Blog do Sakamoto

Morre o coronel Erasmo Dias. Uma pena

O coronel Erasmo Dias morreu, ontem, aos 85 anos. Entendo a alegria de todos os que, durante a ditadura militar, foram atropelados pelos seus cavalos ou torturados sob sua responsabilidade. Mas não deixo de dar meus pêsames pela nossa incompetência, por não conseguirmos fazer com que esse arauto da retrocesso respondesse por tudo aquilo que fez. 

De 1974 a 1979, Erasmo ocupou o cargo de secretário de Segurança Pública em São Paulo (aliás, como esse cargo consegue juntar tanta gente ruim?), garantindo a ordem sob as técnicas persuasivas da Gloriosa. Ficou conhecido pela invasão da PUC-SP em setembro de 1977, ao reprimir um ato pela reorganização da União Nacional dos Estudantes.

Assim como foi na época da morte do ditador chileno Augusto Pinochet, um amigo comentou que a “justiça” finalmente havia chegado para Erasmo através do câncer que o consumiu. Discordo. O sujeito com 85 anos, morando confortavelmente, sem ter que responder pelo passado, passa dessa para a melhor e isso é “justiça”?

Não só não tivemos a competência para abrir e limpar publicamente as feridas que ele causou, como a sociedade ainda o elegeu deputado federal, deputado estadual e vereador. Parece piada, mas não é.

Outra alma ceifada tempos atrás pela mesma “justiça” foi a do Coronel Ubiratan, responsável pela execução de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. Não é que a sociedade não conseguiu condená-lo, ela não quis condená-lo. Ele fez o servicinho sujo que muitos paulistanos desejam em seus sonhos mais íntimos, de limpeza social. Morreu em 2006, segundo a polícia, pelo gatilho de sua própria namorada. Estava a caminho de ser facilmente reeleito como deputado estadual, ironizando o país ao candidatar-se com o número 14.111.

Os dois não são casos únicos. Se escrevessemos os fazendeiros que assassinaram trabalhadores e lideranças rurais no Brasil e morreram com processos criminais (lentamente) tramitando contra eles, gastaríamos hectares e mais hectares.

Não estou com uma sanha justiceira, de maneira alguma. Mas creio que todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração sexagenária não se sentiram contemplados com o passamento de Erasmo Dias, Ubiratan, ou mesmo de ditadores como Pinochet. Não quero uma saída “Nicolas Marshall”, de justiça com as próprias mãos. Quero apenas que a justiça funcione. Ou, no mínimo, que a sociedade consiga saldar as contas com seu passado, revelando-o, discutindo-o, entendendo-o. Para evitar que ele aconteça de novo.

É pedir muito?

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Comentários

10 Responses to “Morre o coronel Erasmo Dias. Uma pena”

    • Palmerio disse:

      A justiça em nosso pais precisa ser melhor redesenhada, essa configuração de quem morre vira santo, só no BRASIL acontece, se em vida não conseguiu fazer a justiça que merece não vai ser depois de morto, vamos culpar agora JESUS? por nossa benevolencia.

  1. Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by politikaetc: RT @blogdosakamoto Morre coronel Erasmo Dias. E a sociedade brasileira continua incompetente para julgar seus carrascos: http://is.gd/5MPrN

  2. Rafa disse:

    Só uma pequena correção. Ou melhor, atualização. A namorada do nojento dos 111 foi “absolvida” pela Justiça (na verdade, foi impronunciada…)

  3. Jegue do Pantano disse:

    Infelizmente, é pedir muito sim. Principalmente porque os responsáveis por essa abertura serão os mesmos que assassinaram e torturaram, anos atrás…

  4. Iberê disse:

    Sakamoto, o Boris Casoy não merece o troféu frango?

  5. Angelo Frizzo disse:

    Desisto…nunca publicam meu comentário…

  6. Gordon disse:

    Infelizmente morreu um grande homem. :(

    Ninguém batia melhor em comunistas do que ele. Queria aprender a bater nos comunas igual a ele.

  7. Cristiane S Carvalho disse:

    Espero, pelo menos, que tenha sofrido bastante.

  8. Gray Scale disse:

    Sr. Doutor Sakamoto

    Por favor, o que se fazer???

    Sociedade, religião, política, finanças, história… equações complexas… ou só mais um pequeno evento que será estudado na antropologia de amanhã… ou paleontologia… caso houver

    Digo pequeno… somos sapiêns (100.000 anos) ou sapiêns sapiêns (10.000 anos)

    Esquecemos a matemática básica!!!???
    Malthus que gostava da P.A. e da P.G.???
    Pior é a estatística!!! aonde os números são consequências de AMOSTRAGEM
    Simplista demais?! ou óbvio?

    Não sei quantos anos e tantos títulos (livros e trabalhos) se fazem para não se ter certeza de que já estamos na faixa fudida da extrapolação numérica.

    Mui respeitosamente

    Gabriel Evol

    P.s.: queira desculpar teclado desconfigurado…