mesma carga horaria da semana, na bonança,” imagina sem leis trabalhista para defender o trabalhador.

  8. Concordo em parte com o artigo sobre o aumento de vendas no Natal e a choradeira de comerciantes, lojistas, industrias e outros xororos que estão aparecendo nessa crise; no entanto devo dizer que em muitas situações o aumento de crédito para o consumidor é uma perigosa armadilha para a econômia, os custos encarecem junto com os juros, acaba faltando mercadoria para tanto dinheiro na praça, vem o agio e os aproveitadores principalmente nos bens de alto valor agregado; torço para que esta crise retire de circulação os especuladores e os oportunistas de plantão, cujo deus é o dinheiro.alheio!

  9. se encargos trabalhistas, impostos fossem o impecilho para se pagar melhores salarios e criar mais vagas de emprego , então os mexicanos eram pra ser os trabalhadores mais bem pagos do mundo , e no MEXICO era para estar um caos de tantas vagas de emprego e no entanto male ,male eles tem alguns dias de ferias e um salario ridiculo

  10. Alex disse:

    É muita ingenuidade falar que não há crise no Brasil. Em Sete Lagoas (MG), todas as siderúrgicas estão paradas, demitindo muitos trabalhadores. A Gerdau em Divinópolis (MG) está completamente parada com férias coletivas. A Fiat em Betim (MG) já parou um turno. E você diz que não tem crise?….aí é d+

  11. Otto Lima disse:

    Essa é a velha lógica liberal: privatizar lucros e socializar prejuízos…

  12. zenobio disse:

    Muitas vezes ja aqui falei pro Lula dispensar essa dupla que comanda a economia. Inflação de demanda, pois sim.

  13. Luis disse:

    Precisamos de reforma da leis trabalhista,não sob otica da crise,
    do casuismo,oportunismo…….
    Inserir no contesto da atualidade,desbocratização e equilibrio .
    Leis transparente,objetiva ,que incitiva do setor privado a empre-
    gar e ser trabalhador deste.Nao se pode admitir uma relação ruim para ambas as partes.Onde o trabalhador recebe pouco e
    custo caro ao empregador. O trabalhador bem renumerado, sa-tisfeito,motivado é garantia de consumo e novos empregos.

  14. gilberto disse:

    Esses imbecis não se satisfazem com um lucro e crescimento pequeno,mas seguro.Querem lucrar cada vez mais e se possível passando por cima de tudo e de todos.Deram com os burros n’agua, agora falam em reduzir diretos trabalhistas de quem já não tem quase nenhum…Era só o que faltava.

  15. Valdemar Lopes Herbstrith disse:

    Essa questão de flexibiliar direitos trabalhistas é conversa de BURGUÊS. Após a Emenda 45, art. 114, § 2º a desgraça dos trabalhadores está na Constituição. Os burgueses não aparecem nas reuniões de negociações para após pedir arquiivamento no TST por falta de condições de ação (comum acordo) e estão ganhando todas. Podem apostar que em pouco tempo os movimentos sindicais não irão só apontar greves gerais mas, também, ocupação dos principais pontos de energia e transporte do país. Aí sim iremos debater com a burguesia flexibilzar lucros, buscar melhores salários, condições de trabalho, jornada de 40 horas e outros.

  16. Susana Resende da Silva disse:

    Essa insistência dos “empreendedores” em responsabilizar as custas com empregados pela consante insatisfação com sua margem de lucro é de uma ausência de criatividade, seguramente a mesma que falta para uma gestão capaz de fazer diferença no crescimento sócio-econômico do país, que é o seu papel, ao invés de gastar a máquina pública em conspiração aos seus COLABORADORES, designação dada por eles mesmos.

  17. Robson Sales disse:

    Os “analistas” do quanto pior melhor são tendenciosos, e como você disse, não tem critérios. O interessante pra eles é expor a pior versão. E o que será que eles ganham com isso?

  18. Emilio disse:

    Primeiro veio o FHC e acabou com os direitos dos trabalhadores. Agora o Lula continua a acabar com o restinho de direitos que sobraram. Só não acaba a farra dos corruptos

  19. Casa disse:

    Uma coisa é certa,enquanto perdurar este estado de coisas,continuaremos a sofrer das mesmas mazelas?
    Um país inteiro suando,para ver os nababos gozando!
    Você sem saúde.
    Seu filho sem educação.
    Sua familia sem segurança.
    Eles com saúde,educação e segurança que você está pagando.
    E ALIBARBUDO que você lá colocou,para propor á mudança não só ADERIU,como tratou de NÃO fazer nenhuma mudança.
    Servidor da Justiça é o mais caro entre os três Poderes
    O Judiciário tem o servidor mais caro entre os três poderes constituídos. Na média, a União pagou a ativos, aposentados e instituidores de pensão da Justiça brasileira, neste ano, R$ 13.999 por mês, 88,58% a mais do que em 2003, no primeiro ano de mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dados constam da mais recente edição do Boletim Estatístico de Pessoal, documento elaborado pela Secretaria de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento. O texto foi publicado em setembro, traz números fechados em agosto e calcula o custo médio por meio da divisão da despesa total de determinado poder pelo número de funcionários.

  20. Idney disse:

    Os direitos trabalhistas (principalmente os previdenciários) são a principal fonte de distribuição de renda do Brasil, maior inclusive do que os programas sociais.