Blog do Sakamoto

Ao invés de proibir comerciais, vamos incentivá-los a dizer a verdade

Não quero abrir uma discussão sobre liberdade de expressão, pois ela deveria ser o mais ampla possível sempre – e para todo mundo e não apenas meia dúzia de pessoas. Muito menos defender uma ética consequencialista. Mas lembrar que há limites do que se pode fazer ou falar, estabelecidos através da análise do que podemos causar de dano real à vida de outras pessoas. Vamos a dois casos recentes que ganharam destaque na imprensa.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária desistiu de pedir a restrição de horários dos anúncios de produtos alimentícios com altos teores de açúcar, gorduras e sódio voltados para crianças. Também largou mão de limitar a publicidade de bebidas de baixo teor nutritivo, como refrigerantes. Há quatro anos, a Anvisa havia proposto que os comerciais desses produtos ficassem de fora da faixa de programação entre 6h e 21h, em que, teoricamente, os pimpolhos estão acordados. A idéia agora é focar na política de alertar para o consumo. Isso, é claro, foi ao encontro das reivindicações da indústria e do próprio mercado publicitário. E na direção contrária de entidades que defendem que esses anúncios atingem um público (crianças) que não tem capacidade de escolher entre o que é bom e o que não é para a sua saúde.

No dia 1º de março, um dos pontos abordados durante o 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, realizado pelo Instituto Millenium, que possui proprietários de empresas de comunicação entre os diretores, as restrições de publicidade de bebidas alcoólicas, cigarros e produtos para crianças estiveram na pauta. Na discussão, foi questionado se essas tentativas de proibição teriam o objetivo de enfraquecer a imprensa através do bloqueio de seu financiamento. Novamente a palavra mágica “auto-regulação” foi lançada no ar, ou seja, que o Estado fique longe, deixando a sociedade (leia-se mercado) resolver.

Em 2008, durante um congresso de propaganda, representantes de veículos de comunicação reclamaram dos mais de 300 projetos que, segundo eles, restringiriam a liberdade de expressão comercial no Brasil. Na época, dei uma olhada em alguns deles e havia aqueles muito bizarros, que feriam a Constituição, mas também outros muito sensatos, que ajudam a proteger o cidadão de preconceito, racismo, machismo, intolerância – isso sem contar os produtos que colocam em risco a saúde das pessoas.

Alguns representantes de canais de TV e de agências de publicidade reclamaram, nesse congresso, que as empresas têm o direito de se expressar ao vender seu produto da mesma forma que os jornalistas o têm ao noticiar algo. Pergunto-me, então, se isso significa que as agências de publicidade vão começar a dar os “dois lados” ao vender um produto (não que reportagens sempre dêem os dois lados, mas pelo menos isso está lá nos manuais…)

Ter informação é fundamental para poder ter liberdade de escolha. E comprar é um ato político, pois ao adquirir um produto você dá seu voto para a forma através da qual uma mercadoria foi fabricada e mesmo o que ela representa. Então, que se abram as caixas pretas! Resgatei, abaixo, algumas sugestões de anúncios que postei na época, com base nessa nova visão da publicidade:

“Esse carro sobe qualquer montanha com seu novo sistema de tração nas quatro rodas. Mas, cuidado! Ele tem uma tampa de bagageiro que pode decepar seu dedo, pois o projeto desse utilitário foi feito às pressas para que a empresa ganhasse mais dinheiro.”

“Este refrigerante contém bastante sódio, o não é muito bom para o coração. E engorda. E favorece as cáries. Mas é uma delícia! E tem bolhas.”

“Este novo modelo de celular também é MP3, máquina fotográfica, agenda, acessa a internet, lava, passa e cozinha. Mas a cada 1000 produzidos, um deles tem uma bateria que vai estourar provocando graves queimaduras.”

“Essa bolacha recheada é um fenômeno. Gosto incrível, textura incrível e o recheio, hummmmm, super fofinho. Tão fofinho quanto você vai ficar se comer um pacote inteirinho toda a vez que lembrar deste anúncio. Ah, e é enriquecida com vitaminas B5 e B12.”

“O patê é o must. Nem dá para perceber que quatro gansos foram enjaulados e obrigados a serem alimentados por sonda noite e dia até que seu fígado, inchado, estivesse do tamanho de uma bola de tênis e ideal para ser utilizado.”

“Fume este cigarro. E não se preocupe: o sistema público de saúde do país tem inaugurado ótimos hospitais para tratamento de câncer.”

“A calça é para quem tem estilo. Apesar do seu custo de produção ser baixo, por ter sido feita por imigrantes escravizados em São Paulo, jogamos o preço para cima. Dessa forma, você pode ficar tranqüilo que não vai ver um pobre pé-rapado usando mesma a calça. Nunca.”

“O combustível é ótimo, faz com que o motor do seu carro dure 30% a mais. Só tem um efeito colateral: ele possui tanto enxofre na fórmula que contribui mais do que qualquer coisa com a poluição das grandes cidades. Mas quem se importa com isso?”

Se for assim, vamos lutar para a liberdade de expressão total e sem restrições nas propagandas! Certamente, com os anunciantes e veículos de comunicação falando a verdade sobre o que oferecem a nós, teremos um país mais consciente na hora de comprar e, portanto, um desenvolvimento mais sustentável.

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Comentários

17 Responses to “Ao invés de proibir comerciais, vamos incentivá-los a dizer a verdade”

  1. sakamoto, a grande questão é que eles estão interessados em ganhar dinheiro, não importa se estão enganando, mentindo ou disfarçando a verdade, para essa turma o que interessa é o lucro, e o povo que sofra.

  2. José de Fausto Neto disse:

    Sakamoto, adorei os anúncios. Porém, no dia em que isso acontecer, publicidade muda de nome no Brasil. E elefante vai piar em cima de Ipê amarelo.

  3. Renato disse:

    No dia em que propagandas forem honestas, os meios de comunicação ficarão pobres, e os jornalistas estarão desempregados. Tiro no pé pros Tiramotos e tantos outros defecadores de regras.

  4. S*L*A*N*G disse:

    Muito boa a sua observação.
    Aliás, diga-se de passagem, este é um dos melhores blogs da Internet.
    Parabéns.

  5. Luiz Carlos Cavalcanti de Albuquerque disse:

    A liberdade de expressão é fundamental para a democracia. Porém, no nosso país, confundesse esse direito com a liberdade de mentir, deturpar, caluniar e inventar fatos. Não é preciso muito esforço para se constatar isso, basta ler os jornais O Globo, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, as revistas Veja, Isto É e Época, e assistir aos jornais da Rede Globo, Bandeirantes e afins. Tudo o que esse pessoal quer, e sonha, é a “auto-regulação”, sem leis regulatórias, que corresponderia a entrega à um grupo de raposas a responsabilidade de cuidar de um galinheiro. Em pouco tempo, quantos galináceos restariam?

  6. Sakamoto: espero uma análise sua sobre a entrevista vergonhosa do Aldo Rebelo. Esse cara conseguiu ir da esquerda pra extrema-direita na entrevista do canal livre da Band. Aliás, a Bandeirantes esta liderando esta guerra contra os ambientalistas e o código florestal.

    • MARKUS disse:

      Porque voce nao investiga os assentamos do Incra na amazonia legal, sao terras improdutivas e os beneficiarios nao cumprem a lei desmatando toda a terra recebida pelo Estado. O importante para a lei da Reforma Agraria atual e apenas ter um numero para apresentar e nao a qualidade e meios de subsistencia para os assentados. Esta preocupante a situacao, e vai piorar. Quanto ao Aldo Rebelo ele segue o script dos seus aliados, nao podia ser diferente.

  7. MARKUS disse:

    Liberdade nao pode ser confundida com comercio. Lembro dos absurdos que ouvia antes da lei cidade limpa em que publicitarios afirmavam que a publicidade enfeitava a cidade, hoje vemos o resultado. Assim como no caso dos cigarros, devemos proibir totalmente os comerciais de bebida na TV. Ja deu bons resultados com o fumo, daria tambem neste caso, mas (nao consigo, ou nao quero entender porque) toda a legislacao sobre o assunto andou para tras nos ultimos anos. Tranformar bebados, em brameiros ou guerreiros em mistureba de orgulho patriotico em clima de Copa do Mundo e realmente inceitavel. Banir da TV totalmente as bebidas, e o ideal.

  8. Rosa Maria Pacini disse:

    Olá, Sakamoto
    Antes de tudo quero dizer que gosto muito de seu blog, mas em relação a este post gostaria de lhe fazer uma pergunta: Você conhece algum país em que a publicidade seja do modo que você propõe ? Eu creio que não existe, mas posso estar equivocada. Sinceramente acho ingenuidade esperar que algo assim aconteça. Creio, isto sim, que o governo deveria estabelecer regras mais claras, e restritivas mesmo, à comercialização de determinados produtos que são nocivos à saúde e ao ambiente. Esperar que os anunciantes falem mal de seus produtos é utopia. Por outro lado, concordo com você que a propaganda tem efeitos nocivos; no mínimo por levar as pessoas a crerem que necessitam adquirir produtos que, na verdade, são supérfluos e não fariam a menor falta se não existissem, muito pelo contrário.

    • MARKUS disse:

      Rosa, o Sakamoto e meio ingenuo, em outros casos mentiroso. O objetivo da publicidade de produtos nao e (e nunca sera) a verdade em si.Isso e acreditar na Carochinha. A simples proibicao e mais eficiente. O governo tem e que normatizar essa situacao. Voce acha que por exemplo, ao comprar o detergente Ype vc esta salvando a floresta como apregoa a propaganda, nao ne. E pra onde vao os dejetos do sabao, hehehe. Se os publiciatrio pudessem transformariam novamente Sao Paulo num grande outdoor. Eles sempre arrogam a liberdade de expressao para viabilizar seu comercio, mas a liberdade deve ser para nos, o povo e para a imprensa livre.

    • Rafael Bastos disse:

      Ninguém aqui entende o que é uma ironia?

  9. ANTONIO disse:

    Também sou contra a propaganda de bebidas na TV e penso mesmo que deveria ser banida, tal como ocorreu com o cigarro. Entretanto, há que se jogar conforme a regra estabelecida para o jogo. Se a regra é a permissão (da propaganda na TV), então que se permita.
    Não sei, não, mas esta proibição da propaganda da Devassa (do grupo Schincariol), pra mim tem o dedinho (ou melhor, a mão grande) da InBev (leia-se Brahma, Antarctica e Skol). Quer dizer então que a Paris Hilton fazendo poses sensuais para anunciar a Devassa não pode, porque é ofensivo “à mulher, à moral e aos bons costumes” (me poupem) e duas bichas caricatas, que seriam a vergonha de qualquer pai, rebolando no Big Brother e se beijando na boca enquanto bebem Skol, pode?
    Intão ta intão…

  10. Mikayl uskabeloswsky disse:

    Será que alguem consegue ler aquelas letrinhas que aparece nos comerciais na TV dos carros “em promoção”?

  11. Lúcio Xarão disse:

    Existem meios de comunicação totalmente tendenciosos, visto que suas reportagens, além de divulgarem a notícia, ainda posicionam-se no intuito de apresentar apenas um lado da questão. Por isso, é importante ter senso crítico e pesquisar sobre as notícias veiculadas, e buscar embasamento suficiente para se posicionar da melhor forma possível.

  12. LATOYA disse:

    Przyznam, ze im dluzej korzystam z netu to coraz bardziej boli mnie glowa i aby dbac o zdrowie powinnam zapewne zdecydowanie zmniejszyc korzystanie z niego. Niemniej jednak nieraz trafia sie na takie zaj…. posty i ponownie wciagnieta jestem na dlugie godziny. Dziekuje autorowi za moje dolegliwosci ;) Oby tylko takie byly przyczyny chorob. Pozdrawiam serdecznie.

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