Blog do Sakamoto

O fim de uma era na esquerda brasileira

Já virou tradição neste blog: todo fim de ano, posto este texto. Deixo claro que não é falta de criatividade, uma vez que há uma fila de assuntos me cutucando, querendo sair. E a culpa não é apenas minha, mas dos leitores que solicitam o resgate do debate. Com isso, dou uma pequena contribuição à reflexão na virada do ano. Em tempos de conferências do clima e movimentações pré-eleitorais, ele continua atual. E nós seguimos caminhando nessa direção.

Há um problema entre a velha e a nova esquerda, forjado no contexto histórico em que seus atores foram criados. Não adianta mostrar uma nova luz para a interpretação da realidade: há grupos que fecham e não abrem com o padrão de desenvolvimento da ditadura. A meu ver a solução se dará através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos se retirando com a idade para dar lugar aos mais novos. É triste que seja assim, mas tendo em vista os últimos embates, não acredito em conciliação possível.

Não sei se todos se deram conta, mas estamos vivendo tempos interessantes – para usar a expressão do professor Hobsbawn – no que diz respeito ao “ser” de esquerda no Brasil. Um período de mudanças em que um dos efeitos é a falta de entendimento entre grupos que, teoricamente, defendem o mesmo objetivo. A questão ambiental é um dos palcos principais dessa batalha, em que a razão tem sido morta e enterrada – principalmente pelo grupo que está no poder.

Tivemos três grandes ciclos da esquerda no país durante o século 20. Grosso modo, o primeiro deles, anarquista, foi fomentado pelos imigrantes europeus que vieram trabalhar na então nascente indústria paulista e difundiram seus ideais. O segundo, com os movimentos comunistas e socialistas, da intentona à resistência à ditadura militar dos anos de chumbo. O terceiro veio com o processo de redemocratização do país e a liberdade de organização civil e tem um forte tom partidário.

Ou seja, a esquerda durante o século 20 variou de acordo com a relação que firmava com o Estado. Do anarquismo, que não acreditava que ele fosse fundamental para o desenvolvimento da sociedade, passando pelo comunismo, que defendeu a necessidade de destruir o Estado para depois reconstruí-lo sob a direção do proletariado, até o “petismo” em que a esquerda acreditou que seria possível tomar o Estado dentro das regras do jogo da classe dominante, ou seja através da disputa político-eleitoral.

Veio o século 21 e uma das poucas certezas que tenho é que o paradigma do sistema político representantivo está em grave crise por não ter conseguido dar respostas satisfatórias à sociedade. Bem pelo contrário, apesar de ser uma importante arena de discussão, ele não foi capaz de alterar o status quo. Apenas lançou migalhas através de pequenas concessões, mantendo a estrutura da mesma maneira e a população sob controle. O Estado, assim como há 100 anos, continua servindo aos interesses de alguns privilegiados detentores dos meios de produção. E a maioria das disputas relevantes no seio do Estado são eminentemente intra-classe, no caso a elite.

Os atores desse terceiro ciclo da esquerda, que tem seu cerne no petismo, fracassaram em sua idéia original de mudar o Estado por dentro. Grande parte do PT (deixando claro que há notáveis exceções) adotou práticas que ele mesmo abominava. Bem, todos conhecem a história.

Onde está a força da esquerda hoje? Nos movimentos sociais e nos grupos de base. Ou seja, atores que dialogam com o Estado, mas que estão fora dele, atuando na transformação da sociedade pelo lado de fora. Creio que isso deve-se à desilusão com a política partidária tradicional, à incapacidade dessa velha esquerda em dar alternativas para os jovens e ao fortalecimento de grupos que nunca adentraram no sistema partidário por não acreditarem em sua natureza ou por serem dele alijados.

O mais importante grupo político hoje no país, concordando ou não com seu modus operandi, é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que através da luta pela reforma agrária tenta alterar o modelo de desenvolvimento econômico. Ou seja, faz política.

E não é só a luta pela terra. A incapacidade do sistema representativo de gerar respostas satisfatórias levou também ao fortalecimento da luta da sociedade civil em outras frentes, como trabalho, comunicação, direitos humanos e meio ambiente. Ressalte-se, apenas, que sociedade civil não é a mesma coisa que organizações não-governamentais, pois, a despeito das ONGs comprometidas com mudanças estruturais, muitas delas são de ordem cosmética e apenas reforçam as condições atuais.

O interessante é que esse quarto ciclo de esquerda, dos movimentos e da sociedade civil organizada ou não, tem muito a ver com o primeiro, lá no início do século 20. Ao questionar o papel do Estado e agir por conta própria, adota nuances de anarquismo. Alguns podem falar que o que chamo de nuances de anarquismo seria, na verdade, um processo de aprofundamento do Estado mínimo em que o governo se exime de suas responsabilidades entregando ao mercado a gestão da sociedade.

Há de se ter cuidado com isso e não confundir programas como “Amigos da Escola” – que, na verdade, são mais daquelas migalhas que falei acima – de um processo sério de organização popular pela transformação da realidade social, econômica, cultural, política. Mas essa separação é fácil de ser feita, basta verificar quais são os impactos da ação de determinado grupo. Se elas não se encaixam em um panorama maior, de transformação real, e limitam-se à sua pontualidade, estamos falando de migalhas.

Por exemplo, ocupações de reitorias pelos estudantes, de terras improdutivas pelos sem-terra ou de prédios abandonados por sem-teto têm um objetivo muito maior do que apenas obter concessões de curto prazo. Elas não servem apenas para tapar as goteiras das salas de aula, desapropriar uma fazenda ou destinar um prédio aos sem-teto. Os problemas enfrentados pelos movimentos envolvidos nesses atos políticos não são pontuais, mas sim decorrência de um modelo de desenvolvimento que enquanto explora o trabalho, concentra a renda e favorece classes de abastados, deprecia a coisa pública (quando ela não se encaixa em seus interesses) ou a privatiza (quando ela se encaixa). Ou seja, as ocupações são uma disputa de poder feita simultaneamente em âmbito local e global que, no horizonte histórico, poderá resultar na manutenção da pilhagem econômica, social e cultural da grande maioria da sociedade ou levar à implantação de um novo modelo – mais humano e democrático.

O problema é que toda mudança leva a um enfrentamento. No caso da questão ambiental, por exemplo, há uma disputa sendo travada entre pessoas da velha e da nova esquerda via mídia. O discurso de que o desenvolvimento é a peça-chave para a conquista da soberania (o que concordo) e que, portanto deve ser obtido a todo o custo (o que discordo) tem sido usado por pessoas que foram comunistas, tornaram-se petistas e hoje fazem coro cego ao PAC do governo federal. Mantém viva a parte ruim do pensamento do genial Celso Furtado que, na prática, significa que é necessário sacrificar peões para ganhar o jogo.

Do outro lado, os movimentos sociais e ONGs sérias que atuam nesse campo defendem que o crescimento não pode ser um rolo compressor passando por cima de pessoas e do meio ambiente. Por suas ações, que impedem um laissez-faire generalizado, são taxados de entreguistas e de fazerem o jogo do capital internacional. Nos últimos tempos, presenciamos isso nas críticas levantadas contra o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que ocupam hidrelétricas, ou nos impropérios lançados às comunidades que protestaram contra as obras de transposição de parte das águas do São Francisco.

É claro que os países do centro querem que nós arquemos com o ônus da preservação do planeta. O mercado de carbono, na prática, é isso: compra-se créditos de terceiros (que vão adotar práticas ou projetos que absorvam carbono da atmosfera) para que se possa poluir. Ao mesmo tempo que isso acontece, esses países se beneficiarão do alargamento da já grande distância de desenvolvimento entre o centro e a periferia.

Mas o atual modelo, gestado no seio do capitalismo, e em plena vigência no Brasil tem um potencial destruidor muito grande, além de ser extremamente concentrador. Ou seja, o resultado da pilhagem dos recursos naturais e do trabalho humano, mantendo o padrão adotado até aqui, continuará nas mãos de poucos, sejam eles brasileiros ou estrangeiros. Não faz sentido defender algo que também está nos afundando.

Como se resolve esse enfrentamento? Na minha opinião, não se resolve. O problema entre a velha e a nova esquerda está no contexto histórico em que seus atores foram formados. Não adianta mostrar fatos novos ou uma nova luz para a interpretação da realidade, há grupos que fecham e não abrem com o padrão de desenvolvimento forjado na ditadura – paradoxalmente a mesma ditadura que os torturou. A meu ver a solução se dará através de renovação geracional, ou seja, os mais antigos se retirando com a idade para dar lugar aos mais novos. É triste que seja assim, mas tendo em vista os últimos embates, não acredito em conciliação possível.

Tudo o que foi discorrido aqui, é claro, diz respeito à esquerda internamente. Agora, como diria o professor Garrincha, falta combinar com o inimigo. Porque a história mostra que apesar da esquerda ter capacidade de influenciar a realidade no país, ela não foi capaz de transformá-la. E a menos que algum dos novos ciclos traga respostas para romper com a estrutura atual, continuaremos vendo eles se repetirem nos fracassos. Para a alegria da direita.

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Berlusconi leva uma igrejada na cara. Irônico, não?

O primeiro-ministro da Itália quebrou a cara hoje, durante um comício em Milão, quando um homem arremessou uma réplica do Duomo, a catedral da cidade, no seu rosto após um comício. As fotos de Silvio Berlusconi sangrando circularam rapidamente pela internet.

Por mais que parte de mim, aquela mais irracional e sanguínea, queira comprar uma caixa de rojões Caramuru de 12 tiros para celebrar, a outra a contém, quase com uma tristeza pelo que há de vir.

Magnata das comunicações e dono do time de futebol Milan, é figura bizarra e folclórica entre os chefes de Estado. Abusa sempre que pode do machismo e da vulgaridade e acha bonito. Não o questiono por moralismo (até porque, “pecado” é o mais humano dos instrumentos de controle…), mas sim por administrar seu país como vai tocando seus casos amorosos.

Aliado da xenófoba Liga do Norte, reforçou o discurso racista por diversas vezes desde que foi reconduzido ao poder. Sua popularidade ainda é alta (45%), mas caiu bastante. Após o caso com uma adolescente de Nápoles, as festas com prostitutas, o Vaticano torceu o nariz. Irônico, portanto, que a “arma” usada tenha sido uma réplica de uma igreja… Réu em processos por fraude fiscal e corrupção (a suprema corte suspendeu sua imunidade), foi até alvo de denúncias de envolvimento com a Cosa Nostra.

Um amigo comentou há pouco que “justiça” havia sido feita contra o fanfarrão. Discordo. Nem, chegou perto. Igual a quando quase acertaram o imbecil do ex-presidente americano com um sapato e falaram em justiça. Isso, aliás, é contraproducente. Alguém tem dúvida de que Berlusconi usará o caso para se fazer de vítima? Que seus aliados chamarão o ato de isolado de um cidadão de “terrorismo”? Que dirão que a esquerda na Itália, organizou uma tentativa de desestabilizar o seu governo – como se a esquerda italiana fosse, hoje, capaz de organizar alguma coisa…

Tenho cada vez mais a certeza de que a sociedade italiana não irá condená-lo nas urnas por nada. Aliás, deve haver algumas nonas acendendo uma vela por ele neste momento.

E não estou com uma sanha justiceira, de maneira alguma. Mas creio que todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração cinqüentenária não se sentiram plenamente contemplados com a cena. Não quero uma saída “Nicolas Marshall”, de justiça com as próprias mãos. Quero apenas que a justiça, na Itália, no Brasil, em qualquer lugar, funcione.

É pedir muito?

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Os ricos herdarão a Terra – se houver planeta até lá

Faço parte daquela parcela da população dependente de remédios para ter uma vida normal. No meu caso, coração. Infelizmente, para quem não gosta deste blog, não tenho com o que me preocupar – pelo menos no curto prazo. E, no longo, todos estaremos mortos.

Um amigo que sofre de outro mal crônico matuta que talvez sejamos exemplos vivos de que a humanidade conseguiu dar um nó na seleção natural. Se deixassem a natureza seguir seu curso, seres malfeitos como nós estariam naturalmente fadados a ser peça empalhada de museu: “Mãe, olha lá, isso era um cardíaco, não?”. Bateríamos as botas antes de atender ao divino chamado de crescer e multiplicar. Hoje, não mais. Esqueça o blá-blá-blá de que só os fortes sobrevivem: os remendados, como nós, é que herdarão a Terra. Sua vantagem competitiva? Ter sempre à mão uma boa dispensa com medicamentos.

Digo parcela da população porque sou um daqueles que, felizmente, pode comprar remédios de ponta, que funcionam e têm poucos efeitos colaterais. Sucesso garantido graças a exigentes testes realizados à exaustão pelas maiores indústrias farmacêuticas do mundo em milhares de “voluntários” na África e em outras regiões pobres. Muitos morrem no meio do caminho, mas o que é a vida de um pobre africano diante da saúde de nós da classe média – e das possibilidades de lucro das grandes corporações, não é mesmo?

Por conta das andanças de reportagens, já peguei muita pereba por aí. Malária duas vezes, dengue, mononucleose, fora aquilo sobre o qual os médicos disseram “olha, havia algo aqui sim, que não conseguimos identificar, mas já passou”. O que não mata, engorda.

Cerca de dois milhões de pessoas morrem anualmente no mundo por causa da malária e outros 300 milhões pegam a doença – a quase totalidade oriundos de países ou regiões pobres do planeta. É claro que a relação de Casos letais/Investimento em cura é maior nas doenças que acometem a parte rica da população do que a parte pobre. A pesquisa para a busca da cura do câncer recebe muito mais que pesquisas para doenças causadas por parasitas que afetam multidões.

E, como já disse, quando uma pessoa que tem acesso a recursos privados de saúde, como eu ou o doutor Drauzio (que pegou febre amarela e narrou a experiência no belo livro “O Médico Doente”), fica ruim, há chance maior de cura do que alguém que depende do SUS.

Além disso, a ocorrência dessas moléstias é mais intensa em regiões de fronteira agrícola, no contato do ser humano com áreas preservadas. E a periferia do planeta ainda tem muita floresta para ser vítima da motosserra e da ganância. Se bem que, no ritmo que andam as coisas, em breve talvez não haja mais floresta para contar história. Se isso acontecer, também não teremos que nos preocupar com mosquitos. Aliás, com nada mais, porque o planeta terá se transformado numa caldeira quente e a vida como conhecemos ido para o beleléu.

Ou seja, parte da população vive no século 21 da medicina, enquanto outros ainda engatinham pela Idade Média das filas em hospitais, dos remédios inacessíveis, da falta de saneamento básico e da inexistência de ações preventivas.

Na prática, quem consegue enganar a morte são os mais ricos. Os mais pobres sobrevivem, apesar de tudo e de todos.

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E se você tivesse que fazer cocô na frente de todos os seus colegas de trabalho?

O Tribunal Regional do Trabalho em Campinas condenou a empresa agrícola Nova América por não ter garantido local para que seus trabalhadores pudessem fazer suas necessidades fisiológicas com dignidade. Em outras palavras, uma empresa com capital social de R$ 97 milhões não garantia condições para um cortador de cana fazer seu cocô ou xixi. O acórdão da decisão saiu no final de novembro, mas eu queria ter em mãos mais informações sobre ela antes de escrever.

Tudo começou quando um trabalhador teve a coragem de entrar na Justiça contra a empresa (alô, presidente, esses são os heróis de verdade, não os usineiros). Durante os cinco anos em que prestou serviços para a Nova América, ele passou por constrangimentos toda vez que queria ir ao banheiro.

O empregado ou empregada que precisasse fazer um xixi pedia para os trabalhadores do sexo oposto virarem de costas. Quando precisava defecar, distanciava-se 30 ou 40 metros e se agachava no meio da plantação. E sem direito a papel higiênico. Um trabalhador informou que “ficava meio chateado com a situação e que havia gozações se o empregado pisasse nas suas fezes”.

A ré deu uma justificativa maravilhosa: que as regras sobre sanitários só foram introduzidas no ordenamento jurídico através de uma norma regulamentadora de 2005. Ou seja, na opinião da empresa, como ela não era obrigada a garantir um local para as necessidades básicas dos trabalhadores antes dessa data, eles que se virassem com folhas de bananeira e o chão batido.

De acordo com notícia no site do TRT da 15ª Região, para a relatora do recurso, a desembargadora Mariane Khayat, “a cultura do campo, caracterizada por ambientes naturalmente rústicos, não pode ser confundida com a dignidade dos trabalhadores que nele dão, literalmente, suas vidas, sem exageros estilísticos”. O trabalhador que entrou com a ação deve receber R$ 20 mil por danos morais.

Nessa hora alguém vai gritar na frente da tela do computador: “Sakamoto, seu radical, você não entende que a situação no campo é diferente daquela na cidade e, por isso, os direitos garantidos também devem ser diferentes. Quer privilégios e luxo para o homem rude do campo!”

Para estes, peço que, ao sentarem na privada de porcelana de seu local de trabalho, aproveitem o tempo livre para pensar sobre como seria se todos os colegas estivessem olhando para você naquela hora tão íntima. Talvez assim, mude de opinião. Ou congele de medo do banheiro.

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ONG premia as mentiras ambientalistas das empresas

A ONG Consumers International acaba de conceder o Prêmio Más Empresas 2009 – Greenwash Special. “Greenwash” é a boa e velha lavagem de imagem, quando uma corporação tenta se vender como limpa e ambientalmente sustentável com ações superficiais e midiáticas enquanto, no fundo, continua dando a descarga sanitária no planeta. Eis as vencedoras:

Audi
Por dar a entender, mediante a uma glamorosa campanha, que seu novo carro a diesel é limpo e não causa danos ao meio ambiente e por sugerir que conduzir esse veículo é tão ecológico como andar de bicicleta.

BP
Por manifestar preocupação com as emissões de contaminantes e falar frequentemente sobre sua divisão de “energia alternativa”, enquanto reduz seu investimento em energias renováveis e engaveta numerosos projetos relacionados a esse tipo de energia.

easyJet
Por alardear continuamente que seus aviões são mais ecológicos que um carro híbrido.

Microsoft
Por afirmar que seu novo software Windows 7 é um produto ecológico porque a ele foram agregados alguns mecanismos de economia de energia, enquanto sugere aos consumidores que comprem um novo equipamento para executar o software.

Um prêmio especial foi concedido a uma ONG “ambientalista”:

CO2 is Green (algo como “Gás Carbônico é Ecológico”)
Uma nova organização, apoiada pela indústria petroleira dos Estados Unidos, que tenta provar que as emissões de CO2 são boas para o meio ambiente.

No vídeo abaixo, ela reclama que se o poder público americano considerar o CO2, gás causador do efeito estufa, como poluente, isso custará os empregos dos norte-americanos. E com fotos de bichinhos e plantas, diz que, na verdade, níveis altos do gás ajudam o meio ambiente, dando apoio à vida. “Não há evidência científica de que o gás carbônico seja poluente”, diz a ONG.

Lembra aquele filme “Obrigado por Fumar”, em que o protagonista é um lobista da indústria do tabaco nos EUA e usa exatamente esse discurso inacreditavelmente cínico para dizer que fumar não faz mal à saúde. É claro que plantas usam CO2 no processo de fotossíntese, essencial à vida, e que sem o CO2 na atmosfera não teríamos a retenção de calor no planeta que possibilita existirmos. O problema é o excesso de emissão, que está sendo causado por nós, acelerando o ritmo de nossa própria degradação.

É engraçado ver esse discurso cínico e imaginar quantos cidadãos estadunidenses caem nesse conversê. Mas a história fica trágica quando lembramos que discursos semelhantes (só um pouco mais elaborados, verdade seja dita) são descarregadas sobre nós diariamente para justificar a expansão agropecuária irracional no Brasil. Perda de empregos, falta de comida, interesses estrangeiros, ecatombe maia, tudo é usado como desculpa para continuar passando por cima de leis ambientais.

Se realizássemos esse prêmio por aqui todo o ano, ia faltar troféu nas lojas.

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Adolescentes eram escravos em fazenda de deputado

E quem foi eleito para proteger a dignidade do cidadão, acaba sendo exatamente seu algoz. Dessa vez, com o agravante dos nobres políticos também explorarem adolescentes em suas terras, jogando uma pá de cal no futuro do país. E eu fico me perguntando por que ainda me surpreendo com isso…

O deputado federal Urzeni Rocha (PSDB-RR) e o prefeito de Toledo (MG), Vicente Pereira De Souza Neto (PSDB) foram flagrados explorando mão-de-obra escrava em Roraima e Goiás, respectivamente. Ao todo, 47 pessoas foram libertadas de condições análogas à escravidão das propriedades dos políticos no último mês. A apuração foi de Bianca Pyl, aqui da Repórter Brasil, da qual reproduzo alguns trechos:

A primeira fiscalização aconteceu na Fazenda Santana, propriedade do prefeito do município mineiro localizada em Vianópolis (GO), região sudeste do Estado. A operação teve início no dia 13 de novembro e libertou 21 trabalhadores, incluindo dois adolescentes de 16 e 17 anos de idade. Os trabalhadores foram aliciados no Maranhão pelos “gatos” (intermediários de mão-de-obra) Ésio de Jesus Rocha e Walter Moreira da Silva, há cerca de um mês. Os gatos recebiam 4% de toda a produção realizada pelos trabalhadores. Os empregados colhiam batatas.

A jornada de trabalho era exaustiva e os empregados não tinham descanso semanal. A colheita não era suspensa nem nos domingos e feriados. “A pausa para as refeições durava alguns minutos porque, após colhidas, as batatas não podem ficar expostas ao sol por muito tempo”, detalha Roberto.

Os trabalhadores afirmaram que dormiam no chão e tinham que dividir as despesas com alimentação. Eles declararam ter passado fome. O alojamento era uma casa velha sem camas, colchões ou roupas de cama. Os trabalhadores dormiam em redes ou colchonetes velhos e sujos. A cozinha tinha apenas um fogão de duas chamas e uma mesa improvisada, sendo que os alimentos e panelas eram colocados no chão. Havia apenas um banheiro e um chuveiro para todos os trabalhadores.

Durante o dia, os empregados consumiam a água captada das torneiras do alojamento. Nas frentes de trabalho, Não havia água potável nem instalações sanitárias. O mato era usado como banheiro. O empregador não fornecia equipamentos de proteção individual (EPIs) e a maioria trabalhava descalço ou de chinelos, sem luvas ou chapéus. O ônibus que transportava os trabalhadores não possuía certificado de inspeção e não tinha sequer carteira de habilitação para dirigir.

Após a fiscalização, foram emitidas Guias de Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado para as vítimas. O pagamento das verbas da rescisão do contrato de trabalho foi efetuado. A Repórter Brasil não conseguiu localizar o prefeito Vicente Pereira De Souza Neto (PSDB-MG).

A fiscalização na Fazenda Paraíso, do deputado federal Urzeni Rocha (PSDB-RR), no município de Cantá (RR), foi motivada por uma denúncia de um trabalhador à Polícia Federal (PF). A operação ocorreu em 23 de novembro e contou com a participação da Superintendência Regional do Trabalho de Roraima (SRTE/RR), Ministério Público do Trabalho (MPT) e agentes da PF. Foram libertados 26 trabalhadores, incluindo quatro adolescentes, com idades entre 16 e 18 anos. A propriedade tem mais de 3,5 mil cabeças de gado.

Os empregados dividiam a água de um igarapé com os animais. “A mesma água era utilizada para beber, preparar as refeições e tomar banho”, explica Gilberto Souza dos Santos, procurador do trabalho. De acordo com Mário Rocha, auditora fiscal do trabalho, a comida fornecida era de péssima qualidade e quando a fiscalização chegou ao local estava quase acabando. Os trabalhadores eram responsáveis pelo roço de juquira – limpeza de terreno para a formação de pastagem para pecuária.

O empregador assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que se compromete a pagar R$ 100 mil por danos morais coletivos. “O valor será revertido para programas de alfabetização na região, já que os trabalhadores eram analfabetos. Foi o maior acordo realizado pela nossa Procuradoria [Regional do Trabalho da 11ª Região (PRT-11)] e tem um cunho pedagógico para o fazendeiro”, explica Gilberto, do MPT.

A Repórter Brasil entrou em contato com a assessoria de imprensa do deputado na Câmara e foi informada que ele ficará fora até terça-feira (8) e não havia possibilidades de entrevistá-lo. Detalhe: o deputado federal votou a favor da chamada “Emenda 3″, incluída no projeto de lei da “Super Receita”, que impedia que auditores fiscais do trabalho apontassem vínculos entre patrões e empregados quando de irregularidades. Graças ao veto à emenda, a fiscalização realizou com plenitude a sua atribuição na fazenda do político.

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Matamos São Paulo. E ela voltou para nos assombrar

Francisco Oliveira foi assassinado pela incompetência do poder público e com a anuência da sociedade, nesta madrugada, quando um deslizamento atingiu seu barraco de madeira em uma favela de São Paulo. Com ele, morre junto um pouco de todos nós paulistanos.  Afinal, não pergunte por quem os sinos dobram. Os sinos dobram por ti.

Em São Paulo, a chuva não dá trégua, transformando ruas e avenidas em córregos e rios.  Há algumas semanas, o clima era seco, com um ar vergonhosamente irrespirável. Republico um texto que gerou polêmica, a meu ver, desnecessária, entre os leitores deste blog. Mas que retrata bem a situação atual.

Nos dias secos, as condições metereológicas agravam a poluição tornando a capital paulista insuportável. No fim de tarde, o sol fica vermelho-fogo dando boas vindas à lua dourada – tudo por conta da suspensão de partículas. Perdemos o horizonte (imagine uma neblina feita de sujeira que não se dissipa) e o céu da cidade. Quem chega de avião encontra um gigantesco aglomerado urbano envolto em um algodão sujo feito de pó. A situação mata aos poucos os habitantes da metrópole, além de causar doenças no curto prazo. O Estado diz que controla a emissão de poluentes, mas garante dinheiro a rodo para quem quer comprar automóveis em vez de investir o mesmo tanto em transporte coletivo, menos poluente. É a economia, estúpido!

Do que adianta uma lei que impede o fumo dentro de estabelecimentos, se do lado de fora somos todos fumantes passivos da metrópole?

Em cidades de inverno rigoroso, há governos estrangeiros que decretam feriado quando neva muito. Em lugares escaldantes, ondas de calor muito intensas liberam os trabalhadores de seus afazeres. Com isso, resguardam a saúde de seus moradores. O problema é que aqui, em São Paulo, o problema é invisível ou, melhor dizendo, translúcido. E, com isso, passa batido. Talvez também porque não dê para justificar por fúria da natureza as burradas que nós fizemos ao longo dos anos em nome do crescimento burro. Carros e motos demais, transporte coletivo de menos, indústrias operando de forma arcaica, padrão de consumo tosco.

Quem sabe a redução nos lucros, impostos e salários provocada pelo feriado forçado não mudasse a forma com a qual o setor empresarial, governo e sociedade encaram o problema?

Ao mesmo tempo, está chovendo em São Paulo. E muito. Para quem é de fora e não sabe, São Paulo é uma cidade impermeabilizada. Em que os rios foram retificados e seus cursos originais viraram avenidas. Que alagam no inverno e no verão. Em que quase toda terra nua que escoava a água foi coberta por asfalto e concreto. Que alagam no inverno e no verão.

E apesar dos lamúrios da classe média, que fica presa no trânsito, demorar para voltar para casa é o de menos. Pelo menos há a certeza de que ainda há uma casa para se voltar. O problema é quem chega e encontra a cozinha, a sala, o quarto, o banheiro alagados. Nas últimas madrugadas, barracos deslizaram, crianças morreram soterradas. E nos próximos dias, continuaremos a ver as cenas de sempre: alguém será levado pela correnteza e famílias perderão tudo, sendo alojadas em ginásios de escolas públicas. Vão ganhar espaço na mídia, mas o debate vai durar só até o asfalto secar. É principalmente na periferia, onde gente vale menos. Ou melhor, vale em anos pares, quando há eleição.

Eu gostaria muito que, um dia, uma grande chuva chegasse escura no meio da tarde. Veriam, em pouco tempo, tratar-se de um pé d’água bíblico, maior que as tempestades habituais que atingem o planalto de Piratininga. E começasse a cair, toda ela, apenas nos bairros nobres da cidade. A água subiria com o lixo entupindo as bocas de lobo e iria inundar casas, encharcar tapetes, afogar alguns carros e arrastar colchões. O pessoal teria que ir para algum hotel, mas os hotéis também estariam alagados, bem como as casas de amigos. Então, teriam que ser construídos alojamentos emergenciais na Daslu, com uma fila de sopão de funghi. No mínimo, seria interessante ver os Jardins terem seu dia de ZL.

Talvez, com isso, seriam implantadas ações para amenizar o sofrimento desse povaréu, que foi empurrado para as várzeas e vales de rios pela especulação imobiliária e a pobreza. Dividindo a mesma situação, talvez enxergassem no outro não apenas um personagem da matéria da TV e sim um igual e juntos buscassem alguma solução.

Ou talvez não desse em nada. Mas pelo menos ia lavar a alma de quem é lavado pela chuva todos os anos.

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Meio ambiente e um insignificante discurso bonito

Entrevistar uma fonte que sabe lidar com a imprensa é interessantíssimo. E não estou falando de políticos ou empresários que são treinados pelas assessorias e sim de pessoas comuns que percebem o que o repórter quer ouvir e vestem a fantasia de um personagem. Parte disso é deslize nosso, mas o mérito também é deles.

Acumulo histórias ouvidas ou vividas em anos de estrada: a do escravo liberto que inventou mulher e filhos para ganhar empatia, a do chefe indígena ambientalista radical (que depois descobriu-se ser um dos maiores vendedores de madeira da região), a do catador de material reciclável que narrou uma verdadeira trajetória do herói para contar suas “desventuras” – para depois descobrir que ele mentiu descaradamente a fim de ajudar um repórter que estava com uma pauta-pepino nas mãos. Como a velocidade na linha de produção da imprensa dificulta aos operários da notícia irem fundo nas biografias daqueles que entrevistam, o que fica é essa superficial conversa, muitas vezes construída sem o propósito de enganar. Apenas de tornar a vida mais interessante e palatável.

Tenho a impressão que, com pesquisas de opinião, ocorre a mesma coisa. Muitos respondem o que é mais socialmente aceito ou politicamente mais correto. Mas, na hora “H”, optam pela saída mais confortável individualmente. A lei e as regras devem ser feitas para o coletivo, não para mim.

Isso ajuda a explicar porque muitos defendem a mudança no comportamento da sociedade para combater o aquecimento global, mas que, no sigilo do carrinho de supermercado, vão continuar comprando produtos danosos ao meio ambiente. Autointulam-se ecoconscientes, porque é bonito e pega bem (é hype – como diria um amigo), mas sustentam uma pegada ecológica do tamanho de um quarteirão. Muitos são a favor de diminuir o crescimento econômico para combater as mudanças climáticas, mas quantos estão em priol da diminuição na geração de empregos não-verdes em setores poluidores?

No âmbito da disputa de discursos, a necessidade de garantir o futuro do planeta já está relativamente bem posicionado na sociedade brasileira, mesmo não sendo a sua prioridade principal. O problema é como esse discurso é usado ou absorvido. Por exemplo, muitos ruralistas usam o “desmatamento zero” como peça de “greenwashing”, a famosa lavagem de marca. Mas não explicitam as ressalvas – o que é igual àquelas propagandas de carros em que o cidadão vê apenas as “36 vezes de R$ 300,00”, mas quando vai comprar quase tem um ataque cardíaco porque na letrinha miúda aparecem outras quatro parcelas intermediárias de R$ 4000,00 que o anúncio não informou. Ou seja, sem mais desmate na Amazônia, mas com um perdão das burradas que já feitas, com a autorização para pôr o vizinho Cerrado abaixo, com rios de dinheiro para manter a floresta de pé, com a retirada de indígenas de lá…

Hoje, começa a conferência sobre mudança climática em Copenhague. Qualquer solução eficaz adotada vai passar por mudanças no comportamento de todos nós. Como diria Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência, “todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?” No Brasil, muito poucos. A maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para ajudar o meio ambiente.

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Só agora fica claro o plano de César Benjamin

César Benjamin conseguiu um milagre: com seu artigo polêmico, gerou uma onda de manifestações de pessoas e setores da esquerda em apoio a Lula (dentre os quais, muitos que estão na oposição ao governo), que eu não via desde 2002. Um amigo diz, com ironia, que essa foi a real intenção dele. O mundo é que não percebeu.

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