Blog do Sakamoto

MST, Vale e uma publicidade fora de lugar

O jornal Folha de S. Paulo publicou, neste domingo, uma reportagem especial sobre os 25 anos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Que, gostando ou não, ainda é o principal movimento social do país. Portanto, conhecê-lo é importante e entendê-lo diz respeito ao Brasil queremos construir.

Mas achei muito inapropriado um anúncio gigante da mineradora Vale, discorrendo sobre responsabilidade social, ser publicado no meio dessa matéria nas páginas centrais do primeiro caderno. No meio mesmo: o anúncio aparece cercado pelo texto da reportagem, chamando mais atenção que a parte editorial.

Até as árvores da Amazônia sabem que a Vale adoraria ver o MST extinto e o MST sonha com a anulação da privatização da Vale. Ambos vivem em conflito no Pará devido aos impactos sociais e ambientais causados pela mineradora na região e as ações de protesto do movimento.

A Folha afirma que as decisões editoriais são independentes do setor de publicidade. Certamente, o pessoal da comunicação da Vale estava atento para os 25 anos do MST e planejou o anúncio. Mas ambos ocupando o mesmo espaço e de uma forma que a publicidade bate de frente com o conteúdo editorial é coincidência demais. Parece que o embate entre os discursos, que trata de dois projetos distintos de desenvolvimento, deixou o seu lugar correto e ganhou formato de guerra de informação. A empresa certamente pode pagar por ela, mas o jornal não deveria admitir.

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Tomar partido é preciso

O tema é complexo, então me perdoem as simplificações. As pessoas veem e sentem o mundo de formas diferentes. Cada um “filtra” o dia-a-dia da sua maneira e constrói diferentes realidades. Cada um possui preconceitos, medos, interesses pessoais que mudam a forma como entendemos e interpretamos as coisas. Duas pessoas que estão lado a lado vendo um mesmo fato podem não contar a mesma história.

A melhor forma de contar uma história é assistindo-a pessoalmente. Se for impossível isso, deve-se ouvir o maior número possível de pessoas que viram ou participaram do fato. Cada um vai dar sua versão, recheada de opiniões pessoais. Cada um vai contribuir com a reconstrução de uma realidade que passou. Com a sobreposição de versões é possível montar um retrato aproximado do fato. Quanto mais versões ouvidas, mais completo será o retrato.

Veículos de comunicação não são imparciais. Pertencentes a empresas, governos ou sociedade civil eles têm opiniões e interesses. O que não é ruim – ruim é esconder isso do leitor. Recentemente, o jornal The New York Times publicou um artigo de análise econômica e no rodapé, naquele espaço em que explicam quem é o autor, explicaram que alguns papéis tratados no texto poderiam ter relação com os papéis comercializados por um dos autores. Quando determinado jornal declara voto em um candidato logo no começo da campanha ajuda o leitor a entender o que vai ler. Pois, querendo ou não, isso vai influenciar muita coisa internamente.

O alinhamento automático de um jornalista com as opiniões do veículo e de seus proprietários, faz com que uma boa notícia morra antes mesmo de nascer. Tendo interiorizado as posições da empresa, repórteres, fotógrafos e – principalmente – editores aderem alegremente e passam a reproduzi-las. Agem de forma orquestrada, sem necessidade de serem orquestrados. Mas a manipulação não é a única forma de distorção dos fatos, por incrível que pareça. A preguiça e a incompetência de colegas de profissão diante do trabalho pode fazer estragos incacalculáveis.

Mesmo tendo o seu alinhamento, muitas empresas de mídia recomendam que seus empregados evitem alinhamento público com um dos lados de uma questão. Exigem uma atitude “profissional”. Porém, se a imparcialidade é impossível, não seria melhor ser sincero com o leitor e revelar seu “lado” na história ao mesmo tempo em que se abre espaço para ouvir o maior número possível de lados de uma questão?

Já cobri guerra e locais com conflitos armados. Sempre tentei ouvir ao máximo os dois lados da questão – no caso de Timor Leste, fiz mais de 70 entrevistas em dois meses de trabalho. Por isso, falo com todas as letras: não existe observador independente. Você vai influenciar aquela realidade e ser influenciado por ela. E vai tomar partido, como tomei e deixei claro ao leitor. Sei que há colegas de profissão que discordam, que dizem que é necessário buscar uma pretensa imparcialidade. O que só seria possível se nos despíssemos de toda a humanidade. Há quem tente ferozmente e ache bonito. Nessas situações tomei partido de quem estavam sofrendo graves violações de direitos humanos e não me arrependo.

Tomar partido se reflete na escolha da que pauta você vai fazer, sob a ótica de quem. Concordo com Robert Fisk, o lendário correspondente no Líbano do jornal inglês Independent, que diz que em situações de confronto, de limite, deve-se tomar opção pelos mais fracos. Ou, mais especificamente, dos empobrecidos e marginalizados, no que se refere à realidade política, econômica, social, cultural e ambiental do país.

Tomar partido não significa distorcer os fatos, pelo contrário, é trazer o que historicamente é jogado para baixo do tapete, agindo conscientemente no sentido de contrabalancear junto à opinião pública o peso dos lados envolvidos na questão. Distorcer é má fé, preguiça ou incompetência – coisa que muito jornalista que se diz imparcial faz aos montes, aplaudido por quem manda. Aqui ou lá.

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Redução de salário e de jornada: quem ganha com isso?

Por que as empresas passaram a defender a redução de jornada acompanhada de proporcional redução salarial? Algumas reflexões sobre isso talvez ajudem a melhorar o debate, focado demais nas consequencias da crise econômica global e menos na natureza do capital.

Os bilionários investimentos recebidos pelo setor sucroalcooleiro, de empresas e instituições financeiras nacionais e internacionais, têm incentivado o avanço dos canaviais em áreas já consolidadas, como São Paulo, e novas fronteiras no Centro-Oeste. A crise financeira internacional, que eclodiu no segundo semestre, deve atrasar uma série de novos projetos, mas não a ponto de reverter o ciclo de expansão. Tanto que a produção nacional de cana em 2008 avançou 13,9% em relação à safra passada e, no próximo ano, deve crescer mais 7,6% – dados da Consultoria Datagro.

Relatório que será lançado pelo Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da Repórter Brasil neste mês aponta que, apesar disso, a crise foi utilizada por empresas para justificar o aperto nas condições de remuneração no campo. Desde o final da década de 90, a remuneração pelo trabalho vinha acumulando pequenos aumentos reais quando comparada à evolução dos preços dos alimentos, mas essa tendência se inverteu em 2008. Os reajustes salariais obtidos durante as negociações raramente chegaram a dois dígitos, enquanto o preço da cesta básica avançou 16% (dados do Dieese). No Estado de São Paulo, onde estão concentradas 59,5% da produção de cana do país, a perda do poder de compra entre os trabalhadores incentivou greves, muitas vezes reprimidas com violência pela polícia e demissões pelas usinas. O ambiente nos canaviais tornou-se tão explosivo que sindicalistas lembraram os históricos protestos ocorridos na região de Guariba (SP), na década de 80.

Mas a insatisfação não é recente. Parte dos seguidos aumentos de produtividade do trabalhador, que reverte-se em ganhos para a empresa, tem sido apropriado pelo dono da fazenda ou da usina. Desde 2000, a produtividade do trabalhador cresceu 11,9% no Estado de São Paulo, mas o preço pago ao cortador de cana avançou 9,8%. Isso sem contar que a safra 2008/09 registra também piora das condições de trabalho em diversas instâncias. Por exemplo, aumentou, em termos relativos, a quantidade de autos de infração emitidos pelos fiscais a empregadores paulistas envolvendo desrespeito ao descanso semanal.

Se tomarmos como exemplos as curvas de tendência de preços de commodities nas últimas três décadas, vamos observar que seu preço tem sofrido redução (feita a devida deflação), como era de se esperar. Essa diminuição do preço da matéria-prima está diretamente relacionada ao aumento do desenvolvimento tecnológico/ produtividade do trabalho e, portanto, do aumento da composição orgânica do capital, que cresce em proporção desigual entre o capital constante e o capital variável, ou seja, entre o investimento em meios de produção e o montante despedido para a massa salarial. Produtividade esta que se apresenta através de mecanização de atividades, utilização de insumos químicos, aplicação de novas técnicas de produção e no aprimoramento genético do produto vivo.

Uma quantidade sempre crescente de meios de produção pode ser acionada por uma quantidade relativa cada vez menor de força de trabalho. Como conseqüência, um número maior de mercadorias pode ser produzida com uma quantidade menor de horas de trabalho. Um aumento da oferta de mercadorias produzidas com o mesmo custo de produção por um empresário individual pode levá-lo a oferecer um preço mais competitivo para atrair clientes ou reter lucro (pelo até que essa inovação seja incorporada pelos seus pares).

Para entender como funciona a obtenção de lucro é preciso analisar não apenas as formas de comercialização dos produtos, mas também a apropriação da mais-valia obtida da diferença não acrescentada dessa produtividade ao salário dos seus empregados, ou seja, de horas trabalhadas sem remuneração.

Bem, a história inteira é bem mais complicada, mas quando o setor empresarial propõe a redução de jornada com redução de salários ele está seguindo também uma lógica de ajuste do aumento da produtividade. Com menos horas/trabalho, ou seja, menos investimento em salários, o capital consegue um retorno maior que o obtido no contexto tecnológico anterior.

Este momento de crise econômica global é uma ótima justificativa para acertar o custo trabalho nessa equação, garantindo “competitividade” aos negócios, como seus representantes setoriais dizem, e, consequentemente, lucro, em detrimento à qualidade de vida dos trabalhadores que tornaram a capitalização para aquele o último salto tecnológico possível.

Neste momento, os balanços econômicos de muitas grandes empresas mostram que não há necessidade real de se aplicar um remédio tão amargo, uma vez que várias delas ganharam muito nos últimos tempos. Mesmo assim, tentam mostrar a necessidade de um remédio amargo. Chegou-se a discutir no Congresso Nacional – como ocorre na Europa – redução de jornada, com manutenção de salário, mas a proposta causa arrepios em muitos empresários, porque vai mexer com esse ganho de produtividade.

Governo, sindicatos e trabalhadores devem ficar atentos. Há empresas que passarão por sérias dificuldades e para garantir empregos negociações serão necessárias, dentro é claro de marcos legais. Mas, olhando a experiência de outras crise, é possível prever que parte dessas reduções tendem a se cristalizar quando a tempestade passar, aumentando o subemprego e mantendo os ganhos empresariais intocados.

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O liberalismo self-service e a crise econômica

A General Motors demitiu 744 trabalhadores de sua fábrica em São José dos Campos (SP) sob a justificativa de “diminuição da atividade industrial”. Mesmo após ter recebido apoio dos governos da União e do Estado de São Paulo no sentido de facilitar a compra de seus produtos por consumidores. O setor também é beneficiário de recursos oriundos de fundos públicos, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, ou seja, pertencente aos trabalhadores.

Colunistas de economia têm dito e escrito que o Ministério do Trabalho e Emprego e sindicatos fazem uma chiadeira irracional, pedindo contrapartidas à cessão de linhas de crédito ou corte de impostos. Atestam que empresas não podem operar esquecendo que estão inseridas em uma economia de mercado, buscando a taxa de lucro média para continuar sendo viável. Em outras palavras, defendem que não dá para esperar que o capital seja dilapidado da mesma forma que o trabalho em uma crise.

Essa “regra do jogo” me faz lembrar um restaurante self-service. Você passa com a bandeja e escolhe o que quer e o que não quer para o almoço. O que é bom coloca no prato, o que é ruim fica para a massa se servir depois. Traduzindo: o Estado tem que garantir e ajudar o funcionamento das empresas, mas as empresas não podem sofrer nenhuma forma de intervenção em seu negócio. Um liberalismo de brincadeirinha, com um Estado atuante, mas subserviente do poder econômico, em que o (nosso) dinheiro público deve entrar calado para financiar os erros alheios. Privatizam-se lucros, estatizam-se prejuízos.

O setor automobilístico lucrou muito nos últimos anos no país. O que, é claro, se traduz em empregos, geração de renda, impostos e tudo o mais. Ninguém quer o fechamento de fábricas e soluções devem ser discutidas e negociadas, mas sempre respeitando o patamar mínimo legal. É interessante como diretores de federações e economistas ligados a empresas defendem a redução salarial com manutenção de jornada durante a crise e se arrepiam quando sindicatos e parlamentares propõem a diminuição de jornada com manutenção salarial.

(É claro que os bancos continuam fazendo a festa, recebendo facilidades, mas alegando “falta de confiança” para avançar na disponibilização de crédito à produção, ao comércio e ao consumidor. Nós podemos confiamos a eles uma parte estratégica da economia nacional com uma série de benefícios, mas eles não precisam tornar essa “confiança” mútua. Como possuem um representante sentado no posto de comando do Banco Central, os juros não vão baixar na medida necessária, nem outra ação vai ser tomada para forçar a redução do custo do dinheiro. Eles mandam, nós obedecemos.)

O governo tem a obrigação sim de exigir contrapartidas de quem vai receber recursos ou benefícios devido à crise econômica – aliás, este é o momento ideal para isso. Quando as empresas estiverem surfando novamente, após este ciclo recessivo mundial passar, vai ser mais difícil colocar cartas na mesa como agora. Isso aconteceu em setores do agronegócio nacional, como vimos nos últimos anos. Uma política de emprego para a crise que não seja pautada pela redução de direitos, aumento da terceirização ilegal e corte de postos de trabalho é um exemplo disso.

Li depoimentos de montadoras dizendo que os trabalhadores têm que entender que esta é uma crise global e muitas de suas sedes estão passando sérias dificuldades, correndo o risco, inclusive de fechar. O que é mais um caso self-service. Lembro um caso que pode ser ilustrativo: um dia, matrizes de determinadas empresas automobilísticas foram questionadas sobre o porquê de não atuar de forma mais incisiva para evitar que suas subsidiárias em países como o Brasil estejam inseridas em cadeias produtivas em que há trabalho escravo ou crimes ambientais. Como resposta, elas disseram que há independência entre as ações da matriz e das subsidiárias e que as matrizes não podem interferir, apenas pedir que atuem de acordo com a legislação. Ótimo! Então, elas não vão se incomodar se o Brasil regular o envio de remessas de lucros para o exterior, que atingiu patamares recordes em 2008. Esses recursos poderiam ser utilizados para ajudar a passar a tempestade de forma mais suave. Já que elas não se incomodam com a qualidade de vida do trabalhador por aqui, por que se incomodar com o resultado dos lucros desse trabalho, não é mesmo?

Outro ponto que deveria ser cobrado como contrapartida é a redução dos salários de executivos sempre que houver qualquer prejuízo ao salário da massa trabalhadora. Que tal propor também a eles redução de salário sem redução de jornada? Ou propor que fiquem em casa alguns meses, vivendo do teto do seguro-desemprego, até que a situação melhore? Até nos Estados Unidos, berço da crise, parlamentares têm exigido como condição para conceder empréstimos públicos que as empresas dêem transparência sobre os ganhos de altos executivos de grandes empresas. Por que não adotamos aqui também?

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Knesset quer impedir partidos árabes de concorrer em eleição

Israel tem entre 20% e 25% de árabes morando legalmente em seu território, pessoas direito à cidadania, o que inclui o direito de eleger e de ser eleito. Em tese. Ontem o Conselho Central das Eleições do Knesset, o parlamento israelense, proibiu dois partidos representantes dessa minoria árabe de participar das próximas eleições. O Lista Árabe Unida e o Balad, de centro e de esquerda, respectivamente, ficariam de fora, apesar de representarem hoje sete das 120 cadeiras. A justificativa é de que esses partidos se posicionaram contra os ataques de Israel ao Hamas em Gaza e visitaram países como Líbano e Síria, tidos como inimigos. Péssimas justificativas.

Os partidos rejeitados apelaram para a Suprema Corte e o próprio procurador-geral se demonstrou favorável a eles. Depois de um parlamento, não há instituição que mais represente um Estado do que seu sistema judicial. Portanto, não é interessante que esses partidos árabes queiram a “destruição de Israel”, nas palavras dos irracionais deputados mais à direita do Knesset, e ao mesmo tempo lutem para fazer parte da alta representação legislativa nacional, acreditando também na alta corte judiciária nacional? Em outras palavras, se eles estão dentro do jogo político e acreditam nas instituições israelenses, aceitam e jogam as regras do jogo em Israel, não querem virar o tabuleiro. Jogam melhor do que membros de partidos da direita judaica, que querem explodir a democracia.

Há parlamentares e movimentos de esquerda, de judeus e não-judeus, em Israel que também repudiam a forma como vem sendo realizado o ataque ao Hamas em Gaza, pois sabem que é impossível fazer isso sem afetar os direitos fundamentais dos moradores de lá. E muitos desses opositores do conflito também vão aos países vizinhos, pois é impossível existir ignorando os povos que moram ao lado. Não creio que isso signifique que essa oposição judaica também queira a destruição de seu Estado. Então porque só os árabes?

A história não só de Israel, mas de outros países já mostrou que a expulsão de vozes dissonantes da arena política, onde as questões podem ser discutidas de forma mais pacífica, reconhecendo o outro como seu interlocutor, foi o primeiro passo para o recrudescimento da violência. O que interessa a fundamentalistas de ambos os lados, mas não a quem quer o diálogo. Se um grupo não se sente pertencente a um Estado, sente-se por ele discriminado, também não vai respeitar suas instituições, leis e sua legitimidade.

Não é só a verdade a primeira vítima de uma guerra. A razão também morre na primeira bomba de fragmentação.

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Palestina, Timor Leste e a força de uma fotografia

Timor Leste, um país no Sudeste Asiático, passou mais de duas décadas sob ocupação indonésia. Antes deles, eram os portugueses e, por séculos, liberdade era apenas uma bela idéia. A guerrilha timorense e a resistência de seu povo mantiveram-se heroicamente de pé e com o apoio da comunidade internacional em um momento de mudanças na geopolítica global e de crise econômica do ocupante, conquistou a liberdade.

Rodei a ilha quando ela ainda estava ocupada e a população sofrendo um dos maiores genocídios do século 20 (mais de 30% da população morreu assassinada ou por inanição). Compartilho neste post um momento-chave da história dessa luta para ressaltar qual a importância de imagens fortes divulgadas em um conflito armado. Antes de mais nada, preciso dizer que as histórias de Timor e das Palestina são diferentes – apesar de ambos os povos terem sofrido terríveis ocupações.

Vi muitas reclamações de leitores de jornais e sites devido a imagens fortes vindas de Gaza. Publicadas com cuidado que o tema merece, por mais que doam aos olhos e mexam com o estômago e atrapalhem o jantar ou o café da manhã, têm o poder de trazer a realidade para perto. É fácil ficar indiferente diante de números de violência, mas com rostos a situação muda de figura. Dizer que mataram mais de 800 pessoas em Gaza é uma coisa. Mas mostrar o assassinato de um rapaz moreno, de olhos bonitos, que era marceneiro, e sua noiva, professora, que gostava de cantar de manhã é outra.  Ou ainda oito crianças de uma mesma família, que sempre esperavam até a noite acordadas a chegada do pai que trazia comida para dentro de casa ou um motorista de uma ambulância, que tinha orgulho do seu trabalho. O outro deixa de ser estatística, e passa a ser um semelhante, pois é feito de carne e osso e não de números. Nesse momento, há uma aproximação, uma identificação, fundamental para empurrar os espectadores do conflito para ações, do protesto ao boicote. Seja em um massacre no Oriente Médio, em uma guerra entre grupos rivais na África ou um conflito armado em favelas das grandes cidades do país.

A grave situação de exclusão social em Timor Leste causada pela violência dos ocupantes, perpetuada pelo fracasso das políticas públicas pensadas para a ilha – dada a clara preferência aos indonésios, os altos índices de desemprego da população nativa e a falta de participação na administração – gerou uma falta de perspectiva e um ressentimento muito grande com o invasor pela população mais nova. Muitos desses jovens, educados na língua do dominador, estudaram em universidades da Indonésia. Acabaram entrando em contato com pessoas de outras províncias, insatisfeitos com o governo, e com o debate político. Ao mesmo tempo, difundiram a história recente de Timor. Essa nova geração de líderes trouxe fôlego à luta pela independência, organizando-se em grupos. De forma pacífica, realizavam protestos e tentavam pressionar Jacarta a adotar soluções ao conflito. Ao mesmo tempo, conscientizavam a população da situação e de formas de garantir o seu direito pela autodeterminação.

Devido às manifestações, muitos jovens foram presos ou passaram a ser perseguidos pelo exército. Em um dos casos, os estudantes estavam planejando um protesto para ocorrer durante  uma visita de uma delegação parlamentar portuguesa que checaria a situação de Timor. A visita acabou sendo cancelada por restrições colocadas por Jacarta com relação aos jornalistas que cobririam o evento, o que a missão internacional não aceitava. Com o cancelamento, a manifestação se transformou em uma procissão até o túmulo de um dos jovens mortos pelo exército, no Cemitério de Santa Cruz, na capital Dili, no dia 12 de novembro de 1991.

Quando a marcha chegou a Santa Cruz, o exército, que já havia prometido reprimir qualquer manifestação com “firmeza”, abriu fogo contra os estudantes. Estimativas apontam para 271 mortos, 259 desaparecidos e 382 feridos. Uma estudante deu sorte e saiu ilesa, conforme o depoimento que me deu em Timor:

“Todos estavam correndo para dentro do cemitério. Jovens, velhos, mulheres e crianças gritavam. Fui até o muro, de dois metros de altura. Quis pular, mas não consegui alguém que me ajudasse. Amigos disseram para ficar. Fui à parte sul do cemitério e pulei o muro. Antes de pular o muro, vi um rapaz chorando a andar devagar, pois havia tomado um tiro nas costas. A camisa estava rasgada por causa do tiro. Deu uma impressão estranha, ele olhou para nós e depois continuou a andar. Havia pessoas na varanda de uma casa. Entramos correndo para dentro, todos chorando. Dentro em pouco trouxeram um amigo meu, que tomou um tiro nas pernas. Os tiros começaram por volta das oito ou nove da manhã. Refugiei-me na casa de uma amiga, tiramos o uniforme, fingimos ver TV para disfarçar. Depois quis voltar para casa, mas os soldados disseram “se fizer qualquer coisa, a gente atira”. Meu pai tinha ido me procurar no cemitério e minha mãe no hospital. Vieram helicópteros.

Duas semanas depois, as aulas recomeçaram e começaram as histórias. Amigos que foram mortos, outros desapareceram, e muitos nunca mais reapareceram. Muitos apanharam tiros nas costas ou nas pernas. Alguns apanharam dois, três tiros de cada vez. Uma menina apanhou um tiro na orelha. Duas semanas depois tinham tirado os vestígios. Só na terra que ainda havia nódoas pretas de sangue, na terra do cemitério.”

Os acontecimentos daquele 12 de novembro foram fundamentais para que a comunidade internacional ficasse sabendo da real situação em Timor, ao contrário das garantias indonésias de que o povo era a favor da integração e a região possuía apenas alguns distúrbios causados pela guerrilha radical.

Vídeos e fotografias produzidos por jornalistas que presenciaram os fatos rodaram o mundo. Inicialmente, o exército indonésio confirmou 19 mortos. O número cresceu para 50 após o trabalho de uma comissão de investigação montada pelo próprio governo e cujos resultados foram rejeitados pela resistência. O ditador indonésio Suharto precisava mostrar ao mundo que estavam sendo tomadas providências para punir os culpados desse “incidente isolado”. Os militares envolvidos foram removidos de seus postos ou passaram por corte marcial, mas não recebendo penas superiores a 18 meses por “exceder-se” ou desobedecer ordens. Enquanto isso, 13 timorenses, a maioria estudantes, foram acusados de planejar o 12 de novembro, com penas atingindo a prisão perpétua. A partir desse ponto, houve um recrudescimento da repressão em toda a ilha, de forma a garantir que novas manifestações não acontecessem. Contudo, o estrago já havia sido feito e mundo não podia mais alegar cegueira.

Hoje, vivemos em um mundo cuja informação se espalha em tempo real. Mesmo com essa facilidade, muitos se furtam de ter acesso a ela. E em um mundo onde a comunicação é globalizada, cresce a força e a importância de ações globalizadas pela paz. Diante disso, a ignorância do que acontece à nossa volta deixa de ser uma benção e passa a se configurar delinqüência social.

Em tempo: a Al Jazeera, rede árabe que está cobrindo amplamente o massacre em Gaza, disponibilizou um álbum com imagens muito fortes do conflito, com seus mortos e prédios destruídos. Quem quiser ter acesso a elas, clique aqui.

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O que é ser socialmente responsável em uma crise?

Manifestações em Itabira (MG) reuniram centenas de pessoas hoje para protestar contra a política de empregos que a Vale vem adotando sob justificativa da crise. De acordo com sindicatos, a gigante do setor de mineração demitiu 76 pessoas (62 de acordo com a própria Vale) na região. O problema é que as empreiteiras que prestam serviços para a empresa teriam passado a navalha nos seus quadros, demitindo centenas. À agência de notícias Reuters, a assessoria da mineradora afirmou: “não podemos ser responsabilizados pelo ajuste de outras empresas”.

Ou, em outras palavras, “nós terceirizamos todo esse pessoal exatamente para não ter esse tipo de dor de cabeça”. Empresas menores possuem menos recursos à disposição em comparação com uma gigante como a Vale e, portanto, menos capacidade de enfrentar crises. Se esses trabalhadores estivessem sob responsabilidade da mineradora talvez não fossem demitidos, mas seriam um “peso” no ringue da globalização na opinião de alguns que veem números e não pessoas.  Além disso, pequenas empresas que demitem dez aqui, 100 ali não dão manchete em jornal de circulação nacional como uma grande botando um milhar no olho da rua – o que é péssimo para a imagem intitucional. Mais dinheiro, significa mais poder (e vice-versa), mas também mais responsabilidade. Pelo menos em tese, porque na prática…

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População breca desmate para cana em São Paulo

Pesquisadores da Repórter Brasil percorreram oito estados para registrar os impactos causados pelo monocultivo canavieiro. Assim que o relatório “O Brasil dos Agrocombustíveis – Cana 2008″ for lançado, o que deve acontecer neste mês, trago ele para cá. Mas gostaria de contar um caso que ele vai discutir, mostrando que a mobilização social é capaz sim de enfrentar o desenvolvimento predatório.

A mobilização de moradores de Laranjeiras, distrito do município de Colômbia, no Norte de São Paulo, impediu que 216 hectares de mata fossem derrubados para implantação de um canavial. O Grupo Santelisa Vale, uma das maiores companhias sucroalcooleiras do país, conseguiu autorização da Justiça local para fazer o desmate, apesar do veto do Departamento Estadual de Proteção dos Recursos Naturais (DEPRN).

Segundo a juíza da 3ª Vara Cível de Barretos, Mônica Senise Ferreira de Camargo, responsável por Colômbia, a autorização foi concedida porque o DEPRN, quando instado por ela, não apresentou justificativa adequada para impedir a derrubada. Mas moradores de Colômbia não aceitaram a decisão.

“Essa mata já havia sido quase que toda derrubada, 25 anos atrás, para fazer carvão. Agora ela conseguiu se recuperar, mas a usina quer derrubar. Aqui tem cotia, veado, onça, vários tipos de pássaros, nascentes. Não tem cabimento derrubar um tesouro desses”, diz o pedreiro Luércio Pereira da Silva, 35 anos.

Ele e outros colegas impediram, logo após a decisão da juíza, que os tratores passassem correntes para derrubar as árvores. “Nós viemos rápido e conseguimos impedir o trabalho deles. Mas voltaram de madrugada e conseguiram derrubar três hectares em apenas uma hora. Nós corremos para cá e conseguimos parar novamente os tratores. Chamamos até a Polícia Ambiental”, afirma Silva, que passou a acampar na área.

Os manifestantes dizem que não participam de nenhum grupo ambientalista e não possuem vinculação política ou econômica com ninguém, apenas estão preocupados com o avanço da monocultura na região. O caso teve um final feliz, pelo menos por enquanto. No início de novembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo suspendeu a de cisão da 3ª Vara Cível de Barretos e desautorizou o desmatamento. A decisão, porém, não é definitiva.

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Mais de 4,6 mil escravos foram libertados no país em 2008

Mais de 4,6 mil trabalhadores foram libertados em 2008 pelo grupo móvel de fiscalização do governo federal. O número não foi maior que os 5.999 registrados em 2007, maior marca até hoje. Mas o ano que passou conheceu o recorde no número de operações de libertação – pelo menos 133, no consolidado até agora – superior às 116 ações de fiscalização de 2007. De 1995, quando o sistema federal de combate à escravidão foi criado até dezembro de 2008, quase 33 mil pessoas foram retiradas dessas condições por grupos formados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal ou Polícia Rodoviária Federal.

Em números absolutos, o setor sucroalcooleiro liderou o ranking de libertações, com 2.164 trabalhadores, seguido pela pecuária bovina, com 954 pessoas. Contudo, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra, a mais importante entidade da sociedade civil que atua no combate à escravidão, a pecuária continua em primeiro lugar no número de empregadores flagrados comentendo esse crime. A CPT contabilizou, até 30 de novembro do ano passado, 125 casos de escravidão em área de criação de bovinos (54% do total) em 2008. Até então, na cana, foram 15 casos (6%).

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Ataques a Gaza: como se faz um genocídio

Concordo com os governos de Israel e dos Estados Unidos quando dizem que não há crise humanitária na faixa de Gaza. Uma situação de insuportável desrespeito aos direitos humanos já existia antes dos recentes bombardeios contra Gaza por causa do bloqueio decretado por Israel devido à eleição democrática do Hamas e o lançamento de foguetes contra seu território… e por aí vai. Voltando na história, esses tomaladacás vão até a partilha da Palestina há seis décadas.

Eu já havia escrito aqui que iríamos presenciar um massacre unilateral e não uma guerra – centenas de civis, inclusive mulheres e crianças, morreram nos últimos dias. Mas tendo em vista a intensidade e a forma dos ataques, o que estamos presenciando soa mais como (mais uma etapa do) genocídio do que crise humanitária.

Se de um lado, extremistas palestinos não aceitam a existência de Israel, do outro extremistas israelenses reivindicam Gaza e Cisjordânia como parte de seu território histórico. Para estes, árabes em geral são bem aceitos no seu território, desde que sirvam para mão-de-obra barata. A diferença entre esses dois grupos é que Israel tem poder de fogo para levar esse intento adiante, enquanto o outro lado não.

Porém, como um dos intentos do massacre é eleitoreiro, em alguma hora o governo israelense vai se dar por satisfeito. Para a tristeza da extrema direita, que gostaria de entregar aquelas terras a assentamentos judeus. O Kadima, partido de centro no poder em Israel, que corre o risco de ser vencido nas eleições gerais pelos conservadores, está usando o conflito para reverter as pesquisas. Se isso vai servir como o Iraque serviu para a administração Bush, ainda é uma incógnita.

O certo é que o islamismo radical sai mais forte do conflito do que entrou. Mesmo que a maioria dos seus líderes morram, surgirão outros, lembrando que as condições de vida em Gaza são uma mistura de uma favela com um campo de concentração, com crianças revoltadas diante de tanta violência social e física, prontas para serem cooptadas por grupos fundamentalistas. Quais as chances de jovens que viram seus pais, irmãs, namoradas serem mortos nos ataques de hoje não tentarem vingar suas mortes amanhã?

E a paz vai ficando mais distante.

PS: Em tempo: o pior dos extremismos religiosos, todos eles imbecis, é um terceiro, o cristão. A Idade Média, a Contra-Reforma e a Era Bush estão aí para provar. Prometo retomar isso em outro texto.

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