Blog do Sakamoto

O demônio, o monge budista e o meu iPhone

Há mais de 50 anos, o “demônio” apareceu para um grupo de operárias que trabalhavam em uma linha de produção de uma fábrica de cerâmica em São Caetano do Sul. Ações modernizadoras aceleraram o ritmo industrial da produção de ladrilhos, sem que isso fosse devidamente informado às trabalhadoras. Com a atualização tecnológica, a seção que escolhia os ladrilhos, excluída das decisões que levaram às mudanças, continuou manual, mas subjugada à nova velocidade do maquinário. Muitos ladrilhos começaram a sair defeituosos, levando tensão às operárias dessa seção, que tiveram dificuldade para cumprir seu serviço. Oriundas de uma comunidade católica, as trabalhadoras creditaram tal fato à presença do diabo na fábrica: o Coisa Ruim teria o jeitão e o sorriso dos engenheiros, que controlavam tudo de cima. Foi demandada uma missa no local e que a máquina de ladrilhos fosse benzida. O diabo desapareceu. Não apenas por conta daquele ato simbólico, mas também pelo fato da máquina ser ajustada para não causar mais problemas…

Essa história foi analisada pelo professor José de Souza Martins em um artigo que se tornou famoso por tratar das conseqüências da modernização industrial. Segundo ele, quando se separa radicalmente o pensar e o fazer no processo de trabalho, o imaginário pode preencher esse vazio para lhe dar sentido. O demônio apareceu como a figuração da ameaça à humanidade do ser humano pela racionalização do trabalho.

Lembrei-me dela, pois algo semelhante aconteceu do outro lado do mundo.

Recentemente, a empresa Foxconn, que fabrica o iPhone na China para a Apple, teve o oitavo caso de suicídio de um empregado em 2010. Um jovem de 21 anos se jogou de um prédio da empresa em Shenzen, um dos pólos tecnológicos do país. Teriam sido dez suicídios no ano, mas duas tentativas fracassaram. A Foxconn também produz o PlayStation, Wii e o XBox.

Para enfrentar o problema, a empresa chamou monges budistas para realizar cerimônias a fim de mandar os maus espíritos para longe. Além, é claro, de atendimento telefônico para receber os trabalhadores depressivos ou potencialmente suicidas. Nunca é demais lembrar que as condições trabalhistas no país que mais cresce no mundo, frequentemente mostrado como exemplo a ser seguido, são, muitas vezes, as piores possíveis: longas jornadas de trabalho, pouco descanso, muita cobrança, baixa qualidade de vida.

A China vive a luta entre o antigo e o moderno também dentro do mundo do trabalho. E para crescer rápido e a qualquer preço, ignora violentamente a qualidade de vida e a dignidade do trabalhador. Adaptando o professor Martins, chamar monges na China ou padres em São Caetano do Sul tem o mesmo objetivo de tentar restituir as fábricas ao “tempo cósmico e qualitativo que fora banido com a completa sujeição de todo o processo de trabalho ao tempo linear, quantitativo, repetitivo da produção automatizada”.

É claro que isso não explica os suicídios (o ato de tirar a própria vida é muito complexo para ser tratado em um post), nem sei se isso serve de explicação para alguma coisa. Mas se eu tivesse que apostar diria que os suicídios de jovens (a maioria tinha entre 18 e 23 anos) não vão parar com a presença dos monges porque a velocidade por lá, bem como por aqui, só deve aumentar. E, com ela, a banalização do trabalhador.

Em tempo: Isso não está apenas na relação arcaico e antigo, mas presente em outras áreas. O nosso jornalismo, por exemplo. Quem já se deparou com um colega de redação tomando um cafezinho branco à noite no banheiro para manter o pique do fechamento puxado sabe o que estou falando. Mais rápido, mais rápido, mais rápido. Para que? Talvez para espantar o vazio gerado pelo próprio trabalho.

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Comentários

28 Responses to “O demônio, o monge budista e o meu iPhone”

  1. Carlo disse:

    Coisa de noiado… Vai procurar emprego de verdade. 4 anos de migué? Dá nisso mesmo irmão…. Abração e boa sorte!!!

  2. Cida disse:

    Como nem todos possuem crenças espirituais ou algo assim, a nova tentativa agora é provar que seus problemas de hoje foram causados por algo que aconteceu na infância, como por exemplo um tombo de bicicleta, mesmo que vc tenha tido uma infância feliz e normal.
    O que vale mesmo é a criatividade em alguma coisa, como solução, e que vença o melhor.

  3. Ralf Rickli disse:

    “… quando se separa radicalmente o pensar e o fazer no processo de trabalho, o imaginário pode preencher esse vazio para lhe dar sentido. O demônio apareceu como a figuração da ameaça à humanidade do ser humano pela racionalização do trabalho.”

    Magistral, emocionante, antológico. Obrigado!

  4. Dalieva disse:

    Em 2004 estudos demonstraram a correlação entre acidentes de trabalho e a prestação de jornada de trabalho extenuante – três vezes superior a jornada normal. Atualmente os ‘meros” acidentes se transformam em suicídios. É o preco que se paga para se estar no topo.

  5. alessandro p. dos santos disse:

    como sempre ler seu blog é algo atual, organizado e muito estruturado a leitura nos leva a discussões muito interessante pena que ainda em nosso país temos a dificuldade de dialogar temáticas tão interessantes , é dificil ser brasileiro e se preocupar em comer e pagar planos de saude e achar tempo pra discussões desse nivel , mas parabéns ler seus textos é um alento em meio ao cotidiano massante .

  6. Jairo disse:

    Bonito texto, Sakamoto! Parabéns! Abraço,

  7. Fabio Tricolor disse:

    É sakamorto rssss, na China a parada é esquisita mas tensa, la ainda impera a ditadura comunista e seu povo ganha mal pior do q o salario minimo do Brasil, creio q o salario dos operarios braçais de la dá só pro basicaão mesmo e quando teve as Olimpiadas 2008 na Abertura no qual foi fenomenal mas o Galvao Bueno narrando a Nova China pro mundo foi soda como se tudo fosse justo e maravilhoso por lá e sabemos q ta longe disso acontecer e tambem q as Olimpiadas de 2008 lá foram realizadas lá da forma mais porca e egoista pelo governo chines, enfim mas como sao Olimpiadas um mega evento mundial q é tradicional quem nao é chines tá pouco se importando com o modo q o governo chines tratou do seu povo pra q fossem realizadas talves a Olimpiada mais vista do mundo e com grande perfeição jamais feita em outras Olimpiadas e viva a Nova China ou o Novo Paraíso, como faz falta o Bruce Lee q alias foi morto por seus próprios conterraneos.

    • Leandro disse:

      Pode ter certeza que durante as olimpíadas no Brasil ocorrerá a mesma coisa, se não pior!! Será realizada para poucos, pode anotar! Aliás, estive nas olimpiadas de Beijing e não é isso tudo que está dizendo, tem que exaltar os chineses em vários aspectos, estão dando show de bola em muita gente, futuramente será um pais muito bom de se viver e justo.
      Quanto a ditadura chinesa, não concordo com o que dizem, imagine um pais com mais 1,3 bilhões de pessoas, seria fácil controlar a população se fosse tudo largado como nas terras tupiniquins!?! Ao menos existe segurança, educação e estrutura no pais, o que é muito benéfico para a população e tenha certeza que a China reduz o abismo social numa velocidade muito acima do Brasil, hoje existem muito mais chineses ricos que na terrinha tupiniquiim (% da população), em geral, as cidades estão sendo modernizadas e há um grande investimento no país para melhoria das condições de vida (inclusive ambiental), obviamente há muito que se melhorar, mas estão seguindo o rumo certo, diferente do Brasil, a China tem planejamento para 10, 20, 30, 40 e 50 anos, eles sabem onde querem chegar e fazem isso acontecer!

  8. Marilia Lopes da Costa disse:

    Belo texto! Lembro-me de ter lido sobre esses suicídios na China recentemente.Esse fato ,para meu espanto,parece o que acontaceu (se não me engano)na França em 2009 numa cia de tefonia.Corrijã-me se eu estiver errada.Tirando você ,a imprensa passa batida por um fato tão lamentável,que parece a ponta de um iceberg a médio prazo.

  9. Ronaldo disse:

    Sakamoto, sou jornalista e já vi colegas se dopando no banheiro para ir além. Para que? Para nada. O sofrimento tem que ter um propósito. Quando o propósito for apenas sofrer por sofrer, não vale a pena.

  10. Leandro disse:

    Esse negócio de dizer que chinês tem longa jornada de trabalho tem que cair por terra, as condições continuam em muitos casos ruins, mas tenha certeza que no Brasil se trabalha mais que na China, sem contar que se somar os dias de feriado e ano novo chinês onde todos param de trabalhar, há mais dias de descanso na China do que no Brasil, isso eu garanto!

  11. jairo Antonio disse:

    Bom dia amados,
    Eles cre em tudo,mais nao cre no Senhor Jesus, esse e o problema todo. Paz a todos

  12. Maria Cristina Senn disse:

    Sensacional! Vou entrar sempre neste blog agora. Finalmente alguém com profundidade por aqui.

  13. Valério disse:

    Há muitas maneiras de se tornar escravo . Muitas mais do que possa supor nossa vã filosofia. Até nos hábitos e rotinas que convidamos ou não a entrar em nossas vidas ele pode se fazer presente . Talvez por não o poder ver em sua mutante e multifacetada forma ,pensamos ilusoriamente que possa ser abolido .Seja no trabalho exaustivo que nos drena as forças ,seja nas paixões incontroláveis ,seja na repetitiva rotina que nos torna máquinas ,seja no alienante que nos sequestra o coração e mente.
    Desanimados , des … animados …
    Porque cargas d’água a alma não compactua com a escravidão ?
    Porque cerra os braços e deixa-nos fisicamente abandonados ?
    Porque nos reduz o campo de visão e nos embaça a vista ?
    Há um link quebrado ,há um fio seccionado ,há uma falta de contato com algo que não sabemos bem .
    Monges , padres ,pais de santo ,invocamos para a pajelança com o intuito de religar o cordão umbilical com nossa mãe terra .
    Mas ,se é em vão ,fazemos como o escorpião que se auto-injeta o veneno com a cauda quando percebe perdida a luta .

  14. Leonardo Albuquerque disse:

    O seu texto só possui forma e não fundo, entende…
    Um vocabulário pseudo-interessante no final de parágrafos tolos não te respalda como bom escritor. Pra ser mais claro: O texto é fraco.
    Mude de profissão intelectual de araque.

  15. ANTONIO MENDONÇA disse:

    São poucas frases más que estimula muito o raciocínio
    para mudanças.
    Parabens pelo texto.

  16. woises disse:

    Enquanto nossa sociedade for baseada no LUCRO e conseqüentemente CONSUMO, teremos que abrir mão de nossa qualidade de vida (ou até mesmo de nossas próprias vidas) para gerar conforto e status para os poucos detentores do dinheiro.
    Ótimo texto, parabéns.

  17. pela primeiravez encontro cometários mil, sem agredir a ningueim, isso somente cabe a pessoas com um bom poder entender, aplicar, para servir a população, carente de comentários e não baixarias.
    estou muito orgulhoso de ter entrato nesta pagina.

  18. Ana Santos disse:

    Mais uma vez, brilhante!

  19. ailtonfilho disse:

    Sakamoto, o que mais impressiona no teu blog, não é a qualidade do texto, bem acima da média nacional, mas o capacidade que alguns comentaristas tem em tentar tapar o sol com a peneira. Torcem e distorcem, pra lá e pra cá, utilizando argumentos, quase sempre, muito agressivos e sem o mínimo de noção sobre aquilo que comentam e do planeta em que vivem. Imagino que você, sendo autor do texto, deve ficar coçando pra responder algumas vezes, mas eu acho que ignorar esses “seres quase humanos” é o melhor que você faz. Saudações.

  20. qual é o artigo? fiquei interessado à beça.

  21. Jonas disse:

    Não podemos esquecer do trabalho infantil que tbm ocorre nessas fabricas, como até o Steve Jobs não negou…

    • Leandro disse:

      Discordo! Moro na China a mais de 04 anos, faço sourcing, já visitei centenas de empresas e tenho muitos fornecedores, vou em cidades super modernas (como Shenzhen, Shanghai, Hong kong e etc) e em vilarejos localizados no interior do interior, nunca presenciei trabalho infantil em fábricas, isso é uma das grandes mentiras sustentadas por aqueles que nunca estiveram por aqui! Infelizmente há a falsa percepção que a China não evoluiu no quesito direitos trabalhistas, podem ter a certeza que a cada ano melhora-se cada vez mais as condições de trabalho por aqui; obviamente não posso dizer que em algum canto não tenha trabalho infantil (lembremos que a mão de obra infantil é ainda muito explorado no Brasil), todavia, nunca presenciei nas n visitas que realizo aqui.

      Abraços

  22. Rosi disse:

    Recentemente acompanhei na imprensa francesa as discussões sobre os suicídios na France Telecom. A imprensa francesa costuma discutir mais abertamente estes problemas, eu fico me perguntando quanto casos semelhantes não há aqui no Brasil onde a imprensa não discute nada que possa ser ou parecer desagradável para os donos do capital.

  23. Tiago J. Theisen disse:

    Olá,

    acompanho o seu blog a algum tempo, não sei se vc ouviu falar da ocupação Dandara em Minas (provalvelmente não, a grande mídia prefere não comentar). gostaria de partilhar um fato que aconteceu lá (Omissão de socorro do SAMU, Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar causa óbito na Ocupação/Comunidade Dandara, no Céu Azul, em Belo Horizonte) acompanha texto deles mesmos
    se não interessar, peço que excluas o comentário
    inté

    NOTA À IMPRENSA E à SOCIEDADE

    OMISSÃO DE SOCORRO E DEMORA DE ATENDIMENTO PELO SAMU PODE TER LEVADO UMA PESSOA A ÓBITO NA OCUPAÇÃO/COMUNIDADE DANDARA, no Céu Azul, em Belo Horizonte, MG.

    Na madrugada deste domingo, dia 16/05/2010, por volta das 04h40, a Sra. Maria Eni dos Santos, 39 anos (28/05/1979), esposa do Sr. Manoel Barbosa Torres Neto, mãe de quatro filhos (3 filhos de 9, 12 e 14 anos e uma adolescente), moradora da Ocupação/Comunidade Dandara, no Bairro Céu Azul, em Belo Horizonte, passou mal. A família solicitou ajuda à uma das coordenadoras de Dandara, Simone Mendes dos Santos Siqueira, e esta, às 5h08, acionou o SAMU, que disse não ir por falta de endereço. Simone deu o endereço (Rua Petrópolis, 305, em frente à garagem Itamaraty, no Céu Azul, onde está a comunidade Dandara.) Em seguida ligou para a polícia e o Sr. Renato, que atendeu, encaminhou-a para os bombeiros. Estes orientaram para ligar para o Rebecão (polícia civil).
    As 6h00 da manhã apareceu uma viatura da polícia militar no local e o policial, olhando da porta, sem entrar na casa, sem tocar o pulso dela, disse que a Sra. Maria Eni estava morta e se retirou. Contudo, algumas pessoas da comunidade disseram que ainda havia sinais de vida (batimentos cardíaco) na sra. Maria Eni.
    Como não obtinha êxito com o SAMU, a coordenadora Simone continuou insistindo nas ligações e pediu ajuda a alguns apoiadores da ocupação. Também a Irmã Rosário ligou desde sua residência para o SAMU falando da emergência do caso, mas a Dra. Cíntia que lhe atendeu, disse-lhe que só liberaria a ambulância se a pessoa que chamasse estivesse ao lado da vítima. A Irmã Rosário retornou então a ligação para Simone a fim de que esta continuasse insistindo.
    O povo da comunidade Dandara, depois de muitas insistências pedindo socorro para a vítima, resolveu fechar a rua da frente da ocupação e queimar pneus. Só depois disto foi que apareceu a ambulância do SAMU, mas já era tarde: a Sra. Maria Eni já havia falecido. Era quase 9h30 da manhã!
    Quando o povo queimou os pneus foi reforçado o número de policiais militares e segundo os moradores estes trataram o povo com desrespeito e palavrões.
    A comunidade Dandara ficou extremamente indignada com o descaso e o desrespeito com que mais uma vez foi tratada e manifesta esta nota à imprensa e à sociedade exigindo um basta a tanto descaso, omissão e desrespeito. E exigimos a apuração do fato e que os responsáveis pela omissão de socorro sejam julgados e condenados. “Justiça!”, o grito do povo de Dandara.
    Não é a primeira vez que o povo da Comunidade Dandara precisa do SAMU, chama e não é atendido. Por exemplo, há um mês atrás, Priscila Cristiene Pereira estava com Ruan, seu filho, e Yasmin, filha de Ideslande, muito mal, correndo risco de vida. Chamou o SAMU, mais alegaram que não podia atender. Chamaram a PM, que também disse que ao poderia levar, mas quando os policiais viram que se não levasse as duas crianças, elas morreriam, colocaram na viatura e levaram até ao pronto socorro.

    Obs.: Maria Eni dos Santos tinha participado da Marcha pela Paz contra dos Despejos, das Brigadas Populares e do Forum de Moradia do Barreiro, em Belo Horizonte – Ocupações/Comunidades Dandara, Camilo Torres e Irmã Dorothy (1.200 famílias pobres)- que, após marcharem 25 Km, do bairro Céu Azul (Dandara) até ao centro de BH, ficaram acampados na Praça 7 por 4 dias, de 11 a 14/05/2010, atrapalhando do trânsito e incomodando consciências adormecidas. Recuaram em centenas, mas voltarão em milhares, caso o Governador Antônio Anastasia e o Prefeito Márcio Lacerda e as autoridades não se abram ao diálogo, pois direito à moradia e à dignidade humana (direitos que estão escritos na Constituição Brasileira e na Constituição do Povo de Deus, a Bíblia.) se conquista, não se mendiga.
    Belo Horizonte, 16 de maio de 2010.

  24. Rafael em Dublin disse:

    Boa, Sakamoto! Seus textos transpiram eloquencia. Continuo te acompanhando daqui.

  25. Germano disse:

    - Até que ponto chegou a nossa sociedade. Espero que as gerações futuras saibam mudar esse quadro de desumanização, provida pelo capitalismo. Muito bom seu post. Obrigado.