Blog do Sakamoto

Ivan Valente grita “truco!” na orelha de Aldo Rebelo

Truco! Seis! Nove! Doze?

Os ruralistas, Aldo Rebelo (PC do B-SP) à frente, haviam convocado os financiadores da SOS Mata Atlântica, como Coca-Cola, Unilever e Bradesco, para deporem na Comissão de Meio Ambiente. Como a entidade havia proposto a criação de uma lista de parlamentares exterminadores do futuro por suas ações contra o desenvolvimento sustentável, buscou-se uma forma de intimidação pública.

Através de requerimento do deputado federal Ivan Valente (Psol-SP), foi aprovada ontem, na Comissão Especial do Código Florestal, convocação para ouvir as multinacionais que financiam a bancada ruralista. De acordo com a assessoria de Valente, Aldo (que teve a campanha irrigada por grandes empresas como a Votorantim e a Caemi/Vale) propôs a retirada do requerimento sobre a SOS Mata Atlântica assim que viu o que estava para acontecer. Mas, pelo menos dessa vez, o Congresso ficou sem ver uma negociata, uma vez que o deputado do Psol se recusou a retirar o pedido. Os dois requerimentos foram a votação e acabaram aprovados. Tem gente que vai sentir o gosto amargo do próprio veneno.

“Os mesmos que defendem tais mudanças na legislação ambiental são aqueles que foram contra a Lei dos Crimes Ambientais. São os mesmos que, além de defenderem quem sistematicamente descumpre a lei ambiental – como recomendou a senadora Kátia Abreu –, fazem lobby pesado junto ao governo pelo adiamento constante da entrada em vigor do decreto que determina a recuperação da reserva legal, aplicando sanções a proprietários que desmataram mais do que o permitido”, afirmou Ivan Valente em nota. Para ele, é preciso deixar claro que interesses estão por trás da atuação desses parlamentares.

Como já disse aqui anteriormente, fala-se de interesses externos de olho no solo e no subsolo da Amazônia. Culpa-se as ONGs estrangeiras que atuam aqui por isso. O problema é que parte da sociedade, parlamentares incluídos, trata disso como se o monopólio da canalhice residisse no terceiro setor, ignorando o que é feito por certas empresas e representantes do Estado. Parlamentares raramente falam sobre a degradação ambiental, social, trabalhista causada por grupos estrangeiros e nacionais que têm interesse no tipo de “progresso” a qualquer custo. A Amazônia, o Cerrado e o Pantanal já estão internacionalizados. E não é de agora. A discussão travada hoje não é pelo acesso aos recursos e sim pelo espólio.

As convocações foram feitas. Quem não tem cartas na mão e está apenas blefando que se cuide. Quem sai ganhando com tudo isso? A sociedade, que vai receber um banho de transparência.

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Churrasco forçado: mais de 80 são libertados em carvoarias

A produção de carvão vegetal é, certamente, uma das atividades mais insalubres e perigosas a que um ser humano pode se dedicar por conta das altíssimas temperaturas dos fornos que queimam os pedaços de madeira. Ou seja, já é naturalmente penosa quando as condições de trabalho oferecidas estão dentro dos patamares mínimos de dignidade. Imagine, então, o cotidiano de quem é escravizado em uma dessas sucursais no inferno.

A Superintendência Regional do Trabalho de Goiás (SRTE/GO), em parceria com o Ministério Público do Trabalho e a Polícia Federal, resgatou 81 pessoas de 14 carvoarias em Jussara, Estado de Goiás. As vítimas, boa parte delas aliciadas em Minas Gerais, desmatavam a vegetação, retiravam a lenha e produziam carvão. Essa história foi contada na Repórter Brasil pela jornalista Bianca Pyl, da qual retiro alguns trechos:

- Os alojamentos eram feitos de restos de madeiras e lonas em chão de terra batida ou areia. Alguns eram localizados próximos a lamaçais. Os trabalhadores dormiam em camas improvisadas com tocos de madeira e utilizavam pedaços de espumas velhas e sujas como colchões. Não havia roupas de cama e nem armários individuais para guardar pertences;

- Para tomar banho, os trabalhadores utilizavam copos para jogar água no corpo. Não havia cozinhas. Os alimentos eram preparados dentro dos alojamentos, em fogões improvisados, com risco de incêndios. Não havia instalações sanitárias ou elétricas. Os empregadores não forneciam água potável. Algumas esposas e filhos de carvoeiros também moravam nas mesmas condições;

- Equipamento de Proteção Individual (EPI) era lenda. “A maioria dos carvoeiros trabalhava apenas de bermudas e chinelos, mesmo estando expostos ao calor intenso, à fumaça e à fuligem produzidas pela produção e remoção do carvão”, explicou Roberto Mendes, coordenador da ação;

- As vítimas estavam submetidas a uma jornada exaustiva, sem descanso semanal renumerado, trabalhando de segunda a segunda, inclusive aos domingos. Direitos trabalhistas não eram recolhidos;

- E como cereja do bolo, infrações ambientais. Os fiscais verificaram que duas carvoarias funcionavam sem autorização e que nenhuma das mais de dez motosserras tinha licença do órgão ambiental responsável. Houve registro de queimadas irregulares após a derrubada de Cerrado. Durante a operação, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informou a Agência Ambiental de Goiás sobre as irregularidades e solicitou a presença de representantes no local, mas até o fim da fiscalização ninguém do órgão estadual compareceu.

No total, os trabalhadores resgatados receberam mais de R$ 200 mil referentes às verbas rescisórias. Além disso, receberão três parcelas de Seguro-Desemprego do Trabalhador Resgatado, no valor de um salário mínimo cada. Todas as carvoarias foram interditadas.

E, para registro: 14 carvoarias estavam localizadas nas seguintes propriedades: Fazenda Água Limpa do Araguaia, de propriedade de Antônio Joaquim Duarte; Fazenda Pompéia, que pertence a Jairo Benedito Perillo; Fazenda Nossa Senhora Aparecida, de Labib Adas; Fazenda Chaparral, de Renato Rodrigues da Costa; e Fazenda Santa Rosa do Araguaia, da empresa Oesteval Agropastoril Ltda. As carvoarias funcionavam há cerca de quatro anos. Nesse período, trabalhadores mudavam de uma fazenda para outra.

Em tempo: Dias desses, alguém me perguntou para que se faz tanto carvão no Brasil e se o destino são as churrasqueiras. Bem, carvão vegetal é um dos insumos na fabricação de ferro-gusa, matéria-prima do aço. Aço que é usado para fazer carros com ar condicionado e geladeiras, que fazem nossa vida mais agradável nos dias quentes. Fica, portanto, o nosso muito obrigado às pessoas que acabam torrando feito churrasco em carvoarias fora da lei pelo país afora.

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Quem financia a Frente Nacionalista?

Conforme já comentei antes, foi lançada a Frente Parlamentar Nacionalista no Congresso Nacional que pretende questionar as motivações de organizações não-governamentais estrangeiras de defesa do meio ambiente. Fala-se de interesses externos de olho no solo e no subsolo do país. É claro que existem ONGs canalhas, muitas, mas da mesma forma que empresas e governos desqualificados e todos precisam ser punidos se cometerem crimes. Contudo, esses parlamentares não falam sobre a degradação ambiental, social, trabalhista causada por empresas estrangeiras e nacionais que têm interesse no tipo de “progresso” a qualquer custo. A Amazônia, o Cerrado e o Pantanal já estão internacionalizados. E não é de agora.

Sugiro a leitura de matéria de Aldem Bourscheit, retirada retirado do site O Eco:

Um dos principais alvos da nova frente parlamentar nacionalista da Câmara é a atuação no país de organizações não-governamentais financiadas com dinheiro estrangeiro. Conforme o coordenador do grupo, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), essas entidades recebem recursos do exterior para ditar regras sobre o desenvolvimento brasileiro, posicinando a frente como um meio para “lutar contra as ações que contrariam os interesses do Brasil em favor dos interesses externos”.

Uma consulta à prestação de contas dos parlamentares da frente ao Tribunal Superior Eleitoral revela campanhas apoiadas com dinheiro de multinacionais, de empresas brasileiras com capital estrangeiro e de outras com histórico pouco notável no respeito à legislação ambiental. O cruzamento foi baseado no pleito de 2006, destacando doações de Pessoas Jurídicas com valor igual ou superior a dez mil reais, sem descartar valores menores de grupos ou indivíduos conhecidos da opinião pública.

Algumas das empresas na lista têm em seu currículo acusações sobre desmatamento ilegal da Amazônia, Mata Atlântica e outras regiões, plantação de árvores exóticas em locais contrariando à legislação ambiental, ocupação de terras de indígenas e quilombolas, mineração descontrolada, receptação de madeira ilegal, aplicação de venenos em áreas de preservação permanente, contaminação de águas subterrâneas e de rios, poluição do ar, desrespeito às leis trabalhistas, uso de empresas-laranja para compra de terras, além de participação em megaprojetos de infraestrutura com severos impactos socioambientais.

Dinheiro de multinacionais ou de empresas brasileiras com participação de capital estrangeiro, como Bunge, Stora Enso, Tractebel, Veracel, Aracruz, Fosfértil, Vallurec Manes Mann, Guascor, Norske Skog Pisa e Duke Trading, foram registrados nas campanhas de parlamentares como Paulo Piau (PMDB/MG), Duarte Nogueira (PSDB/SP), Luiz Carlos Hauly (PSDB/PR), Eduardo Sciarra (DEM/PR), Waldemir Moka (PMDB/MS), Odacir Zonta (PP/SC), Moacir Micheletto (PMDB/PR), Cezar Silvestri (PPS/PR), Vieira da Cunha (PDT/RS), Dilceu Sperafico (PP/PR), Júlio César (DEM/PI), Moreira Mendes (PPS/RO) e José Maia Filho (DEM/PI).

Na listagem, também são encontradas doações recebidas pelos candidatos de empresas de petróleo, biotecnologia, celulose e papel, agrotóxicos e cigarros, de frigoríficos que atuaram na devastação da Amazônia, de siderúrgicas e mineradoras, de empreiteiras com atuação nacional e internacional, bancos privados, e companhias ligadas à produção de armamentos.

Não se fazem mais nacionalistas…
Para o deputado federal Ivan Valente (PSOL/SP), há grande contradição entre discursos e atos dos parlamentares auto-intitulados nacionalistas. “Não existem mais nacionalistas como antigamente, com projeto nacional de desenvolvimento, de nação. Hoje aceitam ações e dinheiro de transnacionais. Entendo que quem se diz nacionalista não deveria aceitar dinheiro de multinacionais ou de empresas que foram criminosamente privatizadas, como a Vale (do rio Doce) e Companhia Siderúrgica Nacional”, disse.

Para ele, a recriação da frente no momento em que se debatem mudanças no código florestal é um “deboche à inteligência dos brasileiros”. “A discussão não pode servir de álibi para se detonar a defesa dos recursos naturais brasileiros ou para não se discutir um outro modelo de desenvolvimento para a Amazônia, por exemplo. Os grandes benefíciarios do modelo destruidor atual de desenvolvimento são justamente os grupos ligados ao agronegócio, ao capital financeiro internacional”, ressaltou. “Por isso sou a favor do financiamento público exclusivo de campanhas”, arrematou.

Campanhas de peso
Dos 31 parlamentares que assinaram a refundação da frente nacionalista (veja tabela abaixo), Aldo Rebelo figura com a campanha mais cara, de quase 1,5 milhão de reais. Sua prestação de contas inclui doações recebidas da Votorantim, Camargo Corrêa, Companhia Siderúrgica Nacional e Caemi Mineração, do grupo Vale do Rio Doce, somando 740 mil reais. Ou seja 50% da origem dos fundos vieram destas empresas

O parlamentar é relator da proposta de mudança no Código Florestal Brasileiro na Câmara, apontada por ambientalistas e pesquisadores como altamente perigosa para o futuro das matas nacionais por aumentar a possibilidade de desmatamento legal. Em 2004, Rebelo foi responsável por relatório e substitutivo que abria as portas do país ao monopólio de multinacionais do setor de produtos transgênicos, como a Monsanto.

Outras campanhas dos ‘nacionalistas’ também tiveram forte financiamento estrangeiro e empresarial, como a de Moreira Mendes (PPS/RO), com quase 70% das receitas oriundas desse tipo de fonte, de Luiz Carlos Hauly (PSDB/PR), com cerca de 60%, de Sérgio Petecão (PMN/AC), com 50%, de Eduardo Sciarra (DEM/PR), com quase 30%, e de Edmilson Valentim (PCdoB/RJ), com 25%.

Conforme o deputado federal Edson Duarte (PV/BA), os argumentos levantados pela nova frente parlamentar são ultrapassados e não têm consistência quando colocados frente à frente com as doações que receberam em suas campanhas eleitorais. “Ruralistas e neoruralistas na frente usam argumentos de séculos atrás. Percebe-se que quem levanta agora a bandeira do nacionalismo é na verdade financiado por grupos econômicos com atuação global”, disse.

Para ele, a frente atuará de forma orquestrada para constranger quem atua com responsabilidade socioambiental, enquanto deveria proteger o patrimônio natural brasileiro. “Hoje o que mais se espera globalmente é que empresas atuem com responsabiliade socioambiental. Se esse movimento é mesmo nacionalista, deveriam proteger nossas florestas e rios, não reduzir sua proteção”, comentou.

Tanto Duarte como Valente avaliam que o código florestal precisa de instrumentos econômicos e de fiscalização para que possa ser cumprido. “É possível adequar isso, só não podemos adequar a lei aos ilegais. Até porque a questão ambiental nunca foi entrave para nada nesse país, vide os recordes frequentes em produção e exportação do agronegócio”, apontou Duarte.

“O que está em jogo é a manutenção do mesmo modelo de ocupação destruidora, produção e exportação com baixo valor agregado, responsável por grande parte do desmatamento da Amazônia, e outro que pode investir em fortes centros de pesquisa na região para atuar com química fina e explorar a biodiversidade preservando a floresta”, disse Valente. “O Brasil pode promover uma revolução agrícola apenas com o que se tem de pastagens degradadas, mais de cem milhões de hectares”, completou Duarte.

A reportagem de O Eco também consultou as receitas de campanha de Valente e Duarte. Nenhum recebeu dinheiro na campanha de 2006 de empresas ligadas a nenhuma das atividades listadas na reportagem.

Leia o restante no site de O Eco.

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Bem-vindos à era das crianças por controle remoto

- Vai já para trás do seu irmão! – gritou a mãe.

E o rapazinho, do alto dos seus cinco ou seis anos, acelerou o seu sedan de brinquedo e foi para perto do irmão, que passeava em um reluzente esportivo azul. Procurei os pés dele empurrando o carro por baixo, no melhor estilo Flinstones, ou mesmo algum pedal. Nada. O brinquedinho era elétrico.

Neste domingo, fui andar de bicicleta no Parque do Povo, aqui na capital paulista, para ver se conseguia reduzir a quantidade de Sakamoto no mundo. O lugar é agradável mas, de fato, não é o “povo” em seu significado mais amplo que o freqüenta e sim uma parte mais abonada dele. Apesar de aberto a todos, não reúne uma pluralidade comparável com a do Ibirapuera, sendo praticamente um reduto da classe média alta que vive em seu entorno. O que não é uma crítica a ele ou a seus freqüentadores. Mas são poucos os lugares em que encontraria uma quantidade perceptível de crianças andando nesses triciclos high-tech.

Quando pequeno, tive um velotrol de plástico, assento rosa e guidão branco e azul, com umas fitinhas que enfeitavam os manetes. A motorização ficava na base dos dois sapatinhos pretos que eu usava por conta do pé chato. Se na minha infância existia um mimo elétrico como esse, eu nunca vi. E mesmo se tivesse visto meus pais não teriam dinheiro para comprá-lo.

Ainda bem. Fico imaginando a geração de crianças que vai crescer com um carrinho elétrico. Certamente, farão menos exercícios que seus amigos que andam de triciclos, serão menos saudáveis – fisicamente falando. Brinquei muito de videogame quando criança, mas também andava de bicicleta, descia a rua com carrinho de rolimã, empinava pipa, jogava taco. Creio que meus pais conseguiram balancear bem os dois tipos de atividades e eu tive sorte de crescer em um bairro afastado do centro, em que a rua me pertencia mais do que eu aos muros da minha casa.

Contando a história a um amigo ele me revelou que o buraco é mais embaixo, pois em lojas especializadas já é possível encontrar esses mesmos carrinhos elétricos com controle remoto. Ou seja, pais guiando os filhos a um toque de botão. Fico sem entender se isso faz parte da paranóia de segurança urbana ou de uma definição de “conforto” que não entra no meu dicionário porque esbarra no significado de “bom senso”. Ou ainda de um tipo de prazer em considerar o próprio filho ou filha um brinquedinho – talvez compensando alguma carência de infância. E eu que achava estranhas aquelas cordinhas presas ao cinto da criança, com um sistema de recolhimento de cabo semelhante aos usados para levar os totós para passear.

Talvez isso não tenha nenhum efeito na formação da criança, talvez seja inofensivo. Mas se já é estranho privar a criança de um mínimo de exercício físico, é mais esquisito ainda privá-la da autonomia de guiar o seu carrinho. Que tipo de pessoas estamos gerando com isso? Cidadãos mais obedientes, com uma vida assepticamente programada?

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“Vagabundo que faz greve deveria ser demitido”

“Vagabundo que faz greve deveria ser demitido.”

Ouvi essa frase algumas vezes nos últimos dias, com algumas variações, por conta da greve dos professores da rede estadual de São Paulo. Sendo que as piores versões são aquelas proferidas por inflamados comentaristas de TV e por indignados políticos. E, é claro, ela nunca vem sozinha: passeata na Avenida Paulista que atrapalha o trânsito? Cacete neles! Protesto perto do palácio do governo? Cacete neles! Onde já se viu? Essas pessoas têm que saber seu lugar.

Sindicatos não são perfeitos, longe disso. Assim como ocorrem em outras instituições, eles possuem atores que resolvem voltar-se para os próprios umbigos e tornar a busca pelo poder mais importante que os objetivos para o qual foram eleitos. Contudo, graças à organização e pressão dos trabalhadores, importantes conquistas foram obtidas para civilizar minimamente as regras do jogo – não trabalhar até a exaustão, descansar de forma remunerada, ter salários (menos in)justos, garantir proteção contra a exploração infantil. Direitos estes que, mesmo incompletos, são chamados por alguns empregadores de “gargalos do crescimento”.

Apóio os professores. Apóio os controladores de vôo. Apóio os cobradores e motoristas de ônibus. Apóio os bancários e metalúrgicos. Apóio os garis. Apóio os residentes médicos. Apóio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não à exploração e entrar em greve até que a sociedade pressione e os patrões escutem. Mesmo que a manifestação deles torne minha vida um absurdo.

Protestamos contra o presidente da República para defender o direito à greve (de fome) de dissidentes cubanos e discordamos do direito à greve daqueles que ensinam nossos filhos? Coerência é realmente um item cada vez mais escasso hoje em dia.

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Redução de jornada a 40 horas semanais beneficiaria 19 milhões no Brasil, diz OIT

A redução da jornada para 40 horas semanais, como defendem as centrais sindicais, atingiria diretamente um contingente de 18,7 milhões de trabalhadores brasileiros. Os dados estão presentes no livro “Duração do trabalho em todo o mundo: Tendências de jornadas de trabalho, legislação e políticas numa perspectiva global comparada”, que está sendo lançado pela Organização Internacional do Trabalho em um debate na Universidade de Brasília, na manhã desta quinta, aberto pela diretora da instituição no Brasil, Laís Abramo. Em todo o mundo, cerca de 22% da força de trabalho (cerca de 614 milhões) trabalham mais de 48 horas semanais.

De acordo com a OIT, a categoria ocupacional que será mais diretamente afetada por uma eventual redução da jornada legal de trabalho para 40 horas semanais são os empregados do setor privado com carteira de trabalho assinada. Eles compõem 33,2% das pessoas ocupadas no país, ou seja, 31,9 milhões de trabalhadores e trabalhadoras. Dentro desse grupo, 58,6% trabalhavam mais de 40 horas semanais em 2008 enquanto 41,4% trabalhavam 40 horas ou menos por semana.

De autoria dos especialistas da OIT Sangheon Lee, Deirdre McCann e Jon Messenger (este último esteve presente na UnB para o lançamento da versão em português do livro), apesar das diferenças regionais houve uma mudança global em direção ao limite de 40 horas nas últimas cinco décadas. Além disso, gênero e idade parecem ser fatores importantes para determinar a duração do trabalho. Os homens tendem a executar jornadas mais longas, mas o tempo que a mulher dedica à família e às responsabilidades domésticas restringe sua disponibilidade para o trabalho remunerado. Os jovens e as pessoas em idade de aposentar-se trabalham menos horas, resultado das insuficientes oportunidades de trabalho para eles.

Algumas informações sobre o Brasil divulgadas pela OIT:

- A população ocupada de 16 anos ou mais de idade trabalhou uma jornada média semanal de 40,8 horas. Apesar da média ser mais reduzida que o limite fixado na lei, houve um contingente expressivo de ocupados cujas jornadas semanais superavam este limite;

- Em 2008, 33,7% das pessoas trabalhavam uma jornada superior às 44 horas semanais e 19,1% trabalharam uma jornada superior a 48 horas, enquanto 23,1% trabalhavam menos de 35 horas por semana;

- A média de horas trabalhadas por semana pelos homens era de 44 horas, quase oito a mais do que a jornada das mulheres, de 36,4 horas. Além disso, a carga excessiva afeta mais os homens do que as mulheres. Em 2008, 24,7% das mulheres e 40,5% dos homens trabalhavam mais de 44 horas semanais;

- Apesar da jornada reduzida das mulheres, no conjunto das mulheres brasileiras ocupadas, uma expressiva proporção de 87,8% também realizava afazeres domésticos, enquanto que entre os homens tal proporção expressivamente inferior (46,5%). A média de horas dedicadas aos afazeres domésticos foi de 18,3 pelas mulheres e de 4,3 pelos homens ocupados, ou seja, 14 horas a menos. Somando, as horas trabalhadas fora e em casa, as mulheres são mais exigidas;

- Entre 1992 e 2008 houve uma redução da média de horas trabalhadas por semana de 42,8 horas para 40,9 horas. A redução mais significativa foi entre a população ocupada com jornada de trabalho semanal acima de 44 horas, de 43,3% em 1992 para 33,9% em 2008.

A OIT propõe que os acordos de tempo de trabalho decente devem atender a cinco critérios: favorecer a saúde e a segurança no trabalho, ser compatíveis com a vida famíliar, promover a igualdade de gênero, reforçar a produtividade e facilitar a escolha e influência do trabalhador no seu total de horas de trabalho.

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Em ano de Copa, eis uma Frente Parlamentar Nacionalista

Foi anunciado, nesta terça, o lançamento da Frente Parlamentar Nacionalista no Congresso Nacional. Tendo o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) como coordenador, ela pretende “questionar as motivações de organizações não-governamentais estrangeiras de defesa do meio ambiente”, segundo a Agência Câmara.

Uma nota distribuída pela assessoria do deputado Moacir Micheletto (PMDB-PR) anuncia que, no evento, será lançado o Prêmio Joaquim Silvério dos Reis, a quem ela chama de “traidor mor do Brasil”. Mas sou obrigado a discordar: há tanta gente que rifou seu povo e recursos naturais a troco de lucro fácil nos últimos 200 anos que, perto deles, o delator da Inconfidência Mineira seria considerado um estagiário…

Ambos os deputados integram a bancada ruralista, que está em campanha aberta para a mudança do Código Florestal e da Lei de Crimes Ambientais. Por “mudança” leia-se “flexibilização”, “afrouxamento”, “esterilização”, “inutilização”…

Quem defende o desenvolvimento sustentável e o direito das populações tradicionais e dos trabalhadores rurais frente ao crescimento econômico sem limites é visto por muitos dos parlamentares da bancada ruralista como canalha ou ingênuo. Em outras palavras, faz o jogo dos “gringos” e joga o Brasil na latrina. É aquela coisa: se você está comigo é gente boa. Se está contra mim, é um safado. Esse maniqueísmo todo pode ser ótimo para tornar o mundo mais fácil de ser entendido, mas péssimo para nele viver.

Como já disse aqui anteriormente, fala-se de interesses externos de olho no solo e no subsolo da Amazônia. Culpa-se as ONGs estrangeiras que atuam aqui por isso. É claro que existem ONGs canalhas, muitas, mas da mesma forma que empresas e governos desqualificados. Contudo, esses parlamentares não falam sobre a degradação ambiental, social, trabalhista causada por empresas estrangeiras e nacionais que têm interesse no tipo de “progresso” a qualquer custo. A Amazônia, o Cerrado e o Pantanal já estão internacionalizados. E não é de agora.

Em ano de Copa do Mundo, em que as tintas verdes e amarelas desaparecem das lojinhas por excesso de demanda, nada mais pertinente que lançar uma Frente Parlamentar Nacionalista. Pois, esse é um país que vai pra frente! Um país deitado em berço esplêndido cheio de desertos verdes a serem conquistados! Um país que não teme inimigos externos desejosos de impedir que esta nação atinja seu ideal de ser a mais resplandescente entre as demais! Com inimigos que querem nos tirar a Amazônia! Que não entendem que, às vezes, é preciso crescer o bolo para depois reparti-lo! Um país que devemos defender e respeitar sem críticas ou meias palavras!

Enfim, o Brasil deveria ser do jeito que alguns querem que ele seja. Daí, sobram duas opções: Ame-o ou Deixe-o.

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Para que o Dia Mundial da Água não seja lavagem de marca

Acho ótimo que pessoas e empresas estejam engajadas para o Dia Mundial da Água. Portanto, espero que essa onda não seja para uma grande lavagem de marcas. Até porque água é um bem escasso e não pode ficar sendo usado para retirar manchas que só vão ser removidas com ações reais que mudem a forma como se faz negócios e não apenas perfume o que está sujo. E não é apenas o uso racional do que se retira do meio ambiente, pois água não serve só para cozinhar, tomar banho ou fazer cerveja.

Pensar racionalmente a água passa por evitar a construção de grandes hidrelétricas, que afogarão comunidades ribeirinhas ou indígenas em algum lugar da Amazônia, em detrimento a apostar em formas mais limpas de produzir energia – que hoje são caras por falta de investimento. Afinal, é necessária muita energia para fazer alumínio (aquele das latinhas) e alguém tem que pagar pelo progresso. Ou a contaminação de rios, córregos e lençóis freáticos com agrotóxicos (sugiro ótima matéria de Angela Pinho, hoje na Folha de S. Paulo, sobre como as grandes do setor, como Syngenta, Bayer e Basf, foram flagradas com irregularidades em fiscalizações).

Muito tempo atrás, durante as brigas do amianto, um advogado que defendia o interesses dos trabalhadores trouxe um pedaço do produto para ser mostrado em uma audiência judicial com os que defendiam as empresas. O amianto, acusado de causar danos à saúde dos trabalhadores, circulou na mesa. Do lado corporativo, que defendia que o produto era inofensivo como uma bola de gude, ninguém quis tocá-lo… A Anvisa está fazendo uma reavaliação toxicológica de mais de 200 substâncias químicas. A presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária, senadora Kátia Abreu (DEM-TO), alega que vetos causarão aumento de custos. O padrão é o mesmo do amianto: se o problema está longe, ele é um não-problema. Não sou eu que vou manusear os pesticidas mesmo, não sou eu que vou ter minha casa inundada por uma hidrelétrica e nunca ser ressarcido, não sou eu que vou ser acusado de não cuidar da cadeia produtiva da água. Na melhor linha, do “só é pecado se te descobrem”.

Ninguém considera que quando demando um produto, mesmo que não haja água em sua fórmula, sou responsável pela forma como ele foi feito – incluindo o que ele fez com a água. Banho curto, não lavar a calçada com a mangueira, usar sistemas de descarga mais inteligentes são importantes. Mas são apenas a ponta do iceberg. A capacidade do consumidor de dizer não para marcas que criam os mais diferentes impactos na água do planeta, impactos que, às vezes, não estão à mostra, é que pode fazer a diferença no final das contas.

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Uma vida sem pedreiros, cortadores de cana e faxineiros

Não é novidade que, apesar da economia estar crescendo e vagas sendo abertas, o país não tem profissionais capacitados para atender à demanda do mercado (ah, a educação…) Uma reportagem exibida hoje no Bom Dia Brasil, da Globo, mostrou como a disputa por mão-de-obra qualificada tem feito com que o ganho líquido de um pedreiro seja, em alguns casos, quase o dobro que o de um engenheiro recém-formado. Particularmente, não acho que isso deveria assustar, mas isso é outra história.

Chamou a atenção uma declaração do presidente do CREA de Minas Gerais, Gilson Queiroz Filho, à rede de TV: “A avaliação é geral, principalmente, o Nordeste que era um grande fornecedor de mão-de-obra para Sudeste, Sul, hoje tem muita atividade. As pessoas estão se fixando naquela região e não vêm mais para atender a construção civil”. Não creio que ele tenha usado um tom negativo em sua fala, apenas feito uma constatação. Mas já ouvi muita gente verificar a mesma situação e reclamar da diminuição do volumoso estoque de braços nordestinos baratos que sempre esteve à disposição para o serviço aqui no Sul Maravilha. A floresta de concreto plantada em São Paulo cresceu regada ao baixo custo dessa força de trabalho e nem sempre tratando os filhos adotivos com o respeito que mereciam.

Para esse pessoal, problema maior não é a falta de mão-de-obra especializada, mas sim a redução no estoque de pessoas procurando qualquer emprego. Com muita gente disposta a trabalhar e poucas vagas, a remuneração oferecida e a qualidade de vida do trabalhador vão lá embaixo. Quando o número diminui, o custo do trabalho aumentam. Viva a lei da oferta e da procura.

É cedo para falar em processos duradouros e sustentáveis, mas será ótimo se chegar o dia em que teremos que desembolsar mais e garantir melhores condições a categorias historicamente maltratadas para contar com os seus serviços. Pedreiros, cortadores de cana, faxineiros, empregados domésticos só aceitariam empregos se fossem justamente remunerados e tratados sem preconceito. É utópico, eu sei, mas se o norte for o conformismo, a barbárie vai triunfar.

Quero ver aguentarmos um dia sem eles.

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A internet e a farra dos comentários intolerantes

Considerando que a internet é apenas um espaço, talvez não seja possível dizer que ela pende mais para um lado ou outro. Já aqui, no blog, boa parte dos comentários são conservadores – do meu ponto de vista, é claro. Tempos atrás, pincei algumas declarações recorrentes, publiquei (sem os nomes, é claro) e teci algumas considerações. Gerou repercussão e um bom debate. Prometi trazer novamente a relação atualizada com sugestões enviadas. Aí veio o drama mexicano causado por setores da sociedade que viam no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos uma ameaça à tradição, à família e à propriedade. Foi uma farra da intolerância nos comentários.

Com exceção daqueles que pecam pela extrema falta de bom senso e por isso são deletados (vocês não imaginam como tem gente sem noção no mundo que incita a violência e crimes de ódio) ou pela prolixidade extrema (há internautas que acham possível me salvar da perdição colando a íntegra do livro de Mateus no espaço de comentários) o que é postado é mantido. Posso até discordar veementemente do que diz o meu leitor, mas todos têm o direito à voz e a internet é um espaço para isso mesmo. Mas que dá uma paúra no estômago de vez em quando, ah, isso dá. Eis a lista atualizada com a ajuda dos leitores:

“Tá com dó de criança de rua/morador de rua/usuário de drogas? Leva para casa.”
A sistemática ausência do Estado e a mais sistemática ação de determinados grupos ditos liberais de reduzir a importância da ação estatal ajudou a espalhar cada vez mais aberrações como essa. A discussão sai do âmbito das políticas públicas, que deveriam existir para dar apoio a determinadas populações fragilizadas, e passou para o espaço privado. Ou seja, sou eu que tenho que pegar cada pessoa pelo braço e dar comida em casa. Pois o Estado tem que se preocupar com coisas mais importantes, como auxiliar grandes corporações. Por outro lado, o comentário é recheado de rancor, como se a pessoa desejasse ver uma punição contra esses deslocados. “Por que tenho que me encaixar na sociedade e eles não?”, deve perguntar o missivista. Daí para a desumanização e queimar índios na rua é um passo.

“Para que libertar escravos se eles vão gastar o dinheiro que ganham com cachaça, muitos deles até cometer crimes”
Sim, aparecem comentários assim por aqui. Basicamente significa algo como: liberdade é algo para aqueles que sabem desfrutá-la com comedimento. Para não dizer o outro significado, que pende para um crime de ódio. Nossa capacidade de tentar controlar a vida do semelhante não conhece limites. Até onde sei, não existe punição preventiva. Quer dizer, até existe, haja visto as mílicias rurais ou os grupos de extermínio em favelas, ou como ouvi dia desses, “atos radicais de limpeza social”. Mas isso – ainda – não é lei.

“Antes de falar mal de um agricultor/pecuarista, saiba que é ele quem coloca a comida na sua mesa.”
Ninguém está criticando todos os agricultores ou pecuaristas, mas apenas aqueles que fazem caca. Esse tipo de comentário usa a velha técnica de convencer os outros de que você está falando mal deles também a fim de obter parceiros na luta contra o blogueiro. Identidade reativa, sabe? Criar um inimigo comum, no caso eu, ignorando as arestas que existem entre os produtores que atuam dentro da lei e os criminosos. O pior é que eu nem como carne de boi.

“Jogue o seu diploma no lixo.” “Você é um mala.” “Volta para o Japão!” “Como os seus amigos te agüentam?” “Cara, você tem cara de pirralho.” “Dou como 95 por cento de chances que o seu problema é falta de mulher!”
É velha tática de atacar não o argumento mas o interlocutor – talvez até por falta de fatos sustentáveis para se basear. Mas não vou negar que muitos dos comentários desse gênero são criativos – o povo se esforça! Essa é a hora mais divertida da leitura.

“Você defende o aborto, não entende os desígnios de Deus e não dá a mínima para a vida.”
Exatamente porque defendo, acima de tudo, a vida é que tenho essa posição. Mas poderíamos dialogar feito gente grande sobre o tema se fossem trazidos argumentos não sobrenaturais para essa discussão. Devido aos textos defendendo o santo direito da mulher ao aborto, e carregado de raiva ou de um ímpeto evangelizador, um leitor posta diariamente quase um capítulo inteiro da Bíblia na forma de comentários neste blog – que, graças a Deus, tem filtro para segurar esse tipo de fanfarronice. Realmente, não entendo os desígnios de Deus e não faço idéia se ele joga dados. Mas me lembro de uma tira do Laerte em que Deus cria um céu mais legal para pessoas desregradas que se divertiram na vida. O aborto está longe de ser divertido, mas há pessoas que acreditam que a maior parte das mulheres que a ele recorrem adotam-no como costumeiro método contraceptivo. Afe.

“Os negros continuam nessa situação hoje porque não quiseram trabalhar pesado ao serem libertados.”

O 13 de maio de 1888 representou o despejo de pessoas na rua sem um processo de inserção civil, social, econômico. Pelo contrário, foram criados instrumentos para manter a mão-de-obra farta e ao alcance, mas sem os custos da compra. Nunca o país resolveu esse problema, sempre empurrando-o com a barriga. Aí quando se fala em ações afirmativas, ou seja, tratar desiguais de forma desigual por um tempo de forma a alcançar a igualdade, o pessoal chia. “Isso é racismo contra brancos!”, bradou um aqui por esses dias. Como um país quer se arvorar como uma democracia se paga bem menos para uma mulher negra que realiza a mesma tarefa que um homem branco?


“Deus criou o homem para governar e a mulher para estar ao seu lado.” “O marido tem direito a bater em sua mulher.” “Lei Maria da Penha não deveria existir porque em briga de marido e mulher não se deve meter a colher.”

A maior parte dos comentários machistas foram anônimos neste blog. Por que será?

“Esses sem-terra são um bando de vagabundos. Apanhar é pouco, deveriam matar mais alguns para que parem de atacar a propriedade alheia.”
Às vezes me pergunto quem foi que escolheu os temas dos livros de História usados nas escolas. Pois se os alunos entendessem como a política de terras no país garantiu que um punhado de pessoas concentrasse boa parte das propriedades (os dados do IBGE confirmam isso) entenderiam melhor o que significa lutar pela terra. Não é roubar, mas garantir que seja feito Justiça. Outra coisa: boa parte das vezes são pessoas desprovidas de bens materiais que transbordam fascismo ao criticar ocupações de terra. Poderíamos falar durante dias sobre o que está por trás desses discursos, mas cito a raiva diante da coragem alheia, o desejo de ascensão social que culmina na mesma posição do latifundiário, os efeitos dos discursos (muito famosos na época da Guerra Fria) de que os comunistas vão invadir sua casa e tomar até o liquidificador depois de violentar sua filha… Ou posso estar enganado e todas as pessoas que deixam esses comentários bizarros no meu blog são da TFP. Espero que não, pois imagine quando resolverem fazer um flash mob aqui na frente da minha casa?

“No meu mundo perfeito, não apenas uma oca, mas os moradores dela também seriam expostos como exemplares exóticos em zoológicos espalhados pelo mundo. Estes seres não contribuem em nada para a sociedade.”
No meu mundo perfeito, o Palmeiras seria campeão todos os anos. No meu mundo perfeito, gordura de batata frita não iria entopir artéria. E, principalmente, no meu mundo perfeito, o bom senso e o respeito pelas diferenças reinariam e ninguém teria coragem de escrever um comentário assim.

“Trabalhei quando criança e isso formou meu caráter. Criança tem que trabalhar para não ficar fazendo arruaça na rua.”
Boa parte dos comentários postados sobre trabalho infantil são maniqueístas: ou a criança tem que ser burro de carga ou vai assaltar nos semáforos, não existe a opção estudar-brincar-crescer. Até entendo que muita gente sinta que sua experiência de superação seja bonita o suficiente para ser copiada pelo seu filho. Mas será que eles não imaginam que o trabalho infantil não precisa ser hereditário? “O trabalho liberta”, já dizia o portão do campo de concentração. No Natal, vou fazer uma lista para Papai Noel levar uma boneca de pano ou um carrinho de madeira para a porta desse pessoal amargo da vida.

“Queria ver você ter um filho homossexual.”
Pode ser. Mas nosso planejamento familiar prevê filhos apenas um pouco mais para frente. Depois da Copa.

“Se você critica tanto São Paulo, seu fdp, porque não se muda daqui? Tenho orgulho de ser bandeirante, sou a locomotiva que puxa este país!”
São Paulo, ame-o ou deixe-o. Depois perguntam porque a redemocratização é lenta nas entranhas de alguns. Esse comentário estava em um post em que escrevi que parte da população de São Paulo, pobre ou rica, guarda o ranço quatrocentão, bandeirante, o nariz empinado e arrogante diante do restante do país. É aquela coisa: se você é paulista e critica o estado, bom sujeito não é. O bom é que a pseudo-hegemonia perde força a cada dia.

“A empresa X gera empregos para o Brasil. E você? Quantos empregos gera?”
Trabalho é a única coisa que gera riqueza, portanto sem força de trabalho nenhuma empresa gera riqueza real. Em outras palavras, não é um favor contratar alguém, uma vez que alguém vai ficar com o lucro obtido por essa pessoa. O dono do capital precisa do trabalhador, contudo é comum as empresas e parte da mídia inverterem o discurso, mostrando a bondade de contratar empregados. Faça-me um favor! Aliás, fico na dúvida: será que comentários assim vieram dos departamentos de comunicação cujo trabalho é garantir a imagem da empresa, de empregados de alto escalão das mesmas ou veio de trabalhadores da base que sentem orgulho de fazer parte de uma grande corporação? Se forem as opções “a” e “b”, OK, faz parte do jogo. Se for a “c”, começo a me preocupar pela raça humana.

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