Blog do Sakamoto

Governo insere 52 nomes na “lista suja” do trabalho escravo

Atualizada nesta sexta (30), o cadastro de empregadores flagrados com mão-de-obra análoga à de escravo cresceu com a entrada de 52 novos registros, chegando ao número recorde de 294 nomes. Entre os que entraram na “lista suja” estão grupos sucroalcooleiros, madeireiras, empresários e até uma empreiteira envolvida na construção da usina hidrelétrica de Jirau. A relação inclui também médicos, políticos, famílias poderosas e casos de exploração de trabalho infantil e de trabalho escravo urbano. Para ver a lista atualizada, clique aqui.

A “lista suja” tem sido um dos principais instrumentos no combate a esse crime, através da pressão da opinião pública e da repressão econômica. Após a inclusão do nome do infrator, instituições federais, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste e o BNDES suspendem a contratação de financiamentos e o acesso ao crédito. Bancos privados também estão proibidos de conceder crédito rural aos relacionados na lista por determinação do Conselho Monetário Nacional. Quem é nela inserido também é submetido a restrições comerciais e outros tipo de bloqueio de negócios por parte das empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo – que representam mais de 25% do PIB brasileiro.

O nome de uma pessoa física ou jurídica é incluído na relação depois de concluído o processo administrativo referente à fiscalização dos auditores do governo federal e lá permanece por, pelo menos, dois anos. Durante esse período, o empregador deve garantir que regularizou os problemas e quitou suas pendências com o governo e os trabalhadores. Caso contrário, permanece na lista.

Abaixo, trechos da apuração de Bianca Pyl, Daniel Santini e Maurício Hashizume, da Repórter Brasil, que monitora o cadastro desde sua criação em novembro de 2003:

Entre os novos registros, há casos como o de Lidenor de Freitas Façanha Júnior, cujos trabalhadores, segundo os auditores fiscais do trabalho envolvidos nas operações de libertação, bebiam água infestada com rãs, e o do fazendeiro Wilson Zemann, que explorava crianças e adolescentes no cultivo de fumo. Entre os estados com mais inclusões nesta atualização estão Pará (9 novos nomes), Mato Grosso e Minais Gerais (8 cada). A incidência do problema no chamado Arco do Desmatamento demonstra que a utilização de trabalho escravo na derrubada da mata para a expansão de empreendimentos agropecuários segue presente.

Nesta atualização, apenas dois nomes foram retirados do cadastro (Dirceu Bottega e Francisco Antélius Sérvulo Vaz), o que pesou para que a relação chegasse a quase 300 registros.

Escravos da cana – Entre os destaques da atualização estão libertações que chamam a atenção pelo grande número de escravos resgatados em plantações de cana-de-açúcar. Só na Usina Santa Clotilde S/A, uma das principais de Alagoas, foram flagrados 401 trabalhadores em situação degradante em 2008. Também entra nesta atualização a Usina Paineiras, que utilizou 81 escravos em Itabapoana (RJ) em 2009. Um ano após o flagrante que resultou nesta inclusão, a empresa comprou a produção da Erbas Agropecuária, onde foram flagrados 95 trabalhadores escravizados.
Mesmo com o aumento da preocupação social por parte das usinas, real ou apenas declarado, o setor ainda tem ocorrências de mão-de-obra escrava.

A Miguel Forte Indústria S/A foi flagrada explorando 35 trabalhadores, incluindo três adolescentes, na colheita de erva-mate em Bituruna (PR). A madeireira, que mantinha o grupo em barracões de lona sob comando de “capatazes”, anuncia na sua página que “o apoio a projetos sociais que promovem a cidadania e o bem-estar, principalmente entre a população carente, mostra o comprometimento da Miguel Forte com os ideais de uma sociedade mais justa e humana”.

Hidrelétrica de Jirau 
- Não é só na monocultura ou no campo que os flagrantes acontecem. As condições degradantes em projetos bilionários do país têm sido uma constante e, nesta atualização, uma das empreiteiras envolvidas na construção de uma hidrelétrica também entrou na lista. A Construtora BS, contratada pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (Enersus), foi flagrada utilizando 38 escravos na construção da Usina Hidrelétrica de Jirau. Além de enfrentarem problemas relacionados aos alojamentos, segurança no trabalho e saúde, os empregados ainda eram submetidos a escravidão por dívida, por vezes em esquemas sofisticados que envolvem até a cobrança por meio de boletos bancários, conforme denunciado, na época, pela Repórter Brasil.

Mesmo após o flagrante, as condições de trabalho não melhoraram, segundo denúncias recentes. Em abril deste ano, um grupo de 20 trabalhadores procurou o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Rondônia (Sticcero) alegando que a BS não havia pago o aviso prévio e eles estavam dormindo no galpão da Construtora, sem ter como voltar para casa. Uma liminar chegou a bloquear os bens da empresa em 2011.

O isolamento, aliás, continua sendo utilizado como ferramenta para escravizar pessoas. Nesta atualização da lista, foi incluído Ernoel Rodrigues Junior, cujos trabalhadores estavam em um local de tão difícil acesso que foi necessário um helicóptero para o resgate dos trabalhadores. 

Entre os libertados estavam dois adolescentes de 15 e 17 anos e uma de 16 anos. Para chegar no local em que o grupo estava, foi necessário percorrer a partir de São Félix do Xingu (PA) por 14 horas um caminho que contava com uma ponte de madeira submersa, balsa e estradas de terra em condições tão ruins que foi necessário o uso de tratores para desatolar alguns dos veículos. De acordo com os relatos colhidos pela fiscalização, todos tinham medo de reclamar porque o fazendeiro e o segurança da propriedade andavam armados. Para que conseguisse fazer a denúncia, um trabalhador explorado conseguiu fugir e teve de caminhar durante seis dias pela mata e por estradas de terra.

Outro destaque na atualização da “lista suja” neste ano é a inclusão de Fernando Jorge Peralta pela exploração de escravos na Fazenda Peralta, em Rondolândia (MT). O Grupo Peralta é um conglomerado empresarial poderoso, do qual fazem parte a rede de supermercados Paulistão, a Brasterra Empreendimentos Imobiliários, as concessionárias Estoril Renault/Nissan (em Santos, Guarujá e Praia Grande), os shoppings Litoral Plaza Shopping e Mauá Plaza Shopping (cuja construção, na época, envolveu uma denúncia de propina), a Transportadora Peralta (Transper) e a PRO-PER Publicidade e Propaganda, só para citar os principais ramos de atividade do grupo. O flagrante que levou Fernando Jorge à “lista suja” aconteceu em 2010 e envolveu a libertação de 11 trabalhadores de sua fazenda.

Luiz Carlos Brioschi e Osmar Brioschi, que também entram na lista nesta atualização, foram flagrados se aproveitando de 39 trabalhadores na colheita do café em Marechal Floriano (ES). Eles mantinham os empregados em regime de escravidão por dívidas e em condições extremamente precárias de trabalho e vida. Dois dias após a libertação ter sido divulgada, Osmar Brioschi esteve entre os homenageados com placas e diplomas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo pelo “trabalho realizado em favor do campo capixaba”, por iniciativa do deputado Atayde Armani (DEM-ES).

Devastação ambiental - Outro aspecto reforçado pela atualização da lista é o elo entre escravidão e devastação ambiental. O uso de escravos em grandes projetos de desmatamento e em áreas com conflitos agrícolas é bastante comum. Desta vez, foi incluído na relação Tarcio Juliano de Souza, apontado como responsável pela destruição de milhares de hectares de floresta amazônica nos últimos anos. Ele é considerado pela Polícia Federal responsável por montar um esquema para desmatar cerca de 5 mil hectares de floresta nativa na região de Lábrea (AM), onde mantém a Fazenda Alto da Serra. Chegou a ser preso em Rio Branco (AC) pelos crimes de redução de pessoas a condições análogas à escravidão, aliciamento de trabalhadores e destruição de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e foi denunciado por tentar comprar um fiscal. Na época, o superintendente regional do trabalho Dermilson Chagas declarou que Tárcio estava à frente de um “consórcio de fazendeiros” do Acre formado para transformar grandes áreas de Lábrea (AM) em pastos, com a utilização criminosa de escravos para o desmate, para criar gado bovino.

Políticos e doutores – Um ex-prefeito, um ex-secretário municipal do Meio Ambiente e dois médicos estão entre os que entraram na relação nesta atualização. O ex-prefeito Edmar Koller Heller foi flagrado em 2010 explorando mão-de-obra escrava em um garimpo na Fazenda Beira Rio, que fica em Novo Mundo (MT), a 800 km da capital mato-grossense Cuiabá (MT), próximo à divisa com o Pará. Edmar foi prefeito de Peixoto de Azevedo (MT) em 2000, pelo extinto PFL (hoje DEM). Teve seu mandato cassado após ser acusado de desvio de recursos públicos, contratação de pessoal especializado sem licitação e contratação ilegal de veículos automotores de auxiliares de confiança.

Em 2007, ele se envolveu em outro escândalo político e chegou a ser preso. Como secretário de Administração da prefeita Cleuseli Missassi Heller, sua esposa, ele foi considerado responsável por improbidade administrativa, configurada pelo favorecimento de uma única empresa em processos licitatórios do município. Em 2009, a Terceira Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve a condenação.

Outro político que passa a fazer parte da lista é Evanildo Nascimento Souza, flagrado com escravos quando ainda era secretário de Meio Ambiente de Goianésia do Pará (PA). O homem que deveria zelar pela natureza foi flagrado explorando trabalhadores justamente no corte e queima de madeira para produção de carvão. De acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT), foram encontrados na Fazenda RDM (onde se localiza a Carvoaria da Mata), em julho de 2009, nove trabalhadores laborando em condições degradantes no corte de madeira, transporte, empilhamento, enchimento dos fornos, vedação do forno com barro e carbonização. Os trabalhadores não possuíam equipamentos de proteção individual (EPIs) e estavam alojados em um barraco em péssimas condições, sujo com detritos, restos de maquinário e peças de veículos, armazenamento de combustível, sem separação para homens e mulheres, nem ventilação e iluminação.

Os médicos incluídos na relação são José Palmiro Da Silva Filho, CRM 830, flagrado com cinco escravos na Fazenda São Clemente, em Cáceres (MT), e Ovídio Octávio Pamplona Lobato, CRM 3236, flagrado com 30 escravos na Fazenda Tartarugas, em Soure (PA).

Para ver a lista atualizada, clique aqui.

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Seis imagens dos protestos de rua em 2011

Limpando a memória do celular neste fim de ano, deparei-me com fotos de manifestações que ocorreram pelas ruas de São Paulo. Posto aqui algumas que estavam no aparelhinho, deixando de lado as da câmera fotográfica. OK, poderia dar várias justificativas, de políticas a tecnológicas para isso, como muitas vezes fazemos nós, jornalistas, quando estamos com preguiça – mas a verdade é essa mesmo. Não se esqueçam que fim de ano é hora de retrospectivas, ou seja, desenterrar e analisar o que foi produzido.

Mesmo debaixo de chuva, a passeata pelo Dia Internacional da Mulher ocupou as ruas do Centro (12/03)

A PM usou de desnecessária violência (para variar) a fim de dispersar uma Marcha da Maconha (21/05). As cenas de selvageria levaram até o governo a repudiar o ocorrido

Flores foram distribuídas aos policiais na Marcha da Liberdade (28/05)

A polícia militar acabou se "acostumando" com as marchas que discutem a descriminalização da maconha após o STF tê-las declarado legais (18/06)

Protesto contra Belo Monte "queima" um boneco representando Dilma na Paulista (20/08)

Manifestação contra a Usina de Belo Monte, no Pará, reuniu entre 500 e 700 pessoas na avenida Paulista, em São Paulo (17/12)

Só o tempo vai dizer, mas creio que 2011 marcou o início da reconquista do espaço público. Como um amigo jornalista bem lembrou, até a revista Time elegeu os manifestantes como a sua personalidade do ano. Espaços públicos ficaram cheios – da Primavera Árabe aos protestos contra medidas de austeridade na Europa; de Occupy Wall Street à multidão russa indignada com as fraudes eleitorais; dos indignados da Espanha aos estudantes chilenos.

Some-se a isso outras tantas ações aqui em Pindorama: protestos contra estações de metrô que têm sua localização alterada em benefícios de um grupo social privilegiado; ocupações de estudantes, de terras improdutivas pelos sem-terra ou de prédios abandonados por sem-teto; manifestações pelo direito ao aborto, pelo uso de substâncias consideradas como ilícitas e outras liberdades; contra a construção de hidrelétricas. Todas têm um objetivo muito maior do que obter concessões de curto prazo.

Como já discuti aqui anteriormente, elas não servem apenas para garantir transporte público, tapar as goteiras das salas de aula, desapropriar uma fazenda, destinar um prédio aos sem-teto ou ainda conquistar direitos individuai. Os problemas enfrentados pelos movimentos envolvidos nesses atos políticos não são pontuais, mas sim decorrência de um modelo de desenvolvimento que enquanto explora o trabalho, concentra a renda e favorece classes de abastados, deprecia a coisa pública (quando ela não se encaixa em seus interesses) ou a privatiza (quando ela se encaixa).

Ou seja, as ações são uma disputa de poder feita simultaneamente em âmbito local e global que, no horizonte histórico, poderá resultar na manutenção da pilhagem econômica, social e cultural da grande maioria da sociedade ou levar à implantação de um novo modelo – mais humano, livre e democrático.

Ver que o pessoal jovem está indo para a rua traz uma lufada de esperança para a busca de nossas respostas. Talvez essa nova geração, auxiliada pela tecnologia, faça a diferença na forma que os que vieram antes ainda não conseguiram fazer. Mas alegria mesmo vai ser quando a periferia das grandes cidades e do país, em peso, ganhar o espaço público para protestar e fazer política. Espero ainda estar vivo quando isso acontecer.

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Você aguenta uma jornada de 24 horas de trabalho?

Estava demorando para acontecer, mas o que é, provavelmente, a primeira libertação de escravos em colheitas mecanizadas do Brasil foi registrada no Estado de Goiás, município de Goiatuba. Ao todo, 39 pessoas que operavam máquinas para o corte da cana chegavam a cumprir jornadas de 24 horas ininterruptas, que, somadas às 3 horas do percurso até o local, totalizavam 27 horas de trabalho. Ou seja, isso não era exceção, como em um dia de fechamento ou final de prazo no escritório. Isso era padrão do dia-a-dia.

De acordo com Roberto Mendes, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego, que coordenou a ação, as jornadas exaustivas a que os trabalhadores eram obrigados caracterizaram o trabalho análogo à escravidão. O grupo trabalhava de domingo a domingo e tinha 24 horas de descanso entre os turnos. Também participaram o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal.

O artigo 149 do Código Penal caracteriza o trabalho escravo de modo a abranger as diferentes formas pelas quais uma pessoa pode ser, hoje, reduzida a essa condição. Desse modo, criminaliza práticas que levem os trabalhadores a condições degradantes de trabalho (ou seja, condições em que a dignidade do trabalhador é desconsiderada) ou a jornadas exaustivas de trabalho (em que ele fica impossibilitado de recuperar suas forças, coloca em risco sua vida e causa danos ao seu relacionamento social). Também está incluído na caracterização o trabalho forçado e qualquer forma de cerceamento da liberdade de se desligar do serviço por dívida ou isolamento geográfico. A definição de trabalho escravo contida na lei não requer a combinação desses fatores para caracterizar o crime, a presença de um desses fatores já se caracteriza em crime.

A libertação ocorreu na Fazenda Santa Laura, que faz parte da Associação dos Fornecedores de Cana Usina Bom Sucesso. A usina Bom Sucesso, adquirida pelo grupo Vital Renewable Energy Company (VREC), em dezembro do ano passado, tem capacidade de moer 1 milhão de toneladas de cana.

As longas jornadas tinham consequências imediatas também. De acordo com a fiscalização, após mais de 20 horas contínuas de trabalho, dois motoristas canavieiros envolveram-se em acidentes devido ao cansaço no volante. A Repórter Brasil, que divulgou a informação sobre a libertação, entrou em contato com o grupo VREC, mas o responsável pela usina não retornou as ligações. A fiscalização ocorreu em outubro, mas as informacões vieram a público em dezembro.

O desenvolvimento tecnológico de uma atividade produtiva não vem, necessariamente, acompanhada de melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores. Pelo contrário, muitas vezes intensifica-se a exploração da mão-de-obra, colocando em risco a segurança ou a integridade dos envolvidos. Auditores fiscais ouvidos por este blog reconhecem que as condições do corte manual da cana – no mínimo, penosas, no máximo, degradantes – são incomparavelmente piores que as do corte mecanizado. Mas tem sido numerosos os casos de graves violações aos direitos dos trabalhadores em lavouras mecanizados, em número até maior que a situação manual, mostrando que não basta uma saída Tabajara, do tipo “Problemas com fiscais?Pois seus problemas acabaram! Ponha uma colheitadeira!”.

Até porque não é a existência de “facão” a razão da imposição de multas e processos trabalhistas a uma fazenda/usina e sim o tosco modelo de produção adotado, de maximizar ganhos em nome da competitividade, adotando um ritmo industrial em um processo agrícola, em detrimento da qualidade de vida dos empregados.

Isso me lembra outro causo. Há mais de 50 anos, o “demônio” apareceu para um grupo de operárias que trabalhavam em uma linha de produção de uma fábrica de cerâmica em São Caetano do Sul. Ações modernizadoras aceleraram o ritmo industrial da produção de ladrilhos, sem que isso fosse devidamente informado às trabalhadoras. Com a atualização tecnológica, a seção que escolhia os ladrilhos, excluída das decisões que levaram às mudanças, continuou manual, mas subjugada à nova velocidade do maquinário. Muitos ladrilhos começaram a sair defeituosos, levando tensão às operárias dessa seção, que tiveram dificuldade para cumprir seu serviço. Oriundas de uma comunidade católica, as trabalhadoras creditaram tal fato à presença do diabo na fábrica: o Coisa Ruim teria o jeitão e o sorriso dos engenheiros, que controlavam tudo de cima. Foi demandada uma missa no local e que a máquina de ladrilhos fosse benzida. O diabo desapareceu. Não apenas por conta daquele ato simbólico, mas também pelo fato da máquina ser ajustada para não causar mais problemas.

Essa história foi analisada pelo professor José de Souza Martins em um artigo que se tornou famoso por tratar das conseqüências da modernização industrial. Segundo ele, quando se separa radicalmente o pensar e o fazer no processo de trabalho, o imaginário pode preencher esse vazio para lhe dar sentido. O demônio apareceu como a figuração da ameaça à humanidade do ser humano pela racionalização do trabalho.

Isso não está apenas na relação arcaico e antigo, na cana ou na cerâmica, mas presente em outras áreas. Nosso querido jornalismo, por exemplo. Quem já se deparou com um colega de redação usando “aditivos” para manter o pique do fechamento puxado sabe o que estou falando. Mais rápido, mais forte, mais alto. Para que? Talvez para poder sobreviver no emprego nesta selva. Talvez para espantar o vazio gerado pelo próprio trabalho.

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A malária mata milhões porque somos idiotas

Morreu, nesta segunda (26), uma diplomata brasileira que contraiu malária em uma missão na Guiné Equatorial em novembro passado. Ao que tudo indica, houve demora no diagnóstico, na internação, no início do tratamento. E, pode ser que tenha havido também falta de informação. Tanto que o próprio Ministério das Relações Exteriores avisou que vai intensificar a divulgação “de medidas profiláticas e de identificação de sintomas”, através de uma nova cartilha a ser criada.

Acompanho com interesse casos de malária desde que peguei a dita duas vezes em reportagens fora do Brasil. E fico bem amuado quando recebo a notícia de que alguém se foi por conta dela, talvez por entender o que a doença significa, talvez pelo fato de que ninguém precisaria morrer por malária se agissemos mais firmemente na prevenção e cura.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 655 mil pessoas morreram, em 2010, pela doença em todo o mundo. Outras centenas de milhões de pessoas devem tê-la contraído, uma vez que ela é endêmica em mais de 100 países – na quase totalidade, regiões pobres do planeta.

É claro que a relação de Casos letais/Investimento em cura é maior nas doenças que acometem a parte rica da população do que a parte pobre. A pesquisa para a busca da cura do câncer recebe muito mais que pesquisas para doenças causadas por parasitas que afetam multidões. Prova disso foi dada pela OMS, neste mês de dezembro, quando divulgou seu relatório anual sobre a doença, ao informar que o número de casos caiu drasticamente devido a recursos financeiros que permitiram acesso a prevenção e tratamento. O financiamento contra malária foi de US$ 1,7 bilhão, em 2010, e US$ 2 bilhões, em 2011. A organização estima que se fossem aportados, por ano, algo entre US$ 5 bi e US$ 6 bi, poderíamos zerar as mortes pela doença. Uma mixaria, se comparado ao investimento em outras pesquisas. E, para piorar, agora, com a crise econômica, a OMS teme que os montante de recursos diminua.

Peguei minha primeira malária em 1998, quando cobri a guerra pela independência de Timor Leste. Tinha recebido autorização para passar uns dias em um acampamento da guerrilha na selva. Comecei a passar muito mal ainda em Timor e fiz a pior viagem de avião da minha vida entre Jacarta e São Paulo. Febre alta, enjôo, sensação de ter tomado cacetada nas juntas por parte da polícia militar na saída de estádio de futebol. Chegando no Brasil, uma longa internação, com os olhos tingidos de cor-de-ovo-de-galinha-caipira, perda de peso, fora os delírios e a freqüente visita de estudantes de enfermagem para poder conhecer, vejam só, um caso avançado da doença. Tudo coroado pelos efeitos do quinino na vida sexual – ainda que temporários – frisemos.

No ano seguinte, durante a cobertura da guerra civil angolana, peguei a dita de novo. E de novo o maldito plasmódio falciparum – bicho ruim, ave do tinhoso, coisa do tranca-rua – que dos tipos de malária é o que mata mais rápido e ligeiro. Pelos cálculos, devo ter pego a pereba em Calulo, província de Cuanza Sul, quando visitava uns campos de refugiados. Considerando que lá é terra da famigerada mosca tsé-tsé, aquela sirigaita que causa a doença do sono, até que fiquei no lucro só com a febre terçã maligna. Lembrando da experiência agradável do ano anterior, resolvi voltar para o Brasil mais cedo a ter que ficar mais uma semana nos belos hospitais de Angola.

Sorte que tive acesso aos melhores médicos, diagnósticos, remédios e tudo o mais. Sorte também que sou encanado com assuntos de saúde (para não dizer hipocondríaco, e estava de olhos nos sinais atentando para as piores possibilidades). E os casos graves, da maioria da população, que não têm esses recursos e são obrigados a esperar por tratamento nem sempre à mão, nem sempre rápido?

Estudos, como o publicado tempos atrás na revista científica Emerging Infectious Diseases, reforçam que o desmatamento na floresta amazônica aumenta a incidência de malária. Nessa pesquisa, uma mudança de 4,2% de aumento no desmatamento foi associada a um aumento de 48% na incidência de malária.

Ou seja, a ocorrência é mais intensa em regiões de fronteira agrícola, no contato do ser humano com áreas preservadas. E a periferia do mundo ainda tem muita floresta para ser vítima da motosserra, vítima de nosso modelo de desenvolvimento que, em última instância, é o grande responsável por tudo isso. O Ministério Público Federal no Pará aponta o aumento nos casos de malária como uma das consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo.

Avançar sem prever os efeitos negativos. Se bem que, no ritmo que andam as coisas, em breve talvez não haja mais floresta para contar história. Se isso acontecer, também não teremos que nos preocupar com mosquitos. Aliás, com nada mais, porque o planeta terá se transformado numa caldeira quente e a vida como conhecemos terá ido para o beleléu.

Retomo o que já disse antes sobre o assunto: se houvesse mais investimento, teríamos uma solução mais rápida. O Brasil tem desenvolvido importantíssimas pesquisas nesse assunto e é referência no tema. Globalmente, contudo, seguimos na velocidade de investimento de doença de pobre. O mais triste é que não está se pedindo tanto recurso assim. Tanto do ponto de vista de prevenção (os baratos mosquiteiros, por exemplo), quanto para tratamento e informação à sociedade.

De uma maneira geral, parte da população vive no século 21 da medicina, enquanto outros ainda engatinham pela Idade Média das filas em hospitais, dos remédios inacessíveis, da falta de saneamento básico e da inexistência de ações preventivas. Na prática, quem consegue jogar xadrez com a Dona Morte e enganá-la por um tempo são os mais ricos, que possuem os meios para tanto. Os mais pobres, por mais que tenham força de vontade e queiram continuar vivendo, não necessariamente conseguem a façanha. Vão apenas sobrevivendo, apesar de tudo e de todos, ajudando com seu trabalho e, algumas vezes, como cobaias de indústrias farmacêuticas, os que ganharam na loteria da vida a terem uma existência mais feliz.

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Violência não é ocupar. É deixar as coisas como estão

O uso da força é um instrumento político. É claro que devido à sua natureza, se utilizado, deve ser apenas em circunstâncias extremas, pois tende a ser uma faca de dois gumes. Pode contribuir para alcançar um objetivo, mas também gerar impactos negativos sobre a imagem de determinado grupo junto à sociedade. Mas é uma alternativa, muitas vezes desesperada, diante da incapacidade do poder público de agir diante do desespero alheio. Ou, pior, quando o Estado é ele próprio agente de desrespeito aos mais fundamentais direitos.

O diálogo e as vias legais devem ser a primeira opção e, se possível, a única. Mas nem sempre o outro lado, hegemônico, está disposto a negociar – principalmente se isso significar perda de regalias (note-se que não falei de perda de direitos, mas sim de regalias). Muitos diálogos terminam em muros intransponíveis pelas vias legais. E, vale a pena lembrar, muitas das leis que impõe desigualdades foram implantadas pelas classe sociais mais abastadas da sociedade, através da ação de seus representantes políticos em parlamentos.

Desigualdades que, sobrepostas e reafirmadas ao longo do tempo através de instituicões como igrejas, mídia, escolas, enfim, os instrumentos à mão, transformam exploração em tradição. O explorado esquece a razão da exploração e acaba aceitando-a, mais ou menos na linha do “Deus quis assim” ou “a vida é assim mesmo”. E, antes que eu me esqueça, maldito homem cordial brasileiro! Pessoa do deixa-disso do pára-com-isso, que não bate-boca, que não debate porque lhe foi ensinado que isso é feio. Com isso, não evolui, nem ajuda a evoluir.

Por essas e por outras, creio no poder da desobediência civil.

Para fugir da barbárie, cedemos ao Estado o uso da violência. Mas o próprio Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário), tomado, cooptado ou parceiro de alguns grupos sociais, é instrumento de repressão social. Nesse caso, recorrer a quem?

Jovens ingleses desempregados, sem esperança e perspectivas, sob uma longa recessão econômica e uma polícia despreparada para ligar com protestos, iniciam uma revolta e são chamados de vândalos. A polícia do Rio Grande do Sul mata um trabalhador rural, que procurava terra para plantar, e os sem-terra é que são vândalos. A Justiça despeja centenas de famílias humildes de um terreno em São Paulo, que procurava um lar, e os sem-teto é que são vândalos. Jovens ricos criam bandos para espancar e matar e moradores de rua e a população de rua, que procura simplesmente existir, é que é vândala. Grandes obras de engenharia superexploram trabalhadores em nome do progresso, usando até trabalho escravo, e operários, que procuram o mínimo para ter dignidade, se cansam de tudo e resolvem por tudo abaixo é que são vândalos. Fazendeiros invadem terras indígenas no Mato Grosso do Sul e prometem bala para quem cruzar a cerca e os indígenas que moravam ali, e procuram ser eles mesmos, é que são vândalos.

Uma ocupação por sem-terras de uma fazenda improdutiva, que desmate ilegalmente ou que use escravos, uma tomada por sem-tetos de um prédio mantido fechado por especulação imobiliária, a reconquista de uma terra indígena utilizada ilegalmente por uma fazenda de cana, a resistência à expulsão de comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas, que sairiam para dar lugar ao “progresso” e ao “desenvolvimento”, são ações necessárias para fazer valer o direito à vida de muitas populações. O que é pior? Ter uma fazenda que cultiva vento ou crianças se alimentando decentemente através da mesma terra? Ah, mas agora tem o Bolsa Família. Sim, claro, e ser alimentado ad infinitum por não conseguir obter o sustento com as próprias mãos é o sonho de todo brasileiro.

Nesse ponto, ações usando a força devem ser consideradas como legítima defesa e não como violência gratuita. Da mesma forma que uma ocupação em praça pública no Egito, que impeça o país de funcionar normalmente enquanto um ditador não deixar o poder. Ou o bloqueio de rodovias que chegam a La Paz, enquanto os direitos de populações tradicionais não forem respeitados. E até mesmo a resistência contra o salve-se-quem-puder do capitalismo global, atormentando a vida do mercado financeiro em Wall Street, em Saint Paul ou na ruas de Roma.

Muitas vozes se levantam para reclamar da “violência” resultante dessas ações, mas se calam diante de massacres, chacinas e genocídios que ocorrem diariamente. Afinal de contas, é uma ação necessária contra povos bárbaros que usam facões e foices, enfim armas de destruição em massa. Ou contra jovens que resolveram, de uma hora para outra, questionar o que eles são muito novos para entender – como ordem, hierarquia e tradição. Valores de uma civilização representada por fuzis, colheitadeiras, motoserras, terno e paletó que, mais cedo ou mais tarde, vai ter que mudar.

Ou não vai sobrar muito para os “vencedores” se lambuzarem.

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Neste Natal, quero uma internet que entenda ironia

Acordei querendo – além de uma outra dose de Sidra – ganhar um presente neste Natal.

Para quem endereço a solicitação tardia? Se tivesse que escolher um bom velhinho para recebê-la e encaminhá-la certeira ao Todo Poderoso, certamente não seria um cara de vermelho e cabelo branco. Ou melhor, seria.

Lembro quando Bento 16 defendeu a solidariedade em uma carta a bispos brasileiros. A que sentimento ele se referia? Se foi do tipo “caridade” – que consola mais a alma daquele que doa do que o corpo daquele que recebe – estava pregando a continuidade de uma igreja que ainda não consegue entender as palavras revolucionárias que estão no alicerce de sua própria fundação.

Mas há também a solidariedade de reconhecer no outro um semelhante e caminhar junto a ele pela redenção da alma e do corpo de ambos. Se ele falou dessa, referiu-se à Teologia da Libertação. Seria bonito, mas irônico, ver o Vaticano pregando algo que tenta soterrar há tempos. Algo tocado adiante por pessoas como Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno, Henri des Roziers e Xavier Plassat, que estão junto ao povo, defendendo o direito à terra e à liberdade e acolhendo camponeses, quilombolas, indígenas e demais excluídos da sociedade.

Conversando com um jornalista amigo, ele disse que perguntou a dois ícones da Teologia da Libertação se faziam o que fazem por ética ou por fé. Não deram resposta. Até porque duvido que haja uma. Afinal de contas, quem tem mais fé? O que acredita piamente na humanidade a ponto de dedicar sua vida a ela ou aquele que espera que a Verdade seja revelada de fora para dentro?

Enfim, postei todo esse arrazoado de coisas e quase ia me esquecendo o que queria pedir neste Natal: que a ironia, como figura de linguagem, mas também as grandes ironias da vida, sejam plenamente compreendidas na internet brasileira em 2012. Sem necessidade de legenda ou tecla SAP.

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O que um juiz faria com R$ 77,00 de aumento salarial?

Dilma Rousseff assinou, nesta sexta (23), o decreto que determina o valor de R$ 622,00 para o salário mínimo a partir de janeiro de 2012. São 77 mangos a mais do que os R$ 545,00 de hoje – ou 14,13%.

Enquanto isso, o salário mínimo mensal necessário para manter dois adultos e duas crianças deveria ser de R$ 2.349,26 – em valores de novembro de 2011. O cálculo é feito, mês a mês desde 1994, pelo Departamento Intesindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese).

O Dieese considera o que prevê a Constituição, ou seja: “salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo, vedada sua vinculação para qualquer fim”.

Mas como todos sabemos, o artigo 7º, inciso IV, da Constituição Federativa do Brasil, que trata dessa questão, é uma das maiores anedotas que temos na República.

O governo federal atrelou o ritmo de crescimento do PIB ao do salário mínimo, na tentativa de resgatar seu poder de compra. O combinado prevê reajustes baseados na inflação e na variação do PIB. Como o crescimento foi bom em 2010, o aumento será mais significativo. Mas estamos longe de garantir dignidade com esse “mínimo de brinquedo”. Nas grandes cidades, são poucos os que recebem apenas esse piso. Contudo, segue referência para milhões de famílias que têm aposentados como arrimos.

Ninguém está pregando aqui a irresponsabilidade fiscal geral e irrestrita, mas o aumento do salário mínimo é uma das ações mais importantes para melhorar a qualidade de vida do andar de baixo. Afinal de contas, salário mínimo não é programa de distribuição de renda, é uma remuneração mínima – e insuficiente – por um trabalho. Não é caridade e sim uma garantia institucional de um mínimo de pudor por parte dos empregadores e do governo.

A evolução no seu valor de compra desde o Plano Real mostra que estamos melhorando. O problema é que saltos no gráfico não revelam que, na média, o salário mínimo continua uma desgraça sem vergonha.

Acordei pensando o que deve passar pela cabeça de uma pessoa que mora no interior do país, recebe pouco mais de um mínimo e tem que depender de programas de renda mínima para comprar o frango do Natal, quando vê na sua TV velha a notícia de juízes que receberam, de uma só vez, centenas de milhares de reais em pagamentos atrasados de auxílio-moradia, se defendendo de críticas usando o nome da Justiça. E, pouco depois, no mesmo telejornal, a notícia de que o Estado, em sua magnanimidade, lhe dará a garantia de mais R$ 77,00 ao final do mês.

Naquele momento, alguns desses engolem o choro da raiva ou da frustração e torcem para a novela começar rápido e poderem, enfim, esquecer o que acabaram de ver. Não porque precisam se mostrarem fortes – sabem que são. Mas porque também sabem de que não adianta se indignarem. Afinal de contas, o país não é deles mesmo.

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Fogo não é o maior problema de uma favela

Reportagem de Guilherme Balza, do Uol Notícias, sobre a disputa entre a Prefeitura de São Paulo e os moradores da favela do Moinho, que pegou fogo nesta quinta (22), trouxe uma informação que ajuda entender porque a Paulicéia é desvairada.

Há cinco anos, a empresa proprietária do terreno onde fica essa comunidade demonstrou interesse em doá-lo aos moradores. Mas a administração municipal não aceitou sob argumento de que não era possível alojar famílias no local. No mesmo ano, Gilberto Kassab emitiu decreto para desapropriar a área. Como a própria Prefeitura disse que a região não serve para residência (há justificativas de que a área está contaminada, o que é refutado por moradores), então deve possuir outros usos para ela, como finalidades públicas, comerciais ou de lazer.

Fascinante. Não é possível alojar moradores, mas provavelmente deve ser plausível receber bancos, salas de concertos e de exposições, teatros, sedes de multinacionais, escritórios da administração pública, restaurantes, equipamentos públicos. Ah, e é claro, apartamentos – desde que de pessoas que tenham dinheiro para pagar para morar em uma região com toda a infra-estrutura de transportes, saneamento, energia.

E a gente de lá, com todas as suas redes de amizades e relações profissionais, que se estabeleceram ao longo de 30 anos? Ao invés de urbanizar o local, garantindo a manutenção de pelo menos parte das mais de 500 famílias que hoje vivem na favela, dando mais vida ao Centro de São Paulo, o governo quer sacá-los. Talvez porque não se encaixem no plano de desenvolvimento para o Centro da cidade, que está ganhando investimentos públicos e privados. Sabe como é, né? Aquele bando de gente pobre só ia jogar o preço do metro quadrado para embaixo e afastar os “homens de bem” de perto.

A área central de São Paulo é alvo prioritário dos movimentos por moradia porque já tem tudo – transporte, cultura, lazer, proximidade com o trabalho. Ao longo do tempo, fomos expulsando os mais pobres para regiões cada vez mais periféricas. Eles, que têm menos recursos financeiros, gastam mais tempo e mais de sua renda com transporte do que os mais ricos que ficaram nas áreas centrais – com exceção das Alphabolhas da vida.

Cortiços e pequenas favelas em regiões retratadas no passado por Alcântara Machado no livro “Brás, Bexiga e Barra Funda” e também nos antes requintados Campos Elísios abrigam dezenas de famílias. Sem o mínimo de saneamento básico, às vezes sem água e sem luz. A maioria dos moradores desses locais prefere continuar assim, pois transporte é o que não falta e a casa fica próxima ao trabalho – ao contrário do que acontece em bairros da periferia, onde o trajeto até o centro chega a levar três horas, dentro de ônibus superlotados.

Tem sido função da Prefeitura tornar a vida desse pessoal um inferno até que eles saiam. E a desse pessoal, resistir. Feito o Cerco a Viena, de 1529, pelo Império Otomano. Naquela ocasião, o exército inimigo era numericamente superior, enquanto a elite paulistana é um mísero grão de areia frente ao restante da população pobre. Que aqui existe para servir.

Torço para que o fim seja o mesmo, com o Moinho resistindo a líderes que não sabem planejar.

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Pena de morte para quem maltrata cachorro

A internet replicou imagens bizarras de uma mulher espancando um cachorro. Para ela, todo o rigor previsto em lei, é claro. O problema é que começaram a pipocar no Twitter, Facebook, blogs e afins uma miríade de pessoas, tão dodóis quanto a dita, sugerindo linchamento em praça pública, imolação em fogueira, separação de membros por cavalos em fúria, pisoteamento por bodes chapados em ácido e até assassinato. Outros queriam a aplicação imediata da lei de Talião, o velho olho por olho, dente por dente. Ou seja, fazer dela a mesma peteca em que transformou cretinamente o au-au. O mais interessante é que os comentários da turba foram ditos e reditos, aprofundados e revisitados, sem o menor pudor. Era sangue que o povo queria. Mesmo para os padrões covardes do anonimato na internet (tem gente que se protege atrás de um monitor pois, na vida real, sua coragem é menor que um mouse), esse caso assustou.

E vamos indo da barbárie para a decadência sem passar pela civilização.

Algum fuinha vai tirar o pó do seu Tico-e-Teco e dizer: “Ah, lá vem o japa defender bandido”. Ô frase que me dá preguiça da humanidade! Pode ser uma visão por demais hobbesiana do mundo, mas o Estado – esse cretino opressor de uma figa – está aí para impedir uma catástrofe maior (ao menos enquanto não tivermos consciência o suficiente para tomar o seu papel – mas isso é outra história). E ao criticar linchamentos públicos, não defendo “bandido”, mas sim o pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver (minimamente) em harmonia. Em suma, abrimos mão de resolver as coisas por nós mesmos para impedir que nos devoremos. Se a máquina está com defeito, conserte-a. Não a defenestre.

No ano passado, um caso dobrou meu consumo diário de Pantoprazol. Cirso Fernandes Guilherme foi espancado até a morte e teve a casa incendiada e o bar destruído por uma turba de 20 tresloucados, após ser acusado de ter sido o responsável pela morte de uma adolescente de 14 anos em Marília (SP). Exames preliminares, mostravam que a jovem não havia sofrido violência e poderia ter morrido por outro motivo.

Cirso não teve direito à defesa ou à recurso. Foi julgado e executado pela irracionalidade coletiva. Para muita gente, esse tipo de decisão sumária é linda, seja feita pelas mãos da população, seja pelas do próprio Estado, ao caçar traficantes em morros cariocas ou na periferia da capital paulista. Se com o devido processo legal, inocentes amargam anos de cadeia devido a erros, imagine sem ele? Como não dá para dar Ctrl+Z em injeção letal, imagina a quantidade de “Ops, foi mal” seguida de indenizações contra o Estado que surgiriam pelo rosário de burradas cometidas se a pena de morte fosse aqui legalizada?

“Se a gente fez, ele deve. Alguma coisa ele deve.” A frase, dita por uma pessoa que participou do linchamento, perturba. O morto é culpado porque nós o punimos. Nem o pessoal do Monty Phython faria melhor.

Um pecuarista, que já havia sido flagrado com trabalho escravo, deixou de pagar pela enésima vez o salário de seus empregados, anos atrás, no Sul do Pará. Dizem as autoridades locais que, enfim, os peões resolveram se rebelar: fizeram uma emboscada na porteira e, quando ele chegou, teriam dado cabo da sua vida a golpes de foices e enxadas. Vingança? Idiotice.

Sabemos da dificuldade de levar um tipo desses a julgamento e, estando lá, de conseguir uma condenação real por seus crimes. Mas creio que todos os que lutam para que Justiça não seja uma palavra bonita numa capa dura de um livro não se sentem contemplados com o passamento do fazendeiro supracitado ou de figuras folclóricas como Augusto Pinochet, Suharto, Erasmo Dias, Coronel Ubiratan, e tantos outros que se foram antes de responder pelo que fizeram. Não quero uma saída “Nicolas Marshall”. Quero apenas que a Justiça funcione. E, com isso, a sociedade consiga saldar as contas consigo mesma, discutindo-se, entendendo-se.

Não era bom marido? Mau pagador de impostos? Trapaceava nas cartas? Vendia bebidas vencidas ou não lavava os copos com decência? As porções servidas no bar não eram dignas? Era avarento, invejoso, preguiçoso? Lançava-se à luxúria? Torcia para o time errado? Dava “bom dia” de dentes cerrados? – ah, os dentes cerrados… Entregava-se à bebida? Não ia à missa todos os domingos? Era econômico nos elogios? Ou, quiçá, pior? Usava mão-de-obra escrava? Violentava crianças? Maltratava animais? Pau nele. De vez em quando não sei de quem tenho mais medo: dos bandidos, dos “mocinhos” ou de nós mesmos.

Bandido bom é bandido morto? Para começo de conversa, diga-me com quem andas que te direi quem és. Afinal de contas, matar é solução para pau que nasce torto, que não tem jeito, morre torto. E, pior ainda na periferia, onde filho de peixe, peixinho é. Revidar é nosso direito, pois quem com ferro fere com ferro será ferido. Ou eles ou nós, pois o pior cego é aquele que não quer ver.

É tão gostoso repetir idéias feitas sem precisar pensar, né?

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Os dez posts mais comentados de 2011

Final de ano é hora de fazer balanço. No meu caso, tempo de trocar o patuá, desgastado e carcomido por conta das palavras de carinho endereçadas à minha pessoa aqui neste espaço. Foram dezenas de milhares de comentários publicados, boa parte deles querendo meu fígado – noves fora um montante considerável defenestrado por conter alguns crimes de ódio. Coisa de gente deselegante, sabe?

A comunidade que se formou em torno do blog já sabe que me divirto com as ofensas. Só os visitantes eventuais ainda acham que adianta alguma coisa dizer que sou “petralha” ou “tucanalha”, que mamo nas tetas do Estado, que vou para o inferno, que sou um “emaconhado” (adoro essa palavra!), que tenho uma clínica de abortos, enfim. Que sou a encarnação de Valdemort.

De vez em quando, paro para refletir que alguns comentaristas são como cabeça de bacalhau e filhote de pomba, não podem existir de verdade, são construções de brincalhões que aproveitam a hora do recreio no escritório para aloprar um pouco. Mas aí, quando sinto a sinceridade em seus corações, penso “danou-se” – a gente tem muito o que caminhar ainda.

Contudo, confesso, vocês não têm noção de como é delicioso ler um comentário raivoso, desses que soltam baba e, alguns dias depois, publicar um novo texto sobre o mesmo assunto e ver o mesmo comentarista intolerante se estrebuchando de raiva novamente. Passar mal com os comentários? Imagina! É eles que passam mal comigo.

Portanto, para comemorar este final de ano, peguei os dez textos mais comentados do ano, pincei um comentário de cada quase aleatoriamente e postei uma justa tréplica para cada. Divirtam-se. Se puderem…

1) A maioria da população é contra a união gay. E daí? (1.119 comentários)

“O que queremos apenas é mostrar que se fossem obedientes a Deus, os skinheads, amariam a todas as pessoas e jamais agrediriam quem quer que fosse.
 O que queremos mostrar é que se os homossexuais obedecessem a Deus, jamais seriam agredidos.”

Tréplica do blogueiro: Medo.

2) Dilma tira crucifixo do gabinete. Falta o resto do país (1.030 comentários)

“Logo que Dilma assumiu, depois que retirou o Crucifixo e a Bíblia [do seu gabinete], aconteceu a grande tragédia no Estado do Rio.”

Tréplica do blogueiro: É. Não havia tragédia natural durante a Idade Média na Europa.

3) “Obras [contra enchentes] não ficam prontas em 24 horas” E em 20 anos, dá? (885 comentários)

“O problema [das enchentes] não são os tucanos no governo, são os petistas que jogam lixo na rua.”

Tréplica do blogueiro: Sim, porque como todos sabemos, não há tucano porco, muito menos petista incompetente.

4) Que vergonha de ser hétero (878 comentários)

“vergonha pra vc pra mim nao, o homosexuais querem impor por guela baixo a escolha deles isto e um absurdo querem leis de privilegio, se eles podem ter o dia em que eles comemoram a opcao deles (a desculpa nao e opcao) podemos nos como homens comemorar nosso dia, abaixo a ditadura gay quero ver vc colocar este comentario. ha esqueci vc tem vergonha de ser hetero entao nao vao colocar”

Tréplica do blogueiro: Como queríamos demonstrar.

5) Meu olho está vermelho é de gás lacrimogênio (826 comentários)

“como pai de familia, fico aliviado que a policia não deu mole pra esta manisfetação, criei meus filhos fazendo-os pegar nojo deste tipo de coisa (drogas), e não admito estar errado em minhas convicções com relação a isto, ja existe muita coisa que faz mal para as pessoas, como alcool,¨remédios¨ , já estamos engolindo muito ¨sapo¨ de uns tempo pra cá, (vcs me entendem). chega , gente de bem e de valores éticos , por favor , reflitam.”

Tréplica do blogueiro: Não admito estar errado. E para garantir que continue assim, tiro de borracha e gás lacrimogênio neles! O que esse pessoal pensa que isso é? Uma democracia?

6) Parlamentares deveriam ser responsabilizados por homofobia (804 comentários)

“Homoxessual é morto quase sempre por problemas relacionados aos seus relacionamentos gay em sua maioria são promiscuos e tem muiiiitooos parceiros o que faz com que haja muita discussão muito ciúme e muita violência, alías é só fazer uma pesquisa com a polícia e as assistentes sociais que você verá o que digo. Atacar religião pode até ser um caminho para você mas lembre-se o Brasil é o pais mais evangélico do mundo, então você está inrritando muita gente. Além do que a proposta de lei é um verdadeiro aborto de castas no Brasil, ridícula do ponto de vista jurídico e do ponto de vista social.”

Tréplica do blogueiro: Sim, claro. O cara que agrediu um homossexual com uma lâmpada fluorescente na avenida Paulista estava apaixonado por ele. Gênio…

7) Parabéns, São Paulo! Você continua injusta (742 comentários)

“Quanta asneira desse japa. Ele pouco sabe que o Senado e o congresso ta é carregado de nordestinos.
 Até pelo fato de o Nordeste ter mais Estados. Esse neto de imigrantes japas que alias, além de invadirem e estruparem mulheres na Coréia e na China, vinham migrar para a América do Sul. Mal sabe que uma cidade com 12 milhões de habitantes, é praticamente impossivel em um Estado ultra-capitalista e SP é a cara desse ultra-capitalismo, que combater desigualdade é praticamente uma utopia, como o marxismo. E cara de japa não.. e sim de cearense.
 E outra… Se SP fosse o paraiso, milhões de nordestinos, sulistas e nortistas invadiram essa metropole que ainda cuspe. E no tempo desses bandeirantes, eles foram desbravadores e invasores, herois da metropole e não do Brasil. Japa eufemista safado.”

Tréplica do blogueiro: O bom de textos críticos sobre São Paulo é que, se havia alguma dúvida sobre a veracidade das críticas, elas são prontamente confirmadas pelos comentaristas.

8 ) Estamos mais parecidos com a Europa. Infelizmente (655 comentários)

Nessa, vou aloprar. Alguns textos meus fazem sucesso nas páginas de Orgulho Branco por aí. Rolou um fórum de discussão sobre este, do qual pinço um comentário. Atenção: é exatamente do mesmo nível daqueles que são deletados deste blog. Mas, por curiosidade antropológica da diversidade humana, creio que é válido só desta vez:

“É apenas mais um comunista anti-branco na mídia, no meio de tantos outros. Quanto aos bolivianos, aqui em SP são sem dúvida nenhuma os não brancos mais sujos e mais problemáticos, pela quantidade deles que não para de aumentar (é só ir na estação da luz durante a semana para saber do que eu estou falando) e o número de filhos que eles tem, não duvido nada de que os bolivianos venham a ser um grande problema por aqui nos próximos anos… SP já tem nordestinos e não brancos suficientes, essa invasão de bolivianos só vai piorar a situação. MAS antes o Brasil do que a Europa. Pelo menos nesse ponto isso é positivo, afinal se essa gente não viesse para o brasil provavelmente estariam infectando ainda mais os países verdadeiramente brancos.”

Tréplica do blogueiro: “Mérito” desse sujeito é ser honesto. Pois há muito comentarista aqui que pensa a mesma coisa e doura a pílula, mantendo o germe da intolerância na resposta.

9) Uns chamam de vandalismo. Mas é democracia (572 comentários)

“Você é doente mesmo Sakamoto. Não vale a pena nem comentar esse besteirol todo. Santa Cretinice!”

Tréplica do blogueiro: “Putz, não entendi o texto. Ah, mas é só chutar o japonês porque ele deve estar errado”.

10) Não quero ser filho do Bolsonaro (471 comentários)

“Eu concordo com ele e sou contra que minhas filhas namorem gays e ficaria muito chocado a ponto de deixar de amar se uma delas virasse lésbica. Meu pensamento é de que sexo é para gerar filhos e não para prazer, idéia não compartilhada pela minha esposa. Para ela, casamento é sexo com prazer, e para mim, casamento é viver em harmonia, cuidando da casa e dos filhos para que eles formem novas vidas e famílias.
 Os valores harmoniosos de uma sociedade educada, respeitada (respeitosa?) e moralizada estão sendo destruídos por esta liberalidade sexual, de drogas, relações homossexuais e promiscuidade, muito difundidos pelos famosos artistas e esportistas que ganham $$$ e fazem o que querem. Por isto, sinto saudades da ditadura, quando os valores da sociedade e da família eram mais valorizados.”

Tréplica do blogueiro: Faça sua esposa feliz.

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