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Leonardo Sakamoto

Veja alguns comentários reacionários sobre moradia em São Paulo

Leonardo Sakamoto

05/09/2012 07h50

Publiquei, nesta terça, um texto sobre os incêndios em favelas de São Paulo e a especulação imobiliária que corre desvairada na pauliceia. Como sempre, ao tratar do tema da moradia, este espaço foi invadido por carinhosos comentários reacionários. Cortei fora os que ofendiam progenitoras ou mandavam recadinhos estranhos sobre a integridade física e fiz uma breve seleção, que posto abaixo. Mas, antes, algumas ponderações sobre aquilo que deveria ser direito, mas é visto como privilégio.

Até uma ramster em estado catatônico sabe que boa parte da classe média paulistana tende a ser bastante retrógrada – já tratei deste assunto aqui uma miríade de vezes nos últimos anos. Boa parte dos trabalhadores que entraram na linha do consumo, há poucos anos, adota com facilidade o discurso conservador. Conquistaram algo com muito suor e têm medo de perder o pouco que têm, o que é justo e compreensível. Mas isso tem consequências. Em posts sobre déficits qualitativos e quantitativos de moradia, por exemplo, quem tem pouco adota por vezes um discurso violento, que seria esperado dos grandes proprietários e não de trabalhadores. Afirmam que, se eles trabalharam duro e chegaram onde chegaram sozinhos, é injusto sem-teto, sem-terra ou indígenas consigam algo de "mão-beijada" por parte do Estado. Ignoram que o que é defendido por esses excluídos é apenas a efetivação de seus direitos fundamentais: ou a terra que historicamente lhes pertenceu ou a garantia de que a qualidade de vida seja mais importante do que a especulação imobiliária rural ou urbana.

Nesse contexto, a internet recebeu a disputa de discursos que vinha sendo travada em outras instâncias. Não, a rede não é conservadora ou progressista em si, mas sim uma plataforma de construção e reconstrução da realidade. Meu receio, portanto, é optarmos por caminhos superficiais de debate – que são uma opção da internet – e não nos aprofundarmos no reconhecimento do "outro" como detentor dos mesmos direitos que nós – o que é fundamental para a busca de soluções coletivas aos problemas da cidade, por exemplo. O pior é que a temática dos "direitos humanos" funciona como uma espécie de imã, atraindo todo o tipo de lugares-comuns, ódios e demais faltas de entendimento decorrentes de um debate incompleto e insuficiente travado na rede.

Quando o tema é a dura barra enfrentada pela gente parda, fedida, drogada, favelada e prostituída que habita a pujante São Paulo – locomotiva da nação, vitrine do país, que não segue, mas é seguida e demais bobagens que floreiam discursos ufanistas patéticos caindo de velhos – pululam declarações bisonhas. É só falar da necessidade de políticas específicas que garantam qualidade de vida para esse pessoal mas, ao mesmo tempo, respeitem seu direito de ir e vir e ocupar o espaço público, que reacionários brotam.

Detesto o verbo "revitalizar". Ele tem sido usado para justificar grandes atrocidades, como se a vitalidade de um lugar fosse medida pela ausência de gente pobre. Revitalizar têm sido construir museus, praças, escritórios e mandar o lixo humano para longe. Melhor tirar da vista do que aceitar que, se há pessoas que querem ocupar espaços que não estão cumprindo sua função social, elas têm direito a isso, como prevê a Constituição Federal.

Por isso, gostaria de resignificar o uso de "revitalizar". Que tal revitalizarmos nossas ideias, deixando de lado o medo e o preconceito, para que São Paulo não seja um grande "cada um por si e Deus por todos"?

Separei alguns comentários dos leitores para embasar meu argumento. Boa leitura.

– E se toda favela incendiada recebesse habitação popular? Ficaria fácil e comodo para eles construirem outras… casa facil e eu aqui ralando que nem um louco para ter a minha…

– Aí Sakamoto, um dia desses eles vão entrar com metralhadora na sua casa. Vão jogar álcool em vc e dizer que colocarão fogo! Depois te roubam tudo, levam seu carro e a policia encontra na favela que pegou fogo! Depois de um mes te assaltam na Riberto Marinho e levam teu religio ali mesmo, naquela favela. Sabe o que? Tem que limpar mesmo……

– Eles roubam de noite e passam a tarde ali no boteco da favela tomando cerveja. Acordem!!!!!!

– Caro articulista! Ou você é ingênuo ou muito burro! Você já pensou que podem ser os próprios moradores que colocam fogo na favela? Você já se perguntou por que, em uma desgraça destas, ninguém, felizmente, sai ferido? Vá se informar antes de ficar fazendo firula com a desgraça de alguns…

– Seu comentário foi o melhor que li até aqui, apoiar favela é fácil levar um favelado pra casa ninguém quer

– Eu me mato para pagar um IPTU de 1.200,00 reais anualmente. Além de luz, telefone, TV a cabo, funcionários etc e etc… Qual desses "desvalidos" paga o que eu pago? E eles tem "tudo mais" que eu tenho. Casa de graça, Luz (Miau), TV (Miau), Metrô perto de casa, shopping etc etc e ainda quando aparecem "flagelados" ganham casa do governo e bolsa isso, bolsa aquilo, seguro desemprego, seguro "cadeia" etc… Quem é mais prejudicado no Brasil populista? EU ou eles??????????????

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.