Blog do Sakamoto

São Paulo está envolta em um chumaço de poluição

Retornando a São Paulo pelo alto dia desses, tive o desprazer de me deparar novamente com a cidade imersa em uma camada marrom e espessa, uma nhaca de dezenas de metros de altitude e quilômetros de largura. Gororoba que não é de agora, mas que fica pior no inverno por conta da dispersão dos poluentes ser menor.

Este foi o junho mais seco dos últimos sete anos. E a previsão de chuva, ou melhor dizendo de falta dela, só tende a piorar a situação.

Quem nunca veio a São Paulo talvez tenha dificuldade em imaginar o que é conviver com uma faixa escura preenchendo o lugar onde estaria o horizonte – levantado, por ela, alguns centímetros do seu lugar de direito. Talvez pelo fato disso parecer distante, o paulistano não acredita que está imerso nessa coisa. Só cai na real quando os olhos começam a coçar, a asma ataca ou aquele pigarro fica mais comprido que o de costume. Os pronto-socorros pululam de gente, principalmente crianças e idosos, atendidos por problemas respiratórios causados ou agravados pela poluição.

A verdade é que nos acostumamos a viver dentro de um fumódromo, literalmente. Pois no longo prazo, quem vive em São Paulo mesmo sem tragar tabaco está mais sujeito a desenvolver câncer de pulmão do que moradores de cidades menos “desenvolvidas”.

Chamam de inversão térmica o maldito efeito que dificulta a dispersão de poluentes nessa época do ano (incrível como a natureza é culpada pelas desgraças que nós mesmos cometemos, como se ela tivesse colocados os poluentes lá). Os noticiários salpicam aqui e ali a inversão térmica, mas nada de falar sobre o nosso modo de vida e seu conseqüente modelo de desenvolvimento – verdadeiros réus pela nhaca que paira sobre nós. Carbono, enxofre, chumbo e uma sopa de produtos químicos expelidos principalmente por veículos. Ao invés disso, comemoramos cada novo recorde de produção e comercialização de veículos. Eu sei, eu sei… isso gera empregos, roda a economia, é progresso! Mas se por um lado esse crescimento econômico dá a possibilidade de ter acesso a coisas que não tínhamos antes, por outro outro ele nos tira preciosos dias de nossa vida. Pois respirar o ar de São Paulo certamente nos leva mais cedo para a sepultura.

O município tem uma manada de quase um carro a cada dois habitantes, cuspindo fumaça no céu. Culpa em parte do nosso pífio sistema de transporte público, que apesar de ter melhorado um pouco nos últimos anos, está longe ainda de garantir que o paulistano, que tem carro, deixe-o em casa. Mas também é consequência de cultivarmos um estilo de vida em que o sonho de liberdade caminha sobre rodas.

E não é a inspeção veicular que vai dar conta de resolver o problema. Vamos expulsar Fuscas, Brasílias, Variants, 147s, caminhões velhos de circulação (ou seja, eliminar o meio de locomoção da ralé), mas as propagandas que anunciam carros grandes e potentes, beberrões de gasolina e diesel na televisão continuarão povoando o imaginário e sendo adquiridos pelas classes abonadas. O Rodoanel pode até eliminar parte dos caminhões, mas a frota paulistana vai continuar aqui.

O ritmo de destruição do meio foi acelerado para atender a consumidores, mas não cidadãos. E vem cobrando um preço alto, cuja fatura será paga por aqueles que ainda são pequenos. Florestas tombam, rios são poluídos, camponeses e índios expulsos de suas terras. A cidade está envolta em um bizarro chumaço de algodão marrom. Trocar uma sociedade estritamente consumista, em que o “eu sou” se confunde com o que “eu tenho”, leva tempo. Talvez o meio ambiente não tenha esse tempo.

É um modelo diferente de urbanidade que eu quero. Um em que não tenha que ficar angustiado por causa de um pôr-do-sol estranhamente avermelhado, fruto da poeira suspensa no ar. Estou vendendo meu carro para voltar a ser o que sempre fui, um bípede.

Mas conterrâneo paulistano, não desejo convertê-lo a nada, longe disso. Só quero o céu da minha cidade de volta.

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Comentários

18 Responses to “São Paulo está envolta em um chumaço de poluição”

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Daniel Santini, Raquel Soldera, Raquel Soldera and others. Raquel Soldera said: Trocar o “eu sou” por “eu tenho”, leva tempo. Talvez o meio ambiente não tenha esse tempo: http://is.gd/dcUsh (via @blogdosakamoto) [...]

  2. João Maria disse:

    Digo novamente, o problema é a paulistanada que acha que está tudo bem, tudo ok. Que não está nem aí para o mundo. Ô cidadezinha…

  3. Adriano Oliveira disse:

    Estou com a saúde ruim faz mais de uma semana e não tem remédio ou milagre … só vou melhorar saindo daqui …..

  4. Felipe disse:

    Isso ai Saka, já vai agilizando ai sua BICICLETA!!!

  5. Danilo disse:

    Essa é a minha primeira vez aqui.
    Meus parabéns, ótimo post.

  6. jota campo grande disse:

    sakamoto mais tem jeito de uma cidade desse tamanho se ver livre da poluiçaõ?

  7. jota campo grande disse:

    TOPSY vc é fenomenal kkkkkk.

  8. Marcelo Job disse:

    Realmente Sakamoto, quem chega seja via aérea seja via terrestre, nota esta lãmina grossa de poluição sobre a cidade. Em 2006, minha irmã mora no exterior) e a familia tinham uma janela de 15 dias e como ela tinha morado vários anos em São Paulo e frequentava muito Maresias, fomos para lá passar a virada do ano, foi impressionante quando o avião mergulhou na camada cinza-marrom escura, o sol que entrva pela janelinha do avião desapareceu e por baixo da espessa lãmina só entrava uma claridade difusa e não se via o sol como quando estávamos por cima da nuvem. Em Maresias também me chamoua atenção o grande numero daqueles moluscos africanos que infestam o lugar, no mais foi uma estadia aprazível, voltei para minha cidade com, contadas, 236 picadas de mosquito ou mutuca ou borrachudo, nas pernas hahahahahaha, mas foi legal, minhas sobrinhas viram por lá tucanos (pássaros, não políticos), passarinhos multicoloridos e imensos lagartos, coisas que elas nunca tinham visto e nem vão ver onde elas moram.
    Abraços

  9. Proftel disse:

    FDA:

    Alguns problemas na máquina do “escritório” de meu uso (foi cagada minha, migrei do Vista para o Seven e não fiz os back_ups decentes), perdi o link e o texto do t”rabalho e saude mental”.

    Lhe peço, envie para: proftel@xxx.com (pode ser gmail ou msn).

    Grato.
    :-)

  10. Jampa disse:

    O pior não são os carros, são os aviões, não só aqui como no mundo inteiro. Uma viagem transoceânica de avião polui mais do que um carro rodando o ano inteiro. Como disse um sábio certa vez: “O cavalo já foi um erro”.

  11. Marcelo Job disse:

    Sakamoto. A pergunta que me veio à mente foi: O quanto São Paulo está disposto em abrir mão de ser a locomotiva do Brasil? A poluição ocasionada pelos carros é só a ponta final do processo, uma coisa leva a outra. Qual o nível de desejo ou vontade de mudar realmente as coisas aí? Que fatalmente vai ter de passar por uma reestruturação não só no relacionamento do comércio com a população que consome, mas também na relação das industrias e seus fornecedores com o comércio. Não se trata de diminuir a poluição e muiyo menos transferi-la para outros lugares, seja para o interior do Estado ou para outros Estados, pois se gostariam de se livrar da poluição, vão ter também que abrir mão da pujança economica e o papel de locomotiva da Nação. Mas muito provávelmente eu esteja exagerando no meu raciocinio, mas é com boa intensão, visto que parte de observação do que nas ultimas décadas tem acontecido em Porto Alegre, a cidade está mais dinamica mas também muito mais poluída, mais triste, mais cinza.
    Abraços

  12. Marcelo job disse:

    Errata – muito*, intenção*

  13. Beatriz C. disse:

    Olá, esta é minha primeira visita ao seu blog, li o post “A Revolução Agrícola de Lula na África” e este sobre São Paulo.

    Sou paulistana e concordo com você em alguns aspectos. Sim, a cidade está com uma nuvem cinza permanente no céu e causa muitos problemas de saúde (tive uma gripe alérgica durante 2 semanas devido à poluição). A frota de carro particular é imensa e, apesar de todos reclamarem da poluição, a maioria não tem a atitude de vender o carro. Portanto, o parabenizo pela decisão e o aconselho a utilizar o metrô e CPTM assim como eu, pois, apesar da super lotação em horário de pico, são ótimos.

    Porém, temos que ser realistas e falo agora também em relação ao comentário acima. O Marcelo pergunta “O quanto São Paulo está disposto em abrir mão de ser a locomotiva do Brasil?”, eu vou um pouco além, pois se São Paulo abrir mão de ser a locomotiva do Brasil, qual cidade será? ou ainda, o que será do Brasil se São Paulo, que concentra maior parte do PIB e movimenta a economia do país abrir mão de ser a locomotiva?

    Acredito que essa seja uma reflexão muito mais complexa do que uma simples análise dos malefícios causados pelo modo de vida e modelo de desenvolvimento desta cidade (que sustenta o Brasil) tendo como base a poluição vista através da janela de um avião…

  14. Marcelo Job disse:

    Beatriz C., não descordo de tí, o estímulo ao transporte público é extremamente importante, por isso é que afirmo que para se livrar da poluição é preciso não só resolver o problema da frota veicular, mas também refletir sobre o sistema industrial e comercial como um todo, o que realmente é deveras mais complexo.
    Mas quando questionas minha pergunta e tiras do contexto, pergunta a qual nada mais é do que instigar à uma reflexão sobre o assunto, mostras o que realmente pensas ” que São Paulo se basta “. Posso afirmar para tí com certeza que tanto o Brasil depende de São Paulo quanto São Paulo depende do Brasil. Não é a toa que somos uma Republica Federativa. Mas por outro lado também consigo compreender este teu lado, visto que aqui por estas bandas também viceja este sentimento arrogante e até de vez em quando também separatista e diga-se de passagem patéticas….

  15. Beatriz disse:

    Caro Marcelo, em momento algum disse que São Paulo se basta, apesar de ter um grande desejo de dizer isso algum dia. Não só São Paulo, mas todas as cidades deveriam ser auto suficientes e, assim, formar a “Republica Federativa do Brasil” e não esse grande conglomerado de problemas sociais e econômicos…

    Sentimento arrogante, separatista e patético? não sejas tão radical meu colega! O comentário acima (errôneo ou não) é minha opinião e leitura sobre a realidade da cidade em que vivo. Acredito que todos aqui possuem argumentos suficientes para realizar esse tipo de discussão, portanto patético é utilizarmos esses termos para definir a opinião de outra pessoa, principalmente neste que é o único meio de comunicação que ainda podemos utilizar para colocar em pratica nosso direito de Livre Expressão!

  16. Luciana disse:

    sakamoto, dá pra fazer alguma coisa por sao paulo sim!!! sair daí correndo!!! se todas as pessoas que eu conheço e passam mal nessa cidade reconhececem que o brasil é muito mais que avenida paulista, pompéia, ibirapuera e perdizes e abrissem mao desse sonho romântico de metrópole “onde tudo acontece” ajudassem na descentralizaçao urbana do brasil, nao só contribuiríam com o esvaziamento de sp, mas também com a redistribuiçao de renda, inteligência, capacidade produtiva, criatividade e tudo o mais que tantos profissionais liberais incríveis enterram aí, nesta nuvem de fumaça…
    cada vez que volto e cruzo o pinheiros ou o tietê me pego pensando… estarao todos imunizados e já nao vêem o cenário de horror e destruiçao à volta?
    boa sorte por aí, ajude a descentralizar o brasil!!! mude de cidade!!!

  17. Andre Silva disse:

    Ainda acho que são pífias as atitudes públicas.
    O Metrô é excelente mas é muito cheio, a CPTM é sucateada com intervalos de trens que são desrespeito aos cidadãos além de ser cheio também. Os dois não tem mais horário de pico. Sempre lotados. Os Ônibus, além de cheios, ficam impossibilitados de meios inteligentes como os corredores em 100% do trajeto e também o fluxo de carros com APENAS 1 motorista dirigindo predominam nas ruas, dificultando a circulação mais veloz dos ônibus.

    Se estes que são os meios de transportes tradicionais e menos poluentes ja não dão conta do problema, as tentativas publicas estao omissas, e apenas os movimentos dos cidadãos (em minoria) tão acontecendo de fato, como o uso de bicicletas ou andar mais a pé.

    Mas, com esses sistemas sem segurança, com o metro, cptm e onibus sempre lotados e caros, que vantagem tem alguem deixar o carro em casa?

    Ainda ampliam as faixas da marginal e as pessoas reclamavam mais do transtorno que a obra causava do que da quantidade de grana que tava sendo investida ali, dando preferência ao transporte individual, desmatando arvores e não investindo em mais metro.

    Os cidadão perderam o direito de ir e vir em São Paulo. Somos apenas carga com força de trabalho para nossa economia e não podemos nos deslocar pela cidade como queremos.

  18. [...] São Paulo está envolta em um chumaço de poluição [...]