Blog do Sakamoto

Os Estados Unidos e o blá-blá-blá contra a pirataria

Leonardo Sakamoto

Eric Holder, secretário de Justiça dos Estados Unidos, conclamou ao Brasil que aumente os esforços no combate à pirataria de softwares, vídeos, músicas, produtos eletrônicos. Ontem, em evento no Rio de Janeiro, disse que o ''roubo de propriedade intelectual'' é uma ameaça à segurança nacional de seu país.

De tanto ouvir e ver propagandas em rádios, TVs e cinemas que fazem o consumidor sentir-se um pedaço de lixo, financiador do tráfico de drogas, responsável pelo desemprego e pela fome no mundo, por não se atentar à origem dos CDs e DVDs que compra, creio que se faz necessária uma pergunta: empresas de software, gravadoras e a indústria do entretenimento em geral, muitas delas com sede nos Estados Unidos, aplicam o mesmo terror em suas relações comerciais?

Inexiste, por parte de muitas delas, uma política para evitar a compra de equipamentos eletrônicos (utilizados na criação de programas, gravação de músicas, filmagens de películas) que contêm crimes contra a humanidade e o meio ambiente em seu processo de fabricação. As únicas restrições que impõem são: que o produto tenha preço baixo e a qualidade técnica desejada. Enquanto isso, a indústria de aparelhos eletrônicos consome proporções cada vez maiores de minérios preciosos e raros encravados pelo mundo. Muitos desses metais são extraídos em minas de países pobres nas quais trabalhadores, crianças e adultos, enfrentam condições aterradoras. Ou comunidades são removidas para dar mais espaço para a mineração. Fora a contaminação da água e a poluição do solo.

Alguns vão dizer que é ilegal baixar músicas e copiar DVDs, mas comprar de quem escraviza e desmata para a produção de matéria-prima não. A resposta sobre o porquê de o mundo ser assim reside no fato de que, historicamente, as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade. Por isso, não me surpreende que, durante a visita ao Rio, a redução de danos sobre impactos causados pelo consumo norte-americano ao redor do planeta não tenha sido uma das pautas.

Se o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e parte da poderosa indústria da informação e do entretenimento não podem comprovar para o consumidor comum de que o seu processo de produção é social e ambientalmente responsável, como é que eles vão exigir responsabilidade de nós?

A provocação não é uma apologia à pirataria, mas sim um saudável chamado à reciprocidade e à responsabilidade.

  1. Cristiane S. Carvalho

    05/03/2010 18:33:37

    Alimento a indústria ilegal pq não tenho cacife prá alimentar a "legal".

  2. Harry

    03/03/2010 10:03:48

    Comentando atrasado, mas trazendo informações úteis...Dê uma olhada nisso: http://gizmodo.com/5481832/apple-reports-discovery-of-child-workers-in-their-factoriesA empresa em questão fabrica hardwares como iPods, iPads, iPhones, MacBooks e outros destas geringonças tecnológicas que estão na moda.Depois das denúncias, a empresa se desculpa compromete-se a seguir a legislação vigente. Agora só maiores de 16 anos serão explorados nas suas fábricas.Detalhe: segundo um contato meu, o preço que pagam para trabalhadores chineses nas fábricas de Tablet PC (e que portanto, deve ser parecido na fabricação de outros hardwares) é entre 10 e 15 dólares por mês. O sujeito precisa trabalhar por cerca de 15 anos, produzindo muitos milhares de Tablet PCs para ganhar o equivalente à 1 Tablet PC.

  3. Luiz

    02/03/2010 10:03:44

    É preciso entender a linguagem dos americanos.Quando eles falam em "segurança nacional", entenda-se uma ameaça militar. Quando mandam a 4.a frota passear, é porque estão irritados com alguma coisa.A única linguagem que eles entendem é a das armas, já que não têm mais moral para nada.

  4. Hélio Barros Duarte

    01/03/2010 16:14:02

    Prezado Sakamoto,Concordo com a proposição do artigo e, lembro-me, de uma debate sobre o tema na TV (claro que não foi nem na Globo, SBT, Band, Record ou RedeTV) e um dos debatedores, músico de quem infelizmente não recordo o nome, disse algo muito contundente: "os verdadeiros piratas não são aqueles que vendem um CD a R$ 2,00 e sim aqueles que os vendem por R$ 30,00".

  5. JOTA

    26/02/2010 14:36:26

    SAKAMOTO È MUITO DIFICIL HOJE. NO BRASIL SE COMBATER A PIRATARIA, ISTO ESTA ENCASTELADO NA CABEÇA DAS PESSOAS, AQUI NA MINHA CIDADE CAMPO GRANDE MS, È UM ABISURDO PRICIPALMENTE DE CD E DVD,EU DISCORDO DE QUEM COMPRA PRODUTOS PIRATAS SÒ QUEM È POBRE,NÃO È ISSO QUE VEJO NO DIA A DIA.

  6. Tiago Ferreira da Silva

    26/02/2010 13:59:44

    Sakamoto,Vale lembrar também que o consumo de pirataria também está associado ao poder aquisitivo. Sai muito mais em conta comprar um DVD numa barraquinha de R$5 do que comprar o mesmo dito original pagando até 10 vezes mais.Gostei dessa frase: "as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade".Se assim é, porque devemos comprometer nosso bolso com uma indústria que não pensa socialmente?Abs,Tiago

  7. Andre Lucato

    26/02/2010 12:24:18

    A Europa também enfrenta esse debate atualmente.Um dos mais lúcidos argumentadores eu acompanho aqui: http://ktreta.blogspot.com/A tag é 'copyright' para os posts relativos a esse assunto.De qualquer maneira, sua abordagem extremamente interessante...Sem dizer que nós PAGAMOS para que nos façam propagandas e ameaças:http://cache.gawkerassets.com/assets/images/17/2010/02/pirate-vs-pay.png

  8. Gustavo de Oliveira

    26/02/2010 11:08:21

    Tudo sempre acaba no trafico de drogas e terrorismo... Mas eu ate acreditaria na tese se ele explicar como isso ocorre. Eu so espero que ele tenha mencionado que o mercado multimidia eh extremamente elitizado no Brasil (muito mais do que no mundo desenvolvido). E num pais onde nao ha bibliotecas/videotecas publicas, salas de cinema sao caras e indexistentes no interior, eh dificil encontrar locadoras na maioria dos lugares, e a TV a cabo eh cara e fraca, etc. etc. hehe... O que fazer? Assistir Big Brother a vida inteira? Se contentar com meia duzia de CDs e filmes (originais) por ano? Passar a vida sem assistir e ouvir nada? Ou comprar pirataria e ter um pouco mais de acesso? Para a maioria das pessoas optar pelo crime eh sempre a ultima saida. Mas o fato eh que a industria multimidia nao conseguiu ou nao tentou se tornar popular e barata no Brasil.

  9. Priscila Carvalho

    26/02/2010 08:19:53

    Sakamoto, concordo totalmente com você. Esse tipo de provocação é necessária para sacudir nosso marasmo.

  10. PALMERIO CARVALHO

    26/02/2010 06:11:07

    Sabe neste debate sobre democracia, há muito discurso para fora, em nome do poder, eu fico a questionar se o que se prega fora para o "vizinho" e em casa pratica totalmente ao contrario. Lamentavel essa forma de definir poder e de retaliar os concorrentes, portanto, se cada um cuidasse de sua "casa" democratimente não poderia dar pitaco na vida dos outros.OLHA ISTO VALE PARA TODOS INCLUSIVE NÓS QUE NOS DIZEMOS BRASILEIROS.

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