Blog do Sakamoto

Em SP, pobre é despejado por canetada cultural

Pedi para o consultor cultural, advogado e músico Guilherme Varella escrever sobre o despejo da Vila Itororó, tema que ele acompanha há um bom tempo e que mostra como funciona a política cultural na maior cidade do país. Que chuta quem não tem nada para beneficiar quem já tem muito. Guilherme também tem um blog, que merece ser visitado.

O despejo da Vila Itororó: que interesse “público” tem a prefeitura com isso?

A Prefeitura de São Paulo pretende construir um grande centro cultural na Vila Itororó, uma vila centenária no coração do Bexiga. A ideia é levantar um espaço para apresentação de espetáculos de música, teatro, dança e preservar o patrimônio histórico local. Muito bonito se o projeto não implicasse em desalojar todos os seus habitantes, sem qualquer garantia de novas moradias nem da preservação da memória dos que moram lá. São 77 famílias residentes, a maioria morando na Vila há cerca de 30 anos. Algumas há mais de 60.

Os moradores estão prestes a perder suas casas, desde que foi concedida a liminar da imissão na posse, no dia 04 de agosto desse ano. A ação de usucapião, movida paralelamente pelos moradores para que tenham direito a suas casas, não foi considerada pelo desembargador que, na prática, concedeu uma ordem de despejo. Sem estar acertada qualquer indenização. Ou seja, a qualquer momento, a Prefeitura de São Paulo, em nome do sentido público, da cultura e do patrimônio, pode por todas essas pessoas para correr. Afinal de contas, que cultura, que patrimônio e que sentido público todas elas representam?

Se considerarmos o fundamento do último acórdão do TJ de São Paulo, nenhum. “Em razão da prevalência do interesse público sobre o particular, o processo de desapropriação não deve ser suspenso” (TJSP- 17/08/09). O projeto de um centro cultural na Vila Itororó é parte da política cultural da prefeitura e governo de São Paulo, baseada na construção de grandes teatros e casas de espetáculo no centro da cidade, e segue também as diretrizes da política urbana dessa gestão. Alinham-se o deslocamento da população carente que reside na região central – a chamada “higienização social” – e a implementação de medidas que valorizem o espaço para que as camadas mais altas da sociedade possam freqüentá-lo, como a construção desses aparelhos culturais.

Modelo dessa política é a chamada Nova Luz. A exemplo do que vem ocorrendo na Vila Itororó, para a construção do maior de teatro de dança do país na região da Luz o Estado de São Paulo desapropriou prédios abandonados e ocupados pela população e uma antiga rodoviária que sediava um comércio popular, e deslocou os moradores de rua do local. Tanto na Vila Itororó quanto na Nova Luz, a finalidade histórica da região e toda a população que ali mora e trabalha não são incorporados nos projetos.

A Vila – A Vila Itororó é uma construção de 1920, na rua Martiniano de Carvalho, entre o Bexiga e a Bela Vista. Construído pelo imigrante português Francisco de Castro, o prédio recebeu esse nome por estar localizado na nascente do antigo Rio Itororó. Sua arquitetura é peculiar, objeto de estudos científicos em arquitetura e urbanismo. Foi erguida com restos de materiais de um antigo teatro que havia sido demolido na região e foi a primeira casa com piscina na cidade de São Paulo, motivo para agregar a comunidade local em seu entorno.

Tombado pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), o conjunto possui 37 casas interligadas por um pátio, com a piscina no centro, num espaço de 4,5 mil metros quadrados. Foi declarada de utilidade pública em 2006, quando se iniciou o processo de desapropriação em face da Fundação Leonor de Barros Carvalho. A Fundação, que administrava a Vila e cobrava o aluguel dos moradores, abandonou-a completamente desde 1997. A partir de então, coube aos moradores a preservação do local, sem qualquer apoio público.

O aspecto histórico embasa e demanda a ação de preservação do patrimônio cultural constituído pela Vila. Contudo, o projeto de construção do centro cultural, como está posto, exclui a sua população, historicamente ligada à região.

Despejar para o interesse público? – Para a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Raquel Rolnik, é necessário que um projeto cultural como esse seja compatível com a questão habitacional. Relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o direito à moradia adequada, ela afirma ser possível a concepção de um projeto que una a finalidade cultural à permanência dos moradores.

De acordo com Raquel, “há um erro estratégico em se construir um centro cultural num lugar que já é um centro cultural. Construir algo ali, eliminando sua população, é desconsiderar toda a diversidade étnico-cultural existente, a convivência cultural estabelecida e a grande produção cultural historicamente realizada nesse importante espaço do Bexiga”. A dificuldade, entretanto, está na falta de diálogo com a prefeitura. Desde o início do processo de desapropriação, em 2006, nunca houve uma audiência para a tentativa de compatibilização dos projetos de modo a manter os moradores no local. Tampouco para uma explicação acerca da finalidade do projeto e da solução para o problema da perda das casas.

A prefeitura trata a Vila Itororó como uma invasão ou uma ocupação. Entretanto, todos os moradores sempre pagaram aluguel à fundação proprietária, que abandonou a administração e o cuidado com o espaço. Assim como a prefeitura, que desde a declaração de utilidade pública, nunca mais destinou recursos para conservar o local. Atualmente, um grupo de extensão da Faculdade de Direto da USP – o Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU) -, sob orientação do professor Celso Fernandes Campilongo, e com o apoio dos moradores da Vila, tenta reverter a decisão de desapropriação na justiça. No entanto, todos os recursos tem sido rejeitados.

Essa situação retrata bem a visão de cultura da Prefeitura de São Paulo. E a noção de interesse público que, em alguns casos, tem a Justiça brasileira. A intenção da prefeitura é despovoar a Vila Itororó para atender a um interesse público por cultura. Claramente, o interesse do público A. Porque o interesse dos moradores da Vila – ou público C, D e E – pode ser dispensado. Por uma canetada cultural.

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Comentários

19 Responses to “Em SP, pobre é despejado por canetada cultural”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Antonio Arles, Cé Saint-Shu. Cé Saint-Shu said: Em SP, pobre é despejado por canetada cultural | Blog do Sakamoto http://ow.ly/DnoO [...]

  2. Rubens Machado disse:

    Depois me perguntam se esse prefeito não é maluco de pedra. Capaz de cobrar IPTU dos despejados também, IPTU do Povo de Rua.

    Ah, vá!

  3. [...] Blog do Sakamoto: pedi para o consultor cultural, advogado e músico Guilherme Varella escrever sobre o despejo da Vila Itororó, tema que ele acompanha há um bom tempo e que mostra como funciona a política cultural na maior cidade do país. Que chuta quem não tem nada para beneficiar quem já tem muito. Guilherme também tem um blog, que merece ser visitado. [...]

  4. joao fernandes disse:

    Isso sem duvida faz parte da politica de beneficiar construtoras de condominios que tem muitos interesses no bairro e nao querem como vizinhos o povo que nasceu e que vive na vila. Pouco importa ao nosso ilustre prefeito pra onde eles vão, desde que nao incomodem. Devemos fazer barulho para que isso não aconteça!!

  5. Fabio Passos disse:

    Os pobres são tratados como um estorvo.

    A “elite” branca e rica não tem o menor pudor.
    O poder público é usado como um instrumento prá atender os desejos dos grã-finos.

    Não há limite pros abusos e privilégios dos ricos?

  6. Flavio Guarniero disse:

    Quantas bobagens mencionadas pelo blog.Na realidade você não conhece quem são os moradores da mencionada vila.Ali é terra de ninguém,com alto grau de criminalidade e problemas para o agravamento do processo da favelização do bairro.A posição da maioria dos moradores é pela implantação do centro cultural.

  7. Rudy disse:

    São Paulo é uma cidade nojenta, e os paulistanos de classe média acham que vivem na Suíça. Só percebem o lugar em que residem quando o PCC começa a atirar em supermercados de Higienópolis.

  8. coiote disse:

    O Fabio Passos é racista de primeira ordem,não cansa de culpar os brancos por tudo que acontece de ruim,se alguem falasse dos negros o que ele fala dos brancos,já estaria preso por raçismo à muito tempo, mas parece que neste país raçismo é só quando ofende a raça negra, as outras raças podem ser ofendidas sem problema.

  9. Laurindo disse:

    Acredito que esse prefeito ainda não mostrou tudo de que é capaz, afinal, queriam o quê? O cara é do DEM (PFL), esqueceram? É o tipo ideal de governante para os brancos e remediados paulistanos. Boa parte da pobreza ainda não percebeu que é o branco-rico contra o pobre-cinzento. Não há meio termo. Tenho certeza de que entre os despejados, muitos votaram no Kassab. Bem-feito. Tem pobre que vota em candidato de burguês só pra poder dizer que vota igual aos ricos. É babaca, mesmo, tem mais é que se dar mal.
    Não culpo o Kassab. Ele não mentiu pra ninguém. Foi eleito pelos ricos, tem que governar de acordo com os interesses dos ricos, caso contrário, ele seria um traidor de seu eleitor, aí nas próximas eleições, o rico não vota mais nele e ele, então, passaria a depender apenas do voto dos pobres babacas. (Tá certo que está categoria ainda é muito numerosa, provavemente ele seria eleito em novos pleitos.)
    Um abraço.

  10. coiote disse:

    O Fernandinha
    Se “raçismo” não se escreve dessa maneira por favor me ensine como escreve corretamente,pois no meu fraco Portugues aprendi dessa forma.

  11. Fernandinha Sta Lucia disse:

    Pelo jeito você usa o unitunitê para censurar os comentários dos seus leitores. Independente do conteúdo e direito de resposta dos mesmos. Não poder esclarecer q não postei alguns comentários me incomoda . Tô fora, assim poupo vc desse trabalho e a mim de aborrecimento.

  12. Reginaldo Gadelha disse:

    Tudo bem, Fernandinha. Isso não muda o que eu sinto por você, tá ?…

  13. thiago gomes disse:

    EM PRIMEIRO LUGAR EU MOREI NA BELA VISTA E CONHEÇO A VILA !!!TENHO CERTEZA Q ESSA RAQUEL NAO DEVE MORAR LÁ BELA VISTA ,E MUITO MENOS É OBRIGADA A DESCER DO ONIBUS E PASSAR EM FRENTE A UMA FAVELA A NOITE !!!COM PONTO D VENDA D DROGAS INCLUSIVE!!O CASARAO É UM LUGAR HISTORICO EM SP E QUE HJ EM DIA NAO LEMBRA EM NADA O TEATRO Q REPRESENTOU EM SP NO SECULO PASSADO E APOIO SIM A RECUPERAÇAO E TRANSFORMAÇAO EM UM CENTRO CULTURAL E HISTORICO EM SP ,COISA QUE HJ EM DIA NAO É MESMOOOOOO!!!!!!E QUEM PUDER PROVAR Q MORA LÁ A MAIS D 50 ANOS TEM DIREITO COMO DIZ A REPORTAGEM ,PORQUE HJ O TEM LÁ É QTO PRA ALUGAR POR 150 ,E INVASAO DE MORADORES SEM TETO!!!E QUE NADA REPRESENTA O CONTEXTO DO PATRIMONIO HISTORICO-CULTURAL DO LUGAR !!!!

  14. Fernandinha Sta Lucia disse:

    Coiote :Racismo não se escreve com Ç, tá ?…

  15. Reginaldo Gadelha disse:

    Num país como o Brasil, o que é mesmo “pobre” e “rico” ?

  16. Reginaldo Gadelha disse:

    Racismo com Ç (c – cedilha), ó suprema ignorância. (E português tem acento circunflexo no e…, retardado…). E se diz “como se escreve corretamente”, sua mula…

  17. Fernandinha Sta Lucia disse:

    Oi coiote. Esteja certo que eu jamais postaria um comentário dessa natureza e nem o Reginaldo Gadelha. Isso é obra de pessoas decadentes, que usam o nome alheio pensando assim que estão extravasando suas frustações. Não dá resultado nenhum. Só mostram como são pobres de espírito e cheio de veneno.

  18. Coyote disse:

    Fernandinha : Você quiz dizer “cheios de veneno”…?

  19. Reginaldo Gadelha disse:

    Não aborreça, fernandona…