Sete histórias da cidade de São Paulo
Leonardo Sakamoto
Trago sete histórias paulistanas. A maioria delas é de casos que fui colhendo ao longo do tempo – aliás ficariam surpresos como basta parar por cinco minutos e olhar sobre os ombros do cotidiano para perceber uma outra cidade. As histórias foram escritas para uma pessoa querida, mulher forte, grande repórter e fotógrafa, e a ela são dedicadas.
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“Dança comigo?” Mas ele ignorava. Não porque era descompassado, mas estava tocando suas prioridades. Viagens a trabalho, cerveja com amigos, fechamento até tarde… Para espantar a tristeza, ela sambava alto, sozinha. O que chamou a atenção do vizinho. Juntos, dançavam a solidão. Ele nunca soube. Quando anos mais tarde, com um leve remorso, convidou-a para dançar, ela esnobou: “Cansei de samba nessa vida”.
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Um desmaio. Depois, os cabelos. Enjôos. Ela foi sumindo tão rápido quanto aparecera em sua vida 15 anos antes. E, numa tarde de outono, disse algo em seu ouvido e dormiu. Seguiu ateu. Mas seus filhos e netos o flagravam em divertidas conversas como se ela estivesse lá. Um dia, o mais velho o ouviu dizer: “Fiz o que me pediu”. Na manhã seguinte, havia ido. Em suas mãos, jazia um papel desbotado, com o nome dela e um telefone.
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“O senhor quer uma casinha?” Catador, abrigava-se em casa-imaginária de papelão. Um dia, ganhou um lar – em que cabia apenas seu melhor (e único) amigo. Mas cachorro de rua também tem lá seus caprichos e, à noite, nele se aninhava. Tentou doá-la no bairro rico em que pousava sua carroça, subvertendo a ordem. Não sei que fim levou. Mas numa praça aqui perto, mora outra vira-lata em casinha igual. Pobre, livre e feliz.
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Escolheu um banco afastado da algazarra da praça e pôs-se a olhar o envelope branco de exame que veio do hospital. Naquele dia, não deu milho aos pombos, cutucou o vira-lata caramelo ou acenou ao casal de maritacas, que o saudava sempre. No anular esquerdo, duas alianças e muita saudade. Ficou brincando com elas horas, lembrando de outro tempo, outra vida. Chorou. Sorriu. Enfim, jogou o envelope lacrado no lixo. E se foi. Assobiando.
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Seu mundo cabia em um carrinho de feira – e ainda sobrava espaço, talvez uma reserva de esperança para os dias que virão. Um casaco o protegia do clima de um dígito que fazia em São Paulo. Ao passar por um montinho de pano que, ao que tudo indica, era uma mulher encolhida pelo frio, tirou seu casaco e a cobriu. Ela sorriu e voltou a dormir. Ele seguiu andando, mais aquecido que antes.
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Não sabia jogar, tocar ou conversar sem cuspir por conta do aparelho. E essa lástima deu azar de se apaixonar pela mais bonita. Confidenciou a um, que espalhou a dois e, no intervalo, o mundo ouviu ela dizer que não ficaria com ele nem por cinco minutos. O tempo cresceu. Dia desses, ao procurar trabalho, o presidente de uma empresa quis recebê-la. Mal a ouviu, olhou o relógio e a dispensou. Deu a ela cinco minutos.
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Ele colocou sua melhor camisa, perfumou-se com a flor que havia colhido no quintal da vizinha e pôs-se a pedalar, vencendo a ansiedade. Chegando lá, uma caminhoneta – dessas autorizadas a trafegar em dia de rodízio – descarregava dúzias de rosas diante do olhar emocionado dela. Em silêncio, voltou para casa e colocou a florzinha em um copo de requeijão. Solidária, ela se abriu. E está lá até hoje.
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roberto
25/09/2011 02:08:51
Micropoderosos contos, belos! Em frente, enfrente!
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lucas de grammont
31/07/2011 21:14:43
vi nas entrelinhas de tuas crônicas o "insight" artístico que emociona...razão e emoção em equilíbrio
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ZILTON FIORAVANTE FILHO
22/07/2011 08:47:27
Caro,sou paulista, mas moro no Pará, divisa com Amazonas.Aqui a temperatura média beira o insustentável, mas ao ler suas "histórias paulistanas", chego a sentir o friozinho gostoso da minha cidade, Botucatu. Obrigado a voce.
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Laura
07/07/2011 13:37:35
Olha, preciso dizer que me emocionei. A que fala sobre o Alzheimer - para mim a mais lindo de todas - me lembrou do meu avô, que faleceu ano passado desta doença.E sabe? Foi bem assim... Ele foi esquecendo de mim e dos meus primos, depois dos meus tios e meu pai... Mas era impressionante ver que o amor dele pela minha avó nunca sumiu. Mesmo quando estava muito debilitado e mais ausente do que presente, os olhos dele brilhavam sempre que a viam. Era quase como vê-lo se apaixonar por ela de novo.Obrigada pela lembrança que me trouxe! E parabéns pelas histórias que escreveu, são muito boas!
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Ma
07/07/2011 11:20:47
Concordo com o que falaram da penultima historia.Tudo bem que a menina podia ter sido mais gentil na hora de dispensar o coitado, mas só o fato do menino ter se apaixonado pela menina mais bonita da sala já diz muito... era mais um babaquinha que procura uma mulher troféu. Provavelmente nunca nem tinha conversado com ela pra saber com ela era.Falaram da questão do poder... o que é ridículo, pois o que fazia a menina "poderosa" era exatamente o menino que a achava linda... ele dava esse poder a ela.Agora, reclamar que a menina deu um fora no menino? Absurdo. Meninas e mulheres são assediadas constantemente, na rua, na escola, no trabalho... e nem precisa ser a "mais bonita".Se as mulheres não aprenderem a ignorar ou insultar, ficam loucas... principalmente pq tem muito homem que acha que se vc negar educadamente é o não que quer dizer sim.
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Maria Alice
15/06/2011 19:11:21
O vinho recomendado com alimentos do mar é o branco. Quem entende do assunto sabe.
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Jose Mario HRP
15/06/2011 09:38:15
Quem procura vingança encontra a tristeza e a insensibilidade.Vingança não é remédio , é o mesmo do mesmo.....
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Caçador de pitbulls
15/06/2011 08:41:48
As uvas estão verdes...
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Weedy
14/06/2011 21:14:52
Acho que reduzir a história a "vingança" é não compreende-la.O tema está mais em fazer graça com a efemeridade da posição de poder, da importancia que damos a isso mas que na verdade não é nada. Poderosa quando criança, mas menosprezada por um "presidente de empresa" -- muito poderoso esse último, né? :)
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Denize
14/06/2011 13:47:24
Muito bom, sempre! Parabéns pela sensibilidade!
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Maria Alice
14/06/2011 12:32:12
Para refletir: quer vitória mais gloriosa do que conseguir entender que o autor(a) da idiotice é quem é o(a) débil ( ou ba-ba-ca, caso queira) ? Afinal, não é tão difícil assim. Basta um pouco de personalidade. Simples assim.
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Maria Alice
14/06/2011 12:10:10
Até lhe compreendo, pois teem pessoas que adoram mesmo levar vantagens em tudo( ainda que com alto custo a terceiros).Que Papai do Céu lhe dê em dobro, especialmente uma linda mulher (filha, neta, esposa, companheira, enfim uma que você tenha vínculo afetivo profundo). Insegurança teem limite, meu caro.
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marcelo arruda
14/06/2011 11:21:15
É claro que é. Quem já não foi vítima de uma dessas?Eu vou contar uma: quando eu tinha 15 anos, um amigo me disse que a amiga da namorada, por quem eu nutria uma inegável paixão, iria ao cinema com eles e pediu para me chamar. Fui eu todo pimpão com eles; sentamo-nos e começamos a assistir o filme. Não lembro qual era o filme. Depois de quinze minutos, eu tentei segurar a mão da menina e lhe disse que queria "ficar" com ela. Algo bem jvenil. Minhas pernas só não tremiam mais porque eu sabia que ela ficaria comigo. E não é que a mocinha simplesmente me ingorou e, não contente com isso, deixou a sala do cinema. Eu, incrédulo, não tive nada mais a fazer senão ir-me embora. Portanto, é bom que se saiba que muitas vezes elas se comportam assim. Isso nos ensina bastante. Só acho que não cabia num post com historietas tão leves e doces.
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Caçador de pitbulls
14/06/2011 10:49:01
É o tipo de babaquice que as mulheres adoram fazer com os homens...
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Caçador de pitbulls
14/06/2011 10:48:04
Duas observações:1ª) É hilário que uma mulher esteja condenando a apologia à vingança (logo quem...)2ª) Essa situação pode muito bem acontecer com qualquer um, homem ou mulher. Só que no caso da mulher, você iri achar o máximo, né?3ª) Posso ter entendido errado, mas não acho que o executivo em questão seja o cara do aparelho nos dentes. Ele representa um simbolismo para mostrar que não devemos humilhar ninguém,
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Maria Alice
14/06/2011 10:43:11
Cara queridinha,Titia já está acima do bem e do mal. Beijinhos espertinha. Vai fundo! Mas, não precisa nem me contar, pois tenho bola de cristal.
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Jose Mario HRP
14/06/2011 10:26:37
Hummmmmmmmmmm......não consegue esquecer os vermelhinhos!Foram tantas surras da hegemonia vermelha que o cara tá encontrando monstros vermelhinhos até em baixo da cama!KKKKKKKKKKKKKKKKBUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU............
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marcelo arruda
14/06/2011 10:25:27
Cocordo com a Maria Alice. A penúltima história não poderia estar aí. É muito inferior às demais. É a avalização do rancor. O menino apaixonado se tornou um babaca. Será que ele se sentiu melhor depois de tê-la dispensado? Muito melhor se não a tivesse recebido. De qualquer forma, parabéns.
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Alessandra
14/06/2011 10:24:31
Ele provocou uma reação em você bem forte, né? Bem vinda à função da literatura, queridinha.
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Maria Alice
14/06/2011 10:02:56
Desculpe-me, mas a penúltima história é sofrível. Na minha leitura, uma não muito longe violência psicológica. Se na vida das meninas elas tiverem que ter medo dessas coisas, elas não vão fazer outra coisa a não ser se doar às 24 horas do dia. É assim ? “Carreira das mais antigas garantida”? É assim, baixa autoestima? Ora, cada um deve ter suas preferências, afinidades etc., quer de momento ou não, e pronto. Já pensou se os meninos tiverem que beijar todas as meninas que eles não teem a menor atração (ou acham feias, ou salivam em excesso por um motivo qualquer, ou seja lá o que for), só porque algum dia eles podem precisar de um emprego(para sustentar a família) e uma delas pode ser a presidente da empresa ? E tem mais: a história ainda faz a apologia à vingança. Sofrível. História tonta. Só as outras seis já dariam o tom. Não é a toa que se divulga que quantidade não significa qualidade.
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Kaos
14/06/2011 09:39:29
Uma só história.Agora, graças aos pet.hralias já temos em Higienópolis um diferenciado terro.rista para defender a construção da estação de metro na Angélica.
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roberto
14/06/2011 09:15:05
muito bom!
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Jose Mario HRP
14/06/2011 07:45:24
Feliz é o cara que acha sua cara metade!Aqui um dedo nas feridas:http://www.viomundo.com.br/politica/pinheiro-salles-nao-acredito-no-coronel.html
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Edna Lopes
13/06/2011 23:50:48
Um desmaio e Escolheu um banco afastado... São meus preferidos. Impregnados de literatura latina.
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Ciro Lauschner
13/06/2011 18:47:37
Com versinhos e uma flor nem a madre Teresa de Calcutá resistiria!
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Alessandra
13/06/2011 17:00:59
Sakamoto, também sou jornalista. Se você me prometer escrever assim para mim, eu caso contigo!
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fabio de oliveira ribeiro
13/06/2011 16:55:10
Uma história de transito. O táxi que estou é ultrapassado e fechado por um Scort XR-3 (um carrão naquela época). O playboy para logo à frente num farol. Ao lado dele, depois de ultrapassar o táxi para uma Caravam. O dono da Caravam, senhor bem alinhado vestido de terno e colete, sai e contorna o carro dele. Fica ao lado da janela do playboy e os dois discutem. O farol vermelho... e eu curioso para saber qual deles vai amarelar. O playboy tenta abrir a porta do XR3 mas é impedido. O senhor chuta a porta e soca o playboy dentro do carro dele através da janela. Depois puxa metade do plaiboy para fora do XR3 e soca ele várias vezes. O sinal fica verde. Os carros buzinam. O senhor joga o playboy dentro do carro violentamente, ajusta o terno e o colete no corpo, entra na Caravam e parte cantando os pneus. Ele certamente foi playboy um dia.
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Bruno Marconi
13/06/2011 16:54:27
Ao melhor estilo Eduardo Galeano, Sakamoto!Sensacional, parabéns :)
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Mariana Ge
13/06/2011 16:41:00
Rapaz, eu sabia que você fazia jornalismo, mas não achava que você fazia literatura. Poxa vida...
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Luiza Feffer
13/06/2011 16:38:31
Ai, eu quero ser essa mulher! Sakamoto, me leva para casa!
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marilu
13/06/2011 16:33:09
Sakamoto, boa tarde!vc deve ter tido um dia dos namorados moh romantico mesmo, porque hj tá assim em estado de graça,rsrsrsrrs pura poesia! que deliciaaaaaaaaaaaaaaaa sempre há algo de bonito pra ser observado, na vida, nas pessoas, nas cidades, é só olhar e lá está algo que vc nem pensava ontem, mas tá lá lindo de se ver! é por essas e outras que vale a pena viver, ah como vale a pena estar vivo e aberto a vida, nem sempre com a beleza que nos foi vendida, mas com a graça e a leveza da realidade.abs
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Wadilson
13/06/2011 16:29:29
quase todas me fizeram chorar. as outras me enlevaram.
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Gabriela Araújo
13/06/2011 16:15:50
Eu queria muito ser essa mulher para ganhar esse presente. Adorei os textos. Muito bom mesmo! Vou compartilhar no Facebook!
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