Blog do Sakamoto

Quanto custa um blogueiro?

Hordas de leitores desgostosos de uma opinião que não a sua partem para o ataque, a todo o momento, por estas bandas. Bem, muitos de vocês já viram os diversos casos, alguns mais patológicos, outros menos (para entender os diferentes tipos que povoam os blogs, sugiro a série publicada tempos atrás pelo grande Maurício Stycer). No final das contas, é divertido e não me importo. Até porque a senhora minha mãe não é frequentadora da rede mundial de computadores…

Uma das tentativas mais interessantes de agredir é sugerir que o jornalista “leva um por fora”, seja por fazer parte de uma organização não-governamental (e, como sabemos, toda a ONG tem pacto com o Tinhoso), seja por publicar denúncias contra empresas e governos. Se é algo que atinge a administração Dilma, é um tucano. Se é uma crítica à administração Alckmin, dá-lhe petista. Se é crítico a uma grande obra de engenharia que está engolindo comunidades tradicionais, o sujeito é um bastardo vendido para o Tio Sam por um mísero iPhone. Ou um Homem das Cavernas, que não ousa ver a terra brasilis alcançando o destino deveras glorioso para o qual estava abençoado desde que se deitou no berço esplêndido de sua fundação (porque, na internet, não basta ser conservador, tem que ser rococó).

Tem muita gente vendida por aí? Ah, sim, claro. Em todas as profissões e classes sociais, diga-se de passagem – porque a falta de ética não é monopólio de figuras públicas ou políticas. Além do mais, cada um vende sua voz ou força de trabalho para quem quiser, vivemos em um país livre (sic). Uma das características do Reino do Mercado é que faz parte do jogo tentar precificar as relações humanas e os posicionamentos pessoais. Pode-se até comprá-los.

O que assusta muita gente, porém, é que há os que não se dispõem a receber um preço. E assusta ainda mais que existam os que escrevem em nome de sua consciência individual, de uma idéia maior que ele próprio – seja ela qual for. Aliás, Idéia, com maiúscula. Como Dignidade, Liberdade, Igualdade de condições. Neste mundo que cisma em ser pós-moderno é difícil explicar que ainda há alguns nortes que valem a pena ser seguidos. Não grandes discursos de Verdade, pois essa não existe. Mas as noções básicas que, construídas e compartilhadas, nos tornam semelhantes, nos tornam humanos.

Pessoas que escrevem por acreditar em uma Idéia não são melhores do que as outras, de maneira alguma. Mas são perigosas. Mais perigosas do que as que cumprem ordens ou estão simplesmente fazendo o seu trabalho. Muitos levariam uma bala ou iriam presos pelo que acreditam, mas quantos fariam o mesmo por seu emprego?

Uma Idéia é um treco muito poderoso. Não se dissolve em gás lacrimogênio, não se anula com processos, não se reverte com intimidações. Não morre com as pessoas que a carregam, não se cala no silêncio. Se rasgada ao meio, não se divide, multiplica-se. Nada contra a corrente ou divide um mar.

Sim, quem escreve em nome de uma Idéia leva muita coisa por fora. Mas guarda no peito e não no bolso. E ri sozinho à noite.

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Reitoria promove a militarização para não discutir a USP, dizem manifestantes

Após violento confronto com a Polícia Militar, que estava detendo três jovens que teriam consumido maconha no campus do Butantã da Universidade de São Paulo, na noite deste quinta, cerca de 400 estudantes ocuparam o prédio da Administração da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Os policias revidaram os protestos com balas de borracha e estudantes ficaram feridos. Os rumos da ocupação devem ser discutidos na noite desta sexta.

Este blog conversou com Felipe Camargo, Paula Kaufmann e Thiago Aguiar, diretores do Diretório Central dos Estudantes da USP, que estão na ocupação, para entender suas reividicações:

Por que o DCE-Livre da USP é contrário à presença da Polícia Militar no campus?
Historicamente, o movimento social organizado na USP obteve a conquista da autonomia universitária. Isto significa afirmar uma concepção de universidade como espaço de livre pensamento, organização e manifestação. A autonomia também se refere à segurança. Por isso, temos na USP a Guarda Universitária. A presença de forças militares no campus não apenas em história longínqua, como também em anos recentes, não esteve relacionada à garantia de segurança e ao combate ao crime, mas sim à repressão política ao movimento social da Universidade. Em 2009, por exemplo, a Polícia Militar transformou o campus do Butantã numa praça de batalha ao reprimir um movimento grevista.

A presença da PM não evitaria casos como o assassinato de um estudante da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis), durante um assalto, em maio deste ano?
O assassinato do estudante da FEA comoveu a todos nós. No dia do seu assassinato, uma ronda da PM percorria o campus da USP e não pode evitar o crime. Aliás, seus assassinos seguem impunes. O problema da segurança no campus é mais complexo do que simplesmente a entrada da polícia. Refere-se a uma concepção de espaço público e à abertura do campus à comunidade externa para que deixe de ser uma bolha vulnerável. Por isso, o movimento estudantil reivindica há bastante tempo que a reitoria assuma a sua responsabilidade e faça as intervenções necessárias para garantir a segurança de trabalhadores, estudantes e funcionários. Infelizmente, melhorias na iluminação, o fim da terceirização da segurança, o aumento do efetivo da Guarda Universitária e seu treinamento em direitos humanos, entre outras medidas, não foram tomadas. A reitoria preferiu uma saída rápida, fácil e midiática.

Com a detenção dos três jovens que supostamente estariam fumando maconha, houve protestos dos estudantes, seguidos de forte repressão policial com gás lacrimogênio e spray de pimenta. A segurança pública tem sido usada como justificativa para a reitoria reprimir manifestações?
Sim. Como dissemos anteriormente, a presença da PM no campus historicamente e em anos recentes esteve relacionada somente à repressão ao movimento social organizado na USP. No entanto, a reitoria utiliza o sentimento de insegurança da população para dar legitimidade a suas ações e esvaziar de sentido as críticas da comunidade universitária. Ao mesmo tempo, argumenta estar “sempre aberta ao diálogo” quando, na verdade, promove a militarização do campus para evitar que qualquer projeto alternativo de universidade seja defendido. Não se pode reduzir a questão da segurança à presença de policiais militares. Os índices de criminalidade no conjunto da cidade, onde a PM está presente ostensivamente, são a comprovação disso.

O movimento estudantil, que hoje ocupa a administração da FFLCH, tem feito duras críticas ao reitor João Grandino Rodas. Por que? E quais as principais demandas de vocês?
João Grandino Rodas, em sua trajetória na USP, notabilizou-se por não ter sido eleito reitor pela comunidade universitária – mas sim indicado pelo governador Serra – e pela truculência com que trata seus críticos e quaisquer reivindicações que lhe sejam apresentadas. Não à toa, em sua unidade de origem, a Faculdade de Direto, foi recentemente declarado persona non grata. Em 2007, quando diretor, Rodas chamou a Tropa de Choque para expulsar militantes do MST e do movimento estudantil que faziam um ato pela democratização do ensino público. Em sua gestão como reitor, além da questão da presença da PM no campus, temos questionado Rodas por conta de suas diretrizes mercadológicas para a graduação, que quase ocasionaram o fechamento de mais de 300 vagas e dois cursos na EACH [campus da USP na Zona Leste]. Rodas está sendo investigado por indicações sem concurso para cargos de confiança. Além disso, ele propôs um conjunto de obras questionáveis, como a construção de um Centro de Convenções e de um Centro Internacional, que estão consumindo 240 milhões de reais do dinheiro público. Consideramos que tal monta de recursos poderia ser aplicada de maneira muito mais satisfatória na expansão das atividades de ensino, pesquisa e extensão.

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Perguntar não ofende

Como ministro do Esporte, Aldo Rebelo, relator do novo Código Florestal, autorizará os estádios da Copa a terem apenas 50% de grama?

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Tratados como animais. De abate, não de estimação

Cuiabá – Há mais de dez anos, uso a expressão “tratados pior que certos animais” para se referir às condicões a que determinados produtores rurais sujeitam seus empregados (o “certos” se dá pelo fato de que existe muito bichinho de estimação com consumo per capita bem maior que muito brasileiro). Muitos dizem que exagero nessas horas.

É mesmo?

De acordo com reportagem de Bianca Pyl, da Repórter Brasil, uma operação do grupo móvel de fiscalização do governo federal encontrou 19 trabalhadores, um deles com 17 anos de idade, em condições análogas à escravidão em propriedade rural pertencente ao médico Gilson Freire de Santana, que foi prefeito de Açailândia (MA) entre 1997 e 2000 e é dono do Hospital Santa Luzia. Do total de libertados da Fazenda Santa Maria, 15 dormiam no curral, ao lado de animais e de agrotóxicos. As outras quatro pessoas resgatadas estavam em uma casa precária de madeira, com o teto prestes a desabar.

Os empregados dormiam em redes próprias e enfrentavam dificuldades para descansar por causa do barulho dos animais. “Quando dava 3h da manhã, ninguém conseguia dormir mais. Nosso horário [para acordar] era 6h30, mas o vaqueiro chegava gritando com os bichos e aí era uma barulheira danada a madrugada toda”, revelou um dos libertados.

Os libertados eram responsáveis pela limpeza do terreno para formação de pastagem, além de manutencão e ampliação de cercas. A operacão foi realizada em setembro, mas os valores devidos só foram pagos aos trabalhadores um mês depois.

Não é a primeira vez que trabalhadores são encontrados dormindo em currais e não será a última.

O que me lembra um caso ocorrido há três anos no Rio Grande do Sul, quando auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego e procuradores do Ministério Público do Trabalho proibiram que empregados de fazendas dormissem junto com os animais durante a Expointer, uma das mais importantes feiras agropecuárias do mundo, realizada anualmente no Estado. Creio que é desnecessário explicar o porquê da proibição (caso alguém ache normal dormir com o gado no curral, por favor pare de ler este post e mude de blog). Houve revolta dos proprietários rurais e um deles, “doutor em direito e pecuarista”, escreveu um artigo que circulou na rede, defendendo o sentido de “tradição”.

Mas também eram “tradições” a possibilidade legal de comprar seres humanos (até 1888) ou a impossibilidade de mulheres votarem (até 1932). Muitas aberrações da humanidade foram – e são – justificadas por serem tradições, ou seja, mantras repetidamente cantados, porém dificilmente discutidos. Na verdade, elas são apenas construções sociais, normalmente impostas ao longo dos anos pelos mais fortes até serem serem aceitas por determinado grupo sem que se lembre de onde ela surgiu.

É a tradição do local dormirem com o gado? Vamos criar outra! De agora em diante passa a ser tradição o dono da fazenda dormir com o gado.

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MPF pede proteção após mais um assassinato de liderança no Pará

O Ministério Público Federal no Pará pediu à Polícia Federal que garanta proteção para testemunhas que denunciaram uma rota de retirada ilegal de madeira da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio e da Floresta Nacional Trairão.

João Chupel Primo, de 55 anos, foi morto com um tiro no último sábado (22), algumas horas depois de denunciar exploração ilegal na sede do MPF em Altamira. Ele era liderança do Projeto de Assentamento Areia, que vem sendo usado como porta de entrada para os madeireiros.

De acordo com o MPF, ele já havia registrado boletins de ocorrência na Polícia Civil no município de Itaituba e informado sobre crimes ambientais na região para a Polícia Federal em Santarém e para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela administração das Unidades de Conservação que estão sendo exploradas ilegalmente.

A região do Riozinho do Anfrísio tem um histórico de conflitos envolvendo grileiros, madeireiros e ribeirinhos que remonta à década de 1990, e teria atingido seu ápice no início dos anos 2000. Com a instalação de uma base do Exército, em 2003, e a criação da Resex, em 2004, as atividades predatórias teriam diminuído de intensidade, segundo estudo apoiado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pelo próprio ICMBio, divulgado em setembro deste ano.

O relatório registra, com base em relatos de moradores, a retomada recente da exploração madeireira nos limites da reserva, bem como a vulnerabilidade da face oeste, onde se encontra o Projeto de Assentamento Areia, dadas as condições geográficas e de infraestrutura que tornam essa área de difícil monitoramento por parte do órgão gestor.

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Deputado propõe lei para banir empresa que usar escravos

O deputado estadual Carlos Bezerra Júnior (PSDB) protocolou, nesta sexta (21), projeto de lei para cassar a inscrição no cadastro de contribuintes do ICMS (Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) de empresas que façam uso direto ou indireto de trabalho escravo no Estado de São Paulo. Na prática, as empresas que comprovadamente utilizarem essa forma de exploração da mão-de-obra perderão seus registros e deixarão de existir para transações formais. Além disso, os responsáveis por elas ficarão impedidos de exercerem o mesmo ramo de atividade por dez anos.

Em sua página na internet, Bezerra – que é vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos na Assembleia Legislativa – afirmou que “o projeto de lei apresentado põe São Paulo na vanguarda da defesa dos direitos humanos no Brasil”.

Hoje, há três formas principais de punição a quem usa trabalho escravo no Brasil: a) as multas do Ministério do Trabalho e Emprego que, apesar do baixo valor, são porta de entrada para a “lista suja” do trabalho escravo, cadastro interministerial utilizado por bancos e empresas, públicas e privadas, e por alguns estados, para restrição de crédito e boicote comercial; b) ações civis, condenações e ações propostas pelo Ministério Público do Trabalho e decididos ou confirmados pela Justiça do Trabalho – alguns deles tendo chegado a R$ 5 milhões; c) ações e julgamentos criminais, principalmente na dobradinha Ministério Público Federal/Justiça Federal. O artigo 149 do Código Penal, que trata do tema, prevê de dois a oito anos de cadeia para esses casos. Infelizmente, apesar da situação ter melhorado, ainda há poucas condenações (algumas dezenas de casos frente aos milhares de fazendas com libertações), dependendo do comprometimento de alguns juízes para com o tema.

Há projetos tramitando no Congresso Nacional, em Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais para endurecer o tratamento dado aos infratores – da mesma forma que há iniciativas para facilitar a vida deles. O projeto mais importante é a proposta de emenda constitucional 438/2001, conhecida como a “PEC do Trabalho Escravo”, que prevê o confisco de terras em que esse crime for encontrado. Aprovada no Senado e em primeiro turno na Câmara, ela aguarda a segunda votação desde 2004 para depois voltar para análise dos senadores por conta de alterações realizadas pelos deputados.

Bezerra foi responsável por protocolar um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar crimes de trabalho escravo em São Paulo, após o caso envolvendo as roupas produzidas para a rede Zara vir a público. O pedido teve o número suficiente de assinaturas, mas como só cinco CPIs podem funcionar ao mesmo tempo, ela não pode ser implantada ainda. Ele também organizou sessões para discutir o caso com os demais deputados e a sociedade civil.

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Quem vive com salário mínimo é que merece uma medalha

Estava debatendo com meus alunos, dia desses, sobre o processo de construção da identidade e como o nacionalismo é utilizado sistematicamente para ir à guerra contra um suposto inimigo em nome de algo que, não necessariamente, mereceria tal esforço. Nestes dias de medalhas de ouro, prata e bronze, construímos heróis que dão orgulho de nos sentirmos brasileiros – é um nadador aqui, um mesatenista ali, uma jogadora de voley, uma corredora. Atualizei uma discussão que já havia feito aqui, mas vale a pena.

Senna ocupou espaço de mártir na TV quando a seleção brasileira de futebol (que é a heroína – literalmente – de plantão) estava em baixa. Usineiros já foram chamados de heróis pelo presidente da República. Quando um grande empresário morre, há um esforço para que ele se torne a referência que não foi em vida. Alguém vai me tacar uma pedra por colocar um ídolo do esporte e um usineiro de cana no mesmo bote. Mas não estou discutindo caráter, apenas dizendo que nós, da mídia, e o poder criamos heróis sem nenhum constrangimento. Às vezes, sem intenção.

Quem mora em São Paulo sabe que havia uma avenida chamada Águas Espraiadas. Mas a prefeitura acabou por rebatizá-la, homenageando um morto ilustre. Seria preferível, na minha opinião, que ganhasse o nome de Jornalista Vladimir Herzog, que se dedicou à liberdade e foi assassinado pela ditadura, mas vá lá. Esconder os verdadeiros heróis, seja largando-os ao ostracismo, seja fazendo suas biografias competir com histórias de “heróis de ocasião” diz muito sobre um país.

Ao centrar o foco nesses exemplos, considerando-os caminhos a serem seguidos, nos distanciamos de quem mereceria ganhar uma medalha de verdade. Perguntei a um amigo que cobre a área de esportes, quantos heróis são “fabricados” por ano na área. Ele respondeu dizendo que os exemplos de superação pessoal são os pinçados com freqüência.

Seguindo essa lógica, apresento um nome para ser incensado nem que seja por 15 minutos. Antônio acorda às 5h da manhã, pega suas coisinhas, com duas conduções vai até Santo Amaro para vender café da manhã na rua. Depois, quando os clientes desaparecem, é hora de começar a trabalhar o serviço de pintor, bico que rende algo no final do mês mas que sinceramente não vale a pena – como ele tem três crianças e uma mulher com câncer em casa, que luta há anos para não morrer na rede pública, pois não tem acesso ao Sírio Libanês, é o jeito. À noite, acende o fogo e começa a vender churrasquinho no ponto de ônibus para completar a renda. Chega em casa cinco horas antes de ter que acordar novamente. Como mora perto do autódromo de Interlagos, pôs sua churrasqueira perto de casa para conseguir algum em um final de semana lotado. A Guarda Civil Metropolitana levou tudo embora. Como ele ia trabalhar no dia seguinte? Sei lá. Superação.

É claro que ninguém gostaria de seguir o exemplo de Antônio. A sua vida não tem o glamour de treinar natação nos Estados Unidos e sua mulher, quando teve um problema sério e quase perdeu o braço, não pegou helicóptero, mas sim um busão para ir ao pronto-socorro. Uma droga, para ser curto e grosso. Não adianta dizer que ele é feliz, que tem Deus no coração, que a família o ama. Isso é apenas jogar purpurina em cima.

É Antônio, mas podia colocar aqui uma relação de nomes, grossa como uma lista telefônica, de pessoas que aceitam a mesma batalha no dia-a-dia porque se desistirem, morrem – e nunca ganharão uma medalha por isso. Pelo contrário, são tratadas como restolho da sociedade, mão-de-obra barata, voto fácil, massa burra, pelas elites econômica e política. Apesar de servi-los, alimentá-los, transportá-los, enriquecê-los. Se usineiros são heróis, cortadores de cana são o que?

Na hora em que o nome de qualquer um desses, cuja desgraça é apenas um detalhe e por isso mantém-se escondida embaixo do tapete, for retirado das entranhas da sociedade e gritado a plenos pulmões como alguém que merece ser um herói, não precisaremos mais de heróis.

E não encararíamos adversários como inimigos.

E a vida seria outra.

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A economia que transforma ditador em presidente

Angola possui um regime autoritário, onde ninguém se atreve a falar mal de “Zedu”, como é chamado o presidente José Eduardo dos Santos. Hoje, o país de colonização portuguesa e que ficou décadas sob uma sangrenta guerra civil, é o que possui o “presidente” africano há mais tempo no poder (junto com Guiné Equatorial): 32 anos. Protestos contra o poder central costumam terminar com mortos e desaparecidos. Até possui eleições, mas não fazem tanta diferença assim.

Dilma discurso, nesta quinta, no parlamento angolano. Devido aos interesses econômicos e geopolíticos de setores brasileiros, ela destacou a cooperação econômica entre os dois lados do Atlântico. Grandes empresas tupiniquins exploram petróleo, diamantes, geram energia por lá. Atividades que quase não causam impacto socioambiental e quase não dão retorno para quem nelas trabalha.

Angola também é um dos principais clientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) exatamente para fomentar negócios com o Brasil. De 2002 a 2008, o comércio bilateral cresceu mais de 20 vezes, atingindo 4,21 bilhões.

Com medo de perder espaço para o apetitie chinês por recursos naturais do continente africano, duvido que ela tenha conversado com o colega sobre o quesito “democracia”. Afinal, como disse o ex-chanceler e hoje ministro da Defesa, Celso Amorim, durante uma visita do então presidente Lula a Guiné Equatorial (país que é uma várzea em se tratando de direitos humanos): “negócios são negócios”. E completou: “O isolamento e a distância só fazem eles dependerem mais de outros e talvez até ficarem mais longe do que nós desejamos”.

Sim, enquanto isso, lucramos com eles. Porque dinheiro não tem pátria, cara ou ética. Se estiver sujo de sangue, é só limpar que está novo de novo.

Um governo que tolera um outro país com grave desrespeito aos direitos humanos normalmente usa como justificativa a sagrada soberania do vizinho. Fascinante. Durante, a nossa maravilhosa Gloriosa essas mesmas pessoas que usam essa desculpa apelaram desesperadoramente para outros Estados intervirem junto ao regime verde-oliva, seja via boicote comercial ou pelas vias diplomáticas, a fim de que fosse restaurada a democracia.

Hoje, se alguém pede que eles influenciem outras nações nesse sentido através de pleitos justos (porque também há os pedidos golpistas travestidos de coisa meiga), a questão econômica ou um pretenso assento no Conselho de Segurança da cada vez mais esvaziada Nações Unidas falam mais alto.

Usar a economia para fazer pressão política seria muito melhor que afagar ditador vestido de presidente. O Brasil tem tamanho e história comum para isso. Basta querer ousar. E usar a diplomacia.

O governo atual foi eleito com a promessa de elevar a questão dos direitos humanos nas relações internacionais. O problema é que, se por um lado, mostrou-se mais ousado que o governo passado em condenar comportamentos bizarros de outros países em fóruns internacionais (o que, sinceramente, vale muito pouco), por outro ainda coloca parceiros no pedestal de vestal intocável quando o interessa comercialmente.

No caso de Angola, o interessante é que os setores brasileiros que possuem fortes interesses por lá são os mesmos que têm causado graves problemas de desrespeito aos direitos humanos no campo por aqui. Tanto lá, como aqui, duvido que o governo adotará qualquer comportamento que vá em oposição ao que busca os setores energético, de mineração e da construção civil. Que têm sido ótimos doadores de campanha – ops, desculpe – atores de promoção de desenvolvimento.

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OEA convoca Brasil para se explicar sobre Belo Monte

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) convocou o governo brasileiro para que se explique sobre a ausência de medidas de proteção aos direitos das populações indígenas e de outros grupos ameaçados pelo projeto de Belo Monte, como foi solicitado pela instituição. A informação é do Movimento Xingu Vivo.

A CIDH havia requisitado oficialmente, no início de abril, que o governo brasileiro suspendesse imediatamente o processo de licenciamento e construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, no Pará, citando o potencial prejuízo da construção da obra aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu.

De acordo com a CIDH, o governo deveria cumprir a obrigação de realizar processos de consulta “prévia, livre, informada, de boa-fé e culturalmente adequada”, com cada uma das comunidades indígenas afetadas antes da construção da usina. O documento da OEA afirmava que o Brasil deve garantir que as comunidades indígenas beneficiárias tenham acesso a um estudo de impacto social e ambiental do projeto em um formato acessível tanto à sua extensão como no que diz respeito à tradução aos respectivos idiomas indígenas.

Após ser cobrado para que respondesse a essas acusações, o governo brasileiro proferiu críticas severas com relação à autoridade da entidade para esse tipo de questionamento. Também cancelou a indicação de Paulo Vannuchi, ex-ministro da área de Direitos Humanos, para uma cadeira na Comissão e chamou de volta seu embaixador na organização.

O governo brasileiro apresentou sua defesa à CIDH, que voltou a pedir proteção às populações indígenas. Essas medidas não foram cumpridas pelo Brasil que, agora, está sendo convocado para dar explicações.

No próximo dia 26 de outubro, representantes do governo brasileiro devem comparecer a uma audiência, presidida por um comissionado da CIDH, em Washington. Na reunião (que contará com a presença de lideranças das comunidades afetadas em Altamira e advogados das entidades de direitos humanos que as representam), serão reapresentadas as denúncias da não-realização da consulta aos povos indígenas antes que fosse dada a licença para a instalação do canteiro de obras da usina. Além de relatos sobre o aumento dos problemas que atingem as populações do rio Xingu em função da construção.

Em julgamento nesta segunda (17), a desembargadora Selene Almeida, do Tribunal Regional Federal da 1a Região posicionou-se pela ilegalidade da autorização da usina sem as devidas consultas prévias com as populações indígenas conforme prevê o artigo 231 da Constituição, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a diretriz da Convenção Interamericana de Direitos Humanos. O julgamento dessa ação civil pública contra Belo Monte, que poderia levar à paralisação das atividades, foi interrompido devido a um pedido de vistas.

A Prefeitura de Altamira chegou a produzir um documento endereçado à Presidência da República solicitando a suspensão da licença de instalação do canteiro de obras de Belo Monte por conta do não cumprimento das medidas mitigatórias emergenciais que ficaram acordadas para a concessão da licença pelo Ibama. O município é base para o empreendimento.

De acordo com documento assinado pela Prefeitura, os compromisso assumidos pela Norte Energia S.A., responsável pela construção de Belo Monte, expiraram em 30 de julho, sem que as obras prometidas em escolas e postos de saúde, por exemplo, tenham sido concluídas. E, na maioria dos casos, nem começadas.

“Tal desobediência nos força a pedir a suspensão imediata da referida licença, com vistas a resguardar o interesse da população altamirense, que está bastante prejudicada com o atraso dessas obras”, diz o texto. “Certo é que as mesmas [obras de educacão e saúde] já deveriam ter sido concluídas antes do início das obras do canteiro [da usina de Belo Monte], que estão avançadas em relação ao cumprimento das condicionantes.”

No dia 09 de agosto, Dilma Rousseff declarou que o reservatório de Belo Monte não iria atingir nenhuma das dez terras indígenas da área. Contudo, a principal preocupação das populações tradicionais a serem impactadas é exatamente o contrário: a Volta Grande do Xingu, cerca de 100 quilômetros de rio, vai praticamente secar por conta do canal que desviará a água para a geração de enegia. Isso afetará não apenas a fauna e flora, mas também a navegabilidade para as populações tradicionais, seu acesso ao alimento através da pesca, além de formar milhões de poças d’ água que serão maternidade de mosquitos causadores de malária.

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Sobre a falta de tolerância em lugares apertados

O pior não é pegar um vôo transcontinental, tendo que ouvir horas de um grupo de classe média alta paulistana arrotando preconceito, transpirando intolerância e exibindo o seu poder de compra a torto e direito no raio de alcance do seu ouvido. O pior é estar sentado na janelinha e, portanto, preso por todos os lados, em uma tortura semelhante ao tratamento Ludovico, a que foi submetido Malcolm McDowell, em A Laranja Mecânica. Com a diferença que o resultado é o inverso e eu – que tenho pavor de avião – só torço para a aeronave cair e acabar com isso tudo. O sangue sobe, a paciência esgota, o sono não vem, o serviço de filmes deu chabú e nem um Frontal à mão para apagar de vez. E nada deles pararem, no melhor estilo “sou brasileiro, não desisto nunca”. Ah, o horror, o horror! Dá até tempo de refletir que, graças a Buda, esse pessoal não está falando em inglês. Caso contrário, teria também que suportar as dores da vergonha alheia que – como todos sabem – afeta mais quem está assistindo do que quem está provocando a comoção. Essa reflexão puxa outra: será que a classe média que está ganhando o mundo com o desenvolvimento econômico brasileiro tem esse perfil ou esse grupo é só a distorção da curva normal, vulgo uma extravagância? Se tiver, em pouco tempo vão deixar de se referir a nós de forma simpática como o país do samba e do futebol (o que, a propósito, seria ótimo – esse estereótipo é um porre) para nos chamar de povo da arrogância – junto com o grande irmão do Norte. Uma amiga que trabalha em uma embaixada do Brasil no exterior disse para ir me acostumando, pois esse perfil “o-Brasil-domina-o-mundo-agora-sou-rico-posso-comprar-tudo-inclusive-você” tem sido a maioria dos que aperecem. Gente que bate na porta da representação diplomática e diz que quer dar um rolê e conhecer os escritórios e quando lhe é explicado que há horário próprio de visita, pois aquilo é uma repartição pública, roda a baiana gritando “eu pago meus impostos, eu vou entrar”. Semelhante a quando eu era mesário e os filhos das eleitoras chiques brincavam com as urnas eletrônicas achando que aquilo era PlayStation e, se alertássemos que não era videogame, elas bradavam que pagavam impostos. Bem, a dúvida que fica é se alguém que espera para revelar o que há de pior na natureza humana em uma caixa de metal a mais de dez quilômetros de altura deixou o superego em casa quando saiu para viajar, está tentando alimentar um processo de autoafirmação bisonho, sofre de falta de oxigênio ou quer realmente compartilhar com o mundo uma visão que faria corar skinheads? Se pelo menos estivesse com a minha camiseta do Seu Madruga vestido de Che Guevara, dava para causar uma polêmica. Mas não, nem isso. Tolerância com os intolerantes é dose. O que dá para fazer? Levantar e lascar um sermão? Putz, não ia dar certo… Ouviria um “xiiiiiiiii” coletivo, o que daria razão para o outro lado. Ia ser bonito para contar aos leitores do blog, mas certamente levaria um pacote de “massa, carne ou frango” na cara. Afinal de contas, o brasileiro é um povo cordial, do deixa disso, do para com isso, do vamos beber para esquecer. Pobres comissários de bordo que não ganham o suficiente para aguentar esse pacote todos os dias… Desculpem este fluxo de pensamento contínuo. Esses momentos claustrofobicamente tristes produzem isso, o que é bom para ajudar a fugir…

(Suspiro.)

Moral da história: Em vôos longos, leve um radinho.

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