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Leonardo Sakamoto

Só para lembrar que aqui, no Sudeste, também se mata maranhense

Leonardo Sakamoto

09/01/2014 17h45

comentei a responsabilidade da família Sarney no surto de violência no sistema prisional maranhense. Mas é sempre bom lembrar que os efeitos da estrutura montada para favorecer alguns em detrimentos de muitos por lá beneficiam, historicamente, nós do Sudeste maravilha.

Continua sendo a estratégia perfeita: um grupo político permanece décadas no poder, utilizando de coronelismo e de práticas clientelistas, favorecendo a si mesmo e a empresários de setores que vão da mineração ao agronegócio.

Eles sugam um dos estados mais ricos em recursos naturais do país, deixando boa parte da população na pobreza. Que, por desalento ou esperança, sai em busca de coisa melhor e se estrepa no trabalho escravo (o Maranhão é o principal fornecedor desse tipo de mão de obra no Brasil) ou faz acontecer, com seu sangue e suor, o milagre do etanol e o novo boom da construção civil no Sudeste. Como são vistos como mulas ignorantes e ervas daninhas que se multiplicam em ritmo geométrico, podem ser usados como mão de obra barata e descartável.

Dos dez operários que morreram na obra daquele prédio que desabou, em São Mateus, na periferia de São Paulo, em agosto do ano passado, nove eram maranhenses. E isso não é coincidência.

Analisando as rotas de migração de cortadores maranhenses, é possível perceber um elo entre a crescente mecanização – que torna desnecessária a existência desses cortadores – e a mudança no foco dos contratadores de mão de obra, os conhecidos "gatos", que passaram a levar parte dessa força de trabalho para aumentar ainda mais o setor da construção civil no interior e na capital paulistas.

Não que eles não sofressem com cimento e lágrima antes disso – afinal de contas, São Paulo foi erguida com o trabalho escravo de nordestinos. Mas, quando pensávamos que essa estrutura, que beneficia tanto uma elite lá quanto nós por aqui, havia mudado eis que um surto na construção civil leva a novas descobertas.

Ou seja, os mesmos maranhenses, expulsos por um clã e seus clientes, que costumavam ser engolidos em plantações por aqui, agora estão sendo soterrados em construções. É sempre bom lembrar isso, especialmente em um momento em que pipocam pela internet comentários preconceituosos quanto à situação surreal no presídio de Pedrinhas ser inerente ao povo que habita aquelas terras. Como se, por aqui, não tivéssemos decapitações e até os 111 do Carandiru.

O Maranhão – que apresenta a menor expectativa de vida na média de homens e mulheres, a segunda pior taxa de mortalidade infantil, o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano e as três piores cidades em renda per capita do país – continua entregando seus filhos para darem sua vida pelo país. Literalmente.

Mudar a estrutura de lá significa não apenas alterações no sistema prisional e na política de segurança, mas a substituição de grupos no poder e a reforma profunda de instituições e estruturas de exploração do trabalhador. O que pode diminuir a mão de obra barata que corta cana e faz prédio por aqui.

Colocado dessa forma, desconfio que nem todo mundo torça para que esse dia chegue.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.