Blog do Sakamoto

Terremoto no Haiti e o estado de sítio permanente

Completando o post anterior, publico texto do jornalista Aloisio Milani para entender o que está acontecendo no Haiti:

Não foi só ontem, não é só hoje. O Haiti vive um “estado de sítio” constante. Quando não “treme” pela pobreza extrema – aqui entendida como desemprego epidêmico, fome crônica e a ausência de saúde e educação públicas -, é a vez das crises políticas e das tragédias naturais: tempestades tropicais, enchentes e furacões. Para dar um exemplo, quatro furacões deixaram cerca de mil mortos e 18 mil desabrigados em 2008. Corpos apodreciam na água das enchentes, não havia estrutura de socorro, o dinheiro e a ajuda humanitária chegavam lentamente. Há pouco, semanas atrás, acabou a temporada de furacões na América Central e, agora, o país se debate com um surpreendente terremoto de magnitude inédita nos últimos 200 anos.

Aliás, dois séculos atrás é aproximadamente o tempo histórico da vitória da única rebelião de escravos que levou à independência de uma nação desde a Antiguidade clássica. Um passado glorioso que vem sendo ofuscado por um presente de pobreza e crises. Desde a deposição do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, em 2004, a situação política oscilava entre momentos de paz, violência e fragilidade política. Mas a pobreza resistia. E a cada fenômeno natural, o espectro da destruição pairava sobre eles. A diferença é que desta vez, a tragédia une brasileiros e haitianos. Haverá mais confirmações de mortes entre os brasileiros capacetes azuis e diplomatas da ONU. A médica Zilda Arns teve ironicamente sua vida ligada ao país do continente americano com um dos piores índices de desnutrição e mortalidade infantil, onde queria implantar as bases da Pastoral da Criança.

O impacto do terremoto sobre o Haiti é brutal porque seu epicentro foi muito próximo de uma das regiões mais populosas, a capital Porto Príncipe. O país tem um território comparável ao de Alagoas, com cerca de 8 milhões de pessoas. Mais ou menos 3 ou 4 milhões vivem só na capital, em favelas de tijolos frágeis, de estruturas baratas, improvisadas. Na cidade, onde os ricos moram nos morros e os pobres na parte plana próxima ao mar, o impacto foi maior em bairros com construções de mais de um piso. A região do Palácio do Governo, vizinha da favela de Bel Air, foi destruída. A situação se repete em bairros mais horizontais, como Carrefour, Delmas e Cité Militaire. Na região de Cité Soleil, de barracos de zinco e tijolos finos, os danos não foram menores.

O distrito de Petion-Ville, no alto da cidade, onde ficam as sedes das embaixadas e organizações internacionais, sofreu grande impacto. Até o Hotel Montana foi atingido, um quatro estrelas versão haitiana, onde morreu o general brasileiro Urano Bacellar em 2006. Passarão semanas para as contagens dos mortos e desaparecidos. O Palácio do Governo, que desmoronou quase completamente, era um centro político e uma espécie de residência do presidente. No hall revestido de mármore sob a cúpula central do palácio, ficavam as estátuas de Simon Bolívar e Alexandre Petion. Frente a frente. A poucos metros da vista ampla da planície da praça. Esses símbolos foram completamente soterrados no terremoto.

Um país imóvel

Vale lembrar que, em novembro de 2008, uma pequena tragédia se abateu sobre o distrito de Petion Ville. Ali, sem temporal, sem vento, sem terremoto, a escola primária La Promésse desabou. Simplesmente veio abaixo pela precariedade de sua construção. Matou cerca de 100 crianças e feriu outras 150. O presidente haitiano, René Préval, disse na época que a fragilidade e a debilidade do Estado permitia a existência de construções precárias e ocupações ilegais, o que aumenta a possibilidade de vítimas. O Haiti tentava reestruturar seu Estado com a ajuda da quinta missão de paz da ONU nas últimas décadas. Mas ainda não havia um sistema de defesa civil estruturado, o que vai piorar a situação agora no socorro e atendimento a feridos. Quem não morreu diretamente pelo terremoto corre o risco de morrer por falta de estrutura de bombeiros ou atendimento médico.

Porto Príncipe já possuía uma infra-estrutura precária. Energia elétrica era luxo. Quem tinha convivia com apagões diários. A distribuição de água era feita, muitas vezes, por caminhões-pipa e fontes de água. Em bairros inteiros, a população se abastecia com baldes. Cité Soleil, a maior favela da cidade, era um exemplo. Agora, com o terremoto, a estrutura de abastecimento de água também sofreu. Num país que importava mais da metade da comida para manter as necessidades básicas da alimentação de seu povo, a água voltou a ser escassa. Todo o combustível do país também é importado. Dificilmente um plano de emergência, com o envio de maquinário pesado, conseguirá colocar em prática um mutirão de salvamento em grande escala para evitar mais mortes. O país está quase imóvel dois dias após o abalo principal.

A ajuda da ONU e a dívida externa
O número de mortos – ouve-se agora uma estimativa do governo haitiano de cerca de 50 mil – seria pelo menos cinco vezes maior do que o total de brasileiros enviados à missão de paz das Nações Unidas nos últimos seis anos. O terremoto deve aproximar mais Haiti e Brasil. Nos últimos tempos, nossos enlaces com o país caribenho aumentaram. Além dos capacetes azuis, ativistas, acadêmicos e religiosos procuravam estreitar relações com o povo. A estrutura da ONU no país sempre esteve longe de mudar o perfil da pobreza e das necessidades básicas para o país se reerguer: trabalho, saúde, educação. Iniciativas como a da médica Zilda Arns eram um pedido de entidades haitianas desde a chegada da ONU por lá, há seis anos. Envio de médicos, engenheiros agrônomos, professores, gestores públicos, entre outros. Tudo que vai faltar em dobro agora.

Do fim da vida de Zilda Arns no Haiti, cabe ainda um recado, acredito. A mudança no perfil da missão da ONU no Haiti é urgente mais uma vez. O estágio relacionado à segurança pública pode ter sido questionável, mas há tempos foi superado. Temos a oportunidade agora de ajudar com menos tropas militares e mais parcerias para a reconstrução e desenvolvimento do Haiti. A começar pelo perdão da dívida externa de cerca de 2 bilhões de dólares, uma porcentagem ínfima na comparação com os rios de dinheiro que os países ricos gastaram para socorrer o sistema financeiro internacional da gana de seus próprios especuladores.

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A tragédia e a gente boa do Haiti

A independência do Haiti surgiu da única revolta de escravos bem-sucedida desde a antigüidade. É doloroso ver um país que começou de uma idéia de liberdade ter se tornado o lugar mais pobre das Américas, em que desastres naturais assumem proporções bizarras pela incompetência humana ao longo de gerações.

Gostaria de recomendar um web-documentário veiculado em 2007. “Bon Bagay Haiti – Histórias de Cité Soleil” é fruto de um trabalho de várias mãos, dentre elas as dos meus amigos Aloisio Milani (este, já quase um haitiano de tanto que conhece a ilha e sua gente), André Deak e Rodrigo Savazoni. Jornalistas que estão entre os melhores dessa geração.

É do blog do Milani, que está acompanhando os desdobramentos do terremoto, que tirei as fotos da tragédia, abaixo:

“Bon Bagay” pode ser traduzido como “gente boa”. É como os haitianos cumprimentam os estrangeiros. O documentário tem pouco mais de oito minutos e foi feito com base em depoimentos, em vídeo e fotografias, de pessoas que vivem no bairro mais pobre do Haiti, Cité Soleil.

Tanto quanto o vídeo, recomendo o making of do documentário, postado no blog do Aloisio Milani.

Uma breve sinopse do doc:

Há três anos e meio, as tropas militares brasileiras começaram a chegar ao Haiti, trazendo consigo jornalistas do Brasil e do mundo. Nos jornais, sites e emissoras de televisão, pipocaram imagens de pobres do mais pobre país das Américas. As vozes desses mesmos pobres haitianos, no entanto, raras vezes foram ouvidas.O que pensam eles da ocupação militar? A presença brasileira contribuiu para a melhoria das condições de vida do povo haitiano?

Foi com essas indagações que uma equipe multimídia da Agência Brasil, formada pelos jornalistas Aloisio Milani (direção), Marcello Casal Jr. (fotografia) e Oswaldo Alves (cinegrafia) partiu para registrar, sem escolta da Organização das Nações Unidas (ONU), o cotidiano da mais pobre favela de Porto Príncipe, Cité Soleil.

O resultado é um web-documentário que mostra, pelos olhos de três personagens, como vivem os moradores da favela ocupada neste ano pela ONU para acabar com grupos armados. A maior favela do Caribe foi o último marco da segurança conquistado durante a missão. Os capacetes-azuis conseguiram controlar a situação de violência nas favelas, mas a pobreza e a crise social se mantém como o maior desafio para o país.

E ele próprio:

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Direitos Humanos: porque nossa idiotice não tem limites

Bandido bom é bandido morto… Tinha que ser preto mesmo!… Baiano quando não faz na entrada faz na saída… Mulher no volante, perigo constante… Sabe quando pobre toma laranjada? Quando rola briga na feira.

- Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um escurinho mal encarado.
- Aquilo são ciganos? Vai, atravessa a rua para não dar de cara com eles!
- Não sou preconceituoso. Eu tenho amigos gays.
- Tá vendo? É por isso que um tipo como esse continua sendo lixeiro.
- Por favor, subscreva o abaixo-assinado. É para tirar esse terreiro de macumba de nossa rua.

Os sem-terra são todos vagabundos que querem roubar o que os outros conquistaram com muito suor.
A política de cotas raciais é um preconceito às avessas.
Os índios são pessoas indolentes. Erra o governo ao mantê-los naquele estado de selvageria.
As rádios comunitárias são um crime. Derrubam até aviões.
Tortura deve continuar sendo um método válido de interrogatório.

- Uma puta! Alguém pega o extintor para jogar nessas vadias.
- Um índio! Alguém pega gasolina para a gente atear fogos nesses vagabundos.
- Um mendigo! Alguém pega um pau para a gente dar um cacete nesses sujos.

E, no Brasil, tem gente que não entende a razão de um programa de direitos humanos ter que ser amplo. Porque a nossa idiotice não tem limites.

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O padre, o delegado, o coronel e os Direitos Humanos no Brasil

Estou achando extremamente instrutivo os faniquitos públicos de setores contrários às propostas presentes no 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos. As críticas colocaram lado a lado a igreja, os militares e o agronegócio, que possuem em suas fileiras alguns dos maiores bastiões do conservadorismo e do atraso. É realmente o país da piada pronta, como diz José Simão. Lembra muito aqueles microcosmos de poder do Brasil profundo, presentes nas obras de Dias Gomes: o padre, o delegado e o coronel, tomando uma cachacinha na (ainda) Casa-grande e discutindo sobre os desígnios do mundo. Ou pelo menos do vilarejo. Pra frente, Sucupira!

E é de outro José Simão – bispo de Assis e responsável pelo Comitê de Defesa da Vida de São Paulo da CNBB – uma frase hilária sobre o assunto: “Vemos nessas iniciativas uma atitude arbitrária e antidemocrática do governo”.

Com tanta atitude arbitrária e antidemocrática do governo Lula para ser criticada (tantas mesmo), a igreja foi pinçar logo o PNDH, que é um exemplo de construção coletiva e um alento de civilização em nosso país de mentalidade tão tacanha. Traduzindo a fala do bispo: “Vemos essas iniciativas como uma forma do Estado ter independência e não seguir as regras que ajudamos a construir ao longo de centenas de anos”. Imagine só, onde já se viu duas pessoas do mesmo sexo desejarem ter os mesmos direitos dos heterossexuais? E as mulheres pobres que fazem aborto, então! Querem se ver livres da cadeia! E o pior de tudo: tirar os crucifixos e as santinhas de estabelecimentos públicas. O que esse país pensa que é? Laico?!

Os verde-oliva por sua vez estão bufando com a criação de comissão que pretende apurar o desaparecimento de opositores da ditadura militar (1964-1985) e as torturas praticadas à exaustão nos porões do regime. Os milicos consideram o programa “insultuoso, agressivo, revanchista”. Fiquei esperando para ver se também não diriam “subversivo, anti-patriota, comunista, feio, bobo, chato…” Querem ter o direito de continuarem batizando ruas, praças e viadutos com os nomes de açougueiros e carniceiros que trouxeram muita dor nos anos de chumbo. Mas isso é perfumaria comparado com o desejo dos militares pró-silêncio de manter no anonimato as atrocidades e os nomes de muitos desses carniceiros, que guardam a memória do que aconteceu com desaparecidos políticos.

E, por fim, mas não menos preocupante, eis que se juntam ao grupo os ruralistas. Não vou me deter nas declarações da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), porque ela já tem problemas suficientes para gastar tempo pensando novamente em processar este que vos escreve. Desde que ela foi graciosamente condecorada com o título de Miss Desmatamento e envolvida em um embrólio de terras em Campos Lindos, no seu estado (declarou que suas propriedades valeriam muito menos do que realmente valem), já está vendo ficar cada vez mais distante o sonho de compor chapa com José Serra para a presidência da República nas eleições deste ano. Mas estava demorando para o ministro da Agricultura trazer abobrinhas do pomar.

“O decreto [do programa] aumenta a insegurança jurídica no campo. Da forma que está colocado, ele traz esse preconceito implícito em relação a agricultura comercial ou ao agronegócio, como também aumenta a insegurança jurídica que nós já temos em função de várias outras questões.” Ele está certo! Afinal de contas, com tantos indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais, caiçaras, riberinhos que foram expulsos de suas terras e estão querendo voltar, muitos latifúndios vivem mesmo uma grande sensação de insegurança. Cadê os direitos humanos para os humanos direitos? Por que só discutem direitos humanos para essa gente parda e rota? Cadê os direitos humanos de quem ganha tutu na base da exploração de terras públicas ou da especulação fundiária? Cadê os direitos humanos das usinas de cana que usam trabalho escravo e, pobrezinhas, se vêem vítimas de boicotes do mercado maldoso?

Por fim, a imprensa tem o dever de trazer à tona todas as críticas ao plano, fazer ponderações, levantar debates. Mas certas redes de TV não deveriam misturar os editoriais com as reportagens para tratar do tema – é feio… Além disso, boa parte dos veículos de comunicação só entraram no tema a reboque das manifestações de setores da sociedade e não como pauta própria. O que me leva a crer que as folgas de final de ano atrapalharam o cronograma das redações, para buscar uma explicação mais amena.

Em suma, se todo lançamento de PNDH gerar um debate nacional sobre os direitos humanos em um país que tem vergonha de defender direitos humanos, proponho que não esperemos mais sete anos e que, em 2010, tenhamos mais um. No mínimo, fará com o padre, o delegado e o coronel se manifestem novamente, lembrando ao Brasil que ele é brasil.

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No Brasil, dignidade é produto de luxo, não coisa de trabalhador

A Cosan obteve uma liminar na Justiça e deve deixar a “lista suja” em breve. O Ministério do Trabalho e Emprego e a Advocacia Geral da União, por sua vez, irão atuar para trazê-la de volta, como têm feito com casos semelhantes desde 2003.

E confirmando o que eu havia previsto a um amigo, os caros advogados da empresa encontrariam algum juiz substituto que toparia conceder uma liminar. Neste caso, Raul Gualberto Fernandes Kasper de Amorim. O que me admira é um certo desconhecimento do magistrado do trabalho com relação à natureza do que seja trabalho escravo contemporâneo. Por exemplo, não é necessário que exista restrição da liberdade de ir e vir para o crime ser configurado. Basta o trabalhador estar em condições degradantes de trabalho, que o alienem de sua dignidade (em outras palavras, tratado como instrumento descartável) – como era o caso da libertação na Cosan. Além disso, a “lista suja” é um instrumento administrativo e não jurídico e sua validade tem sido comprovada por decisões judiciais em todo o país, inclusive dos tribunais superiores.

A Cosan argumentou que pagou as dívidas com os empregados da terceirizada no momento da libertação. Parabéns, ela fez apenas o que centenas e mais centenas de fazendas flagradas com escravos também foram obrigadas a fazer. Pagar as dívidas não apaga o crime, pelo contrário, é a confirmação de que ele existiu.

Outro fato ignorado pelo magistrado é que a maioria das empresas que utilizam trabalho escravo se valem de contratadores de mão-de-obra, os famosos “gatos”, para fugir dos encargos trabalhistas e da responsabilidade sobre a condição de vida e saúde dos trabalhadores. Muitos desses “gatos” possuem pequenas empresas para justificar a contratação de pessoal, mas na prática, não têm condições de mantê-las. Ou seja, são artimanhas de fachada para burlar o fisco, o que tem sido comum no trabalho escravo no setor sucroalcooleiro.

Não damos o devido valor à nossa memória, mas se lembrarmos o caso da Emenda 3, vamos entender melhor o que o argumento da Cosan, que foi aceito pelo juiz substituto, significa.

A Emenda, que integrou o projeto que criou a Super Receita, propunha que auditores fiscais federais não poderiam apontar vínculos empregatícios entre empregados e patrões, mesmo quando fossem encontradas irregularidades. Apenas a Justiça do Trabalho, de acordo com o texto, é que estaria autorizada a resolver esses casos. Na prática, a nova legislação tiraria o poder da fiscalização do governo, o que dificultaria o combate ao trabalho escravo e a terceirizações ilegais que burlam direitos do trabalhador.

A emenda foi proposta atendendo à solicitação de empresas de comunicação e entretenimento que contratam funcionários por meio de pessoas jurídicas. O Congresso aprovou, mas Lula vetou e os trabalhadores foram às ruas para apoiar o veto, o que pesou no Congresso. Passeatas no ABC Paulista, por exemplo, reuniram milhares de pessoas contra essa lei. Vira e mexe alguma deputado ou senador ameaça colocar o veto de Lula para que seja votado.

Em um país onde milhões de pessoas são tratadas como ferramentas substituíveis, a fiscalização do trabalho desempenha um papel fundamental. Sem esse aparato de vigilância, as relações de trabalho seriam bem piores do que realmente são. A desregulamentação não levaria à auto-regulação pela sociedade, como profetizam alguns economistas (sic), mas sim ao caos total. Se com regras já temos trabalho escravo, infantil, superexporação, imagine sem.

Como já disse, no campo, isso ajuda muito fazendeiro que tem um contratador de mão-de-obra com uma empresa de fachada, minúscula e picareta, montada para empregar safristas. Dessa forma, o fazendeiro se acaba se livrando de arcar com os direitos trabalhistas, que também nunca serão pagos pelo contratador – boa parte das vezes tão pobre quanto os peões. E consegue concorrer aqui dentro e lá fora sem reduzir sua margem de lucro. Que em nosso país é mais sagrado que todos os santos e orixás.

Projetos como a Emenda 3 não são emergenciais, como alegam seus defensores, pelo contrário. Já fazem parte de uma mesma política para diminuir o poder que o Estado tem de garantir que o empresariado tenha um patamar mínimo de bom senso. Com o aumento da competição, cresce também a precarização do trabalho e com ela o discurso da necessidade de desregulamentação, ou seja: pá de cal nos direitos adquiridos e vamos embora que o mundo é uma selva.

Nesse ritmo, não me espantaria ver anúncios estampados em página dupla nas revistas semanais de circulação nacional dizendo: “A Usina X pensa em seus empregados. Ela paga 13º salário. Isso sim é responsabilidade social!”. E nossos filhos olharão para aquilo e, espantados, perguntarão: “pai, o que são férias?”

E já que estava falando sobre interpretações errôneas, não podia deixar esta de lado. O ministro da agricultura Reinhold Stephanes reclamou que a Cosan entrou na “lista suja” do trabalho escravo por uma fiscalização que aconteceu no distante ano de 2007. Se ele não tivesse faltado aos convites para participar das reuniões da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo ao longo dos anos, na qual seu ministério tem um assento (ocupado por pessoas interessadas, diga-se de passagem), ele saberia que a empresa entra na relação após esgotadas seus recursos de defes. Ou seja, a própria empresa é que prorroga sua inclusão na lista. Vamos ver se entendi: Stephanes não entende direito do assunto e, mesmo assim, diz que foi um erro. Bem como a ladainha de Chicó, de Ariano Suassuna, no Auto da Compadecida: “Não sei, só sei que foi assim”.

Além disso, Stephanes alegou que a empresa faz parte do compromisso nacional do setor sucroalcooleiro endossado pelo governo por isso não poderia estar na “lista suja”. Bem, apesar de uma coisa não ter nada a ver com a outra, vale a pena esclarecer a efetividade desse instrumento. Quem for verificar o compromisso constatará que, por enquanto, ele está na fase de adesões e confirmações. Ou seja, não há monitoramento das práticas dos signatários, apenas declarações de boas intenções. Que, como o ministro deve saber, não vale nada.

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Walmart suspende negócios com a Cosan por trabalho escravo

Mais uma relativa à Cosan: a rede Walmart enviou nota à imprensa informando que está suspendendo os negócios com a gigante do setor sucroalcooleiro Cosan. A empresa, proprietária das marcas de açúcar União de Da Barra e dos postos Esso, foi incluída na “lista suja” do trabalho escravo no último dia 31 de dezembro de 2009. Veja a nota:

O Walmart Brasil informa que suspendeu temporariamente o contrato de compra da Cosan – fabricante do Açúcar União e Açúcar Da Barra, entre outros. A empresa foi incluída na lista do Ministério do Trabalho e Emprego, das companhias que empregam trabalhadores em situação análoga à de trabalho escravo. O Walmart é, desde a criação, signatário do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil. Além disso, a empresa reforçou o compromisso contra o trabalho escravo durante o evento do “Pacto pela Sustentabilidade Walmart Brasil”, realizado em Junho de 2009, ratificando a adoção de restrições comerciais às empresas e suas subsidiárias flagradas utilizando-se de mão de obra escrava ou análoga. O Walmart reitera que repudia veementemente qualquer prática que não respeite os direitos humanos.

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Após trabalho escravo, Cosan cai na bolsa de SP e NY

No dia 31 de dezembro, a Repórter Brasil e este blog divulgaram a atualização da “lista suja” do trabalho escravo feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego, destacando a presença da Cosan, gigante do açúcar e álcool. Ontem, segundo o jornal Valor Econômico, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social decidiu suspender, em caráter preventivo, “todas as operações com a empresa” até que ela saia da lista. No ano passado, o BNDES havia aprovado R$ 639 milhões para implantação da usina de Jataí (GO) e de R$ 149 milhões para projeto de cogeração na unidade de Gasa (SP) da Cosan.

Com isso, as ações da empresa despencaram nas bolsas. Sem contar a queda de outros dias, ontem, as ações ON tiveram desvalorização de 5,32% na Bovespa e os American Depositary Receipts da Cosan Limited caíram 3,46% na Bolsa de Nova Iorque.

Os relatórios da operação que libertou os trabalhadores são sólidos e os fatos, fartamente registrados, muito graves, ainda mais para uma empresa do porte da proprietárias das marcas de açúcar União e Da Barra e dos postos Esso. O Ministério do Trabalho mantém a posição, mesmo com as pressões de representantes da empresa. Agora é esperar para ver se a Justiça vai dar um refresco para a empresa e fornecer uma liminar para a retirada do nome.

Enquanto isso, as empresas conscientes baixam restrições comerciais, mostrando que ser socialmente responsável é mais do que um ter um discurso bonito.

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Inundações e deslizamentos: se a culpa é de Deus, a cara-de-pau é nossa

Com exceção dos fanáticos religiosos que enxergam sinais da primeira ou segunda vinda do messias (dependendo da religião em questão), apenas os mais míopes não percebem que o planeta está dando o troco. Não estou falando apenas do aquecimento global e das já irreversíveis mudanças climáticas que vão gratinar a Terra nos próximos séculos, mas também dos crimes ambientais que fomos acumulando debaixo do tapete e que, agora, tornaram-se uma montanha pronta a nos soterrar.

Falamos de tragédias em Santa Catarina, em Angra dos Reis, na Ilha Grande, em São Luiz do Paraitinga, no Jardim Pantanal, como se fossem situações desconectadas da ação humana, resultados da fúria divina e só. Um prefeito de uma cidade atingida disse que só restava a ele rezar para Deus controlar as águas. Coitada da população que votou nele e agora vê o administrador do município “terceirizando” o trabalho para o plano superior, provavelmente dando continuidade ao que foi feito pelos que vieram antes dele.

A declaração é da mesma escola daquela de um assessor de George W. Bush quando questionado sobre a herança deixada às próximas gerações pelos gases geradores de efeito estufa da indústria norte-americana. Não me lembro da frase exata, porque lá se vão anos, mas foi algo do tipo: “isso não será um problema, porque Cristo voltará antes disso”. Depois alguém pergunta por que a Cacique Cobra Coral ganha tanto dinheiro…

Um renomado cientista declarou pouco antes da cúpula do clima em Copenhague que era melhor deixar os fatos tomarem seu curso natural, o mundo aquecer, refugiados ambientais quadruplicarem de número, cidades nos países ricos serem invadidas pelo mar, a fome surgir no centro do mundo. Só assim pessoas e países tomariam atitudes reais. Situação que, no Brasil, é vulgarmente conhecida como “a hora em que a água bate na bunda”.  O problema é que, se nada for feito até lá, quando chegarmos nesse ponto, talvez não haja mais tempo para nada, além de lamentar. E rezar.

O fato é que ocupação irregular, planejamento, plano diretor, reforma urbana são expressões ouvidas apenas no tempo das chuvas. Na seca, elas evaporam do léxico não só dos mandatários, mas também de pobres e ricos, que continuam construindo, desmatando e poluindo. Suas razões são diferentes, mas o efeito é o mesmo. Vale lembrar que tudo isso dito aí em cima não gera um voto, pelo contrário: quem é o doador que vai ficar feliz por ter a construção de sua casa em uma área de preservação ambiental embargada? Ou qual o apresentador de TV, que teve sua pousada de luxo removida de um paraíso ecológico por estar em local impróprio, toparia fazer campanha de graça para o político que atuou firmemente para a referida pousada ir ao beleléu?

Considerando que quando há um problema urbano os mais pobres são expulsos do lugar onde estavam para um lugar perto da esquina entre o “não me encha o saco” com o “não me importa aonde”, é de se esperar também que a remoção deles de áreas de risco e de locais inundáveis também seja precedida de grandes protestos que irão reverberar nas urnas. Então, ninguém faz nada, só promete e faz cara de preocupado e de entendido. Afinal, é de palavras vazias que vive nossa política.

Como já disse aqui neste espaço, qualquer solução eficaz adotada vai passar por mudanças no comportamento de todos nós. Como diria Cecília Meireles no Romanceiro da Inconfidência, “todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?” No Brasil, muito poucos. A maioria segue escondida no conforto do anonimato, defendendo o seu, fazendo meia dúzia de ações insignificantes para dormir sem o peso da consciência e o resto que se dane. Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactaria o “American Way of Life” que importamos, apenas reciclar latinhas de alumínio e dar três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E seguem respondendo de boca cheia que fariam de tudo para ajudar o meio ambiente.
E não conseguem, nem ao menos, votar direito.

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Morre o coronel Erasmo Dias. Uma pena

O coronel Erasmo Dias morreu, ontem, aos 85 anos. Entendo a alegria de todos os que, durante a ditadura militar, foram atropelados pelos seus cavalos ou torturados sob sua responsabilidade. Mas não deixo de dar meus pêsames pela nossa incompetência, por não conseguirmos fazer com que esse arauto da retrocesso respondesse por tudo aquilo que fez. 

De 1974 a 1979, Erasmo ocupou o cargo de secretário de Segurança Pública em São Paulo (aliás, como esse cargo consegue juntar tanta gente ruim?), garantindo a ordem sob as técnicas persuasivas da Gloriosa. Ficou conhecido pela invasão da PUC-SP em setembro de 1977, ao reprimir um ato pela reorganização da União Nacional dos Estudantes.

Assim como foi na época da morte do ditador chileno Augusto Pinochet, um amigo comentou que a “justiça” finalmente havia chegado para Erasmo através do câncer que o consumiu. Discordo. O sujeito com 85 anos, morando confortavelmente, sem ter que responder pelo passado, passa dessa para a melhor e isso é “justiça”?

Não só não tivemos a competência para abrir e limpar publicamente as feridas que ele causou, como a sociedade ainda o elegeu deputado federal, deputado estadual e vereador. Parece piada, mas não é.

Outra alma ceifada tempos atrás pela mesma “justiça” foi a do Coronel Ubiratan, responsável pela execução de 111 presos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo. Não é que a sociedade não conseguiu condená-lo, ela não quis condená-lo. Ele fez o servicinho sujo que muitos paulistanos desejam em seus sonhos mais íntimos, de limpeza social. Morreu em 2006, segundo a polícia, pelo gatilho de sua própria namorada. Estava a caminho de ser facilmente reeleito como deputado estadual, ironizando o país ao candidatar-se com o número 14.111.

Os dois não são casos únicos. Se escrevessemos os fazendeiros que assassinaram trabalhadores e lideranças rurais no Brasil e morreram com processos criminais (lentamente) tramitando contra eles, gastaríamos hectares e mais hectares.

Não estou com uma sanha justiceira, de maneira alguma. Mas creio que todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração sexagenária não se sentiram contemplados com o passamento de Erasmo Dias, Ubiratan, ou mesmo de ditadores como Pinochet. Não quero uma saída “Nicolas Marshall”, de justiça com as próprias mãos. Quero apenas que a justiça funcione. Ou, no mínimo, que a sociedade consiga saldar as contas com seu passado, revelando-o, discutindo-o, entendendo-o. Para evitar que ele aconteça de novo.

É pedir muito?

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