Blog do Sakamoto

No Centro-Oeste, soja é “remédio” contra a indolência

Leonardo Sakamoto

Enquanto populações indígenas sofrem pressões de pessoas e empresas que invadem suas terras para produzir, visando ao mercado nacional e internacional, o governo não tem sido competente o bastante para agilizar demarcações e homologações ou mesmo a retirada de invasores de terras indígenas existentes – lentidão que atende aos interesses publicamente defendidos pela Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). Em outros lugares, isso seria chamado genocídio. Aqui é progresso.

Ao mesmo tempo, o Cerrado tem sido um dos biomas mais desmatados e desprotegidos. Parte do milagre agropecuário ocorrido por lá também se deu com a pilhagem dos recursos naturais, de força de trabalho e de comunidades tradicionais. E quando o desrespeito aos povos indígenas se junta com a ocupação desordenada do Cerrado?

Maior produtor do grão no país, Mato Grosso abriga também o maior número de terras indígenas. Em 2008, apenas 31,2% 141 municípios do Estado não cultivam soja ou não tinham registro da cultura. No mesmo ano, 54 cidades (38,3%) tinham entre 10 mil e 575 mil hectares de soja. Das 78 terras indígenas listadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) em terreno mato-grossense, ao menos 30 ficam em municípios com mais de 10 mil hectares de soja.

Problemas inerentes à produção de soja no Cerrado, como desmatamento, desertificação, pressão sobre os territórios, contaminação de solos e de cursos d´água já têm afetado várias aldeias indígenas. Com base nisso, a Repórter Brasil, através de seu Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis lançou um estudo sobre os impactos da soja, com foco nos reflexos em terras indígenas dessa região. E o que se viu não foi nada animador. Vamos tomar como base o que o relatório traz com relação à invasão e ao desmatamento dentro da terra indígena Maraiwatsede:

Homologada pelo governo federal em 1998 com extensão de 165 mil hectares, a área permanece com 90% de seu território tomado ilegalmente por fazendeiros e posseiros não indígenas, majoritariamente criadores de gado e produtores de soja e arroz. Estas atividades são responsáveis por um dos maiores desflorestamentos registrados em áreas protegidas no Mato Grosso: 45% da mata nativa da Maraiwatsede já foi destruída, como aponta o Relatório 2010 do Programa de Monitoramento de Áreas Especiais do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam).

No mais recente levantamento sobre as ocupações irregulares na Maraiwatsede, a Funai relacionou cerca de 70 fazendas de maior porte, entre elas propriedades de “personalidades” como Aldecides Milhomem de Ciqueira, prefeito de Alto da Boa Vista, e seu irmão, Antonio Milhomem de Ciqueira; dois ex-prefeitos do munic ípio, Mario Cesar Barbosa e Deusimar Dias de Oliveira; o prefeito de São Félix do Araguaia, Filemon Gomes Costa Limoeiro; o vereador de Alto da Boa Vista Raimundo Carlos Alves, e o ex-vereador do município Clarindo Barbosa da Silva.

Há duas grandes áreas de soja na Maraiwatsede: a fazenda Conquista, de propriedade de Claudemir Guareschi (que faleceu em um acidente de avião no último dia 18 de julho), e a fazenda Colombo, de Antonio Penasso – conhecido como Branco. Em maio de 2008, Guareschi foi autuado pelo Ibama por “desmatar a corte raso 4 mil hectares de floresta considerada de preservação permanente por se tratar de área indígena (Terra Indígena Maraiwatsede)”. A área foi embargada e o fazendeiro condenado a pagar mais de R$ 2 milhões em multas. Seu nome também foi incluído na lista dos cem maiores desmatadores do Brasil no ano de 2008, divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente.

Apesar do embargo, as plantações de soja na fazenda Conquista prosseguiram nas safras 2008/2009 e 2009/2010. Em julho de 2009, o Ibama voltou a notificar o fazendeiro Claudemir Guareschi, desta vez por descumprimento de embargo, e em abril de 2010 foi efetuada a segunda autuação pelo mesmo crime, desta vez com apreensão da produção.

Antonio Penasso, proprietário da fazenda Colombo, sofreu duas autuações do Ibama – em outubro de 2008, quando o órgão constatou a prática de ilícito ambiental “consistente em impedir a regeneração natural de floresta nativa em uma área de 1.571,2 hectares no interior da Maraiwatsede”, e em setembro de 2004, quando foram embargados 2 mil hectares por uso ilegal de fogo (queimada da área). Assim como Guareschi, Penasso, em cuja fazenda deu-se prosseguimento ao cultivo de soja, foi novamente autuado por descumprimento de embargo, sofrendo adicionalmente uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal, e tendo a produção da fazenda Colombo apreendida.

No final de março de 2010, o Ibama e a Polícia Federal deram início a uma operação de busca e apreensão de soja cultivada ilegalmente em áreas embargadas por crimes ambientais nos municípios de Alto da Boa Vista – a chamada Operação Soja Pirata –, apreendendo cerca de 15 mil toneladas do grão cultivado nas fazendas de Claudemir Guareschi e Antonio Penasso. Segundo o Ibama, das 15 mil toneladas de soja apreendidas, 2,4 mil toneladas foram produzidas na fazenda Conquista, de Claudemir Guareschi, e 2,52 mil toneladas na fazenda Colombo, de Antonio Penasso, ambas inseridas na terra indígena e totalizando uma área de plantio de 3,6 mil hectares (o equivalente a quase 4 mil campos de futebol!). O grupo Capim Fino, do qual faz parte a fazenda Colombo, é campeão de autuações do Ibama no Mato Grosso e computa mais de R$ 58 milhões em multas por crimes ambientais.

Imaginem que isso se repete centenas de vezes em toda a região. O Estado está atuando. Mas, se de um lado, reprime, do outro, apóia o avanço agropecuário sem retringir e limitar impactos como deveria.

Um comentário final: isso me lembrou um causo ocorrido em maio do ano passado. A atriz global e pecuarista Regina Duarte, em discurso na abertura da 45ª Expoagro, em Dourados (MS), disse que estava solidária com os produtores e lideranças rurais quanto à questão de demarcação de terras indígenas e quilombolas no estado. Ela, que gerou polêmica ao declamar na TV que estava com medo de Lula ganhar as eleições em 2002, resgatou o seu bordão:

“Confesso que em Dourados voltei a sentir medo”, afirmou a atriz, com referência à previsão de criação de novas reservas na região de Dourados. “O direito à propriedade é inalienável”, explicou ela, de forma curta, grossa e maravilhosamente elucidativa o que faz do BRASIL um brasil. Ela e o marido são criadores da raça Brahman em Barretos (SP).

No ano passado, a população Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul (44.500) se acotovelavam em cerca de 9,5 mil hectares de terra. Enquanto os fazendeiros, muitos dos quais ocuparam irregularmente terras indígenas, esparramavam-se confortavelmente por centenas de milhares de hectares. Este relatório é útil para reinverter o discurso porque as reais vítimas não são os produtores rurais e sim os indígenas.

Intervenções de famosos, como a ''Namoradinha do Brasil'', têm sido cada vez mais frequentes. Reafirmo o que disse no ano passado sobre isso: espero que pessoas que emprestam sua fama para defender a ocupação a qualquer custo do ''sertão ignoto'' não resolvam levar isso para a tela da TV, em um épico sobre a conquista do Centro-Oeste brasileiro, nos quais os brancos civilizados finalmente livram as terras dos selvagens pagãos. Pois é capaz, infelizmente, do público gostar.

  1. Jackson

    29/12/2010 20:26:49

    Anauê! Ou, melhor, Heil Hitler!

  2. kalixto guimaraes

    29/12/2010 20:23:31

    SAKAMOTO OGANGUTANGO!!!!ADORO SUAS REPORTAGENS, SERVE-ME SEMPRE COMO FONTE DE PESQUISA. VOCE REPRODUZ COM FIDELIDADE O PENSAMENTO E AS ESTRATEGIAS DA MAFIA VERDE INTERNACIONAL, PARA MANTER O DOMINIO IMPERIALISTA DO SELETO CLUB FINANCEIRO QUE SEMPRE DESEJOU CONTROLAR O PLANETA...VOCE SABE DE QUEM ESTOU FALANDO, AFINAL, VOCE TRABALHA PARA ELES! QUE PENA, UMA RAPAZ TÃO INTELIGENTE, FAZENDO PAPEL DE OGANGUTANGO! SOBREVIVER É PRECISO GAROTO!DIGNIDADE PESSOAL, SOBERANIA DE UMA NAÇÃO, SÃO IDEAIS VALIOSOS, PARA HOMENS LIVRES, COM "H" MAIÚSCULO E GUERREIROS. ESSA LAQUERA TODA, SOBRE DIREITOS INDIGENAS E MEIO-AMBIENTE, É PURA TAPEAÇÃO! VAMOS A LUTA, O BRASIL, PRECISA DESENVOLVER E SAI DA MISÉRIA DO TERCEIRO MUNDO!

  3. Confort Glass

    10/10/2010 22:54:06

    Parabéns pelo texto, Sakamoto.

  4. Zé Brasil

    02/10/2010 14:30:13

    Preço alto tornará carne "artigo de luxo"; aumento virá aos poucosFolha OnlineMAURO ZAFALONENVIADO ESPECIAL A BUENOS AIRESA carne passará a ser um produto de luxo. A afirmação, feita no Congresso Mundial de Carne, em Buenos Aires, é de Lorenzo Basso, secretário de Agricultura e da Pecuária da Argentina.Basso não está sozinho nessa avaliação, pois é a opinião da maioria dos analistas que participam do evento.

  5. Zé Brasil

    02/10/2010 14:28:08

    A onda ambientalista liderada pelo Greenpeace, WWF e Imazon no Brasil, já está causando aumento de preço dos produtos alimentícios e brevemente vai causar fome mundial. Chamam de ban.di.dos os produtores rurais, mas na realidade os verdadeiros ban.di.dos que vão causar mo.r.t.es pela fome e subnutricação são ongueiros; o feijão já está mais caro, haverá uma escalada de carestia e falta de produtos, mas não esqueça, os responsáveis por tudo isso são as ONG$, Ibama e MMA.

  6. Myrtaceae

    30/09/2010 23:32:52

    Caro professor, não sei onde mora e nem sei se anda pelas ruas de sua cidade... mas tenha a certeza de que o local onde está agora não é seu, e com certeza muitos índios morreram para dar o lugar a vc...Se vc se alimenta de frutas e hortaliças, cuidado, com certeza parte da mata atlântica foi derrubada para sua alimentação...Vc sabe se suas fezes são tratadas ou vão direto para o rio?Vc gasta energia? Hummm, barragens foram construidas detonando ambiente e expulsando pessoas...

  7. luiz santos

    30/09/2010 16:22:58

    Senhor Sakamoto, em primeiro lugar quero parabenizá-lo pelo seu blog e dizer que sou seu fã, leio quase todas suas publicações, eu sou estudante de direito e quero me especializar na área da ciencias d politicas. Aprendo muito na sua coluna.luiz

  8. Rodrigo de Azevedo Rezende

    29/09/2010 21:53:16

    Sakamoto, voce é um traidor da patria.porque não fala da caça às baleias promovidas no mundo inteiro por japoneses?repito o que sempre te digo:almoçou hoje? agradeça a um fazendeiro

  9. Carlos

    29/09/2010 13:54:19

    É claro que tem serventia, se não tivesse não teria a proporção e a importância que tem hoje... mas, como tudo dentro desse nosso modo produção, os mais fracos perdem a voz quando o assunto é poder e lucro.. ou vai dizer que a soja não dá lucro??

  10. Ciro Lauschner

    29/09/2010 12:08:02

    Milhões de hectares de soja são plantados no mundo só para destruir a natureza, já que para vc. a soja não tem serventia. Pesquise um pouco, please!

  11. Carlos

    29/09/2010 08:09:45

    Olha o Sakamoto eu não sei do que se alimenta, mas eu não sobrevivo com "ração de soja", mesmo com o "mercado" dizendo que ela tem um milhão de propriedades funcionais, daqui a pouco vai substituir até o leite materno... É o espetáculo do crescimento pessoal...

  12. Mateus Nach

    28/09/2010 23:12:02

    E vocé é cabeça de vento?

  13. joão carlos

    28/09/2010 21:29:06

    Sakamoto: você come o que, ou você vive de vento.

  14. Francisco

    28/09/2010 20:48:45

    E você é formato em antropologia em que universidade? Nenhuma?

  15. Hans Lauxen

    28/09/2010 19:04:00

    Nunca ouvi falar em índios da tribo Maraiwatsede, provávelmente deve ser do grupo xavante, que de tão manjados em suas reinvindicações nem ousam mais usar o nome de sua tribo. Os xavantes tem milhares de ha. de terra, e tem como maior problema a obesidade.Também são conhecidos por possuirem um monte de Hilux e Mitsubishis e passam a maior tempo de suas vidas em Cuiabá.Também convivem muito com estrangeiros que ninguém sabe o interesse que eles tem .No caso dos xavantes, a caça e a pesca foi uma atividade usada por seus antepassados, mas hoje praticamente inexistente nos membros da tribo.A terra foi reconhecida em 1998 certamente sem levar em conta títulos de propriedade muito mais antigos que 1998 e ninguem deve ter falado em indenização para que os ocupantes desocupassem a área. E quanto a criticar a lavoura de soja, acho que o preconceito contra os agricultores já está enraigado e nem cabe mais discussão. Apenas o dinheiro vindo da produção de soja não é criticado.

  16. Capiuau

    28/09/2010 17:56:40

    Menino, tome tento que esses fazendeiro inda vão te acertar os cornos...

  17. Thiago de Sá

    28/09/2010 12:15:44

    Olá Sakamoto,escapou a Chapada dos Veadeiros, mas não por sua demarcação como parque nacional, e sim porque o terreno é pedregoso e acidentado, impróprio para o cultivo de soja e gado. É triste sair de Brasília em direção a este paraíso natural brasileiro e testemunhar ao longo da rodovia, por todo o caminho, o fim do Cerrado e o avanço das monoculturas escravagistas.Abraços

Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
Leia os termos de uso