Blog do Sakamoto

Jornalistas, diplomas e a coletividade de Gilmar Mendes

Sempre defendi o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, confirmado, nesta quarta, pelo Supremo Tribunal Federal.

Tenho plena convicção de que a atividade jornalística não deve ser monopólio de quem é diplomado, podendo ser realizada por quem não passou por uma cadeira de faculdade. Conheci, andando pelo interior desse Brasil, muita gente que nunca viu um diploma, mas que é mais jornalista com um microfone de uma rádio comunitária na mão ou fazendo um pequeno jornal mural do que alguns que passaram quatro anos nos bancos de universidades. Refletir sobre sua própria prática, dentro de uma ética específica, sabendo o que significa o papel de intermediar a informação na sociedade, ter a consciência dos direitos e deveres atrelados à liberdade de expressão são desafios que não são aprendidos necessariamenente na academia.

Ao mesmo tempo, com as novas tecnologias da comunicação e a possibilidade de todos se tornarem difusores de notícia e de análise sobre fatos, o nosso jornalismo terá que se reinventar. A decisão do STF vem em um momento interessante, de mudança.

O que não significa, contudo, desprezar a faculdade de jornalismo como local de estudo, pesquisa e reflexão da profissão e de seu ethos. Técnicas podem ser passadas no dia-a-dia de uma redação e em cursos de treinamento de jornalistas das empresas de comunicação, ou seja é a parte fácil da formação. Mas há outras coisas que o mercado não entende ou permite (pois passa pela subversão de seus próprios princípios – ou alguém realmente acredita que o jornalismo para as empresas de jornalismo não é, acima de tudo, um negócio?) que precisam de um local para florescer. O curso superior continuará tendo sua função e, hoje, se tivesse que escolher, faria novamente a faculdade, mesmo com as deficiências e problemas e os picaretas presentes nesse curso.

Não quero tentar esgotar esse tema, que é vastíssimo, nessas poucas linhas. Prometo retornar a ele posteriormente. Até porque, com a decisão, deve ganhar importância a criação de outras formas de formação de profissionais e de reflexão da profissão para além do cursos superior como em outros países. E a categoria dos jornalistas vai ter que aceitar em seus sindicatos, em definitivo, quem não tem diploma, muitos destes que trabalham e lutam pela dignidade da profissão mas que não são reconhecidos pelos próprios colegas.

Por fim, não poderia deixar de comentar as justificativas bizarras do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, na defesa do fim da obrigatoriedade. Fiquei espantado com o baixo nível da argumentação e me perguntei se ele chegou realmente a estudar o caso ou falou algo de improviso. Pincei apenas um trecho para terem idéia:

“A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia – nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão.”

O jornalismo causa danos mais amplos e profundos do que a queda de uma ponte ou um erro médico. A incompetência, preguiça ou má fé de nós, jornalistas, pode acabar com vidas de um dia para noite. Não fazer uma faculdade não significa exercer a profissão sem critérios e sem se responsabilizar pelas conseqüências, uma vez que elas podem ser imensas.

Afinal de contas, se ele acha que a profissão é tão inofensiva, porque reclama tanto da imprensa?

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Indiana Minc e o Reino da Amazônia Perdida

Estive nesta manhã na Conferência Internacional de Empresas e Responsabilidade Social do Instituto Ethos, assistindo a uma palestra sobre a sustentabilidade de biomas e o foco nas cadeias produtivas. A representante do Ministério do Meio Ambiente, em um momento descontraído de sua participação, revelou que os funcionários do ministério brincam com o ministro chamando-o de “Indiana Minc”, referência ao caçador de tesouros Indiana Jones – devido à sua presença constante em operações do Ibama de combate ao desmatamento.

Adoro esses momentos… Eles mostram certas coisas que nunca seriam ditas em outras situações. Quem conhece Minc sabe do seu amor pelos holofotes e por aparecer na mídia. É diferente do estilo mais contido, mas combativo, da ex-ocupante do cargo, a senadora Marina Silva. Isso não seria em si um problema caso “Indiana Minc” estivesse atuando de forma mais firme para mudar o modelo de desenvolvimento, que consome não só a floresta e sua gente como coloca na berlinda a qualidade de vida das próximas gerações. Mas, ao contrário, não tem feito tudo ao seu alcance para evitar o desmonte da legislação trabalhista, a aprovação de leis bizarras que afetam o meio ambiente e o rolo compressor socioambiental das obras do PAC. O problema não é ser ou não midiático, mas ser em cima de que.

A discussão pública com a chamada “Miss Desmatamento”, a líder ruralista e senadora Kátia Abreu, acabou em panos quentes, em um momento em que o embate público de argumentos e posições se faz mais do que necessário. Parece que Minc tem vergonha de pedir publicamente ao presidente da República os vetos aos artigos da Medida Provisória 458 (que trata da regularização fundiária e que, do jeito em que foi aprovada pelo Congresso, pode legalizar milhões de hectares de terras griladas na Amazônia), inseridos pela Câmara dos Deputados e mantidos pelo Senado.

O ministro adora fazer pactos com a iniciativa privada. Importante, mas a função do ministério é fazer valer a lei antes de mais nada, coisa que está cada vez mais difícil. Ele diz que todo mundo reclama do MMA e que os ministérios da Agricultura e Pecuária, Indústria e Comércio, Fazenda, Transportes (de Alfredo Nascimento, o ministro BR-319) também deveriam ser cobrados também. Claro. Contudo, isso amplia, mas não exime, a responsabilidade de ninguém.

Esse filme nós temos visto há muito tempo. Os atores que interpretam os personagens mudam, mas o enredo é o mesmo,  afinal este é um país que vai para frente…

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Disk Fonte: o jornalismo papagaio de repetição – Parte 2

Dada o sucesso do “Disk Fonte”, este blog traz o Disk Fonte: o jornalismo papagaio de repetição – Parte 2 (a Missão), com sugestões colhidas em redações e entre os leitores deste blog.

São personagens com opiniões mais que conhecidas sobre determinadas temas, mas sistematicamente procurados por alguns veículos porque dizem exatamente aquilo que esses veículos querem ouvir. Esse joguinho viciado exige duas cenas de fingimento por parte dos veículos. A primeira é que o jornalista busca uma opinião independente, isenta. Falso. Nesses casos, muitas vezes os repórteres selecionam suas fontes já sabendo exatamente o que as fontes irão dizer. Citam só para dar um aspecto de isenção na “reportagem”. Na realidade, estão é dando uma opinião. Só que de forma terceirizada.

O segundo fingimento é não ver que uma parcela cada vez maior de leitores já percebeu como funciona esse joguinho viciado.

Aos nomes:

Contas Públicas? Disk Raul Velloso
(o economista critica os gastos. Qualquer gasto)

Telecom? Disk Ethevaldo Siqueira
(é o jornalista que mais conhece o fascinante mundo da telefonia privatizada, mas, ao citá-lo, só não diga que ele dá consultoria para empresas da área)

Previdência? Disk Fabio Giambiaggi
(aproveite e fale um pouco da perseguição que ele sofreu no “aparelhado” Ipea…)

Reformas estruturantes? Disk Scheinkman
(José Alexandre Scheinkman é o maior especialista nas “lições de casa” que o Brasil precisa fazer. É o nosso maior Chicago Boy)

PT-RS? Disk Rosenfield
(o filósofo Denis Rosenfield, da UFRGS, domina esse nicho há mais de uma década)

MST? Reforma Agrária? Disk Jungmann
(o deputado e ex-ministro Raul Jungmann só abandona sua cruzada quando o assunto é Daniel Dantas)

Educação? Disk Claudio Moura e Castro
(sabe tudo de ensino privado)

Bolsa Família? Disk Frei Betto
(você conhece alguém mais que esteve lá dentro e fala mal do programa?)

 

ABAIXO, AS FONTES DO POST ANTERIOR PARA QUEM NÃO VIU:

Questões trabalhistas? Disk Pastore
(O sociólogo José Pastore, mas sem dizer que ele dá consultoria para a Confederação Nacional da Indústria e a empresários que têm interesse direto no assunto)

Constitucionalismos? Disk Ives Gandra
(O respeitável jurista do Opus Dei não vacila jamais)

Ética? Disk Romano
(O professor de filósofia Roberto Romano) 

Questões sindicais? Disk Leôncio
(O cientista político Leôncio Martins Rodrigues)
 
Ética na política? Disk Gabeira
(O deputado federal Fernando Gabeira, que viaja bastante de avião…)
 
Ética dos juros? Disk Eduardo Giannetti
(O professor do Ibmec é quase um gênio)
 
Pau no governo Lula? Disk Marco Antônio Villa
(Historiador. Tiro e queda. Mais pau no governo Lula? Disk Lúcia Hippólito – com a vantagem de ser uma das meninas do Jô)
  
Relações internacionais? Disk Rubens Barbosa
(Ex-embaixador. Precisa diversificar? Disk Celso Lafer, o ex-chanceler)
 
Mercado financeiro? Disk Arminio Fraga, o ex-BC
(Não rolou? Disk Gustavo Loyola? Ocupado? Ah, então vamos no Disk Maílson mesmo)
 
Mercado financeiro mundial? Disk Paulo Leme
(O cara está em Wall Street, pô, sabe tudo…)

Segurança pública? Disk Zé Vicente
(Ele é durão, estava lá dentro, mas fala como sociólogo. E com a vantagem de não ficar falando em direitos humanos para qualquer “resistência seguida de morte”. É o coronel esclarecido…)
 
Partidos? PT especificamente? Disk Bolívar
(O cientista político Bolívar Lamounier, mas, por favor, não diga que ele é filiado ao PSDB)
 
Geografia? História? Demografia? Sociologia? Socialismo? Política? Geopolítica? Raça? Relações internacionais? Coréia? Pré-sal? Cotas? Mensalão? América Latina? MST? Pugilistas cubanos? Liberdade de imprensa? Farc? Tarso Genro? Disk Demétrio Magnoli
(Se te ocorrer algum outro assunto, ligue para ele também)

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Na Amazônia, escravos de motosserra na mão

A relação entre trabalho escravo e desmatamento está vastamente documentada nos relatórios provenientes das ações de fiscalização dos grupos móveis do governo federal, responsáveis por retirar trabalhadores da escravidão. De acordo com esses documentos, a maioria dos libertados desde 1995 estava em serviço de abertura de trilha na mata virgem para a entrada das motosserras, derrubada de árvores e produção de cercas com essa matéria-prima e retirada de tocos e raízes para a preparação do terreno visando à implantação de pastos ou de lavouras.

Há alguns anos plotei essas informações, com a ajuda do pesquisador Ivan Paganotti, em fotos de satélite. Posto dois dos mapas para vocês terem uma idéia do que estou dizendo. A mancha em amarelo é de desmatamento e as bolas azuis são municípios com libertação de trabalhadores entre 2002 e 2004. Verifica-se que a concentração das propriedades rurais que utilizaram trabalho escravo está exatamente nessa faixa do arco do desflorestamento, que vai de Rondônia até o Maranhão, com especial concentração das regiões Sul e Sudeste do Pará.

Em tempo: as bolinhas vermelhas são assassinatos de trabalhadores rurais em conflitos agrários no mesmo período.

Como o trabalho escravo é utilizado largamente para cortar custos no processo de expansão agropecuária na Amazônia (falo sempre sobre isso aqui neste espaço e, portanto, não vou cansá-los mais uma vez com a mesma história), os mapas simplesmente mostram que os municípios com expansão das plantações e pastos são os mesmos com libertação de escravos. Por exemplo, São Félix do Xingu (PA), um dos campeões de casos de trabalho escravo, é líder em área desmatada.

Pecuária, produção de carvão, soja, cana, madeira, entre outros, casam trabalho escravo e desmatamento na região.

Tirei a foto acima durante uma libertação em fazenda no Sul do Pará. Levantamento realizado por Maurício Reimberg, da Repórter Brasil, a partir de dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) no início do ano apontou que 74% dos municípios que mais desmatam na Amazônia já foram flagrados com mão-de-obra escrava. O índice é o resultado do cruzamento entre o quadro de fiscalizações do grupo móvel do trabalho escravo do MTE – criado em 1995 e responsável pela libertação de trabalhadores – e a “lista suja” do desmatamento, que reúne as localidades campeãs na devastação da floresta.

Lançada no início de 2008, a lista do governo é formada pelos municípios considerados prioritários para ações de prevenção e controle do desmatamento da Amazônia. No último dia 24 de março, o governo ampliou de 36 para 43 o número de cidades no ranking. Foi a primeira atualização, que está prevista para acontecer anualmente. Ao todo, essas localidades são responsáveis por 55% do que foi devastado no Bioma Amazônia no ano passado. Em 32 municípios, situados na Amazônia Legal, há uma convergência sistêmica entre as duas infrações: ambiental e trabalhista. As irregularidades acontecem numa área sob histórico conflito fundiário, social e econômico. Essa característica é marcante nos locais recentemente incluídos. Seis delas – num total de sete -, já registraram ocorrências de pessoas escravizadas.

Municípios incluídos na lista de áreas prioritárias para prevenção e controle do desmatamento na Amazônia (mar/2009)
Libertação
de Trabalhadores (1995 a 2009)
UF
Marabá
sim
PA
Pacajá
sim
PA
Itupiranga
sim
PA
Tailândia
sim
PA
Feliz Natal
sim
MT
Amarante do Maranhão
sim
MA
Mucajaí
não
RR

Em janeiro de 2008, após a divulgação da lista inicial pelo MMA, a Repórter Brasil já havia identificado essa coincidência geográfica entre os focos de derrubada das matas e de exploração da escravidão contemporânea na Amazônia.

Um exemplo clássico: no Sudeste do Pará, Marabá, com 200 mil habitantes, é o local da primeira desapropriação de uma área sob o argumento de que nela foi realizada a prática de trabalho análogo à escravidão. A Fazenda Cabaceiras, que pertencia a família Mutran, foi alvo de três ações do grupo móvel, que resgataram 82 trabalhadores em situação degradante entre 2002 e 2004. O desmate local saltou de 15,5 mil hectares em 2007 para 33,8 mil hectares em 2008.

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Você sabe o que há dentro do seu cafezinho?

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento está promovendo o café como gerador de empregos, de desenvolvimento, de divisas em um comercial de TV. Concordo que parte significativa do setor seja responsável por isso. Mas, vale lembrar, nem tudo são flores.

Apesar de não ser um dos primeiros colocados no ranking do uso do trabalho escravo no campo (viva a pecuária, o carvão vegetal e a cana-de-açúcar!), há incidência desse tipo de crime no setor. Por exemplo, na “lista suja” do Ministério do Trabalho e Emprego, que relaciona os empregadores flagrados com a mão no açoite, há quatro produtores de café:

- Ernesto Dias Filho, Roda Velha Industrial, São Desidério (BA) – 745 libertados
- Eustáquio da Silveira Vargas, Fazenda Laranjeiras I, São Desidério (BA) – 39 libertados
- Fernando César Zanotelli, Sítio Zonetelli, Pancas (ES) – 22 libertados
- Reginaldo Freire Leite, Fazenda Boa Vista, Claraval(MG) – 24 libertados

Rastreamos o comportamento comerciais desse pessoal acima e posso afirmar que eles já fecharam negócios com traders que exportam para Estados Unidos, Canadá, China, Bélgica e Alemanha. Ou seja, o fruto do chicote vai longe… Aliás, é na Alemanha que ocorrerá, entre 26 e 28 de junho, a oitava Conference & Exhibition SCAE, reunindo os principiais países produtores mundiais do grão. O Brasil, que vendeu US$ 2,6 bi de café para a União Européia em 2008, terá um estande apoiado pelo governo federal.

Um exemplo de caso de recente de libertação na lavoura de café: um agricultor de 55 anos permaneceu duas décadas de sua vida em condições análogas à escravidão. Ele trabalhava sem descanso semanal, sem receber salários, em troca de comida e bebida alcoólica. Outros cinco trabalhadores viviam na mesma situação – alguns há quatro, cinco e sete anos. Eles foram libertados da Fazenda Jerusalém, no município de Alegre (ES), pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Espírito Santo (SRTE/ES), em ação conjunta com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Polícia Federal (PF) em março deste ano. O nome do proprietário da fazenda é Peres Vieira Gouveia.

O grupo de empregados era composto por negros, uma pessoa com deficiência visual parcial e um homossexual – grupos que já sofrem preconceitos e discriminação na sociedade. “Visivelmente são pessoas excluídas da sociedade. Ali encontraram um espaço de exploração perversa, mas onde podiam, ao menos, comer”, realatou à Repórter Brasil na época Afonso Celso Passos Gonçalves, auditor fiscal do trabalho que coordenou a ação.

Quem exige saber se o produto que compra foi feito obedecendo aos direitos fundamentais, sejam os compradores traders, importadores e consumidores, ajuda a limar do mercado quem opera na ilegalidade. O que é ótimo para a imagem dos produtos brasileiros e melhor ainda para a qualidade de vida de nossos trabalhaores.

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Denúncia: como a Amazônia vira casa e móvel no exterior

O que um programa de TV famoso nos Estados Unidos, como o Extreme Makeover, e o desmatamento na Amazônia têm em comum? Toneladas de metros cúbicos madeira.

Foi divulgado hoje uma reportagem, realizada pela Papel Social e nós da Repórter Brasil, mostrando como madeireiras flagradas cometendo crime ambiental têm parceiros comerciais de grande porte nos Estados Unidos, Europa, Asia e Oceania. Ou seja, madeira vendida por essas empresas se tornam pisos e móveis lá fora. A investigação, publicada na revista do Instituto Observatório Social, contou também com o apoio do Movimento Nossa São Paulo e do Fórum Amazônia Sustentável.

A rede de comercialização envolve corrupção em órgãos públicos ambientais, ineficácia de fiscalização e compradores desatentos.

Empresas como Madeball (R$ 1,5 milhões em multas ao longo dos últimos anos), Comabil (crimes ambientais, trabalho escravo, retirada de madeira de terra indígena, invasão de terra pública) e Rio Pardo Madeiras (opera com madeira oriunda de desmatamento) estão na base da cadeia. Enquanto isso, Vitória Régia Exportações, Pampa Exportações e Interwood Brasil atuam como elo de ligação comercial.

Por fim, empresas como Lumber Liquidators (possui 140 lojas nos Estados Unidos e fornece para o famoso programa Extreme Makeover, que também passa na TV paga brasileira), Brico Dépôrt (US$ 13,5 bilhões de faturamento e um dos líderes do mercado de construção “faça você mesmo” no Reino Unido, Itália, Polônia, Turquia e China), Robinson Lumber Company (vende produtos de madeira para mais de 70 países), Moxon Timber) atua nos EUA, Ásia, América Latina e Nova Zêlândia) estão no final da cadeia.

Segundo a investigação, 70% de toda a madeira comercializada no Estado do Pará, maior vendedor de madeira amazônica no Brasil, tem origem ilegal. Essa madeira passa por um processo de “esquentamento” que funciona dentro de órgãos do governo. Autoridades do Ministério Público Federal e do Ibama confirmam o esquema e apontam o envolvimento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Segundo eles, o mercado de madeira amazônica é movido por um mercado paralelo – o de créditos de madeira. A descoberta do esquema leva à constatação de que o Pará é o segundo estado brasileiro que mais compra madeira, atrás apenas de São Paulo. O comércio, entretanto, não chega a ser consumado. O único produto que viaja é o papel que registra o crédito e que permite o esquentamento de milhares de metros cúbicos provenientes de terras indígenas, áreas de preservação permanente e demais regiões onde a exploração comercial é proibida.

Clique aqui para fazer o download da reportagem.

Em outubro do ano passado, a Repórter Brasil e a Papel Social já haviam lançado o estudo Conexões Sustentáveis – Quem se beneficia com a destruição da floresta, mostrando como mercadorias produzidas através de desmatamento ilegal, crimes ambientais, trabalho escravo e ataques a comunidades tradicionais chegavam à cidade de São Paulo e eram exportadas. O estudo mostra como grandes empresas, como frigoríficos, tradings, siderúrgicas, montadoras de carros, supermercados, madeireiras, construtoras lucram direta ou indiretamente com esse processo.

A reportagem publicada hoje traz novas explicações de empresas presentes na denúncia de 2008 devido a problemas em suas cadeias produtivas, como Tramontina, ADM, Marfrig, Quatro Marcos e Metalsider.

O ato da compra é um ato político poderoso. Através dele damos um voto de confiança para a forma pela qual determinada mercadoria é produzida. Um exercício democrático que não é exercido apenas a cada quatro anos, mas no nosso dia-a-dia. E que pode ditar o destino da maior floresta tropical do mundo e de sua gente. Ou seja, também cabe a cada um de nós, dentro e fora do país.

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Libertado da escravidão é encontrado morto na Bahia

Um trabalhador foi encontrado morto na noite desta segunda (08) em Jaborandi, no Oeste baiano. Segundo informações dos presentes, ele teria sido assassinado durante uma briga com mais duas pessoas, que estão foragidas. O caso seria mais uma (como sempre, desnecessária) história de morte se o pano de fundo não fosse uma das mais complicadas libertações de escravos dos últimos tempos.

Os três envolvidos faziam parte de um grupo de 174 libertados de uma carvoaria no município, que estão há duas semanas esperando o pagamento de seus salários e dos direitos trabalhistas, que vem sendo postergado pela empresa responsabilizada pela situação – a  Rotavi Industrial – e seus advogados. Até a alimentação foi cortada para tentar dispersar os trabalhadores. O Ministério do Trabalho e Emprego comprou mantimentos aos libertados enquanto, junto com o Ministério Público do Trabalho, lutam por uma solução.

É obvio que não se pode fazer uma relação direta entre a morte e o comportamento da empresa. Mas a situação criada pela recusa em tomar providências contribuiu para a elevação das tensões no local.

Segundo informações do grupo móvel de fiscalização do governo federal, o carvão vegetal é utilizado na fabricação de liga-leve, produto da cadeia produtiva da indústria automobilística. De acordo com o auditor fiscal do trabalho e coordenador da ação Klinger Moreira, os trabalhadores não tinham carteira assinada e não recebiam regularmente. Parte da alimentação era oferecida pelos empregadores, mas itens complementares eram vendidos – e depois descontados do “virtual pagamento” – a preços abusivos aos empregados. Dois “gatos” (aliciadores de mão-de-obra e intermediários da empreitada) atuavam na fazenda, localizada na proximidades da divisa com o Estado de Goiás. Parte dos trabalhadores relataram que estavam há três meses no local sem receber absolutamente nada.

A operação, que começou no dia 27 de maio, ainda não terminou porque a empresa responsabilizada pelo ocorrido – a Rotavi é dona da propriedade, montou a estrutura das carvoarias e aproveita integralmente a produção – se recusou a dar uma solução que contemplasse o pagamento dos direitos dos trabalhadores. De acordo com a Rotavi Industrial, os trabalhadores da carvoaria não são seus, mas de empresas terceirizadas que lhes prestavam serviço. Os fiscais, porém, não encontraram contratos regulares entre a Rotavi e as terceirizadas, e mesmo que houvesse esse acerto formal, de acordo com a lei, a empresa também responde pelas condições trabalhistas encontradas.

O Grupo Rotavi, que atua ainda nas áreas de transporte e mineração, tem como clientes empresas de grande porte como White Martins, Mannesmann, Grupo Votorantim, Gerdau e Metalsider.

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Crianças sem infância, que matam e esfolam

Há um ano, uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego flagrou crianças trabalhando em matadouros no interior do Rio Grande do Norte em condições de dignidade zero. Limpavam tripas,  arrancavam gordura, retalhavam carne, descalças, lambuzadas de sangue e fezes. As fotos ganharam a mídia de todo o país e o poder público local prometeu resolver a situação. Contudo, recebi um triste relato, dizendo que pouca coisa mudou:

Boi da Cara Preta, por Marinalva Dantas, auditora fiscal do trabalho e coordenadora do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador do RN

Cenário de um matadouro: Curral, bois, fezes, cordas, varas, marreta, facas, limas, machado, sangue, gritos, fumaça, fogo, urubus, cães, muitos homens, muitas crianças e adolescentes.

Cena 1 - Dentro de um curral que dá suporte ao matadouro, meninos batem com varas e cordas nos animais para que caminhem até o corredor da morte. Vacas prenhas, em instinto maternal, engancham seus chifres na cerca para não seguirem seu inevitável destino. Meninos batem na vaca com uma vara e ela resiste, até que um deles quebra com as mãos o rabo do animal ou enfiam-lhe a vara no ânus. Vencida pela dor, a vaca caminha. Recebe um golpe de marreta de ferro. Diferentemente dos bois, ajoelha-se e se levanta. Não pode morrer, tem um filhote na barriga – ela sabe. E, assim, são desferidas sucessivas marretadas, até que ela tomba, mas luta pela vida até seu sangue se esvair pela veia do pescoço, empoçando o chão do matadouro. Um adolescente pula sobre a virilha do animal para o sangue jorrar mais depressa – sequer tenho tempo para recobrar a respiração e outro animal é abatido.

Cena 2 - Um adolescente retira o couro do animal, as vísceras e retalha a sua carne. Ele me diz que bom mesmo é beber o sangue do boi ainda quente, com cachaça! Crianças descalças pisam no chão sanguinolento e seguem com baldes nas mãos, arrecadando pedaços de sebos, de pelancas e pedaços de carne que levarão para alimentar as suas famílias. Um menino espera ansioso pelo “fato”, como chamam o órgão que contém a bílis. O garoto fura o fato e o fel escorre em um balde, transportando-o para um tonel de cem litros. Um comprador mensal lhe pagará R$ 100,00 pelo líquido armazenado. A carne é pesada e levada por adolescentes para uma carroça que foi lavada por uma criança desde a madrugada ou para um caminhão. Esses veículos farão a distribuição para açougues e supermercados.

Cena 3 - O cenário agora é a Casa de Fato – local onde adultos e crianças cozinham as vísceras em caldeirões, com fogo a lenha, disseminando um forte cheiro de fezes cozidas. Ao longo do piso de cimento, vários montes de fezes e restos de comida retirados dos animais abatidos, tripas reviradas, patas aferventadas. Um adolescente mergulha as mãos dentro de um tonel repleto de fezes bovinas, lavando algumas peças de boi. Do lado de fora, cães e urubus se refestelam. Os cães ganham de presente um bezerro todo formado, que foi retirado do ventre de uma das vacas. O motivo de se abater uma vaca com um bezerro no ventre? Simples! A vaca estava doente, ia ser perdida mesmo e, depois, quem vai saber? O churrasco vai ser comido do mesmo jeito. Um menininho espera com seu carro de mão o resto dos restos para levar para a sua família.

Cena 4 – Em um galpão, ao lado da Casa de Fato, meninos estendem os couros frescos em um tanque, jogam sal por cima e pisoteiam descalços para compactar a salga. O odor de carniça é insuportável e alguns vermes fervilham sob um couro no chão.

Cena 5 - Amanhece o dia. Feira livre. A carne que vi sendo “produzida” é comprada pelos cidadãos daquele município e de outros próximos. Dezenas de meninos, conduzindo carrinhos de mão, transportam, por R$ 1,00 a “mercadoria” para as casas e carros dos compradores.

Cena 6 – Um matadouro moderno, construído e inaugurado há um ano, entregue pelo Governo do Estado e pelo Governo Federal, permanece fechado, repleto de teias de aranhas. O matadouro, de métodos medievais, por sua vez, continua em intensa atividade e as crianças de berços esplêndidos continuam sonhando com bois da cara preta. Já as crianças de berços não tão nobres assim, encarando e matando outros bois. E é então que, no domingo, enquanto os abastados saboreiam os seus churrascos, os pobres engolem os seus sebos e pelancas. Fecho a cortina.

PS: Lembrando a todos que 12 de junho, para além de ser Dia dos Namorados, é o Dia Internacional do Combate ao Trabalho Infantil.

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Troféu Frango para os argumentos da Bancada Ruralista

O Congresso Nacional aprovou a medida provisória 458, que trata da regularização fundiária na Amazônia. Regularizar é importante para que haja controle sobre a região, responsabilizando quem devasta a terra e explora sua gente. Contudo, a MP 458 não vai fazer isso. Se Lula não usar seu poder de veto sobre o texto, a nova lei vai ser instrumento de premiação de grandes grileiros na região, pessoas e empresas, que poderão explorar e comercializar terras sob a proteção do Estado. A proposta que começou na Presidência da República passou pelo Congresso Nacional, sendo defendido de forma magistral por expoentes da bancada ruralista.

É triste e, ao mesmo tempo, paradigmática, a forma através da qual a bancada tem usado argumentos bizarros para separar algo indivisível, como a proteção do meio ambiente e a qualidade de vida da população, colocando em lados opostos o desenvolvimento e a sustentabilidade. Como imagino que deputados e senadores não sejam burros, eles devem saber que é impossível o ser humano existir sem o meio em que ele está inserido. Em outras palavras, se este meio virar vinagre por conta da ação humana, o homem vai junto para o buraco. Ou seja, o destino de árvores e micos estão diretamente relacionados aos de agricultores e pecuaristas.

A humanidade enfrenta a pior crise ambiental de sua história, sob risco de entrar em colapso com o esgotamento e a degradação dos recursos naturais. Os países da periferia levam a culpa pelo desequilíbrio ecológico mundial e são criticados pelo modelo de desenvolvimento que adotam, agressivo ao meio ambiente. O julgamento parte das nações ricas, as quais, por mais de dois séculos, destruíram seus patrimônios naturais e continuam poluindo. As elites dos países periféricos clamam, por sua vez, pelo direito de também poluir, expulsar, destruir, eliminar, converter, empacotar e vender (matando e escravizando, se necessário), a fim de poder alcançar o nível de consumo das sociedades desenvolvidas.

Em meio a essa discussão, o quadro não poderia ser pior. Dentro de duas décadas, não haverá água potável suficiente para suprir as necessidades de dois terços da população mundial – regiões metropolitanas, como a Grande São Paulo, já vivem uma crise de abastecimento. O efeito estufa está aumentando a temperatura global e provocando mudanças climáticas, enquanto a desertificação de áreas cultiváveis compromete a produção de alimentos. Uma nuvem de poluição paira sobre o Sudeste Asiático, levando crianças e idosos aos hospitais diariamente. Santa Catarina desmoronou nas chuvas por conta da irresponsabilidade do Estado, que deixou que matas de proteção fossem retiradas. Demorou, mas o planeta já dá o troco.

O debate sobre o meio ambiente emerge no século 21 como uma discussão sobre a qualidade de vida – não tratando apenas de árvores cortadas, rios poluídos e derramamento de petróleo, mas também da atual idéia de progresso que não está conseguindo dar respostas satisfatórias à sociedade. E nega a todos um futuro.

Tendo isso em vista, vamos pegar um exemplo de como a bancada ruralista ataca quem fala de proteção ao meio ambiente.

O nosso Senado está repleto de argumentos que fariam os maiores filósofos da história da humanidade tremer diante de tanta profundidade. Um dos parlamentares que usou o dom do discurso para justificar o injustificável (e acelerar o rolo compressor sobre a Amazônia) é Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR):

“Árvore é um ser vivo, nasce, cresce e morre. Se nós não derrubarmos mais nenhuma, as árvores importantes vão morrer, apodrecer, criar cupim.”

A Câmara dos Deputados também adota a retórica política de alto nível ao discutir meio ambiente. Um exemplo é o deputado federal Luciano Pizzatto (DEM-PR) que mostrou, em um debate, como a motosserra equilibra as forças do universo:

“O que os defensores do meio ambiente devem entender, é que o universo é violento e destrutivo. Portanto preservar o meio ambiente deve considerar isso, porque senão poderá às vezes nos prejudicar. Ao derrubar uma árvore, estamos na verdade dando o direito de outra nascer.”

Sei que alguns parlamentares já receberam o prêmio de Inimigos da Amazônia. Mas não poderia deixar de dar o bem-humorado Troféu Frango, criado por este blog para premiar bizarrices em geral, a quem defende o butim em curso contra a legislação ambiental. Troféu Frango que volta reformulado.

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Não, de novo não!

O grupo móvel de fiscalização do governo federal encontrou, nesta semana, 280 pessoas em condições degradantes de trabalho na colheita de cana da Usina de Santa Cruz, em Campos (RJ). Segundo a assessoria do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), também foram resgatadas cinco crianças. De acordo com o coordenador da fiscalização, Rodrigo de Carvalho, “nenhum dos trabalhadores tinha carteira assinada e as condições desrespeitavam totalmente as leis trabalhistas e os direitos humanos”. Como a empresa se recusou a pagar as verbas rescisórias, o Ministério Público do Trabalho impetrou uma ação para cobrar o pagamento dos valores aos trabalhadores.

A usina pertence à Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool/Grupo José Pessoa, já conhecido pela fiscalização do MTE e pelo Ministério Público do Trabalho.

Em 13 de novembro de 2007, o governo federal resgatou 1011 trabalhadores, a maior parte deles indígenas, em condições degradantes de serviço na fazenda e usina de cana-de-açúcar Debrasa, unidade da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), pertencente ao grupo, em Brasilândia (MS).

Entre os dias 03 e 14 de junho de 2008, 55 trabalhadores foram resgatados no município de Icém (SP) na Usina Agrisul. A usina faz parte da CBAA. O Ministério do Trabalho e Emprego constatou servidão por dívida. Diligência autorizada pela Justiça encontrou documentos pessoais de trabalhadores que atuavam na Agrisul retidos numa mercearia da região. De acordo com o governo, o grupo resgatado foi vítima de aliciamento ilegal por empresas terceirizadas. Foram transportados de forma clandestina do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, para as proximidades da usina. No início da empreitada, conforme relatos obtidos pela fiscalização, foram submetidos a condições degradantes: dormiram no chão e passaram fome.

Por isso, ele foi excluído do rol de signatários do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo no ano passado. O Pacto Nacional tem como missão envolver e dar subsídios para que o setor empresarial e a sociedade civil atuem no combate a esse crime contra os direitos humanos. Hoje, ele congrega mais de 160 empresas e associações, cujo faturamento equivale a mais de 20% do PIB.

Depois de tudo, em agosto do ano passado, o Comitê Popular de Erradicação do Trabalho Escravo do Norte Fluminense ainda denunciou que cerca de 240 empregados da usina Santa Cruz haviam paralizado suas atividades ontem para protestar por direitos trabalhistas devidos pelo empresa.

Uma atenta liderança social campesina me pede para lembrar que está parada, por força da bancada ruralista e falta de empenho de grande parte dos senhores deputados, aquela proposta que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo for encontrado.

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