Blog do Sakamoto

Fogo não é o maior problema de uma favela

Reportagem de Guilherme Balza, do Uol Notícias, sobre a disputa entre a Prefeitura de São Paulo e os moradores da favela do Moinho, que pegou fogo nesta quinta (22), trouxe uma informação que ajuda entender porque a Paulicéia é desvairada.

Há cinco anos, a empresa proprietária do terreno onde fica essa comunidade demonstrou interesse em doá-lo aos moradores. Mas a administração municipal não aceitou sob argumento de que não era possível alojar famílias no local. No mesmo ano, Gilberto Kassab emitiu decreto para desapropriar a área. Como a própria Prefeitura disse que a região não serve para residência (há justificativas de que a área está contaminada, o que é refutado por moradores), então deve possuir outros usos para ela, como finalidades públicas, comerciais ou de lazer.

Fascinante. Não é possível alojar moradores, mas provavelmente deve ser plausível receber bancos, salas de concertos e de exposições, teatros, sedes de multinacionais, escritórios da administração pública, restaurantes, equipamentos públicos. Ah, e é claro, apartamentos – desde que de pessoas que tenham dinheiro para pagar para morar em uma região com toda a infra-estrutura de transportes, saneamento, energia.

E a gente de lá, com todas as suas redes de amizades e relações profissionais, que se estabeleceram ao longo de 30 anos? Ao invés de urbanizar o local, garantindo a manutenção de pelo menos parte das mais de 500 famílias que hoje vivem na favela, dando mais vida ao Centro de São Paulo, o governo quer sacá-los. Talvez porque não se encaixem no plano de desenvolvimento para o Centro da cidade, que está ganhando investimentos públicos e privados. Sabe como é, né? Aquele bando de gente pobre só ia jogar o preço do metro quadrado para embaixo e afastar os “homens de bem” de perto.

A área central de São Paulo é alvo prioritário dos movimentos por moradia porque já tem tudo – transporte, cultura, lazer, proximidade com o trabalho. Ao longo do tempo, fomos expulsando os mais pobres para regiões cada vez mais periféricas. Eles, que têm menos recursos financeiros, gastam mais tempo e mais de sua renda com transporte do que os mais ricos que ficaram nas áreas centrais – com exceção das Alphabolhas da vida.

Cortiços e pequenas favelas em regiões retratadas no passado por Alcântara Machado no livro “Brás, Bexiga e Barra Funda” e também nos antes requintados Campos Elísios abrigam dezenas de famílias. Sem o mínimo de saneamento básico, às vezes sem água e sem luz. A maioria dos moradores desses locais prefere continuar assim, pois transporte é o que não falta e a casa fica próxima ao trabalho – ao contrário do que acontece em bairros da periferia, onde o trajeto até o centro chega a levar três horas, dentro de ônibus superlotados.

Tem sido função da Prefeitura tornar a vida desse pessoal um inferno até que eles saiam. E a desse pessoal, resistir. Feito o Cerco a Viena, de 1529, pelo Império Otomano. Naquela ocasião, o exército inimigo era numericamente superior, enquanto a elite paulistana é um mísero grão de areia frente ao restante da população pobre. Que aqui existe para servir.

Torço para que o fim seja o mesmo, com o Moinho resistindo a líderes que não sabem planejar.

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Comentários

25 Responses to “Fogo não é o maior problema de uma favela”

  1. Jonatas disse:

    Trabalhei há alguns anos em uma ONG que lida com questões de moradia para pessoas em situação de extrema vunerabilidade social.

    Cheguei a trabalhar com um projeto de intervenção emergencial na favela do Moinho, que fica bem no coração do centro. Um assentamento extremamente precário que combina favela com ocupação de um edifício – um lugar terrível que pouquíssima gente conhece e de onde pode se avistar o Banespa.

    Em conversa com a superintente da secretaria de habitação da prefeitura, fomos informados que, apesar dos moradores terem conseguido o direito a morar no lugar por usocapião, o fato do terreno estar contaminado, alegou a prefeitura, inviabilizava esse uso. Assim, a prefeitura brigava na justiça para que os moradores exercessem o usocapião em outro lugar – assim mesmo, o direito ao uso, só que bem longe.

    Foi um banho de água fria saber que o terreno estava contaminado até saber, pelos jornais, que a prefeitura planejava construir ali um belo parque para revitalizar a região. Ou seja, ou a prefeitura mentiu ao dizer que o terreno estava contaminado, ou iria construir um parque em região de risco. Fico com a primeira opção.

    É um festival de desmandos e de crimes que têm levado o poder público a criar políticas de esvaziamento do centro para atrair a classe média. Só que não está dando certo, nem do ponto de vista desse projeto. A Nova Luz é um exemplo de como esse projeto de exclusão é um fracasso até na hora de implementar a própria exclusão. O centro está fadado a ser uma zona vazia e morta, onde nem pobres e ricos têm o direito ou a vontade de habitar…

    • O Asno disse:

      Eu sabia que tinha um culpado!

      Pronto
      o culpado é o Kassab.
      Simples assim.

      Vamos passar o tempo presente
      e boa parte da eternidade futura procurando culpados,
      somente culpados que são nossos adversários políticos, claro, claríssimo!

      Como tem culpado, não?
      Tem culpado prá mais de ÔCENTROS anos…
      é muito… é culpado que num acaba mais não… acaba não…

      Bom,
      como já arranjaram um culpado e já descobriram tudo,
      agora sinto que o mundo ficou um pouco melhor…
      maravilha maravilhosa…
      não há mais o que comentar…
      só alegria porque descobriram um culpado, que é inimigo político, claro,
      e então tudo por tudo só vai melhorar…

      Ah!
      Aproveito
      o ensejo para desejar à todos um Feliz Natal!
      Faço votos que a mensagem do Natal alcance a todos!

      Eu cá comigo e meus botões,
      lendo o Codex Sinaítico,
      vi os seguintes textos a respeito do Natal,
      que lavro na forma abaixo e assino,
      com o raso sinal que dele faço uso:

      O povo que andava em trevas,
      viu uma grande luz,
      e sobre os que habitavam
      na região da sombra da morte resplandeceu a luz.
      Isaías 9:2

      Porque um menino nos nasceu,
      um filho se nos deu,
      e o principado está sobre os seus ombros,
      e se chamará o seu nome:
      Maravilhoso,
      Conselheiro,
      Deus Forte,
      Pai da Eternidade,
      Príncipe da Paz.

      Feliz Natal à todos!

  2. Pedro Munhoz disse:

    Sakamoto, em Belo Horizonte também estamos passando por um fenômeno vergonhoso no mesmo sentido. Sob a égide da “revitalização” as administrações procedem a verdadeiras “higienizações sociais”, em moldes que deixariam orgulhosos os próceres desse ideário, como o engenheiro Pereira Passos. A iminência da Copa do Mundo também parece estar funcionando como um catalisador para esses processos. As elites enxergam os processos de gentrificação artificiosos engendrados nas cidades brasileiras como algo positivo, quando muitas vezes eles mascaram associações escusas entre o setor público e interesses privados e uma mal contida vontade política de eliminar do campo de visão os “feios, sujos e malvados”.
    Muito oportuno o texto.

  3. Cleiton Esteves disse:

    Puxa vida !
    A única favela que existe no país é esta de SP ???
    A única que pegou fogo é esta de SP ???
    A única em que as pessoas vivem em condições miseráveis e desumanas é esta de SP ???
    Ainda bem : assim vai ser fácil resolver , né ? Basta a gente usar aquela dinheirama que se derrama mensalmente em peças publicitárias do Governo Federal para resolvermos mais este problema do país….
    Afinal em Salvador , Recife , Rio de Janeiro, Porto Alegre, etc … nunca houve , nem mesmo há problemas deste tipo…
    Sakamoto : como nenhuma outra grande cidade deste país precisa erradicar este tipo de problema e de como receber vultosas quantias do Governo Federal você entende bastante – então ajuda o pessoal de SP a receber esta grana , ajuda aí , Ô meu !!!!

  4. JDP disse:

    De repente Kassab se torna responsável pela migração de gente de outras regiões para São Paulo. A colonia de migrantes em São Paulo é formada por pessoas que vieram para cá em busca de uma vida melhor. Muitos conseguiram o que desejavam , mas a maioria ficou no meio do caminho como acontece em qualquer processo seletivo. Resta-lhes então o caminho da sub moradia e péssimas condições de vida. Para completar esse quadro essas pessoas tem baixa ou nenhuma qualificação , sendo que a maioria não procura evoluir nesse aspecto e acaba vivendo de bicos quando não do crime. O interessante é que elas não pensam em voltar aos lugares de origem , sugerindo ser ainda a melhor opção permanecer na capital. Não acho que o estado deva ser tão paternalista à ponto de oferecer a essa população um padrão de vida que eles não possam custear. Tal comportamento é por demais utópico. Não é justo que um mecanico de automóveis por exemplo more em Ferraz de Vasconcelos em um quarto e sala alugados , pegue tres conduções para trabalhar no centro e um sem teto tenha a mesma comodidade nos Campos Eliseos . Tal pensamento só pode existir na cabeça de quem não trabalhou na vida , não conheceu dificuldades , não teve que trabalhar de dia e estudar à noite para melhora de vida. O conceito de acabar com a pobreza deveria ser entendido como uma ferramenta que se dá aos menos favorecidos para que eles mesmos saiam da pobreza absoluta. E essa ferramente não pode ser dinheiro e nem doações , e sim compromisso e reciprocidade.

  5. cesar disse:

    Estamos sendo injustos com o Kassab (O administra-dor). No programa Roda-morta, ele disse que alguns dos problemas que São Paulo possui, como favelas, Cracolândia e etc, outras grandes cidades do mundo tambem possuem, tal como Frankfurt, Helsinke, Oslo, Estocolmo, Genebra…
    Mas estas cidades não tem Kassab’s, que manda interditar uma importante avenida, para as pessoas verem neve artificial!
    Mas onde estará também a policia, que costuma descer o “pau” em quem vai se aglomerar naquela avenida?

    • Cleiton Esteves disse:

      Provavelmente a polícia esteja ocupada em botar na cadeia baderneiros que resolveram trasnformar a Universidade ( lugar público ) em terra de ninguém… vai procurar culpado em outro lugar , meu caro !
      A Admoinistração pública não tem que atender a interesses de pilantrinhas que desrespeitam a lei.

  6. Vinicius Coquette disse:

    A perversidade da política habitacional de SP é essa. Aplica-se o torniquete social nesses moradores, privando-os de qualquer benefício até que o fogo resolva tudo, e a área vira questão de disputa e não mais de esquecimento por parte da Prefeitura.
    As possibilidades de um centro revisto estão todas evidentes. Todo mundo sabe o óbvio do resgate do centro da cidade pela população que faz uso dele, para trabalhar, se divertir, estudar. Mas, existe o filtro fascista nos olhos repletos de razão da classe média paulista (falo em nome do interior também), de que pobre não tem “costume” para coexistir no centro da cidade, e merece mesmo a periferia. Afinal, “foram eles” que emporcalharam o Pq Dom Pedro, o Brás, a Luz, e não a falta de amparo social das Prefeituras sucessivas. Então é isso população pobre de SP, quanto mais longe e invisível melhor.
    Infelicidade essa que, para os que não tem estômago forte, recomenda-se não sair da Capital rumo ao interior, por que o fascismo aqui é brabo. Aqui em São José dos Campos, “matá tudo mundo nas cadeia e nas favela” é receita de brigadeiro, de tão comum que é entre a classe média.

  7. Renê disse:

    eu vi pelo google maps que a favela fica no exato espaço entre duas pistas de trens, onde os trilhos formam entre eles um pequeno espaço. É bem apertadinha aquela área. O ruído dos trens deve ser bizarro

    exatamente por isso suponho que não exista interesse comercial no terreno em si. Não serve nem para moradia. Por isso acho que tem a ver com a cracolândia

    Acho que a favela deve ser o lar de muitos frequentadores desse “playcenter” químico

    • Renê disse:

      Em 2050 o centro de SP será uma espécie de “chernobyl”, uma área com restrição à circulação, somente com frequentadores esquisitos, andando como mortos-vivos, e atacando pessoas até com mordidas… Fala sério, se um tipo da cracolândia chega pra vc e diz: “passa a carteira ou te dou uma mordida”. Cruz credo…

    • Paulo Preto disse:

      Serra, o inepto, o higienista, prometeu acabar com a Cracolândia. E o que fez foi apenas espalhar os consumidores pela cidade. Este é o legado de quem não conclui os cargos para qual é eleito. Sempre fugindo, e deixando pepinos por onde passa

  8. Filipe disse:

    Jonathan disse tudo lá em cima. Esse plano de higienizar o centro está saindo uma verdadeira catástrofe, pois nem rico nem pobre terá condições de morar na região; o pior é que, a ver alguns comentários por aqui, dá pra entender que a política das gestões atuais sempre encontrará ecos no paulistano típico, que contribui para a inviabilidade do Centro por ter horror a pobre.

  9. Fernando Daniel disse:

    Leo boa materia mas não publique não sou Filho da Dona Ema do Jorlanismo ela me pediu pra mandar um beijo pra você e te desejar muito sucesso

  10. George disse:

    “Cerco a Viena, de 1529, pelo Império Otomano. Naquela ocasião, o exército inimigo era numericamente superior, enquanto a elite paulistana é um mísero grão de areia frente ao restante da população pobre”. Não consegui entender a lógica da comparação; mas de qualquer forma parabéns Sakamoto pelo post, meio radical mas correto, continue pastorando seu quintal.

  11. QUE CAPACIDADE!!! disse:

    é ,”realmente”o fogo não é o maior “problema”nas favelas,o “MAIOR PROBLEMA”É,”QUEM ESTÁ BOTANDO O FOGO E “A MANDO DE QUEM”QUE É MAIS IMPORTANTE AINDA…OU “REALMENTE” QUEREM QUE “ACREDITEMOS”QUE “TODAS”AS FAVELAS QUE “NOTORIAMENTE”EXPORIAM A “POBREZA DO PAÍS “NA COPA EM 2014,”SEM MAIS NEM MENOS”COMEÇARAM A PEGAR FOGO ,”PARABÉNS Á “AFRICA”QUE “OPTOU” “EM “COLOCAR CORTINAS”PRA “ESCONDER A POBREZA”!!!

  12. Pam disse:

    Nossa, quase passei mal lendo alguns comentários aqui! Como as pessoas podem entender tão errado um texto ou serem ainda tão preconceituosas.
    Enfim, muito bacana o texto, realmente pra todos que estudam o centro ou entendem sua realidade o fato é que temos que apoiar incondicionalmente a moradia de baixa renda num lugar tão provido de equipamentos públicos e ao mesmo tempo tão desabitado.
    Torço todos os dias para que essa sanguessuga ultrapassada e venenosa que é o nosso prefeito seja desmascarado a ponto de perder o apoio que tem, mas a elite paulistana é burra e não há o que fazer… e voto nessa nossa democracia só é um dos números desse nosso circo.

  13. Sabrina disse:

    Some-se a todo esse contexto, o fato da área ser uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social), delimitada pelo Plano Diretor de SP, o que significa que deve ser destinada à moradia para população de baixa renda…Enfim…

  14. Cesar disse:

    Ao Cleiton…
    A “sua” gloriosa polícia de são paulo só é eficiente em situações que a força nem precisa ser usada…como no caso da Usp! foi realmente necessario 400 policiais para aquela situação? ok, não defendo o que fizeram os “estudantes”… mas um efetivo policial deste deveria estar nas ruas…
    E voce nem entendeu o que eu quis dizer…para uma passeata que reinvidica direitos, por mais absurdos que sejam, a “gestapo” paulista está lá para por ordem, pois a famosa avenida “para”…então que vá por ordem também para esta maldita classe média que vai até lá ver neve artificial!

    • cleiton esteves disse:

      Não , Cesar .. bom deve ser a polícia de Salvador a cidade de melhor segurança pública do país..rrsrsrsr…. A polícia de SP é a mais eficiente em termos de redução e índices de homicídios e latrocínios.Isto é dado , não é balela de baderneiro ! Acho que o resto é vagabundo com medo de apanhar na bunda … coisa que o papi não fez quando era apenas um vagalzinho sem- vergonha. E tem mais : chamar a polícia de qualquer UF deste país de “gestapo ” é crime , ok? Pelo jeito , quem não entende de leis e ordem não é quem vai ver neve artificial…

  15. João Miguel disse:

    As remoções estão despontando como prática ainda mais recorrente nas capitais que serão sede de jogos da Copa do Mundo de 2014. Vale registrar o projeto do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) de Fortaleza, que tem um traçado um tanto suspeito, com curvas e dobras que deixam escapar prédios e até terrenos vazios, mas que cortam favelas e comunidades de décadas de ocupação consolidada.

  16. Juliana Higa disse:

    Seu post condiz perfeitamente com os conceitos arquitetônicos de revitalização, como se antes das intervenções públicas e/ou privadas não houvesse vidas nestes locais, vida em todo os sentidos.