Blog do Sakamoto

Seis histórias curtas de dor e violência no campo

Leonardo Sakamoto

A vida pode valer muito pouco no Brasil. No campo, menos ainda. Nós, que moramos na cidade e fomos continuamente forjados em um processo de banalização da violência (a ponto de programas de TV do tipo espreme-que-sai-sangue alegrarem o jantar), transformamos mortes em números. Assim é mais fácil seguir em frente. Mas também ignorar o problema. Em um momento em que a execução de trabalhadores rurais na Amazônia ganha destaque, isso se torna bastante evidente.

João Roberto Ripper e Sérgio Carvalho, dois grandes fotógrafos e exemplos no combate por justiça social, publicaram, tempos atrás, o livro de fotos ''Retrato Escravo'', com o apoio da Organização Internacional do Trabalho. Forte, como o tema pede; bonito, por ser baseado em histórias humanas. Eles me deram o privilégio de contribuir na parte de texto do livro e, por isso, sou imensamente grato.

Trago, abaixo, seis histórias curtas colhidas pelos dois que acompanham as fotos. Elas podem ajudar a ilustrar aquilo que é pasteurizado e desumanizado pela pressa da nossa cobertura diária ou pela busca de audiência e contribuir com a justa indignação, motor da transformação social e política. Essas pessoas são anônimas e continuarão a ser, como tantos outros anônimos que tombam diariamente sem que uma vela seja sequer acesa.

Maria e José
Maria Francisca Cruz é mãe de sete filhos e uma quase viúva. A incerteza, que a deixa em uma corda bamba e a impede de ir adiante, é por culpa de “um tal de Francisco das Chagas”. Empreiteiro de serviços e enganador de pessoas, Chico – como tantos outros Chicos batizados em homenagem ao mais popular santo do país – levou-lhe o marido. José Alves de Souza foi convencido pela doce promessa de trabalho na fazenda Bacuri, deixando Santana do Araguaia, no Sul do Pará para trás.

Depois disso, o silêncio.

– Até hoje não recebi notícias, nem dinheiro.

Enveredou-se por outro colo? Está preso? Tem medo de voltar? Quem sabe?

– Falam que morreu gente por lá, que outros conseguiram fugir. Até agora, ele não voltou.

Dor maior não é saber que acabou. É não ter certeza disso.

A esperança nua
João não é velho. Os anos é que não lhe foram leves.

– A última roupa que comprei foi com dinheiro dado de um amigo. Uma camisa pra mim e roupa íntima pra minha mulher.

A vida não fez João rico de confortos, mas de calos e promessas não cumpridas, negando um mínimo de dignidade.

– Vou falar para o senhor…Eu não tenho mais sonho nenhum, não. Tem dia que até durmo transpassado, cansado. Eu não tenho esperança, não espero conseguir mais nada na vida.

Olga pega no seu ombro. Encosta a cabeça e, parecendo enxergar o que não vê, consola o marido e a si mesmo.

– Vai conseguir sim, João, vai sim.

 Antônia
Até o chão daquela terra castigada, acostumado a ver madeira tombar todo o dia, estranhou quando Dona Antônia viajou de longe para tentar fincar duas simples tábuas. Não era nada grande, não, senhor. Mas ao mesmo tempo era maior que o mundo.

Afinal quem pode medir o verdadeiro tamanho de uma cruz?

Antonia mora em Barras, cidade que se acostumou ver seus filhos irem embora em busca de um emprego e de uma vida melhor. Alguns voltam com pouco, outros com menos ainda e há aqueles que nem voltam – perdidos no “trecho”, indo de fazenda em fazenda, de garimpo em garimpo, como um marinheiro das estradas, deixando de lado raízes e lembranças. Há ainda aqueles que tombam pelo caminho, repetindo o movimento das árvores da região.

Seu marido havia sido morto na fazenda Primavera, em Curinópolis, Sul do Pará, em 1997. Então, ela saiu em busca de justiça. E de plantar sua cruz. Não conseguiu nenhum dos dois: o crime segue impune e o gerente da tal fazenda impediu Dona Antônia de prestar os seu respeitos porque chamaria a atenção  da polícia.

Um rio muito bonito corta Barras. De tempos em tempo, quando a memória ataca, ele transborda de tristeza.  

Bernardo
Bernardo foi um dos últimos a ver Chico, marido de dona Antônia. Também empregado da fazenda Primavera, foi ele que o enterrou. E quisera o destino que ele enterrasse também outro Chico, piauiense de Batalha, na mesma fazenda.

Diz que o primeiro morreu de morte matada. O segundo, de morte morrida. De “enfraquecimento”. Batalha longa, contra a fome e a doença, morrendo um pouco por dia.

Seu Sarney
Osmar Rodrigues da Silva é conhecido como “Seu Sarney”. Não fez o caminho do outro Sarney, em direção à Brasília, mas tomou rumo Oeste, saindo do Piauí para o Sul do Pará em busca de emprego. Começou a trabalhar na fazenda Franciscana, em Água Azul do Norte, em 1996. Ano triste para a região. Em abril, 19 trabalhadores rurais sem-terra foram massacrados pela Polícia Militar por reivindicarem seus direitos em Eldorado dos Carajás.

Enquanto esteve na fazenda, seu Sarney nunca recebeu salário.

As coisas foram ficando cada vez mais escuras até que, um dia, desapareceram. E, na escuridão, o pouco que recebia do fazendeiro também desapareceu.

Hoje, aposentado, mora com uma sobrinha em Floriano, Piauí. Mas permanece sozinho no escuro, pois já era tarde para ter sua visão de volta.

Seu Sarney não enxerga. Mas é menos cego do que quem tem dois olhos bons e não vê trabalho escravo no país. Na Brasília, do outro Sarney, há muitos assim.

Sidney Pereira dos Reis
Sidney Pereira dos Reis nasceu em 1986. Ano de Copa do Mundo no México – torneio, que vale lembrar, o governo brasileiro rejeitou depois que a Colômbia não pode mais sediá-la. A seleção passou pela Espanha, a Argélia, Irlanda do Norte, Polônia. Mas, para a tristeza de milhões por aqui, caiu diante da França, que defendeu um pênalti de Zico – logo ele – no segundo tempo.

Sidney, como Zico, era franzino quando o conhecemos em 1996. E sonhava ser jogador de futebol, como Zico. Só que, ao contrário do ídolo rubro-negro, não tinha uma bola de futebol como companheira inseparável, e sim uma pá de carvão. O campo de futebol lhe foi negado e oferecido em troca uma carvoaria. E no lugar do calor da partida, vivia no inferno sombrio das torres de fumaça que subiam aos céus, levando consigo suas orações e sua juventude.

  1. Edna Lopes

    02/06/2011 15:06:58

    Triste Realidade,Eu escrevi um texto sobre uma experiência nesse sentido inspirado pelo Sakamoto. Se quiser ler está aqui:http://www.facebook.com/notes/edna-lopes/trabalho-escravo/226864897339255

  2. Edna Lopes

    02/06/2011 00:25:44

    Nada é comparado à nada. Essas comparações não servem para NADA e não significam NADA!Crimes encomendados entram em outra categoria.Governo dito de esquerda que é conivente com esses crimes entra na mesma porcaria.Suja as mãos e "esquece" da palavra de ordem "Reforma Agrária Já!".Mas se lembra de dar o bolsa família...O qual lhes rende uma boa fonte de votos e grande simpatia,Tal qual na antiga ditadura militar, quando o nome era salário família...

  3. Edna Lopes

    02/06/2011 00:10:04

    Triste Realidade,Releia por favor o que eu escrevi, foi uma resposta irônica ao Ciro Lauschner que disse "Onde há desenvolvimento essas pessoas de triste história não seriam massacradas."Por favor, pode ler o comentário dele e depois o meu? Talvez fique mais claro que foi uma ironia ao que ele escreveu.Longe de mim ficar quietinha e querer que alguém fique quieto com tamanha injustiça!

  4. joao paulo

    01/06/2011 22:57:18

    SINCERAMENTE ME DÓI MUITO LER RELATOS DESSE TIPO!VER COMO O SER HUMANO É CAPAZ DE SER DESPRESIVO INDIGNO COM O OUTRO !PESSOAS QUE NAO TER MALDADE NENHUMA SEREM'ESCARNEADAS' DESSA MANEIRA .SAO ENGANADAS , TRAPACEADAS, PERDEM TOTALMENTE ESPERANÇA DE VIDA ENFIM..ENQUANTO ISOO AS PREOCUPAÇÕES DE NOSSOS GOVERNANTES SAO SE AS OBRAS PRA 2014 ESTAO QUASE PRONTAS , 'QUANDO VAI SER INAUGURADO O NOVO ESTADIO , COMO VAO AAS REFORMAS DO ENGENHAO , ASSSIM POR DIANTE , GASTOS E MAIS GASTOS COM COISAS INVALIDAS.

  5. Triste realidade

    01/06/2011 19:39:43

    CHESTERTON: Você acha que só existe violência nas grandes cidades??? O sul do Pará, por exemplo, é um lugar muitíssimo perigoso, mas diferentemente das grandes cidades, é mais difícil a ação da polícia devido a localicação geográficae ao quantitativo. Assim, a violência cresce impune.EDNA LOPES: Você ficaria calada no lugar deles sendo explorada e recebendo um salário menor do que o devido??? Não ficou quieta nem ao simplesmente ler o texto, imagine se vivenciasse a situação...»A maioria dos que comentaram aqui mostraram respeito pelos que sofrem longe da mídia, seria bom se todos agissem assim. Não devemos considerar esse sofrimento "normal", pois todos temos os nossos direitos, porém, os deles lhes foram negados. Texto muito bem escrito, seria bom ver mais pessoas escrevendo sobre essa situação que para muitos é invisível.

  6. Chesterton

    01/06/2011 19:24:33

    metido em lutas pela terrachest- quando tem luta, tem briga.

  7. roberto

    01/06/2011 17:18:10

    dá quase para fazer um livro de crônicas reais. muito bom!

  8. Edna Lopes

    01/06/2011 13:52:54

    Sim! Por que que esse povo chato, metido em lutas pela terra, não fica de bico calado? Trabalhando quietinho com seus salários justinhos. Vamos deixar os coitados dos empresários/fazendeiros em paz, pagando o que eles puderem pagar de seus precários lucros para esse bando de desalmados que são os povos da floresta... Se todos ficarem quietinhos, ninguém morre e não teremos o inconveniente do Sakamoto nas nossas orelhas...

  9. Carlos Henrique

    01/06/2011 13:42:24

    Ei, Leonardo Moretti Sakamoto,Esta é a legião de esquerdistas-fascistóides que você quer doutrinar?Pessoas que colocam El-Hajj Malik El-Shabazz (fomentador de ódio racial) num patamar acima de qualquer outro ser humano?

  10. Ciro Lauschner

    01/06/2011 12:50:49

    São histórias tristes onde grassa a miséria e o subdesenvolvimento. Sem fábricas, sem emprego, sem escola. Exatamente o que Sakamoto defende com sua cruzada contra a agricultura, indústria e desenvolvimento do Brasil.Onde há desenvolvimento essas pessoas de triste história não seriam massacradas.Quem é contra o "desenvolvimento a qualquer preço" que se escuta muito aqui é a favor exatamente disso que foi descrito, miséria, exploração humana analfabetismo, mesmo que o discurso seja contra trabalho escravo, a favor da natureza etc etc. porque a alternativa é essa. Não enxergar isso é miopia.

  11. Edna Lopes

    01/06/2011 12:28:56

    As 500.000 mil mortes por assassinato que está todo mundo falando aqui não são mortes encomendadas por fazendeiros/políticos/congressistas e sua corja. Não são mortes encomendadas para intimidar e acabar com a luta por melhores condições de vida... E têm destaque, sim nos noticiários e cadernos de cotidiano.Que papo furado é esse?Um goleiro famoso assassina sua namorada/biscate e fica meses nas HOMES de todos os sites e capa de jornais e revistas de todo país. Dezenas de pessoas são assassinadas por encomenda de fazendeiros e ficam apenas meio dia nesses mesmos sites.Vamos colocar no mesmo saco a morte de Martin Luther King e Malcon X com a de milhares de norteamericanos que se envolveramm em brigas por qualquer motivo alheio à luta contra o racismo?

  12. Luiz Alberto

    01/06/2011 12:19:36

    Presado Sakamoto...bom dia.Ao ler seu texto-denúncia, me lembrei duma exposição de fotografias realizada na faculdade onde estudei na década de 90,do ilustríssimo brasileiro Sebastião Salgado.,a quem tive o prazer de conhecer.Embora sua formação acadêmica fosse Economia,este "fotojornalista" nato, tem o dom impar quando se trata de fotografia.Seu trabalho,sempre focado no preto e branco,tem o apêlo de,através da "ausência da cor" nos colocar friamente diante do drama da situação retratada, como vc mesmo o fez neste post.Ele utiliza a imagem como ferramenta-denúncia contra a pobreza,a guerra e a fome em regiões miseráveis do mundo. A vc e seus amigos,meus sinceros cumprimentos e a sugestão de uma exposição dos seus trabalhos,numa época mais doque oportuna no atual cenário de desrespeito a vida que está em curso no nosso Brasil Varonil.Abraços.

  13. Adriano Berger

    01/06/2011 11:53:30

    O Brasil, meu caro Sakamoto, é o mesmo de sempre. Mas a diferença do governo Lula para o governo Dilma é que o primeiro é o mestre da fala mansa, do engana trouxa, da mentira, daquele que faz a boca de urna mais mentirosa da história em campanha eleitoral e o povo acredita. Já a segunda é novata na arte de encantar e ludibriar, e por causa disso todos os podres da gestão passada vão dar as caras na TV sem que ela consiga justificar com palavras vans. O caos da educação, da segurança, da saúde e da corrupção vão agora somar-se ao caos da vida no campo que sempre existiu, mas que agora está sendo mostrado...Esse é o Brasil do faz de conta (http://nanoberger.blogspot.com/2010/11/luiz-inacio-no-pais-das-maravilhas.html), o Brasil mundialmente reconhecido (http://nanoberger.blogspot.com/2010/09/o-brasil-que-voce-pensa-que-conhece.html), o Brasil da democracia (http://nanoberger.blogspot.com/2010/08/eles-chamam-isso-de-democracia.html), o Brasil da sustentabilidade (http://nanoberger.blogspot.com/2011/01/reciclagem-voce-faz-sua-parte-mas-e-o.html), o Brasil da educação (http://nanoberger.blogspot.com/2010/12/educacao-fundamental-no-brasil-continua.html) e de tantas outras mazelas...E alguns chamam nosso país de DESENVOLVIDO, querem cadeira de segurança na ONU sem nem ser capaz de colocar carteira nas escolas, leito nos hospitais e fazendeiros bandidos no banco dos réus.Saudações.

  14. Chesterton

    01/06/2011 11:11:55

    isso não é nada comparado com a violência das grandes cidades.

  15. Carlos Henrique

    01/06/2011 10:39:07

    Ninguém banaliza mais a vida do que a grande mídia.O casal sindicalista morre na véspera da votação. Total destaque.200 homossexuais morrem assassinados por ano. Sem provar homofobia, recebem enorme espaço mediático.Mas e os outros 500.000 assassinatos por ano, de quem não sindicalistas, nem gays e nem maconheiros. Ignorados.Há cinismo no ar. No fundo, não creio que haja sentimentos humanos. Há, sim, o desejo de explorar fatos para se atingir o objetivo que mídia corporativa almeja (engenharia e controle social).

  16. Jose Mario HRP

    01/06/2011 10:21:14

    É estranho ver um cara dessa geração do Sakamoto que se obrigue sempre a acreditar no bem e na justiça social......Cada vez é mais raro nos jovens esse espirito claro e saudavel de ser responsavel e fraterno.Aprendi aadmirar o jornalista quando li sobre sua luta titanica com a megera Kátia Abreu!Belas histórias,tristes histórias, que são mais comuns que qualquer um aqui possa imaginar.Falta muito mas vendo que existem caras como o Sakamoto ainda tenho esperança de ver nosso país ficar um bom lugar para se viver!

  17. Marcia Oliveira

    01/06/2011 10:19:21

    Reconheço a história das pessoas da minha terra Palmeirândia -MA nessas histórias. Parentes, amigos e conhecidos que sairam para trabalhar e nunca mais voltaram para a sua família,para a sua terra natal. Viraram escravos de fazendas ou morreram ? O que aconteceu ?

  18. Jegue do Pantano

    01/06/2011 10:02:02

    Triste, real, corriqueiro.Abraços

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