Blog do Sakamoto

Três cidades: dias de tempo seco e prioridades absurdas

Leonardo Sakamoto

Por conta de questões urgentes do trabalho, tomei café da manhã em São Paulo, almocei em Goiânia e jantei em Cuiabá por esses dias. De forma involuntária, essa patada ecológica movida a querosene de aviação é mais uma das minhas humilhantes contribuições ao aquecimento global. Ironicamente, detesto e morro de medo de voar – apesar de ter que fazer isso toda a semana há anos… É oportuno dizer que, nas três cidades, o tempo seco e o calor têm sido a tônica durante o dia. Mesmo para os colegas do Centro-Oeste com quem falei, acostumados ao calorzinho desértico, a situação não era uma das melhores.

O fato é que, cotidianamente, vivemos em nossas cidades poluídas um test drive do inferno. Se é quente para mim que moro em casa de alvenaria, imagine para quem vive sob teto de zinco ou estuda em escolas de madeira. O problema de torcer por uma chuva que exorcise o capeta e limpe o ar é que ela sempre encontra cidades impermeabilizadas por asfalto e concreto, com infra-estrutura insuficiente de escoamento de águas pluviais, além de moradias precárias em situação de risco (enquanto há prédios e mais prédios fechados para especulação imobiliária, sem função social). Você escolhe: passar mal com o calor, intoxicado por fumaça e fuligem, ou ser tragado pela lama e pelas chuvas.

É claro que na lista de prioridades das metrópoles – pelo menos na dos que a governam ou sobre ela noticiam – o engarrafamento causado por uma enchente é sempre mais relevante que o desabamento de cortiços ou a inundação de uma favela.

Imaginem então isto aqui em 100 anos, com um, dois graus a mais de temperatura média anual, resultado da piora do efeito estufa causado pela nossa própria ignorância e voracidade por recursos naturais? Além disso, quando boa parte da Amazônia virar um grande pasto, entrecortado por plantações de grãos e de dendê, e o Cerrado se tornar um imenso canavial, o calor de hoje vai ser brisa amena de primavera. Talvez não tenhamos mais as enchentes. Mas até lá já teremos passado o limite que torna a vida nas grandes cidades suportável.

Isso ganha contornos irônicos considerando que, pelo lado de fora da janelinha do avião, centenas de milhares de hectares de soja e milhares de cabeças de gado espalham-se pelo o que já foi mata – árvores que serviram à construção civil e tornaram-se carvão para cair em forno de siderúrgica. Nós da cidade, engolimos a poluição a seco e seguimos sorrindo, satisfeitos com nosso padrão de consumo e com aquele pôr-do-sol irreal de vermelho que surge a cada tarde de inverno.

Mas o sujeito que mora por lá e viu sua casa ser removida, sua terra ser inundada, sua água contaminada e seu trabalho não remunerado para fazer a nossa alegria deve ficar pensativo ao ver meu avião passar. E, após ser bombardeado pela TV por aquilo que decidimos qual será a prioridade do país, fica extremamente preocupado com a violência no Rio de Janeiro, os atrasos dos vôos em Congonhas e o aumento no preço dos restaurantes de Brasília.

E, vendo uma comovente matéria sobre um cachorrinho que passou mal com a poluição na rua Oscar Freire, enfim, chora.