Blog do Sakamoto

A verdade: homem tem medo de mulher na política

Tempos atrás, o vereador paulistano Agnaldo Timóteo defendeu o turismo sexual e a exploração sexual infantil. Em um debate com a petista Claudete Alves, o vereador-cantor perguntou, como forma de intimidação, quando ela teve a primeira relação sexual.

Timóteo havia subido à tribuna para criticar o combate ao turismo sexual. Para ele, o visitante que vem ao país atrás de sexo não pode ser considerado criminoso. “Ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz”, declarou. “O cara [turista] não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto.”

Um caso isolado? Imagine! Esse molho de preconceito é derramado todos os dias em câmaras municipais, assembléias, no Congresso, e em gabinetes da administração pública, varas e tribunais. A pancada que a vereadora tomou na época, sob o riso assertivo de alguns de seus colegas, é comum. Contudo, a maior dificuldade não é continuar lá dentro e sim entrar, uma vez que as candidaturas de mulheres são poucas em comparação à sua participação na população do país.

Trago abaixo o texto da jornalista Maíra Kubik Mano sobre o assunto. Vale a pena ler. E lembrar que todo o homem é inimigo até que tenha sido educado para o contrário.

Mudanças eleitorais estimulam participação das mulheres

A reforma eleitoral em discussão no Congresso Nacional estabelece algumas mudanças nas regras do jogo já a partir do ano que vem. Entre elas, está a utilização de pelo menos 5% dos recursos dos partidos para programas que promovam a participação de mulheres na política.

Não acredito que esse vá ser um ponto polêmico entre deputados e senadores. Afinal, em tempos de discursos pró-igualdade e de palavras politicamente corretas, é difícil que alguém barre essa porcentagem ínfima. A grande questão é se isso será ou não colocado em prática.

Lembremos de uma exigência que já consta na Lei Eleitoral e que praticamente não é cumprida: segundo o texto em voga, os partidos devem reservar 30% de suas candidaturas às mulheres nas eleições proporcionais. Contudo, as legendas simplesmente não estimulam a ocupação desses espaços e muitas vezes acabam dificultando a participação feminina.

O resultado é óbvio. Apesar das mulheres serem 51,7% do eleitorado no Brasil, são a minoria entre os representantes políticos. Em 2006, o país elegeu apenas 14,8% de senadoras, 8,7% de deputadas federais e 11,6% estaduais. Nos municípios a proporção é semelhante – 12,6% de vereadoras. Aliás, essa constatação estimulou outra proposta de alteração na Lei Eleitoral, bem mais espinhosa e com dificuldades em obter apoio: a obrigatoriedade – e não somente a reserva –dos partidos e coligações em terem, de fato, 30% de mulheres candidatas.

Há ainda mais um dispositivo importante em debate, aquele que prevê uma margem mínima de 10% do tempo da propaganda partidária gratuita para promover e difundir a participação da mulher.

São tentativas que, por um lado, podem estimular mais mulheres a participar, e por outro, podem forçar os partidos a finalmente admitir que é preciso políticas inclusivas para que ocupemos cargos públicos em proporções semelhantes às dos homens.

Sou um pouco cética em relação à aprovação e, principalmente, ao cumprimento dessas normas, como demonstram os exemplos quantitativos acima. E, para piorar, elas estão no bojo de uma reforma política que, cá entre nós, não traz alterações fundamentais na prática eleitoral brasileira. O financiamento público de campanha, uma das ferramentas estruturantes para garantir um processo mais democrático, dificilmente será aprovado. As propostas chegam ao cúmulo de autorizar doações por cartão de crédito. Além disso, o candidato não precisará mais ter suas contas de eleições anteriores aprovadas para concorrer novamente. Ou seja, por mais picareta e corrupto que ele tenha sido, pedirá votos livremente, com toda a cara-de-pau do mundo.

Há algumas mudanças que vêm aos poucos e acabam ajudando a melhorar um cenário de quase terra arrasada. Mas se o alicerce continua mal construído, é difícil remendar para sempre.

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O lado azedo do seu doce suco de laranja

Se a moda pega, será ótimo: o Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região confirmou que a empresa de sucos Citrovita deve ser responsabilizada por conta de uma fazenda que lhe fornecia laranjas não garantir condições de segurança e saúde para as pessoas que lá trabalhavam. Em outras palavras, a decisão do tribunal aponta que a empresa que se beneficia com a exploração do trabalho feita por terceiros também deve ser responder por isso.

É aquela velha história, a gente toma o nosso suquinho de manhã, muitas vezes como naquelas famílias de comercial de margarina, sem nos preocupar com as dores que levaram o produto até a mesa. Esse tipo de decisão aproxima o consumidor de marcas conhecidas, fazendo com que ele possa tomar decisões importantes na hora de comprar.

O Grupo Votorantim controla a Citrovita, detendo 20% do mercado global de suco concentrado de laranja e destacando-se como um dos três maiores produtores mundiais do setor. Exporta 100% da produção para mais de 75 países nos cinco continentes.

A fazenda havia sido multada pelo Ministério do Trabalho e Emprego por não fornecer equipamentos de segurança na colheita. Segundo o site do TRT-15, a relatora, desembargadora Mariane Khayat, afirmou que existe clara evidência de que a indústria não é mera compradora das frutas. Reforça que as grandes empresas de suco são as que diretamente se beneficiam da mão-de-obra dos empregados rurais, em especial dos colhedores de laranja, “o que torna sua responsabilidade pela saúde do trabalhador moralmente incontestável e juridicamente inafastável, de acordo com o princípio da boa-fé objetiva”. Para a desembargadora, é “fato notório, de repercussão nacional, que as empresas de suco na região do cultivo da laranja, historicamente, não pouparam esforços em tentar eximir-se das responsabilidades trabalhistas decorrentes da sua atividade econômica”.

De acordo com ela, a responsabilidade pelo cumprimento das normas de saúde e segurança no trabalho não cabe apenas ao empregador, mas também ao beneficiário final daquela força de trabalho, “o qual, ao fim e ao cabo, se apropria da energia produtiva do trabalhador”.

A empresa agia diretamente na produção, determinando a quantidade de frutas que deveria ser colhida, a hora e o local da colheita, além da maneira como o trabalho deveria ser feito. Por isso, segundo ela, não é necessário que haja uma carteira de trabalho assinada entre a Citrovita e os colhedores de laranja para provar um vínculo. Na prática, ela é responsável sim pela vida daquelas pessoas, pois são “como um elo mais do que necessário ao seu sucesso empresarial”.

O mesmo já aconteceu nos elos entre trabalhadores de carvoarias e usinas siderúrgicas, entre outros setores. O interessante é ver isso confirmado aqui em São Paulo, orgulho do agronegócio nacional.

Em 2007, a Citrovita produziu 90 milhões de caixas de laranja, o que corresponde a 330 mil toneladas de suco. Todos os ativos produtivos localizam-se no Estado de São Paulo.Segundo a própria empresa, ela está presente em todas as etapas da produção, desde a formação das mudas nos viveiros até a exportação do suco a granel em navios especialmente equipados para isso.

Se isso – o entendimento de que a empresa na ponta da cadeia deve ser responsabilizada legalmente por conta do sofrimento de trabalhadores na outra ponta – fosse estendido para outras cadeias produtivas, sobraria pouca gente para contar história.

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EUA divulgam lista de produtos com trabalho infantil e forçado. Brasil é citado em 13 setores

O escritório de assuntos internacionais do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos divulgou hoje uma lista global de produtos feitos com trabalho infantil e forçado. O anúncio de que essa relação seria produzida foi antecipado por este blog. O relatório completo (em inglês) pode ser baixado aqui.

A lista inclui 122 produtos de 58 países e identifica mais problemas de trabalho infantil do que de escravo, baseado nas definições da Organização Internacional do Trabalho. O setor agropecuário predomina, seguido pela manufatura e a mineração. O Brasil é citado com ocorrência de trabalho infantil na produção de tijolos, cerâmica, algodão, calçados, mandioca, abacaxi, arroz, sisal e tabaco. No trabalho forçado em cana-de-açúcar e madeira. E em ambas as situações estão a criação de gado e a produção de carvão vegetal.

Segundo o governo dos EUA, o objetivo da lista é aumentar a consciência para promover esforços e eliminar essas práticas. Mas, vale lembrar que eles possuem legislação que impede a importação de produtos com trabalho infantil e escravo. Pelo o que pude apurar, as repercussões (de cunho protecionista ou não) podem ser maiores para os setores que estão listados com ocorrência de trabalho infantil.

“Tenho grande esperança que consumidores, empresas, governos, sindicatos e outros envolvidos usarão esta informação para traduzir seu poder econômico em força para o bem que irá, no final das contas, eliminar o trabalho infantil abusivo e o trabalho forçado”, declarou em nota a secretária de Trabalho dos EUA, Hilda Solis.

A lista inclui produção tanto do setor formal quanto do setor informal, mas deixou de fora o setor de serviços e bens produzidos nos Estados Unidos (ou seja, nada sobre a produção de milho ou tomate com mão-de-obra forçada de imigrantes ou o trabalho infantil em plantações de blueberry) e não identifica o nome de empresas envolvidas na produção dos itens listados. Segundo o anúncio, a lista não quer dizer que toda a produção de um determinado país é feita com essas formas de exploração que violam acordos internacionais, mas que elas representam incidência significativa dessas práticas no setor.

Os critérios usados na triagem foram: natureza da informação, data da informação (sete anos ou menos), fonte, margem de comprovação, significativa incidência do problema. Segundo os produtores da lista, se houve evidência de esforços para resolver o problema em determinado setor que culminaram na redução significativa do problema o país não foi incluído.

Alguns dados do relatório:

- Há 60 produtos agropecuários (com predominância para o algodão), 38 manufaturados (tijolos e tapeçarias em sua maioria) e 23 de mineração (principalmente ouro);
- Os países com maior número de produtos listados são Índia (19), Mianmar (14), Bangladesh (13), Brasil (13), China (12) e Filipinas (12);
- O Congo é listado por usar trabalho infantil na extração de produtos minerais como cobalto, cobre, diamantes e ouro;
- Entre os esforços exemplares citados estão os programas que tratam do trabalho infantil na Índia, esforços de Gana e Costa do Marfim para resolver o trabalho infantil na produção de cacau, além de iniciativas da Zâmbia, Paquistão, Nepal e de governos da América do Sul.

O relatório cita o Brasil como exemplo de ataque aos problemas em várias frentes. Segundo ele, o país melhorou sua legislação, tornou leis efetivas, estabeleceu planos de ação tanto para o combate ao trabalho infantil quanto para o escravo e para o tráfico de pessoas, deu apoio a instituições privadas para combater esses problemas, tornou públicas campanhas de conscientização e deu assistência às vítimas. O país também participou de programas bilaterais e multilaterais de combate a esses problemas com países vizinhos. De acordo com o relatório, o governo brasileiro dá transparência ao processo, garantindo que os dados das fiscalizações do trabalho estejam disponíveis.

Lembra que o grupo móvel de fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego libertou mais de 5 mil pessoas do trabalho escravo apenas em 2008 e que o governo federal publica a “lista suja” do trabalho escravo, mantendo nomes de proprietários rurais e empresas flagrados com essa prática por dois anos relacionados. A lista é usada por bancos públicos federais e por empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo para cortar negócios.

Diz que o país alcançou notável sucesso em esforços do setor privado para combater o trabalho infantil em determinados setores e que acordo coletivos entre empregadores e sindicatos frequentemente trazem cláusulas contra trabalho infantil. Cita o Instituto Ethos e a Fundação Abrinq e o selo “Empresa Amiga da Criança”, tratando da eliminação desse tipo de exploração na cadeia produtiva. Por fim, afirma que a associação brasileira de supermercados tem exercido pressão pela adesão dos produtores à legislação trabalhista.

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Como a tecnologia ajuda a tungar você, trabalhador

Toda vez que bater o ponto, o trabalhador terá de receber um comprovante impresso com o horário em que iniciou ou encerrou a sua jornada de trabalho. A mudança faz parte da regulamentação definida pelo governo federal para o ponto eletrônico, aquela maquininha que registra quando alguém entra e sai de mais um dia de trabalho, e está no cotidiano de milhares de empresas e de milhões de empregados.

Aqui na Repórter Brasil, Maurício Hashizume e Bianca Pyl se debruçaram por um longo tempo sobre os problemas relacionados ao ponto eletrônico – que muita gente achava a salvo de fraudes. Mas saiba que você, que bate seu cartãozinho todo santo dia, pode estar sendo enganado por ele. Em muitos casos, tempo de trabalho tem sido comido pelo patrão, que regula a máquina para que ela registre menos do que o trabalhado. E, até agora, quem já tinha percebido isso não conseguia comprovar.

O Ministério do Trabalho e Emprego e o Ministério Público do Trabalho recebeu muitas denúncias relacionadas a fraudes nos sistemas de ponto eletrônico utilizados por grandes empresas como magazines varejistas e redes de supermercados. São denúncias formuladas por trabalhadores e sindicatos, que revelam fraudes, em especial com a finalidade de reduzir as horas extras.

Foram encontrados programas de controle de ponto eletrônico que permitem que o empregador, por meio de senhas, tenha acesso posterior às marcações dos empregados e possa – inclusive – alterar horários de entrada e de saída, além dos intervalos para repouso e alimentação. Ou seja, depois que você bateu o cartão, alguém vai lá e diminui o seu tempo de trabalho.

Outros sistemas propiciam ao empregador configurar o sistema para a marcação de ponto somente em horários pré-determinados. Com isso, o empregado fica impedido de registrar o horário real de entrada e saída. “É possível desbloquear o sistema ao teclar determinada letra do teclado, o que é feito geralmente quando da chegada de fiscais na empresa para realizar ação fiscal”, explica o auditor fiscal do trabalho José Tadeu de Medeiros Lima.

Alguns fabricantes desenvolvem sistemas que geram batidas automáticas, mesmo sem que o ponto seja batido. Esses sistemas fazem a marcação automática do horário com minutos a mais ou a menos (17h04 e 16h58, para jornadas que terminam às 17h, por exemplo), de forma aleatória, para parecer mais “real” e não configurar o chamado “ponto britânico”.

Uma rede de supermercado confessou a um juiz no Rio Grande do Norte que alterava “para o bem” as marcações. Há! Faz-me rir.

A nova regulamentação divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego impõe regras a empresas especializadas na maquininha. Antes da portaria, várias faziam anúncios das “vantagens” sem nenhum constrangimento. Uma das fabricantes enumerava perguntas para demonstrar os benefícios do produto: “O funcionário pode contestar a marcação do ponto? Não, uma vez que o funcionário assinou o espelho do cartão não mais poderá contestar a validade de suas marcações”, prometia. “É possível alterar a marcação feita pelo funcionário? Sim, é possível. Existe uma função destinada ao administrador do ponto que através de uma senha faz as correções e abonos necessários em todas as marcações efetuadas por seus funcionários”.

Outra destacava a marcação de ponto somente em horários pré-determinados como um ponto forte do seu produto e tinha até manual de como fazer as alterações. “Basta ter a senha de acesso para adicionar ou modificar horário e até excluir marcações”. Havia fabricantes que preferiam recorrer à questão das ações trabalhistas para chamar atenção no mercado. “Custa menos que uma ação trabalhista, geralmente movida pela falta de controle efetivo de seu funcionário. O sistema permite o desconto de horas extras de forma total ou parcial”, advertia a empresa, sem receio de punições.

O universo de afetados pela portaria do MTE, apesar de impreciso, é imenso. “Em uma investigação preliminar, sem instauração de procedimento, mas apenas para verificar a abrangência desta lesão trabalhista, foram verificados 26 programas atualmente comercializados no Brasil. Cada um desses programas possui mais de cinco mil usuários, isto é, mais de cinco mil empresas compradoras. Não é possível mensurar exatamente esse número. Mas considerando que são milhares de empresas com milhares de empregados, imaginamos que esse universo seja muito grande”, acrescenta o procurador Geraldo Emediato de Souza, do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Minas Gerais.

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Pela quebra imediata da patente do Tamiflu

A Roche, fabricante do principal remédio que vem sendo usado contra a gripe suína, o Tamiflu, declarou em uma conferência na Suíça (organizada por ela mesma), que o Brasil tem cinco vezes menos do medicamento em estoque do que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Pode até ser verdade. Mas a informação é considerada isenta vindo de uma empresa que tem ganhado bilhões, lucrando horrores com a epidemia?

Seria a mesma coisa que uma empresa de refrigerantes e de salgadinhos reclamar da proibição de venda de produtos megacalóricos em cantinas de escolas ou uma fábrica de cigarros reclamar de proibições impostas ao fumo. Epa, mas isso já acontece! Conflito de interesses? Imagina! É o capitalismo, estúpido!

Para atender a essa necessidade de mais estoque, o governo brasileiro poderia declarar a quebra da patente do Tamiflu por questões humanitárias e partir para a produção própria. Creio que a taxa de retorno do investimento para o desenvolvimento do remédio já foi bem satisfatório para a Roche, o que deve contentar os liberalóides de plantão que defendem a livre iniciativa acima da vida. Essa é uma daquelas brigas boas, pelas quais vale a pena gastar o capital de imagem acumulado internacionalmente.

Além de ser uma ótima pauta para uma próxima conferência na Suíça.

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Violência no campo diminui, mas índices são alarmantes

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgou os dados sobre os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano. Em número absoluto, eles diminuíram: de janeiro a julho de 2009, foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, enquanto que no mesmo período de 2008, foram contabilizados 678 conflitos e 301.234 envolvidos. Contudo, a regularidade com a qual se desrespeita os direitos humanos e a persistência das condições geradoras e dos atos de confronto continuam dando contornos à violência no campo brasileiro. E os números continuam vergonhosamente altos. Posto abaixo trechos de uma matéria que produzimos aqui na Repórter Brasil sobre o assunto.

Dados sobre expulsões (promovidas por agentes privados) e despejos (executados pelo poder público) ilustram bem essa forte tendência de continuidade. Segundo Dirceu Fumagalli, da coordenação nacional da CPT, é possível identificar uma “sincronia” de ações em que o resultado final é sempre o mesmo: a negação do acesso de trabalhadores e comunidades à terra. “Quando os despejos não são feitos pelo Estado, a ação privada nas expulsões aumenta [como se deu em 2007]. Quando o próprio Estado faz mais despejos [como se verifica em 2008 e 2009], a ação privada diminui”.

Ou seja, na falta de jagunços, o Estado entra com a polícia.

Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e seis pessoas torturadas de janeiro a julho deste ano. Nos mesmos meses de 2008, foram 13 assassinatos, 32 tentativas de homicídio, 38 ameaças de morte e dois torturados. Se o mês de agosto de 2009 for incluído no balanço, o número sobe para 17 – sem os cinco assassinados no Assentamento Chico Mendes, em Brejo da Madre de Deus (PE), em julho, pois o crime ainda está sob investigação.

De acordo com a CPT, 2.013 pessoas foram libertadas de trabalho escravo na metade inicial de 2009. Nos Estados do Acre, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Tocantins e Bahia, o número de libertações já é maior que o registrado em todo o ano passado. Surpreendentemente, 39% (786 pessoas) dos que ganharam a liberdade no 1º semestre eram explorados no Sudeste.

Um dos dados mais preocupantes é a quantidade de adolescentes libertados da escravidão. Apenas no primeiro semestre de 2009, foram libertados 88 jovens com menos de 18 anos. No mesmo período em 2008, foram 16. “Isso mostra uma nova geração sob o jugo da escravidão, perpetuando o histórico de seus antepassados”, comenta a CPT, que salienta que os dados divulgados são parciais, pois novas informações a respeito de conflitos ocorridos neste mesmo período poderão ser incluídas posteriormente no relatório anual.

Na visão de Dirceu, a estrutura estatal (incluindo os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) atua a favor da permanência da concentração da terra, apontada por ele como causa fundamental dos conflitos agrários. “O Estado não está para cumprir os direitos constitucionais”, declara. O representante da CPT lembra que não há uma a reforma agrária efetiva no país, que a impunidade não regride e que as políticas públicas que deveriam garantir qualidade de vida não são capazes de evitar a vulnerabilidade dos excluídos – que desemboca em fluxos migratórios e na sujeição ao trabalho escravo.

Além da ausência de avanços efetivos na política de democratização da terra, as obras de infra-estrutura de apoio ao agronegócio, como as previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal, também contribuem para este clima de pressão. “As populações locais e os grupos que se opõem [a esses empreendimentos] sofrem intimidações e, às vezes, chega-se ao recurso desta violência extrema”, completa Darci Frigo, advogado da ONG Terra de Direitos, que acompanha questões de conflitos agrários país afora.

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O pinto esfolado vivo e o ovo nosso de cada dia

Dia desses, um amigo me perguntou o que acontece com os pintinhos machos que nascem em grandes granjas voltadas à produção de ovos, uma vez que – até que se prove o contrário – eles não põem ovos.

A despeito do questionamento bizarro (não farei esforço algum para contextualizar os termos da nossa conversa), é uma boa pergunta. Afinal, se nenhuma manipulação ambiental ou genética for feita, cerca de 50% deles deveria nascer macho. O que ocorre com os indesejáveis?

Um vídeo postado por um grupo de defesa dos animais, a Mercy of Animals, e que está circulando na rede, mostra como centenas de milhares de pintinhos são mortos em uma das maiores granjas do mundo, a Hy-Line International, localizada no Estado norte-americano de Iowa. Está em inglês, mas o que importa são as imagens.

Uma amiga, que estudou zootecnia, me explicou que essa forma de “descarte” – no que pese ser medonha – é comum aqui no Brasil. Em muitos casos, criar um sistema para vender o galinho aumentaria o custo de produção dos ovos. Pois se a empresa quer lucro, nós queremos produtos baratos.

Outras possíveis formas de desova são lançar o pinto em água eletrificada ou jogá-lo em uma câmara de vácuo e retirar o ar. Na prática, o bichinho explode. O que sobra muitas vezes é usado como ração para as próprias galinhas. Se fosse vaca, ficaria louca.

Não estou dando lição de moral e não tenho a menor intenção de ensinar nada com isso. Apenas lembrar que a gente é o que a gente come.

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Vândalo é o Estado que mata e expulsa e a mídia que sorri

Em perseguição a bandidos, a Guarda Civil do município de São Caetano do Sul invadiu a favela de Heliópolis, em São Paulo. Uma jovem morreu baleada. A população revoltada foi à rua, ateou fogo em ônibus. Queria protestar, se fazer ouvida. A polícia dialogou com balas de borracha e bombas de gás.

Autoridades não demoraram em chamá-los de vândalos. Parte da mídia comprou a idéia. Uma repórter, com os olhos arregalados do tamanho do mundo, demonstrava o pânico de quem nunca imaginaria que aquela massa disforme poderia decretar o fechamento de um bairro. A polícia falava em “contenção”, comentaristas na TV em “imposição da ordem”. Nada sobre as reais causas da morte. Nada sobre um Estado que não está nem aí para quem (sobre)vive nas franjas da sociedade. Nada sobre o fato de outra pessoa ter morrido em Heliópolis em uma situação semelhante não faz muito tempo. Por pouco não pediram para colocar esses miseráveis bandidos de volta para o lugar deles.

A polícia do Rio Grande do Sul mata um trabalhador rural (que procurava terra para plantar) e os sem-terra é que são vândalos. A Justiça despeja centenas de famílias humildes de um terreno em São Paulo (que procurava uma casa) e os sem-teto é que são vândalos. Jovens de classe média alta criam bandos para espancar e matar e moradores de rua e dependentes químicos (que procuram simplesmente existir) é que são vândalos. Fazendeiros invadem terras indígenas no Mato Grosso do Sul e prometem bala para quem cruzar a cerca e os indígenas que moravam ali (e procuram ser eles mesmos) é que são vândalos.

Vândalo somos todos que ainda nos importamos com isso. Pois a indignação nada mais é que vandalismo para quem está tão embutido no sistema a ponto de ignorar que ele não funciona a contento.

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Jovens passaram quatro anos como escravos do gado

Muitos acham difícil a vida entre os 12 e os 16 anos – escola, relacionamentos amorosos, os pais que não os entendem, uma bomba hormonal que cai de repente, dinheiro curto… Mas difícil mesmo era a vida de dois adolescentes de 16 anos que passaram os últimos quatro anos como escravos na fazenda Barbosa, no município de Minaçu (GO). Faziam parte de um grupo de 32 libertados da escravidão, alguns dos quais pastavam na área há 12 anos.

A ação de libertação, realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério Público do Trabalho e Polícia Rodoviária Federal, ocorreu em terras de Agenor Ferreira Nick Barbosa, grande pecuarista da região. Se alguém quisesse equipamento de proteção para o trabalho tinha que comprar. Se alguém precisasse de foices também. Ou seja, pagavam para trabalhar.

Alguns dormiam em pedaços de espumas velhas. Outros passavam a noite debaixo de uma árvore – entre os que dormiam no relento, uma criança de quatro anos de idade. De manhã, era café puro. No almoço e no jantar, arroz, feijão e mandioca. Pouco para parar um saco em pé, imagine um trabalhador.

Casos de acidentes sem prestação de socorro e de intoxicações por agrotóxicos foram delatados. O “gato”, contratador de mão-de-obra do fazendeiro, era “confiável”: estava sendo procurado por homicídio.

Segundo apuração aqui da Repórter Brasil, os trabalhadores foram retirados do local e receberão os salários devidos e demais direitos trabalhistas. O Conselho Tutelar de Minaçu (GO) e o Ministério Público Estadual (MPE) foram chamados por causa dos jovens encontrados. Ao ver a situação, o promotor disse aos trabalhadores: “os presos da cidade dormem muito melhor do que vocês”.

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