Blog do Sakamoto

Jornais de Israel adotam burca digital

A história veio à tona quando a rede começou a repercutir a ação bisonha de dois jornais ultra-ortodoxos de Israel, que mandaram ver no Photoshop para retirar duas ministras da foto do novo gabinete de governo. É a burca digital.

Fundamentalistas são iguais em todas as religiões, principalmente as três monoteístas ocidentais: judeus, cristãos, islâmicos. Nelas, grupos conservadores radicais atuam para manter o rosto ou o corpo das mulheres longe do olhar público, sob a justificativa de preservar o recato e, ao mesmo tempo, evitar que a imagem de moças e senhoras instiguem o que há de pior nos desejos sexuais dos homens. Transferem dessa forma a responsabilidade por seus atos.  

E Adão segue sendo o coitado, ingênuo, inocente, por morder o fruto proibido. A culpada continua nas costas da irresponsável, enganadora, perversa Eva… 

Sobre o tema, sugiro também o post do blog Viva Mulher.

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MPT acusa multinacional de reter cortadores de cana

Ação civil proposta pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), baseada em fiscalizações feitas em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), acusa a multinacional Bunge de reter 50 carteiras profissionais na Agroindustrial Santa Juliana, no Sudoeste de Minas Gerais, entre maio e junho de 2008. Segundo o MPT, a medida tornou os cortadores de cana temporariamente “cativos” da usina em pleno período da safra. A empresa diz que, no decorrer do processo, vai provar sua versão dos fatos e demonstrar sua inocência.

Estou postando, abaixo, trechos da boa reportagem de Maurício Reimberg aqui da Repórter Brasil sobre o tema. Vale a leitura.

“Há pelo menos um fato tão grave quanto trabalho escravo. Pelo menos uma turma de trabalhadores foi chamada pela Santa Juliana por um “gato” [contratador de mão-de-obra a serviço do empregador]. Fizeram construir uma empresa de fachada para aliciar a mão-de-obra, com a promessa de que iriam trabalhar em seguida. Ficaram mais de um mês aguardando. Não permitiram que o pessoal fosse buscar outro emprego na época da colheita. Isso é inatividade forçada”, afirma o procurador do Trabalho Rafael de Araújo Gomes, autor da ação. Segundo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o empregador é obrigado a efetuar a devolução da Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) dentro de um prazo de 48 horas. A usina, adquirida em setembro de 2007, foi o primeiro grande investimento industrial da Bunge no setor de açúcar e etanol no Brasil. O município de Santa Juliana (MG), com cerca de 10 mil habitantes, fica entre Uberlândia e Araxá, no Triângulo Mineiro, a 453 km de Belo Horizonte.

Na prática, como o grupo de trabalhadores também assumiu dívidas com habitação e alimentação durante o tempo de espera, eles não poderiam ir embora sem quitá-las. “Ela [a Bunge] pode estar interessada em manter um estoque de trabalhadores pertencentes [ao seu quadro de funcionários] em prejuízo dos demais [trabalhadores da região]“, observa o procurador Rafael. “Eles não são tratados como escravos, pois não são obrigados a trabalhar. São tratados como insumos da produção”.

Após o imbróglio, todos foram contratados – as carteiras foram devolvidas no dia 9 de junho. No entanto, no dia 17 do mesmo mês, esse grupo sofreu um grave acidente num ônibus da Santa Juliana, no qual eram transportadas 42 pessoas. O veículo colidiu com um caminhão, ocasionando lesões em vários empregados. As ferramentas estavam sendo transportadas na área interna do ônibus, que funcionava em condições precárias. Segundo o relatório do MPT, a empresa havia falsificado os contratos de transporte.

Após verificar a existência das infrações trabalhistas no empreendimento, o MPT ajuizou uma ação civil pública (ACP) em fevereiro de 2009 contra a Bunge Alimentos S/A e a Agroindustrial Santa Juliana S/A. No último dia 11 de março, o juiz do Trabalho Edmar Souza Salgado concedeu liminar favorável à ação. O valor inicial atribuído à causa é de R$ 10 milhões.

Na liminar, o juiz Edmar Souza Salgado cita o “comportamento recalcitrante e reincidente” da Bunge em relação ao desrespeito às normas trabalhistas. O procurador Rafael ainda não definiu se irá aceitar um acordo com os advogados da Bunge. O juiz concedeu um maior prazo para a defesa preparar a argumentação, transferindo a audiência inicial, que seria inicialmente em março, para o dia 15 de abril.

A Bunge Alimentos assinou o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo desde 2006. Criado em 2005, o pacto consiste no compromisso do setor empresarial de restrição de relações comerciais com pessoas físicas e jurídicas relacionadas com casos de trabalho escravo e de promover o trabalho decente.

A assessoria da Bunge afirma que a multinacional “está ciente da existência da Ação Civil Pública e pretende, no decorrer do processo, provar sua versão dos fatos e demonstrar sua inocência”. Ainda segundo a assessoria, a Bunge vem realizando um levantamento de “todas as situações e eventuais pontos sensíveis” e implementando seu “modelo de gestão baseado no cumprimento rigoroso da legislação em vigor” desde setembro de 2007, quando a usina foi comprada pela empresa.

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Vítimas de tráfico se revoltam contra soltura de aliciadores

Na última terça, diversos veículos de comunicação noticiaram que protestos de 400 trabalhadores rurais no município de Matriz do Camaragibe (AL) causaram pânico na população. Sem se atentar para a causa dos protestos e para a ineficiência em garantir os direitos dos bóias-frias, os taxaram como vândalos, desviando o verdadeiro foco do problema.

Vamos aos fatos: O Ministério Público do Trabalho, o Ministério do Trabalho e Emprego e a Polícia Rodoviária Federal flagraram cerca de mil trabalhadores rurais de Matriz do Camaragibe e de outros municípios alagoanos, contratados irregularmente para o corte de cana no Mato Grosso. Eles denunciaram que haviam sido enganados por  “gatos” (contratadores de mão-de-obra). Segundo o site do MPT, a situação culminou na prisão de José Ferreira Lins Filho e Cícero Gomes dos Santos, por aliciamento de trabalhadores (crime mais conhecido como tráfico de gente), previsto no Código Penal.

Foto/MPT

Os trabalhadores exigiram o dinheiro pago aos aliciadores pelo transporte e suas carteiras de trabalho – retidas ilegalmente. Foi dado prazo até o dia 31 último para que o dinheiro e as carteiras de trabalho fossem devolvidos. Na última segunda (30), os dois aliciadores foram soltos após pagar R$ 400,00 de fiança e não cumpriram com o acordado.

Revoltados, sem dinheiro e documentos, os trabalhadores fecharam uma rodovia na manhã de terça. Depois, depredaram prédios públicos. Também invadiram o Fórum da cidade e sem conseguir falar com o juiz Igor Vieira (que soltou os aliciadores e deixou a cidade escoltado pela polícia), atearam fogo em salas do local, queimando documentos. Ao todo, 16 pessoas foram detidas.

Imagine um pai de família, sem dinheiro para comprar comida para os filhos, que foi enganado por promessas de um bom emprego, foi aliciado, teve seu dinheiro e documentos roubados, quando fica sabendo que os traficantes de gente foram soltos e as suas coisas não seriam devolvidas?

Não aprovo violência. Mas parte da mídia não quis entender qual era a situação ali e comparou com o ato com uma horda de bárbaros ensandecidos que queria acabar com a ordem local (“ordem” essa que deve ser muito justa, pois permite que os moradores sejam obrigados a cruzar o país em uma busca de sustento…)  “Muitos pais de família estão passando necessidade, muitos deixaram o emprego depois da promessa de ganhar mais lá fora”, disse o trabalhador Givaldo da Silva ao MPT.

E como cereja do bolo: o ilustríssimo senhor delegado regional de Matriz do Camaragibe, Delmiro Albuquerque, classificou os atos como “terroristas” e afirmou que há a hipótese de usar o dinheiro retido pelos “gatos” para pagar pela depredação. Terrorismo? Parece piada de mau gosto.

Delmiro também disse que ninguém esperava por uma reação tão violenta.

Talvez porque seja costume de algumas autoridades no Brasil, juízes ou delegados, esperarem que os trabalhadores se comportem como gado diante de injustiças bizarramente impostas. Bovinamente aceitando que os seus direitos sejam solenemente ignorados como se fosse a coisa mais normal do mundo.

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Luciana, Fábio, Lula, FHC – e Obama

Luciana Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique, recebe salário de funcionária do gabinete do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), mas trabalha de casa, em São Paulo. Tasso Jereissati, senador pelo PSDB-CE, alugava um jatinho com dinheiro das verbas exclusivas para compra de passagens aéreas, apesar dele já possuir um jatinho particular. Seja na base do governo ou na oposição, o limiar entre a coisa pública e a privada tem sido tênue, para não dizer inexistente. Até aí, nenhuma novidade.

Uma dúvida me incomoda, mas também não me tira o sono: Luciana ficará mais tempo exposta na mídia que Fabio Luís, filho de Lula, também envolvido em denúncias anos atrás? Tasso ficará mais tempo que o senador Mercadante, envolvido em um embrólio eleitoral em 2006? A saber.

PS: Acabei de criticar o presidente no post anterior, então ninguém me acuse de favorecimento. Não posso deixar de comentar que foi muito interessante, para dizer o mínimo, a cena em que o presidente norte-americano Barack Obama brinca com Lula, dizendo que o brasileiro é o político mais popular da Terra, hoje na reunião do G20 em Londres. Fruto da geopolítica pragmática ou de uma boa interação entre ambos, o comentário deve ter deixado irritado ao menos uma pessoa, que ocupou a cadeira presidencial por aqui até 2002…

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A choradeira doce sobe a rampa

Brasília - Parte do setor sucroalcooleiro tem desfiado um rosário ao Planalto para reclamar das punições sofridas pelo não cumprimento de patamares sociais mínimos nas lavouras de cana. Considera estar sendo vítima de injustiça – no que pese a mídia trazer, diariamente, imagens e histórias que provam o contrário. Também já foram chorar à Petrobras, que tem adotado cortes de comercialização e finalizado acordos com quem redecora alojamentos como senzalas.

Reconforta saber que ainda há servidores públicos que não caem nesse chororô dos barões da cana-de-açúcar (alçados à categoria de “heróis” pelo presidente) e tentam, sob fogo cerrado do poder econômico, manter o cumprimento da lei. E também empresários que não aceitam concorrência desleal baseada na exploração voraz do meio ambiente e do trabalhador e, por isso, rechaçam parceiros.

A pergunta é: quanto tempo esse lado aguenta resistir?

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