Blog do Sakamoto

Nova “lista suja” do trabalho escravo possui 251 empregadores

A “lista suja” do trabalho escravo, como ficou conhecido o cadastro de exploradores de mão de obra em condições desumanas, jamais teve tantos nomes. Com a atualização semestral desta quinta-feira (28), a soma total de empregadores alcançou a marca de 251 nomes. Para acessar a lista, clique aqui.

A “lista suja” tem sido um dos principais instrumentos no combate a esse crime, através da pressão da opinião pública e da repressão econômica. Após a inclusão do nome do infrator, instituições federais, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste e o BNDES suspendem a contratação de financiamentos e o acesso ao crédito. Bancos privados também estão proibidos de conceder crédito rural aos relacionados na lista. Quem é nela inserido também é submetido a restrições comerciais e outros tipo de bloqueio de negócios por parte das empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

O nome de uma pessoa física ou jurídica é incluído na relação depois de concluído o processo administrativo referente à fiscalização dos auditores do governo federal e lá permanece por, pelo menos, dois anos. Durante esse período, o empregador deve garantir que regularizou os problemas e quitou suas pendências com o governo e os trabalhadores. Caso contrário, permanece na lista.

A reportagem abaixo é de Maurício Hashizume, da Repórter Brasil:

Foram incluídos 48 nomes na relação mantida pelo governo federal. Outros cinco foram excluídos. A “lista suja” é mantida pela Portaria Interministerial 2/2011, assinada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).

A quantidade expressiva de inserções é um reflexo da conclusão do grande volume de processos administrativos iniciados nos últimos anos. O MTE instaura esses procedimentos a partir das situações análogas à escravidão encontradas pelo grupo móvel de fiscalização e pela atuação das Superintendências Regionais do Trabalho e Emprego (SRTEs).

Só entre 2007 e 2009, houve cerca de 4,9 mil libertações por ano. Nesse mesmo período, a média anual de operações registradas ultrapassou 140; mais de 280 estabelecimentos foram inspecionados, em média, a cada 12 meses.

A divisão por Estados dos 48 empregadores incluídos: Goiás (8), Mato Grosso e Paraná (7), Minas Gerais (6), Santa Catariba (5), Tocantins (4), Pará (3), Piauí (2), Amazonas, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e São Paulo (1).

Na comparação entre regiões do país, os ingressantes do Centro-Oeste formam a maioria, com 16 empregadores. Em seguida, aparecem os incluídos do Sul (13). Sudeste (oito) e Norte (oito) empatam na terceira posição. O Nordeste teve o menor número de inseridos: apenas três.

A divisão por Estados coloca o Goiás na primeira colocação, com oito inclusões (tabela ao lado). O segundo posto é compartilhado entre Mato Grosso e Paraná, ambos com sete. Santa Catarina vem em quarto, com cinco. Na sequência, estão Tocantins, com quatro; seguido pelo Pará , com três; e pelo Piauí, com dois. Amazonas, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e São Paulo têm um único agregado à lista.

Dois dos ingressantes, aliás, são mandatários municipais: José Rolim Filho (PV), mais conhecido como Zito Rolim, é prefeito eleito de Codó (MA); e Vicente Pereira De Souza Neto (PR) está à frente da Prefeitura de Toledo (MG).

Há ainda flagrantes em: escavações para expansão da rede de telefonia celular no Espírito Santo; atividades de preparação de terreno para a pecuária extensiva no Tocantins e também no Pará; canteiros de obras da construção civil no Norte do Mato Grosso; áreas de cultivo de morangos em Minas Gerais.

Vários inseridos são citados em matéria sobre operação que encontrou trabalho escravo na produçção de carvão vegetal em condições extremamente precárias em propriedades situadas no município de Jussara (GO).

Amplo material diz respeito a ações realizadas no Sul, em atividades distintas e características como a colheita de batatas, a coleta de erva-mate e a extração madeireira – seja no corte de pinus, com dois casos de Doutor Ulysses (PR), ou no reflorestamento em Irati (PR). Uma empresa que produz embalagens para a indústria alimentícia (Maxiplast) é outra das novas empresas com o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) na “lista suja”.

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A maioria da população é contra a união gay. E daí?

Uma pesquisa do Ibope Inteligência, divulgada hoje, mostra que 55% dos brasileiros são contrários à decisão do Supremo Tribunal Federal que reconheceu a união de casais do mesmo sexo. Segundo o estudo, as mulheres, os mais jovens, os mais escolarizados e as classes mais altas são os que menos se incomodam com o acesso a esse direito. Sobre a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, a 55% também são contrários.

Para ser sincero, imaginei que a porcentagem ia ser bem maior, considerando que nossa sociedade foi forjada no que há que de pior do machismo e do patriarcalismo. Além disso, toda ação de vanguarda para garantir direitos, como foi a decisão do Supremo, gera sempre uma reação contrária. Ou seja, quando um grupo consegue acesso à cidadania e à dignidade tende a gerar manifestações no sentido inverso por aqueles que se sentiram atacados ou ofendidos. Ressaltando, é claro, que um grupo que se sente atacado ou ofendido quando outro ser humano obtém o direito a uma vida decente não é um grupo e sim uma horda ou uma matilha.

Some-se a isso que o tema ganhou espaço nos veículos de comunicação e, portanto, o debate chegou às ruas, levando pessoas que não tinham opinião a formarem ao menos um pitaco e a se manifestarem. Essa opinião inicial ainda é carregada de achismo e de superficialidades. Com o tempo, mantendo-se o tema em foco, e sabendo que dar o direito a alguém não tira o meu, tenho a esperança (palavra que está difícil de ser usada ultimamente na área de direitos humanos) de que a informação vá tirar muita gente desse obscurantismo.

Não é possível fazer uma comparação devido às diferenças de metodologias das duas pesquisas. Mas, em abril de 2007, uma pesquisa Datafolha apontou que 49% rejeitavam a união civil homossexual (ou seja, a maioria, uma vez que 42% eram a favor) e 52% eram contrários à adoção de filhos por casais do mesmo sexo. Além disso, 55% dos brasileiros defendiam a adoção da pena de morte, 57% eram contra a eutanásia (o direito do paciente terminal em sofrimento de pôr fim à sua própria vida) e 65% defendiam que a lei do aborto não fosse ampliada para além dos casos de estupro e risco para a mãe.

Como já disse anteriormente, se essas pesquisas fossem um gabarito, eu já teria sido reprovado retumbantemente como brasileiro, uma vez que minhas posições pessoais são opostas àquelas apontadas como as da maioria da população pelas pesquisas Datafolha e Ibope . Em uma hipotética avaliação de segunda época que também incluísse a redução da maioridade penal, a prisão perpétua, a manutenção do uso de drogas como crime (que só atrasa a solução do problema), seria reprovado novamente.

Ainda bem que as decisões do STF sobre a interpretação da Constituição Federal visando à garantia de direitos não são tomadas com base em pesquisas de opinião ou para onde sopra a opinião pública em determinado momento. Afinal de contas, uma democracia verdadeira passa pelo respeito às minorias, garantindo sua dignidade mediante a uma maioria que pode ser avassaladoramente violenta.

Dizem que falta informação e por isso temos uma sociedade que pensa de forma tão excludente. Mas isso não basta. Deve-se saber como trabalhar com essa informação que recebemos, refletir sobre ela. Entramos aqui na questão da consciência social, que não se aprende nos bancos de escola, mas no trato com a sociedade. O contato com o “outro”, e com suas diferenças, contribui para fomentar essa consciência. Ou seja, aceitar que as pessoas têm direito à própria vida e ao próprio corpo e que não é com uma sociedade ditatorial e sumária que se resolverão os problemas.

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Tire as mãos do meu carro! – uma frase paulistana

Critiquei o comentário tosco do prefeito de São Paulo ao tratar do frio a que estão submetidos moradores de rua no meu último post. É incrível mas, quando toco nesse assunto, há uma enxurrada de manifestações raivosas e, entre elas, a frase que representa toda a sabedoria reacionária: “Tá com dó, leva pra casa”. Para dar continuidade ao assunto, resgatei uma história que já havia discutido aqui.

Um Beetle (o Fusca reestilizado da Volkswagen) cor-de-rosa pára no cruzamento da avenida Henrique Schaumann com a rua Cardeal Arcoverde, área nobre da cidade de São Paulo. No interior, apesar dos vidros fechados, dá para ver uma moça por volta de seus 20 anos e um rapaz da mesma idade, ambos aparentando alta classe social. Finos. Um velho homem, sem-teto, se aproxima do carro para pedir uma esmola. A idade pesa e ele encosta no capô enquanto faz o pedido aos ocupantes.

Pânico rosa-choque. A menina gesticula freneticamente. Aperta um botão no painel de seu carro e liga um alto-falante para falar com o mundo exterior: “Tire as mãos do carro!”

O idoso, surpreso, obedece. O semáforo abre e o carro arranca.

Ações explícitas de preconceito social no trânsito, travestidas do verniz de “temor por segurança”, não páram de me surpreender. De início, foram os carros blindados, que levam para as ruas da cidade a sensação de encastelamento dos condomínios fechados ou das mansões muradas. Sentimento falso, pois não são muros, chapas de aço ou um sisteminha de microfone/alto-falante de carro de pamonha que garantirá segurança aos moradores de uma metrópole como São Paulo. É bom como efeito placebo, para se enganar, mas, mais dia ou menos dia, as “hordas bárbaras” vão engolir a “civilização”. Ou seja, uma hora a bomba estoura.

São Paulo tem mais de 11 milhões de habitantes, mas apenas uns poucos são efetivamente cidadãos, com acesso a todos os seus direitos previsto em lei. Lembra a antiga Atenas, com uma democracia para uns poucos iluminados e o trabalho pesado para o grosso da sociedade, composta de escravos. Enquanto uns aproveitam uma vidinha “segura” dentro de clubes, restaurantes, boates, residenciais e carros com alto-falantes, outros penam para sobreviver e ser reconhecidos como gente. Para cada assassinato em Moema, 130 são mortos no Grajaú. Só que a morte de uma jovem em Moema causa mais impacto na mídia do que a de 130 na periferia, como já aconteceu em outros tempos. Tem vida que vale mais que outras, por causa do dinheiro.

Qual a causa da violência? A resposta não é tão simples para ser dada em um post de blog, mas com certeza a desigualdade social e a sensação de desigualdade social está entre as principais razões.

O preconceito da proprietária do Fusca estiloso vai no sentido contrário a uma solução, isolando os ricos ainda mais, deixando-os alheios ao sofrimento do resto da cidade. E, pior, dando aos mais pobres a sensação de que são lixo. Corta-se com isso a dimensão de reconhecer no outro um semelhante, com necessidades, e procurar um diálogo que construa algo e não destrua pontes. Há riscos de assaltos? Sempre há e eles vão acontecer. Mas deve se ter em mente que há atitudes que pioram o quadro. Ou a cidade será boa para todos ou a aristocracia que sobrar após o caos não conseguirá aproveitar sua pax paulistana.

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Kassab e o “alto astral” dos moradores de rua

“O astral dos moradores de rua está muito bom, acho que é porque o frio deu uma trégua hoje.” A sentença é do prefeito Gilberto Kassab, dita em visita a um albergue no Brás, na noite de ontem, na região central da cidade de São Paulo

Ficar em silêncio quando não há nada de útil para se dizer é um dom que poucos políticos têm. O nosso prefeito, por exemplo, já provou em mais de uma ocasião que não está entre os agraciados (lembram-se quando expulsou aos berros de “vagabundo” um cidadão que protestava em um posto de saúde no bairro de Pirituba?).

A assessoria justificou que ele estava se referindo ao astral super tchap-tchura que sentiu no albergue e não na rua. Ah, tá! Aí, tudo bem! Afinal de contas, um albergue – como todos sabemos – é um espécie de clube de inverno onde todos vão felizes se hospedar para desfrutar das nababescas instalações de lazer e recreação (dizem que tem até ofurô!), e não para fugir do frio e do achincalhamento por parte da super bem treinada Guarda Civil Metropolitana ou como consequência da inexistência de uma política séria para habitação.

Faça um teste: deixe o prefeito uma noite em um albergue da capital e pergunte para ele, na manhã seguinte, sobre o “astral” que sentiu ao sonhar com um quarto e uma cama só seus,

A recuperação da área central de São Paulo não se restringe a uma valorização estética das ruas, edifícios e bens culturais, como vem sendo a prioridade do poder público até agora. Inclui também o repovoamento do local, trazendo vida à região, com incentivos para o estabelecimento das classes média e baixa. O que tem sido feito é o contrário: expulsa-se o povão, implanta-se uma arquitetura da exclusão (com formas de afastar essa gente encardida de perto) e ergue-se monumentos à música e às artes. Allegro! Para compensar, um albuergue aqui e acolá a fim de que os rejeitados sejam recolhidos e depositados em algum lugar antes que termine a sessão na Sala São Paulo e as pessoas de bem sejam obrigadas a deglutir cenas incômodas. Presto!

Sabe o motivo do alto astral dos moradores, prefeito? É que pipocam pela cidade prédios fechados com tijolos mostrando que a urbe considera mais importante alimentar a especulação imobiliária do que permitir que os sem-teto que rondam por perto possam se proteger do tempo em uma lar. O déficit qualitativo e quantitativo de habitação poderia ser drasticamente reduzido se esses imóveis trancados pudessem ser desapropriados e destinados gratuitamente para quem precisa. Há prédios que devem milhões de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e poderiam ser alvo do Decreto de Interesse Social, uma vez que permanecem vagos por anos. Mas aí mexe com gente economicamente poderosa, né?

Outro motivo para celebrar com o prefeito? Vamos lá: na cidade de São Paulo, o pessoal que não se enquadra nos albergues pode ser vitima do preconceito e da intolerância. Chacinas envolvendo a população de rua ficaram conhecidas por aqui. Em maio do ano passado, cinco foram assassinados no bairro do Jaçanã, periferia de São Paulo. Dormiam embaixo de um viaduto. Em agosto de 2004, sete outros foram mortos, na maior chacina contra o povo de rua na cidade. As investigações apontaram para policiais militares.

Em uma sociedade que impõe à população de rua a pecha de vagabundos, ladrões, traficantes, de ameaças à saúde pública, não é de se estranhar que a pressão pela resolução de crimes como esses ou mesmo do seu problema de moraria não esteja entre as nossas principais pautas. Tentar entender a realidade do outro? Nem pensar! Quem é diferente que se mude. Ou vá para um albuergue.

Seja pela falta de políticas públicas que lhes garantam dignidade, seja pela bala e, agora, pela ironia no Twitter, parece que estamos tentando tornar sua existência insuportável. Resolvemos o nosso problema acabando com o outro. A faxina social vai ocorrendo, dessa forma, a conta-gotas, pelas mãos do Estado ou de agentes privados. Talvez para não melindrar o cidadãos de bem, que não gostam de mendigos por aí, têm horror a cenas de violência e querem a vida em alto astral.

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O quase golpe do sequestro falso: uma questão de classe

Tempos atrás, minha mãe recebeu um golpe do sequestro falso por telefone – aquele em que alguém liga chorando, imitando a voz de um ente próximo, dizendo que está em um cativeiro, e o bandido ordena que se carregue de créditos de um celular pré-pago – caso contrário o refém será executado. O golpe é bem conhecido (e fraco também, pois pedir créditos para celular é o ó do borogodó), mas assusta quem é contemplado. Talvez a exceção seja a de um casal de amigos meus que receberam o telefonema de alguém que dizia estar com sua filha, apesar deles não terem nenhuma.

Citaram o nome do meu irmão. Como não moro com meus pais e meu irmão estava viajando, minha mãe sofreu momentos de desespero antes de conseguir nos contatar. Foi só o susto, que poderia ter virado coisa pior considerando seus problemas do coração. Um aposentado no Rio de Janeiro enfartou após receber o golpe.

Tragédia à parte, o interessante é que, durante a conversa, minha mãe tentou explicar que a família não tinha recursos, o que é a mais pura verdade, mas que iria fazer tudo o que eles pedissem para soltar o filho. Então, o suposto sequestrador perguntou o bairro em que ela morava. Quando explicou que era o Campo Limpo, bairro da periferia paulistana, o rapaz disse a ela para se tranquilizar, que era a pessoa errada e meu irmão estava bem.

Essa é primeira vez que escuto que o bandido desistiu do golpe pelo, o que considero, uma identificação com o outro lado da linha. Será porque ele conhece o bairro, tem parentes e amigos lá ou porque percebeu que não daria para extorquir muito? Prefiro acreditar que ele sabe o que é viver na periferia. Não farei uma discussão longa, mas queria levantar um ponto.

Pode parecer um paralelo meio distante, mas o Primeiro Comando da Capital (PCC) diminuiu o consumo do crack nos presídios de São Paulo, pois a droga está afetando sobremaneira o comportamento dos detentos, além de destruir rapidamente o organismo dos consumidores. A mesma ação tem sido tomada em alguns bairros periféricos, para proteger os consumidores locais. Não estou defendendo o PCC – peloamordedeusjesusmariajosé – apenas constatando algo. Ninguém está falando que o PCC tem consciência social. É claro que crack mata e mortos não compram droga. E como toda organização com fins econômicos, eles querem ganhar dinheiro com o aumento de mercados e não sua diminuição.

O reconhecimento do outro como um semelhante, como parte potencial de um mesmo grupo, é um dos fatores que garantem a existência de comunidades e a garantia da proteção a outros que não tenham relações consanguíneas. Será que o bandido acalmou a minha mãe porque pensou na própria mãe ou na avó, que morariam no mesmo bairro ou em Cidades Tiradentes, Parelheiros, Brasilândia? Nunca saberei. Contudo, essa dúvida me fortalece a esperança de que há muitas formas para combater a violência que não seja uma chacina cega realizada por ambos os lados.

A pergunta é: como esses que chamamos de bandidos podem reconhecer em pessoas de bairros ricos seus semelhantes se a sociedade insiste em mantê-los alienados de sua cidadania e manter intocada a relação de castas, em que uns têm tudo e outros nada? São pessoas e, portanto, iguais em dignidade, mas tratados como bichos na prática. Em outras palavras, como tentar ser semelhante, e iniciar um diálogo pela paz, em um mundo que insiste em que alguns são mais iguais que os outros?

Se alguém tiver a resposta, me liga. Se estiver num celular pré-pago, pode ser a cobrar.

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Desafio aos leitores: Por que este blog é idiota?

Todos que frequentam com mínimo de regularidade este espaço conhecem meu posicionamento político e minha visão de mundo. Na falta de um termo melhor, poderia chamá-lo, com um certo desconforto, de “progressista”, uma vez que dizer que alguém é de esquerda ou de direita saiu de moda.

Da mesma forma, sabem que este blog é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um. Opiniões contrárias não são deletadas, com exceção dos casos de incitação de violência ou de baixarias. “Como você tem estômago?” Recebo por e-mail, com carinhosa frequência, essa pergunta enviada por leitores horrorizados com alguns comentários. Pacientemente, tento explicar que esses nem são os piores. Os que cometem crime de ódio, sugerem que determinada classe social deve ser banida e que propõem o extermínio de grupos já excluídos socialmente, por exemplo, são limados antes que causem danos.

Considerando que a internet é apenas uma plataforma, não dá para dizer que ela é conservadora ou progressista em si. Já aqui, neste humilde cafofo, uma grande parte dos comentários são sim bastante reacionários. Parece que a temática dos “direitos humanos” funciona como uma espécie de imã, atraindo todo o tipo de lugares-comuns, ódios e demais faltas de entendimento. Por mexer com temas delicados e, muitas vezes, polêmicos, o blog também atrai todo tipo de dodói intolerante ou mesmo fuinhas racistas protegidos pelo pseudo-anonimato (ei, eu tenho os IPs dos comentários!) da tela do computador.

Tenho uma política bastante liberal de comentários. Posso discordar veementemente do que diz o meu leitor, mas todos têm o direito à voz e a internet é para isso mesmo. É ótimo que o debate corra solto. Sem isso, não conhecemos a opinião do outro, não o entendemos e, portanto, não crescemos como sociedade.

Neste post, gostaria de propor um desafio aos leitores que não concordam comigo. Não os fuinhas racistas e os dodóis da cabeça – esses podem ir brincar lá fora, tá? Mas o pessoal que discorda de forma embasada deste blogueiro.

Escrevam um texto de até 2500 toques (o tamanho limite do comentário), respondendo a uma das duas perguntas:

Por que as posições defendidas no blog são idiotas?

ou

Por que ser conservador no Brasil hoje?

O melhor texto, julgado por mim, é claro, vai ganhar os volumes de “O Capital”, de Karl Marx, esse barbudo tão incompreendido. Olha, o prêmio é sério, os livros já estão comprados e serão enviados para o endereço do melhor texto, que também será publicado como post no blog.

Por isso mesmo, este post – de forma extraordinária – não aceitará comentários que não sejam textos respondendo a uma dessas perguntas. Ou seja, no final, eles serão apagados e só os textos ficarão.

Essa é a hora de botar para fora todos os argumentos e destruir este maldito japonês que defende coisas como o direito ao aborto, os direitos LGBTT, a reforma agrária, a igualdade entre os gêneros, o desenvolvimento minimamente sustentável, o fim da inquisição, a glória do Palmeiras.

Apenas lembrando que, na hora em que forem usar ofensas (tática mirim de derrubar o outro criticando quem ele é e não o conteúdo de sua informação, mas vá lá), lembrem-se que: a) não sou filiado a partido político; b) este blog não recebe dinheiro de governos; c) conheço bem todas as unidades da federação, tendo visto as mazelas do campo e da cidade com estes olhos que a terra há de comer; d) não comprei meu doutorado, mas acho que um título vale menos que um dedo de prosa do Patativa do Assaré.

Sete dias. Domingo que vem, publico o texto.

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Cansei. Agora, sou Agro

Empresas e entidades ligadas ao agronegócio lançaram, esta semana, uma grande campanha de mídia para tentar reverter a imagem negativa do setor, contando com atores como Lima Duarte e Giovana Antonelli. O Movimento de Valorização do Agronegócio Brasileiro – Sou Agro envolve também a produção de notícias e o desenvolvimento de pesquisas. A verdade é que, para mudar a imagem do agronegócio, que não vai lá muito bem com os recentes assassinatos de trabalhadores rurais, a tratorada sobre o Código Florestal, o trabalho escravo velho de guerra, noves fora os problemas de sempre, vai ser necessário uma campanha muito longa.

Quando o Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros (lembram do “Cansei”?), organizado pela OAB-SP e parte rechonchuda da elite brasileira, foi lançado tive a mesma sensação estranha que estou tendo agora com o Sou Agro. A de que soa como algo que quer fazer com que você defenda interesses específicos pensando lutar pelo interesse nacional, passando por cima de algumas verdades. Que, muito provavelmente, não estarão na boca do Lima e da Giovana.

O Brasil não conseguiu garantir padrões mínimos de qualidade de vida aos seus trabalhadores rurais, principalmente aqueles em atividades vinculadas ao agronegócio monocultor e exportador em área de expansão da fronteira agrícola. Ocorrências de trabalho escravo, infantil e degradante, superexploração do trabalho, remuneração insuficiente para as necessidades básicas são registradas com freqüência. Prisões, ameaças de morte e assassinatos de lideranças rurais e membros de movimentos sociais que reagem a esse quadro também são constantes e ocorrem quase semanalmente. A estrutura fundiária extremamente concentrada também funciona como uma política de reserva de mão-de-obra, garantindo sempre disponibilidade e baixo custo da força de trabalho para as grandes propriedades rurais.

Parte do agronegócio brasileiro ainda não consegue operar com práticas sustentáveis, fazendo com que o meio ambiente sofra as conseqüências do desmatamento ilegal, da contaminação por agrotóxicos, do assoreamento e poluição de cursos d’água, entre outros. Da mesma forma, para a ampliação da área cultivável ou no intento de viabilizar grandes projetos há um histórico de expulsão de comunidades tradicionais, sejam elas de ribeirinhos, caiçaras, quilombolas ou indígenas, que ficou mais intensa com a colonização agressiva da região amazônica a partir da década de 70. Esse tipo de ação tem sido sistematicamente denunciado pelos movimentos sociais brasileiros às organizações internacionais – Belo Monte que o diga.

Mesmo se fossem fechadas as fronteiras agrícolas da Amazônia e do Cerrado – hoje abertas e em franca expansão – o país ainda teria uma das maiores áreas cultiváveis do planeta. Da mesma forma, seu clima (diverso, entre o temperado e o tropical, o que garante um vasto leque de produtos), relevo (grandes extensões de planícies e planaltos), disponibilidade de água e um ciclo de chuvas relativamente regular na maior parte do ano garantem excelentes condições de produção.

 Além disso, o Brasil é um dos países mais populosos do planeta, com mais de 180 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 10% trabalham no campo. Há mão-de-obra disponível, o que garante o desenvolvimento e a ampliação das atividades sem depender de migração externa ou de um choque de mecanização, como acontece com a União Européia ou os Estados Unidos.

O país possui uma legislação trabalhista que, se fosse seguida corretamente, seria capaz de resolver boa parte dos problemas sociais que ocorrem nessas propriedades rurais. Ela incomoda o capital e prova disso são as fortes pressões de empregadores por uma reforma que diminua os gastos com os direitos trabalhistas. 
O que existe efetivamente é um descompasso entre o que prevê a lei e a realidade no campo. Na busca por aumentar sua faixa de lucros e seu poder de concorrência no mercado nacional e internacional, parte dos agricultores descumpre o que está previsto na legislação e explora os trabalhadores, em intensidades e formas diferentes. Ficam com parte dessa expropriação e transferem a maior fatia para: a) a indústria, b) comerciantes de commodities de outros países e c) o sistema bancário brasileiro e internacional – que financia a produção.

 Os casos de exploração mais leves são mais freqüentes e dizem respeito ao pagamento de baixos salários e à manutenção de condições que colocam em risco a saúde do trabalhador. Do outro lado, as ocorrências mais graves estão na utilização de mão-de-obra escrava.

Como os casos “mais leves” de desrespeito ao trabalhador são mais freqüentes, eles passam despercebidos na mídia, preteridos em detrimento à gravidade do trabalho escravo e infantil, que ocorrem em menor número. Também não é interesse de algumas empresas de comunicação em discutir aumentos de salários no campo, uma vez que é freqüente a propriedade de TVs, jornais e rádios por grupos familiares do agronegócio. Já os assassinatos de trabalhadores rurais são vistos como “baixas de conflito”, inseridos em um discurso de que a defesa da propriedade privada predispõe e justifica o uso da força. Segundo esse discurso, é comum o progresso ter as suas vítimas.



A força política dos proprietários rurais continua sendo um entrave para a mudança dessa estrutura. Há uma laissez-faire no campo.
O detentor da terra na Amazônia, por exemplo, muitas vezes exerce o poder político local, seja através de influência econômica, seja através da força física. O limite entre as esferas pública e privada se rompe. Há no Congresso Nacional um influente grupo de parlamentares que defende os interesses das grandes empresas rurais, a chamada “bancada ruralista”. Infelizmente, esses deputados e senadores têm inviabilizado a aprovação de leis importantes que poderiam ajudar efetivar os direitos dos trabalhados do campo – como a que prevê o confisco das terras em que trabalho escravo seja encontrado. Temem que isso afete os seus principais eleitores.



É necessário acelerar a efetivação dos direitos dos trabalhadores e alterar a estrutura agrária brasileira. A tarefa é árdua, tendo em vista as razões expostas anteriormente, e passa também por mudanças políticas e econômicas que, certamente, irão incomodar as elites rurais, industriais, comerciais e financeiras, tanto do Brasil como do exterior, que lucram com esse sistema.

Infelizmente, a forma como vem sendo feito o desenvolvimento da agricultura brasileira, principalmente em regiões de expansão agrícola na Amazônia e no Cerrado, tem trazido crescimento econômico, mas não bem-estar social. Apesar do nível de consciência do trabalhador rural ter aumentado significativamente nos últimos anos, o que é pré-condição para que ele se torne um protagonista social, a mobilização ainda é insuficiente para uma mudança radical na estrutura de concentração econômica no campo. O governo Lula esteve aberto ao diálogo com grupos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mas frustrou expectativas por não tomar decisões que alterariam o statuo quo no campo. Pelo contrário, reforçou-o. Uma delas seria dar, pelo menos, o mesmo apoio garantido ao latifúndio para a pequena propriedade, considerando que a sua produtividade é comparável ou maior, ao passo que a degradação do meio ambiente e da força de trabalho são maiores na grande propriedade. Ressalte-se que apesar das grandes fazendas ficarem com a maior fatia do bolo do financiamento público, as pequenas propriedades é que empregam 80% da mão-de-obra no campo, produzem a maior parte dos alimentos consumidos pela população brasileira.

Ou seja, seria necessário um enfrentamento político e econômico contra as condições que garantem a exploração do trabalhador e do meio ambiente. Fato que, até a vista alcança, permanece distante.

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Parlamentares deveriam ser responsabilizados por homofobia

Pai e filho foram atacados em um centro de exposições em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, após serem confundidos com um casal gay. O pai teve a orelha decepada pelos agressores. A polícia está procurando os autores da barbaridade.

Não sei onde estão os que executaram a ação, mas sugiro que os planejadores sejam procurados no mais imponente dos prédios da Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde, por trás da imunidade parlamentar, se escondem entrincheirados defensores da discriminação, do preconceito e da intolerância. Deputados e senadores que bradam indignados mediante a tentativa de aprovação da lei que criminaliza a homofobia. Supostos representantes dos interesses de Deus na Terra que afirmam lutar pelo direito de expressarem suas crenças. Mas que droga de crença é essa que diz que A é pior que B, gerando ódio sobre o primeiro, só porque A se deita com alguém do mesmo sexo?

Pode parecer exagero, mas não é. O Ministério Público Federal deveria co-responsabilizar os membros da bancada evangélica em Brasília por conta desses atos bárbaros de homofobia que pipocam aqui e ali – de ataques com lâmpadas fluorescentes na Avenida Paulista a espancamentos no interior do Nordeste. Pois ao travar uma medida que contribuiria com a solução, eles ajudam na manutenção das condições que geram o problema. São parte dele. Não querem que o Estado dê um recado claro contra a violência, afirmando temer represálias contra suas pregações. Um dia ouvi uma dessas pregações. E, olha, tive muito medo.

Cada homossexual que for espancado e morto deve ser acrescentado na conta desses representantes políticos. Mas como não acredito em acerto de contas no juízo final ou na celeridade da Justiça brasileira, muito menos em uma ação dos eleitores desse pessoal, só me resta ter fé.

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Dez microcontos sobre o nosso cotidiano

Tenho postado no Facebook pequenos contos e crônicas sobre o nosso dia-a-dia. Já havia trazido para o blog dois pacotes deles, relacionados à capital paulista. Trago mais dez histórias urbanas, lembrando que a vida é feita pela somatória dos causos de cada um de nós e não por grandes narrativas de heróis, como bem diria Brecht.

Para ver as crônicas e contos já publicados, clique aqui e aqui. E agradeço imensamente quem inspirou a produção até aqui.

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Pouco antes da aurora, instalava o violoncelo entre caixas de frutas e verduras douradas pelas lâmpadas do entorno do Mercado Municipal. E, com a cumplicidade dos feirantes, a curiosidade dos transeuntes e a anuência dos mendigos, tocava a Suite no. 1 em Sol Maior de Bach. Tudo parava. Então, sumia, dando passagem à manhã. Ninguém sabia quem era ou o porquê. Temiam que aquilo perdesse sentido com uma explicação.

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Ninguém sabe como o incêndio começou. Quando o colorido da favela deu lugar às brasas escuras, ecos de lamentos se fizeram ouvir. Menos de Mauro, que pensava coisas do horizonte. Fabrícia chegou do serviço e ele abraçou seu pranto. “Queimou besteira só. Minha casa é você, sua casa sou eu.” Os jornalistas guardaram seus bloquinhos em um nó da garganta. E, naquele bairro, números viraram pessoas pela primeira vez.

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Nasceram no circo. Ele, palhaço. Ela, gerente. Foram felizes juntos até que a lona ficou pequena para a moça. Durante uma temporada em Botucatu, lhe prometeram o mundo. Poucos minutos antes do espetáculo, Tião encontrou um bilhete. Dizem que ele nunca foi tão engraçado quanto naquela noite. O elefante, que conhecia a verdade, permaneceu em silêncio ao ver as piruetas do palhaço. E, com pena dele, chorou.

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José lhe fez uma canção. Depois, foi tentar a sorte na Cidade Maravilhosa. Prometeu que seria sempre a única. Ano passou e o silêncio tomou lugar no seu peito. Enfrentou 24 horas de distância e, depois de muito procurar, ouviu aquela melodia. Sorrindo, correu. Mas, ao entrar na praça, o viu em serenata para outra galega. Não se fez notar, nem chorou. Hoje, ainda acredita no amor. Mas jogou fora a vitrola e o violão.

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Quatro pilhas. Com isso, Taís tinha um bebê. Ela e as amigas brincavam no parquinho quando encontraram Maria e sua dona, uma boneca de pano sem um braço, caolha e encardida. Taís contou que a sua falava, andava e fazia xixi. Já a de Maria foi rainha e médica, descobriu tesouros e pisou na lua. Todas a acharam louca e se foram. Então, um homem de muitos outonos a abraçou e disse: “Às vezes, ter tudo é não ter nada”.

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Era tímido. Por isso, um tal de Cadu fofocou que ele se apaixonara pelo único gay assumido da repartição. Em silêncio, ouviu muito. Na festa de Natal, um coro pediu um beijo dos dois. Sentiu vergonha, mas também um sentimento bom há tempos enterrado. Agarrou o rapaz bonito, dando um beijo que calou a balada. Os dois farão uma cerimônia civil em agosto. Queriam Cadu como padrinho, mas ele abaixa a cabeça quando os vê.

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‎”Tem bolo de chocolate?” As cozinheiras, que apimentavam a vida dos outros, perceberam que ele pedia sempre para a mesma pessoa. Ela ficava vermelha, feito morango de torta, mas alimentava o rapaz tímido com sorrisos. Certo dia, o chocolate acabou. Antes que se fosse, a garçonete tomou coragem e lhe deu um bombom. Embrulhado nele, um número de telefone. Após marcar um encontro, ele suspirou. Não gostava de doce.

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Alguns jogam. Outros são bonitos. E há os engraçados. Ele impressionava contando histórias. Então a conheceu. Queria que ela despertasse com cravos vermelhos, mas não era de posses. Pensou em redigir as próprias flores, mas não era iluminado para a poesia. Resolveu escrever-lhe um conto por dia, fazendo rir e chorar. Não se sabe se suas palavras tocaram o coração dela. Mas ao narrar os sentimentos, entendeu o mundo.

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Não conseguia ficar acordado. E, por sofrer bullying, fez a faculdade em silêncio. Entre um jovem rico e ele, quem perderia a bolsa? Quando lhe puseram um cobertor velho, sob o riso do professor, engoliu o nó e agradeceu. No final, ao pegar o diploma, procurou os pais, mas só viu dois tiquinhos deixados de herança. Teve pena. Não dele, mas do mundo. E, com os irmãos pelas mãos, foi longe. Sem nunca olhar para trás.

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No dia em que foram morar juntos, escolheram a parede mais branca e desenharam seus sentimentos. O tempo, contudo, é um solvente imperdoável. Ele, em desespero, cobriu tudo com demãos de raiva, rancor e dor numa única madrugada. Anos se passaram e, por capricho, a parede começou a descascar. Ligou para ela e juntos removeram as camadas ruins. Choraram. Riram. Hoje, os desenhos estão emoldurados na casa de cada um.

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A pior catástrofe ambiental de São Paulo está em curso

O que os olhos não vêem, o coração não sente. Porém, o ar de São Paulo deixou de ser transparente há muito tempo. Ele tem cor, cheiro, às vezes gosto e forma – que pode ser vista quando decolamos de avião da cidade. Hoje, ao vir para o Rio de Janeiro, fiquei triste ao ver o cobertor cinza sobre a minha cidade e, depois, comparar com o céu da metrópole vizinha.

Na minha opinião, essa é uma das piores catástrofes ambientais do país, embrulhada em um pacote bonito de pôr-do-sol avermelhado, que nos faz chorar de emoção com a vista embotada de pó e sujeira. Um repórter na TV, dia desses, exaltou o lindo fim de tarde, chamando as pessoas para saírem das suas casas e sentirem o clima, fazerem exercícios. Afe! Em seu momento de desserviço à pólis, esqueceu de pedir para trazerem os inaladores para a criançada e os idosos.

O melhor de tudo é que essa capa preta que encobre a cidade não é fruto de alguma entidade maligna que veio estabelecer o caos onde habitava a ordem, mas resultado de nossa ignorância acumulada – que comemora recordes de carros vendidos e fica besta de orgulhosa pelo fato de a capital ter quase um veículo a cada dois habitantes (e viva o ozônio em níveis estratosféricos!). Que reclama da falta de transporte público de qualidade, mas taxa de baderneiros e fanfarrões os manifestantes que resolvem se insurgir contra o aumento no preço da passagem de ônibus. Que diz que a cidade tem que encontrar meios alternativos de transporte mas, sempre que possível, acelera e não dá passagem para um ciclista.

Não temos a aplicação decente de uma política de compensação ambiental que considere o número de carros vendidos e reverta parte dos lucros dos impérios automobilísticos em recursos para o transporte público (lucros obtidos com a ajudinha de grandes subsídios públicos, diga-se de passagem). Afinal de contas, fala-se da geração de empregos com a produção industrial, mas não dos impactos silenciosos que vão ceifando vidas ao longo de anos. Ao mesmo tempo, temos uma altíssima taxas de enxofre no diesel, problema cuja solução já foi adiada diversas vezes por pressão de empresas de veículos, governos e produtoras/distribuidoras de combustível.

(Ah, mas você não está considerando os biocombustíveis, que vieram salvar o mundo da sanha poluidora do petróleo! Bem, o problema é que os impactos sociais e ambientais causados pela produção de etanol (cana) ou de biodiesel (soja, sebo de boi, girassol, mamona, pinhão-manso…) não são vistos e sentidos na capital paulista, mas sim a centenas ou milhares de quilômetros de distância, e vão do desmatamento ao trabalho escravo. Mas, aí, quem se importa, né?)

Em cidades de inverno rigoroso, há governos estrangeiros que decretam feriado quando neva muito. Em lugares escaldantes, ondas de calor muito intensas liberam os trabalhadores de seus afazeres. Com isso, resguardam a saúde de seus moradores. Os feriados religiosos fazem bem à alma dos que crêem em algo. Mas e uma pausa para o corpo? A instituição de um feriado em dias muito poluídos faria um bem enorme ao corpo dos mais de 11 milhões de moradores da cidade. Pois não é necessário acreditar no pó e em gases tóxicos, eles estão aí. Quem sabe a redução nos lucros, impostos e salários provocada por feriados forçados não mude a forma com a qual o setor empresarial, governo e sociedade encaram o problema?

A verdade é que nos acostumamos a viver dentro de um fumódromo, literalmente (quem vive em Sampa, traga o equivalente a três cigarros por dia). Quem vive em São Paulo mesmo sem consumir tabaco está mais sujeito a desenvolver câncer de pulmão do que moradores de cidades menos “desenvolvidas”.

Chamam de inversão térmica o maldito efeito que dificulta a dispersão de poluentes nessa época do ano. Os noticiários salpicam aqui e ali a inversão térmica, mas nada de falar sobre o nosso modo de vida e seu conseqüente modelo de desenvolvimento – verdadeiros réus pela nhaca. Carbono, enxofre, chumbo e uma sopa de produtos químicos expelidos principalmente por veículos. Eu sei, eu sei… isso gera empregos, roda a economia, é progresso! Mas se por um lado esse crescimento econômico dá a possibilidade de ter acesso a coisas que não tínhamos antes, por outro outro ele nos tira preciosos dias de nossa vida.

E não é a inspeção veicular que vai dar conta de resolver o problema. Vamos expulsar Fuscas, Brasílias, Variants, 147s, caminhões velhos de circulação (ou seja, eliminar o meio de locomoção da ralé), mas as propagandas que anunciam carros grandes e potentes, beberrões de gasolina e diesel na televisão continuarão povoando o imaginário e sendo adquiridos pelas classes abonadas.

O ritmo de destruição do meio foi acelerado para atender a consumidores, mas não a cidadãos. E vem cobrando um preço alto, cuja fatura será paga por aqueles que ainda são pequenos. A cidade está envolta em um bizarro chumaço escuro. É um modelo diferente de urbanidade que eu quero. Um em que não tenha que ficar angustiado por causa do pôr-do-sol estranhamente avermelhado. Trocar uma sociedade estritamente consumista, em que o “eu sou” se confunde com o que “eu tenho”, leva tempo. Talvez o meio ambiente não tenha esse tempo.

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