Blog do Sakamoto

Traga sua poluição para o Brasil, diz BNDES

Rio de Janeiro – Na década de 70, quando questionar o padrão de desenvolvimento da ditadura resultava em vestir sapatos de concreto no fundo do oceano, um anúncio do governo do Estado de Goiás foi veiculado em revistas. Em uma foto em preto e branco, duas chaminés cuspiam fumaça no céu. Embaixo, um convite: “Traga a sua poluição para Goiás”.

Com o passar dos anos, a fronteira agrícola avançou para o Norte e, com ela, esse discurso de crescimento econômico a qualquer custo. Que se manteve, adaptando-se às novas realidades. Mudam-se os rótulos, ficam as garrafas.

Luciano Coutinho presidente do BNDES, afirmou que o governo negocia com empresários japoneses a instalação de uma siderúrgica. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, ele disse que o novo governo do Japão é muito rigoroso em matéria ambiental e não quer permitir novas siderúrgicas naquele país. Enquanto isso, Coutinho quer ver novos investimentos na área.

Parafraseando a antiga propaganda, poderia começar uma nova campanha: “Traga a sua poluição para o Brasil”. Aqui é fácil usar madeira nativa da Amazônia, Cerrado ou Pantanal na produção de carvão vegetal para abastecer as siderúrgicas de ferro-gusa. E se ainda assim se fizer necessária uma economia, pode-se adotar o exemplo de algumas empresas e usar escravos e crianças no processo de carvoejamento.

Não que isso seja uma novidade, uma vez que a instalação de grandes empresas de países desenvolvidos na periferia do mundo se deve também à busca de locais com menos organização sindical (ou seja, garantia menor de acesso aos direitos trabalhistas), leis ambientais mais frouxas ou sistematicamente ignoradas, recursos naturais prontos para serem usados (ou pilhados) e corrupção pública e privada a rodo. Ou alguém acha que o fato de muitos países terem transferido suas plantas industriais para cá se deve apenas à alegria de nosso povo ou à beleza do nosso Carnaval?

O presidente do BNDES poderia encabeçar uma outra campanha, que passe por garantir que todos os recursos públicos só venham a ser concedidos a quem não tiver problemas em seu negócio ou nas cadeias produtivas que o sustentam. Há iniciativas do banco que engatinham nesse sentido, mas são tímidas. Ainda mais diante do sempre presente discurso de que fazemos qualquer negócio. Afinal, este é um país que vai pra frente.

Compartilhe:

Quatro mil crianças são retiradas do trabalho infantil

O governo federal anunciou que retirou do trabalho ilegal quatro mil crianças e adolescentes em todo o país através de ações de auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego apenas neste ano. Antes que alguém comece a insultar nossa inteligência dizendo que criança que pega no pesado cresce com caráter mais apurado, vale ressaltar que a Secretaria de Inspeção do Trabalho considera como ilegal “o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de 18 e de qualquer trabalho a menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14 anos” – conforme o artigo 7º da Constituição.

Quem acompanha este blog sabe do que estou falando. Casos como os das crianças potiguares que abatiam gado e reviravam tripas de bois em matadouros no interior do Rio Grande do Norte ou dos jovens que colhiam limão e dormiam com ratos a menos de 100 quilômetros da capital paulista são uma vergonha para o país. Parte dos empresários, temendo repercussões negativas para a imagem de seus produtos e serviços, têm olhado para as suas cadeias produtivas com mais cuidado. Outros, com a certeza de que continuarão com seus mercados fazem de conta que não é com eles e usam justificativas como: “ah, mas na China e na Índia a situação é pior”. E a infância vai sendo tragada pelo ralo da economia.

Em 2008, o Brasil tinha 4,5 milhões de crianças e adolescentes trabalhando – um total 0,7% menor que no ano anterior, mas ainda assustadoramente alto. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada recentemente. Diante disso, o trabalho dos auditores é louvável, mas ainda uma gota. Deveria vir acompanhada de ações mais contundentes de prevenção – educação básica de qualidade, presença de serviços públicos como saúde e saneamento, geração de emprego e renda decentes – caso contrário isso é apenas enxugar gelo. Isso sem contar com a punição para as cadeias produtivas que lucram com o trabalho infantil, o que ainda engatinha no país.

Tempos atrás, a Organização Internacional do Trabalho divulgou um estudo apontando que a maioria das 75 milhões de crianças sem acesso à educação básica no mundo começaram a trabalhar em idade precoce. Causa e efeito.

A OIT destaca que os altos índices de trabalho infantil estão diretamente associados à queda na qualidade da educação e à desigualdade de gênero em um país. Ou seja, compromete a sua capacidade de desenvolvimento econômico e social. Além disso, os meninos e meninas trabalhadores rurais tendem a estar entre os mais desfavorecidos. E (como era de se esperar de uma humanidade machista) as meninas com frequência têm uma carga dupla de trabalho dentro e fora de casa, o que atrapalha sua escolaridade. Na dúvida, a família manda o menino para estudar e deixa a menina com os afazeres domésticos. Segundo a OIT, entre 2000 e 2004, o número de crianças e adolescentes entre 5 e 14 anos economicamente ativos diminuiu em 20 milhões. Mas ainda restam 165 milhões na mesma faixa etária envolvidos em trabalho infantil, muitos em longas jornadas e expostos a condições insalubres.

Qual é a lição de casa para prevenir tudo isso é claro. O difícil é ver um governo implantá-la de forma universal e eficaz. Ao passo que, ao mesmo tempo, parte da classe trabalhadora que foi acostumada a ser explorada passou ela própria a justificar a sua exploração, repetindo o discurso que a ela foi reservado: só o trabalho liberta.

Pois até entendo que muita gente sinta que sua experiência de superação é bonita o suficiente para ser copiada pelo seu filho ou filha. Mas será que eles não imaginam que o trabalho infantil, que atrapalha o desenvolvimento da criança, não precisa ser hereditário?

Compartilhe:

O chorinho, o bar, o pudim e um cartaz de Lautrec

Um manjado chorinho arranhava as paredes do bar, tão cheio quanto um final de feriado de 12 de outubro. Sentada no balcão, ela remexia com uma colher um pudim, fazendo dele mais companhia do que comida. Pela roupa, esperava alguém. Ou esperava que alguém a esperasse. Atrás dela, uma parede amarela emoldurava a cena feito um cartaz de Toulouse-Lautrec.

O doce terminou.

A música acabou.

Ninguém chegou.

Mas ela continua lá.

Compartilhe:

Se te colocassem um preço, quanto seria?

Açailândia (MA) - Quem já não passou raiva por ser desrespeitado no trabalho, ficando com a sensação de que não lhe deram o devido valor? Agora, imagine se alguém realmente impusesse um valor a você.

Anos atrás, Antônio, foi vendido como escravo no Maranhão e obrigado a trabalhar para Miguel de Souza Rezende, fazendeiro mais de uma vez flagrado pelo governo federal utilizando mão-de-obra escrava. Antônio, vítima de tráfico de seres humanos, foi comprado para limpar o pasto e derrubar floresta amazônica. Morador de Açailândia, na banda Oeste do Maranhão, terra de siderúrgicas, carvoarias e fazendas de gado, conseguiu o direito a uma indenização. Pouco mais de R$ 10 mil. Mas o fazendeiro, que já perdeu na Justiça, está usando instrumentos para protelar o pagamento desse miserê. Este é o Brasil que conhecemos bem, em que o acesso à Justiça é diretamente proporcional à capacidade de se pagar por ela.

Já falei do seu Antonio, mas estou arejando esta história por aqui para atender à quantidade de leitores que me pediram para mostrar o que é trabalho escravo. A fala de Antônio, com a ajuda do documentarista Caio Cavechini, foi transcrita do jeito que foi dada – livre, sem as correntes da língua portuguesa.

“Rapaz… dessa fazenda, como eu fui parar lá… Que naquela época era mais difícil serviço aqui dentro. Hoje não, já tem muito. A todo canto a gente acha um servicinho pra fazer. Pra quem quer trabalhar, pra quem não quer, não acha não. É roubar… Então, eles vieram atrás de gente para levar lá pro Miguel Rezende. Então, ele chegou e o cara foi na rua e aí anunciou que queria 42 peão. Então esses 42 peão foi junto, tudo. Com dois dias eles deram conta de ajuntar esses 42 peão.

No dia que nós saímos para a casa do Miguel Rezende, em Imperatriz, nós cheguemos lá, nós fumos vendido! Oitenta reais pra cada cabeça, os 42. O vagabundo morava lá no Casqueiro, num sei se ainda mora, num cabaré ali. Então ele pegou esse dinheiro lá com patrão e passou nós já pra outro. Quando nós cheguemos em João Lisboa, nós fomos pedir que queríamos merendá ele disse: “que merendá, nada! Cês pegarem muito chiado, cês pega tapa logo”. Barroso… Aí nós fiquemos por ali. Aí nós fumo pegá a mercadoria para botar no tapa. Aí o cantineiro, rapaz, disse que nós num podia ficar sem comer não, “eles merendaram em açailândia”. Aí ele passou um bocado de pacote de bolacha pra nós. Quando nós chegamos lá na sede, foi dez horas da noite. E o que comemos mesmo foi só um banho e dormimos com essas bolachinhas. No outro dia, todo mundo se arregaçou de se caminhar três quilômetros de pé, atravessemos o rio, fumo pro outro lado. Quando chegou lá, todo mundo com fome-de-manhã-caiu-na-cacaia-pra-cortar-pau-de-motosserra-uns-carregando-outros-só-limpando-outros-derribando.

Aí nos fizemos o barraco. Quando deu seis horas, nós cabamos de fazer um barracos de 30 metros assim, de comprido. Com os caibros no chão, coberto com plástico de uma lona preta. Aí pegou uma empreita, pra nós era quatro. Desses 40, nós fiquemos em quatro. Aí nós peguemos dez alqueires em branco. Quando deu com 25 dias eu falei pro Barroso, Barroso eu quero um dinheiro para mandar pra a minha família em casa, porque lá não ficou nada, vocês não me deram nada. Então pra comer eu tenho que trabalhar e mandar dinheiro. Ele disse: “hum, rapariga de filha de uma égua nenhuma desses que têm aqui não vai nenhum dinheiro. Tirando antes de 90 dias não vai nenhum dinheiro pra essas raparigas de vocês na rua”. Aí parou, trabalhemos o resto do dia. Jantemos, quando foi o outro dia, tornemos a ir pro serviço, trabalhar. Quando completou 30 dias eu disse: meninos, quem quiser ir embora mais eu, nós vamos. Aí o cantineiro avisou nós: “rapaz não sai de nenhum de vocês, se saírem vocês morrem. Tem muito jagunço na fazenda”. Nessas alturas, tinha um rapaz que era veeado, de Chapadinha. Esse rapaz nós escutemos os tiros seis horas. E esse rapaz, até hoje, ele nunca voltou pro barraco.

Rapaz, eu não tenho medo de homem não! Eu posso morrer, mas eu vou me embora. Eu não vou ficar aqui trabalhando a vida todinha, escravizado, para não mandar nada pra minha família. Aí quando nós acabemos de arrumar ali, eles tinham ido prum jogo lá no Jabuti, que é um povoadozinho de sem-terra. Aí chegou a corriola todinha que estava pra lá bebendo cachaça. Chegou tudo. Chegou o cantineiro e passou logo pra eles: “olha tem quatro homem que vai sair”. Aí ele começou logo a bordar taca mais os jagunços dentro do barraco, batendo, jogaram o cavalo no Deodete, o cavalo pisou no aqui assim dele, arrancou as duas unhas dele, ficou só a carne. Aí começaram o quebra-quebra.

Aí nós saímos, eles ficaram em argumento com os outros e eu sai com mais três. O menino que ficou com as unhas arrancadas ficou lá, eu disse depois nós volta pra buscá ele. Deixa esfriar mais. Aí quando nós sai, quando nós andemos uns 200 metros, vieram aqueles cães grandes, dois cachorros grandes, do tamanho de um bezerro. Dois se jogou pra dentro do capim.

Eu sou aquele homem que embora eu quero ver meus pés dentro dum caixão, mas não corro com medo dum homem, eles chegaram e me cercaram. Barroso era o mais de frente, eu peguei e meti a faca na barriga dele. Eles disseram mata o homem. Eu disse não mata o homem, se ele me mata, ele me mata, aí ele me atira, no que ele me atirá, vocês atirá nele, ele me mata, porque tinha uma faca entrando na minha barriga. Aí fiquemos ali, mata num mata, mata num mata, mata num mata. Aí chegou o gerente e disse pra eles: “rapaz, vocês libera esse homem, libera esse velho, porque se vocês mata ele, tem 42 homem, esses homem entrega essa fazenda”. Aí liberaram nós.

Aí quando nós viajemos um pouco, de noite, pra todo canto tinha piquete, pra todo canto piquete para matar nós. Ainda voltei pra pega o homem doente, carreguemos ele nas costas um pouco, aí ele melhorou, rasguemos uma camisa, marremos no pé dele. Nós viajemos três quilômetros perdidos, voltemos viajemos outros três, e os meninos dentro de uma coxas velha de farinheira.

Um friiiiio! E foooome! E de lá nós tiremos pra sair no… no Córrego Novo. Três dias comendo mamão véio e verde, raizinha de macaxeira e baiguinho de feijão verde. E foi nesses três dias o que nós comemos.

Mais isso já tava com seis anos, já tava esquecido… Alembrar do passado é sofrer duas vezes… O cara massacrado, panhar, cheguei em casa todo inchado de boca de arma, todo massacrado, a comida ficou a quinze reais cada pratinho de refeição, as bolachas ficou a seis reais, cada um pacote – naquele tempo não tinha esse preço. O de comer e esse serviço que nós fazemos nós não recebemos um tostão inté hoje. Nós já fomos em audiência duas vezes em São Luís, três vezes em Imperatriz, três aqui em Açailândia. Quando eu caí doente, eu não pude ir pra Brasília, foram no meu lugar, duas vezes. Aí parou, pra mim já tava esquecido. Agora, lembrar disso magoou de novo. Pra mim foi mesmo que tenha sido agora como perguntando nós, falando aqui.

Rapaz, eu hoje adepois que me aposentei, eu não sai mais para trabalhar pra fora pra ninguém. Que sempre eu tenho uma famizinha de trabalhar. Porque na idade que eu tô…tá faltando três meses para 75 anos…eu trabalhando é saúde pro meu corpo. Porque se eu parar, pronto, a carne vai indo, engorda, amolece o bucho e não tem coragem nem de andar! Eu trabalho todo o dia como eu tô te falando tem dia que eu faço diária de 50, 60. Mas minha morada é seca, seca mesmo, eu não paro não. Essa mulher, tem de dois anos que estamos junto, essa mulher foi uma grande coisa que Deus me deu. Porque eu vivia com quatro vagabunda ali, cuidando da filha que destruíam tudo o que eu tinha. Hoje tá com dois anos que eu tô nessa casinha, mas eu num acabei de fazer ela, porque eu vivo empregando em lote: essa áréa pro lado é minha, lá na esquina é minha, esse lote que travessa pro lado é meu. Tô com 11 lotes, e eu não devo a ninguém desses lotes.

Pra adquirir terra só se vir uma reforma pra cortar terra. Mas invasão que nem eu vejo a polícia matando, batendo, não quero não. Eu fico mesmo aqui dentro da minha areazinha, roçando pra riba e pra baixo, mas não vou não. Mas se vier reforma eu ainda vou tentar. Cortada e entregada, que eu não tenho mais idade, a mulher ainda tem idade, mas eu não tenho não.

Eu desde da idade de 11 anos que meu pai me executava em mexer com lãzinha do Ceará lá pelos campos de Caxias. Desde os 11 anos que eu mexo com roça. Meu pai morreu, minha mãe morreu, tá tudo enterrado ali em Caxias. Nós somos 32 irmãos dentro de três famílias de meu pai. E eu não sei aonde tem nenhum, vivem largado no mundo. Minha mulher morreu, outra também morreu e tá enterrada no município de Caixas, a ex vagabunda eu larguei aqui. Hoje, eu vivo só mais essa aí e uma criancinha que eu tô criando. Dali eu tenho um filho, tenho dois netos, tenho uma filha que tá pra acolá.

A Federal tá baixando aí, tá dando regulagem na turma. Tem alojamento, tem tudo. E hoje só entra pra dentro de uma fazenda pra roçar juquira, carteira assinada… 90 dias… no contrato. Quando sai ainda paga os direitos dele. Mas aqui nego já sofreu demais, demais. Hoje, ta mió… Os fazendeiros fazem isso porque são poderoso. Eles são poderoso. Então não tem cuma, o cara tem que ir roçar juquira, fazer qualquer coisa pra dar de comida pra família. Aqui mesmo nessas pontas de ruas que eles chama de pólo moveleiro aqui tem gente, menino, que se ele ferve a água de manhã, de noite ele não tem para ferver a água para os filhos. Anda pedindo nas casas pra poder escapar, porque não tem um emprego”.

Compartilhe:

Senado aprova acordo que beneficia a Igreja Católica

O Senado Federal aprovou ontem o tratado assinado entre o governo brasileiro e o Vaticano em novembro de 2008 que dita as bases do relacionamento da igreja católica com o Estado. A Santa Sé havia pedido mais vantagens ao presidente Lula, o que resultou em um texto que inclui liberdade (e isenção tributária) religiosa, respeito a templos e patrimônios, ou seja, alguns direitos já existentes. Mas, também algumas aberrações, como o reconhecimento de que não há vínculo empregatício entre padres e a igreja. O acordo agora segue para Câmara dos Deputados.

Já disse neste espaço que apesar do trabalho dos padres ser uma atividade bastante específica que demanda dedicação integral de corpo e alma, literalmente, ainda assim é um emprego. Há uma cadeia de comando, superiores hierárquicos, necessidade de presença no local de trabalho, tarefas a cumprir e salário. Considerando que o empregador em questão é uma instituição de quase dois mil anos que possui um dos maiores patrimônios financeiros do planeta à custa da contribuição dos fiéis, rendimentos financeiros, valorização de propriedades rurais e urbanas e de obras de arte, digamos que é uma solicitação um tanto quanto sovina.

Nos últimos anos, trabalhadores brasileiros foram às ruas para protestar contra a famigerada “Emenda 3” – aquela proposta parlamentar, vetada por Lula, defendida pelo empresariado e repudiada por movimentos sociais e associações de trabalhadores, que pretendia tirar dos auditores fiscais o poder de verificar a existência de vínculo entre patrões e empregados, facilitando a precarização do emprego. Dessa forma, o pedido do antigo cardeal Ratzinger vai ao encontro dos interesses do capital e não do trabalho. O que mostra que ele está antenado com as necessidades do empresariado em um mundo em que o mercado se torna global e a religião cada vez mais midiática.

Vale lembrar que o Brasil também criou um novo modelo de fusão entre o setor empresarial e a fé, exportando-o para diversos país, modelo bem definido em casos como o da Igreja Universal. Com o acordo do Vaticano, a bancada evangélica no Congresso Nacional quer os mesmos direitos e já propõe um “Lei Geral das Religiões”.

Imaginem padres tendo que se tornarem pessoas jurídicas e abrirem micro-empresas para prestarem serviços espirituais para que o Vaticano economize nos impostos? Ou evitando que a Santa Sé seja processada por seus ex-funcionários que largaram a batina ou por outras pessoas que se sentirem prejudicadas por um deles. Vale lembrar as indenizações milionárias movidas contra a igreja pelos fiéis que sofreram abusos por padres norte-americanos. Em um mundo assim, qual seria a justificativa? De que não foi um representante da igreja, mas sim a “Espírito Santo – Serviços Religiosos e Afins ME” que fez a besteira?

Tudo isso é especulação, pois creio que não chegaríamos ao ponto de ver padres passando notas fiscais no final de cada mês para receber o ordenado. Mas se já vemos entregadores de gás, que ganham uma mixaria, recebendo por pessoa jurídica, nada é impossível nesta terra de Deus.

Outro ponto polêmico é o que prevê “ensino religioso católico em instituição pública de ensino fundamental”. O Ministério da Educação estrilou.

Em um momento em que discute-se abertamente a importância da separação simbólica entre religião e Estado esse tipo de ação no currículo escolar é, no mínimo, anacrônica. Muito mais importante seria discutir a retirada de adornos e referência religiosas de edifícios públicos, como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Não é porque o país tem uma maioria de católicos que espíritas, judeus, muçulmanos, enfim, minorias, precisem engolir um símbolo cristão. Além disso, as denominações cristãs são parte interessada em várias polêmicas judiciais – de pesquisas com célula-tronco ao direito ao aborto. Se esses elementos estão escancaradamente presentes nos locais onde são tomadas as decisões sem que ninguém se mexa para retirá-las, como garantir que as decisões serão isentas?

Justificam como tradição. Aquela coisa do “Ué! Mas sempre foi assim, por que mudar?”, a que sempre se recorre quando se confronta algo do passado, nem sempre justo, com um argumento racional.

Por fim, o Estado deve garantir que todas as religiões tenham liberdade para exercer seus cultos. Mas não pode se envolver, positiva ou negativamente, em nenhuma delas. Estado é estado. Religião é religião. É simbólico. E, por isso, imprescindível.

Compartilhe:

Destruir pé de laranja é crime, atirar em índio, não

Sempre defendi neste espaço a ocupação de terras improdutivas, irregulares ou que são usadas para a exploração da dignidade alheia como instrumento de pressão popular. Quem acha que a propriedade privada está acima de qualquer coisa, procure outro blog. Mas em um momento em que coiotes no Congresso Nacional tentam criar uma CPI contra o MST para, entre outros objetivos, barrar a atualização dos índices de produtividade (o que faria com que as terras usadas para especulação fossem desapropriadas, tendo uma melhor destinação) dar munição aos conservadores da imprensa e aos caninos-congressistas soa fora de hora e desnecessário.

Porque quem tem acesso à opinião pública não vai ficar preocupado em se debruçar sobre os crimes cometidos pela empresa em questão e sim em colocar na mesa mais uma justificativa, ainda que infundada, para criticar a luta pela reforma agrária. As imagens dos pés de laranja derrubados têm ecoado na mídia da mesma forma que as mudas de eucalipto retiradas em uma ação do MST, anos atrás, no Rio Grande do Sul. Por mais que as presenças de ambas as plantações sejam irregulares, é difícil explicar para a maioria da população que a laranja, que é comida, teve culpa na história.

Agora, considerado isso, o ministro Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário) e o presidente do Incra, Rolf Hackbart, se disseram chocados com a “grotesca” e “injustificável” ação. Não me lembro dos dois funcionários públicos usarem os mesmos termos para tratar da situação dos guaranis kaiowás no Mato Grosso do Sul, que no último mês sofreram ataques, tiveram acampamentos incendiados e foram baleados por proprietários rurais e seus capangas na região – mais um capítulo de uma longa história de negação de direitos. O mais interessante é que o próprio Incra considera a terra grilada, luta na justiça para recuperá-la e ninguém fala nada.

Dois pesos, duas medidas. Comportamento este também compartilhado por parte da imprensa. Destruir pés de laranja é crime inafiançavel, atirar em índio, não. De repente dá até medalha.

Compartilhe:

Dúvida: a internet é reacionária ou progressista?

Considerando que a internet é apenas um espaço, um meio, nenhuma das duas opções, e que as pessoas que utilizam esse meio é que adotam posturas, não saberia afirmar se hoje, no Brasil, a maior parte das pessoas que navegam se inclinam mais para um lado ou para o outro. Mas, se não é possível dizer que a internet é isso ou aquilo, aqui no blog boa parte dos comentários são extremamente conservadores – do meu ponto de vista, é claro. Pincei algumas declarações recorrentes por aqui e teci algumas considerações.

Com exceção daqueles que pecam pela extrema falta de bom senso e por isso são deletados, todos os comentários postados são mantidos. Posso discordar veementemente do que diz o meu leitor, mas ele tem o direito de dizer e a internet é um espaço aberto para isso mesmo. Por isso, vocês vão ter que me engolir nessa.

“Tá com dó de criança de rua/morador de rua/usuário de drogas? Leva para casa.”
A sistemática ausência do Estado e a mais sistemática ação de determinados grupos ditos liberais de reduzir a importância da ação estatal ajudou a espalhar cada vez mais aberrações como essa. A discussão sai do âmbito das políticas públicas, que deveriam existir para dar apoio a determinadas populações fragilizadas, e passou para o espaço privado. Ou seja, sou eu que tenho que pegar cada pessoa pelo braço e dar comida em casa. Pois o Estado tem que se preocupar com coisas mais importantes, como auxiliar grandes corporações. Por outro lado, o comentário é recheado de rancor, como se a pessoa desejasse ver uma punição contra esses deslocados. “Por que tenho que me encaixar na sociedade e eles não?”, deve perguntar o missivista. Daí para a desumanização e queimar índios na rua é um passo.

“Antes de falar mal de um pecuarista, saiba que é ele quem coloca a comida na sua mesa.”
Ninguém está criticando todos os pecuaristas, mas apenas aqueles que fazem caca. Esse tipo de comentário usa a velha técnica de convencer os outros de que você está falando mal deles também a fim de obter parceiros na luta contra o blogueiro. Identidade reativa, sabe? Criar um inimigo comum, no caso eu, ignorando as arestas que existem entre os produtores que atuam dentro da lei e os criminosos. O pior é que eu nem como carne de boi.

“Você defende o aborto, não entende os desígnios de Deus e não dá a mínima para a vida.”
Exatamente porque defendo, acima de tudo, a vida é que tenho essa posição. Mas poderíamos dialogar feito gente grande sobre o tema se fossem trazidos argumentos não sobrenaturais para essa discussão. Devido aos textos defendendo o santo direito da mulher ao aborto, e carregado de raiva ou de um ímpeto evangelizador, um leitor posta diariamente quase um capítulo inteiro da Bíblia na forma de comentários neste blog – que, graças a Deus, tem filtro para segurar esse tipo de fanfarronice. Realmente, não entendo os desígnios de Deus e não faço idéia se ele joga dados. Mas me lembro de uma tira do Laerte em que Deus cria um céu mais legal para pessoas desregradas que se divertiram na vida.

“Deus criou o homem para governar e a mulher para estar ao seu lado.” “O marido tem direito a bater em sua mulher.” “Lei Maria da Penha não deveria existir porque em briga de marido e mulher não se deve meter a colher.”
A maior parte dos comentários machistas foram anônimos neste blog. Por que será?

“Esses sem-terra são um bando de vagabundos. Apanhar é pouco, deveriam matar mais alguns para que parem de atacar a propriedade alheia.”
Às vezes me pergunto quem foi que escolheu os temas dos livros de História usados nas escolas. Pois se os alunos entendessem como a política de terras no país garantiu que um punhado de pessoas concentrasse boa parte das propriedades (os últimos dados do IBGE lançados na semana passada apenas confirmam isso) entenderiam melhor o que significa lutar pela terra. Não é roubar, mas garantir que seja feito Justiça. Outra coisa: boa parte das vezes são pessoas desprovidas de bens materiais que transbordam fascismo ao criticar ocupações de terra. Poderíamos falar durante dias sobre o que está por trás desses discursos, mas cito a raiva diante da coragem alheia, o desejo de ascensão social que culmina na mesma posição do latifundiário, os efeitos dos discursos (muito famosos na época da Guerra Fria) de que os comunistas vão invadir sua casa e tomar até o liquidificador depois de violentar sua filha… Ou posso estar enganado e todas as pessoas que deixam esses comentários bizarros no meu blog são da TFP. Espero que não, pois imagine quando resolverem fazer um flash mob aqui na frente da minha casa?

“Trabalhei quando criança e isso formou meu caráter. Criança tem que trabalhar para não ficar fazendo arruaça na rua.”

Boa parte dos comentários postados sobre trabalho infantil são maniqueístas: ou a criança tem que ser burro de carga ou vai assaltar nos semáforos, não existe a opção estudar-brincar-crescer. Até entendo que muita gente sinta que sua experiência de superação seja bonita o suficiente para ser copiada pelo seu filho. Mas será que eles não imaginam que o trabalho infantil não precisa ser hereditário? “O trabalho liberta”, já dizia o portão do campo de concentração. No Natal, vou fazer uma lista para Papai Noel levar uma boneca de pano ou um carrinho de madeira para a porta desse pessoal amargo da vida.

“Queria ver você ter um filho homossexual.”
Também. Mas nosso planejamento familiar prevê filhos apenas um pouco mais para frente. Depois da Copa.

“Se você critica tanto São Paulo, seu fdp, porque não se muda daqui? Tenho orgulho de ser bandeirante, sou a locomotiva que puxa este país!”
São Paulo, ame-o ou deixe-o. Depois perguntam porque a redemocratização é lenta nas entranhas de alguns. Esse comentário estava em um post em que escrevi que parte da população de São Paulo, pobre ou rica, guarda o ranço quatrocentão, bandeirante, o nariz empinado e arrogante diante do restante do país. É aquela coisa: se você é paulista e critica o estado, bom sujeito não é. O bom é que a pseudo-hegemonia perde força a cada dia.

“A empresa X gera empregos para o Brasil. E você? Quantos empregos gera?”
Trabalho é a única coisa que gera riqueza, portanto sem força de trabalho nenhuma empresa gera riqueza real. Em outras palavras, não é um favor contratar alguém, uma vez que alguém vai ficar com o lucro obtido por essa pessoa. O dono do capital precisa do trabalhador, contudo é comum as empresas e parte da mídia inverterem o discurso, mostrando a bondade de contratar empregados. Faça-me um favor! Aliás, fico na dúvida: será que comentários assim vieram das assessoria de imprensa contratadas para garantir a imagem da empresa, de empregados de alto escalão das mesmas ou veio de trabalhadores da base que sentem orgulho de fazer parte de uma grande corporação? Se forem as opções “a” e “b”, OK, faz parte, Se for a “c”, começo a me preocupar pela raça humana.

Compartilhe:

Flash mobs trabalhistas irritam patrões na Alemanha

Sempre fui cético quanto à real capacidade dos flash mobs (aqueles protestos instantâneos, organizados pela internet ou por mensagens SMS) de contribuírem com alguma mudança na vida real. Presenciei vários deles, como quando um grupo de umas 80 pessoas se reuniu no vão livre do Masp para exigir “Fora Sarney”. Cruzavam a faixa de pedestres quando o semáforo fechava e retornavam à calçada quando abria. Um ato mais para expiação da culpa individual do que algo realmente construtivo. Depois o povo deve ter ido tomar um refri na rede de fast food mais perto.

Mas vêm da Alemanha notícias de que nem tudo está perdido. Por lá, flash mobs têm sido utilizados por sindicatos para lutar por direitos trabalhistas. Por exemplo, 150 pessoas foram convocadas a encherem carrinhos de compras e os abandonarem lotados nos corredores em um shopping center em Aschersleben na última quinta. Distribuíram panfletos exigindo melhores salários e explicaram aos outros trabalhadores o porquê da manifestação. Com isso, o comércio foi interrompido por uma hora e os empregados da loja levaram um dia inteiro para devolver tudo ao lugar, causando claros prejuízos.

Recentemente, ao analisar um caso de flash mob “trabalhista” semelhante ocorrido em 2007, o Tribunal Federal do Trabalho da Alemanha considerou que essa forma de protesto é legítima e não pode ser considerada um impedimento aos negócios: “Uma ação organizada por um sindicato como esta, realizada no contexto de uma ação de classe, não é ilegal”, de acordo com a Der Spiegel. A irritação de patrões com a decisão pode levar o caso à Suprema Corte.

A idéia poderia ser copiada por aqui também. Mas duvido que muitos dos manifestantes de butique que temos no Brasil sentiriam-se confortáveis em participar de uma ação como essa. Isso se conseguissemos alguém, é claro, uma vez que na Alemanha há uma história de protestos de massa, enquanto aqui a gente ainda engatinha.

Compartilhe:

Fenômeno: já querem cortar a CLT pelas Olimpíadas

Eu tinha certeza! Nem bem as comemorações pela escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016 começavam na praia de Copacabana e arautos do capitalismo salve-se-quem-puder foram à mídia para dizer que o Brasil não conseguirá realizar as obras necessárias com as leis atuais. Na opinião deles, para ter sucesso na “remodelação” urbana, será imprescindível uma reforma trabalhista que torne mais barata a mão-de-obra (tradução: direitos trabalhistas, tchau, tchau) e mudanças urgentes nas leis ambientais para agilizar projetos que podem causar impacto ao meio (tradução: aprovação a toque de caixa, sem intromissão do governo, para a alegria de investidores que querem ver áreas de preservação convertidas em construções).

A cara-de-pau é tamanha que eles nem mais escondem que querem usar as Olimpíadas como justificativa para derrubar dois “entraves” ao “progresso”: o povo e sua qualidade de vida. Afinal, o lucro em primeiro lugar.

Acho sensacional que o Brasil sedie os Jogos. Mas é claro que muita gente vai tentar fazer deles justificativa para tudo e, pior, usá-lo para enriquecimento ilícito. Óbvio que temos desafios importantes como nação, como garantir educação a todos, saúde de qualidade, uma reforma agrária, universalizar direitos. Mas não é fugindo de determinados desafios que vamos conseguir vencer nossos problemas. Da corrupção generalizada aos modelos errados de desenvolvimento, a construção de 2016 será um bom momento para encará-los de frente e mostrar que somos sérios. Um bom começo é deixar as carpideiras do capital falando sozinhas, sem dar peso às suas fúteis palavras.

A guerra de discursos usando as Olimpíadas já começou e vai durar sete anos. Temos que ficar atentos e ir à luta para garantir que a ladainha dos que querem “liberdade total” tendo como justificativa o desenvolvimento não continue sendo entoada. Nossa maior conquista será a de que podemos construir um evento que deixe um legado de dignidade à população e não seja um instrumento de sua exploração.

Compartilhe:

CPMI do MST é derrubada e ruralistas sofrem derrota

O governo federal agiu e conseguiu derrubar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), formada por deputados federais e senadores, que investigariam supostas irregularidades no repasse de recursos públicos ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Como 42 deputados retiraram suas assinaturas de apoio, ficaram faltando três para a instalação da CPMI. O MST havia denunciado que a iniciativa era uma represália às pressões do movimento pela revisão dos índices de produtividade.

Passaram raiva o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS) e a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), propositores da CPMI, que ficaram a ver navios. Segundo o Blog do Noblat, Onyx reclamou dos “ruralistas melancia”, que assinam o requerimento de criação da comissão e, pressionados pelo governo, murcham. Bem, melhor estes do que os “ruralistas peroba”. Mas aí já é outra história.

Interessante a indignação dos nobres parlamentares, que não vieram a público nas centenas de vezes em que grandes empresas e fazendeiros, que receberam recursos públicos do BNDES, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, entre outros, estiveram envolvidos direta ou indiretamente com a morte de trabalhadores rurais, sindicalistas e missionários, com a contaminação e destruição do meio ambiente, o trabalho escravo e o infantil, a expulsão de comunidades tradicionais de suas terras, a grilagem de terras, a corrupção de políticos e de funcionários públicos. Será que é pelo fato de que, no Brasil, dois pesos e duas medidas, para ricos e pobres, é uma regra de ouro?

Por exemplo, há dados públicos que comprovam que o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e o Serviço de Aprendizagem do Cooperativismo, entidades patronais, receberam juntas mais de R$ 1,1 bi entre 2000 e 2006.  O problema é que, entre os seus gastos, havia o pagamento do presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) – dinheiro que deveria ser gasto em aprendizagem de trabalhadores.

Qualquer mau uso de dinheiro público tem que ser apurado, seja quem for o autor. A sacanagem é usar o caso como chantagem ou justificativa para recomeçar uma caça às bruxas, semelhante ao que se tentou fazer na CPI da Terra anos atrás. Fazem parecer que os recursos repassados a entidades sociais no campo são usados para fazer orgias, ignorando o desenvolvimento em educação e tecnologia rurais obtidos em pequenas comunidades com esses investimentos nos últimos anos. E ignorando que sem a pressão dos movimentos sociais, o pouco de reforma agrária que ocorreu nem teria sido realizada.

Compartilhe: