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Leonardo Sakamoto

Rapaz chinês apanha no metrô e segurança o culpa por isso. Imagina na Copa

Leonardo Sakamoto

11/01/2014 16h14

Um rapaz chinês, com cerca de 20 anos, foi assaltado na movimentada estação da Luz do metrô, na capital paulista, na tarde desta sexta (11). Dois homens espancaram-no durante dois minutos e, gritando muito, rasgaram sua roupa. Ao final, levaram seu dinheiro, seus tênis, seu celular. Deixaram ele lá, em uma das escadas, sangrando.

Uma amiga, advogada, que presenciou toda a cena e chegou a ser empurrada pelos dois bandidos, gritou por socorro, sem que fosse atendida. Com exceção de um homem do alto de seus 80 anos, os demais passageiros, que viram tudo, não se manifestaram.

Cenas como essa infelizmente acontecem diariamente na cidade. E, não raro, contam com o mesmo componente de xenofobia, uma vez que o rapaz falava ao telefone em chinês, o que chamou a atenção dos assaltantes.

A parte nonsense, contudo, começa agora. Nas palavras da minha amiga:

"Uns 5 minutos depois, três seguranças do metrô apareceram, junto com o senhor de 80 anos. O resto das pessoas evaporou.

Após contar o ocorrido, ouvi como resposta: "a culpa é 'desses coreias'. Esse pessoal vem de fora e fica andando com o bolso cheio de dinheiro por aqui, aí, dá nisso".

Óbvio que retruquei, mas a coisa piorou muito:

"Minha senhora, o Brasil é um país de terceiro mundo, violento. Esse povo deveria saber onde está e ser mais esperto. E se vocês estão tão indignados, por que ao invés de gritar, a senhora e esse senhor [de 80 anos!] não foram pra cima dos marginais? Não dá para a segurança do metrô ficar colada em cada passageiro, não."

Decidi chamar a polícia. E os seguranças me ameaçaram:

"Não tem necessidade, isso é ocorrência do metrô. A senhora vai desacatar a gente?"

Expliquei, educadamente, que aquilo era um crime de roubo consumado e que deveria ser feito um boletim de ocorrência, para apuração na esfera criminal competente.

Nisso, o chinês, implorou: "Moça, não, não quero. A polícia daqui não gosta da gente. Tenho medo."

Conclusão? Os seguranças foram embora. Dei dinheiro para o chinês, o ajudei-o a se recompor e ele foi para casa.

Imagine se um estrangeiro for assaltado no metrô num dia de jogo! Não vejo a hora de chegar 12 de junho.

Que venha a Copa!

Na data de publicação deste post, não consegui contato com o metrô. Nesta segunda (13), a empresa enviou a seguinte nota pública:

Diante dos relatos contidos em texto publicado no dia 11 de janeiro no Blog do Sakamoto, "Rapaz chinês apanha no Metrô e segurança o culpa por isso", a Companhia do Metrô informa que está apurando a ocorrência a fim de adotar as medidas que se demonstrem necessárias. O Metrô prima pela excelência na prestação de serviços e investe permanentemente no treinamento e na capacitação de seus profissionais. Atitudes preconceituosas e grosseiras não são admitidas pela companhia. O Metrô de São Paulo transporta, diariamente, 4,6 milhões de pessoas. São realizadas mais de 4 mil viagens e percorridos 67 mil km todos os dias. Na última edição do The Metros Awards, a principal premiação do setor metroviário internacional, o Metrô de São Paulo recebeu o prêmio de Melhor Metrô das Américas, pelo alto índice de confiabilidade, segurança e regularidade.

Publicarei as medidas da empresa assim que forem tomadas.

"Coreias"… Poderíamos discutir a respeito da síndrome dos pequenos poderes e de como os pequenos seres gostam de exercê-la para satisfazer as suas pequenas aspirações de vida.

Ou das consequências de viver em uma cidade em que a segurança privada tem mais braços do que a pública – considerando que a formação dos seguranças privados pode ser pior que a de policiais – que já não são um exemplo de preparação em direitos fundamentais.

Mas esse preconceito é reflexo de um comportamento que tende a ser maior à medida em que aumentarem os novos fluxos de imigração a São Paulo. Chineses enfrentam o que outros já passaram no início do século (lembrando que, por aqui, tivemos até campos de concentração para imigrantes japoneses). Ou que muitos nordestinos ainda enfrentam.

Vi, mais de uma vez, grupos de jovens brancos, bem vestidos, criados no leite Ninho e provavelmente alunos de escolas caras da Paulicéia, aloprando bolivianos e chineses que encontravam na rua, com piadinhas que provavelmente aprenderam com alguns "jênios", comediantes da TV.

Muitos dos latino-americanos e asiáticos não vêm para cá atrás das belezas naturais de São Paulo, mas sim de oportunidades melhores ou fugindo da miséria. A cidade conseguiu se tornar o que é por conta de quem veio de fora.

Não faz sentido que viremos às costas aos que vêm de fora e adotam São Paulo ou o Brasil, mesmo que a contragosto. Eles são tão paulistanos e brasileiros quanto eu e você, trabalham pelo desenvolvimento do país, entregam sua juventude e sua dignidade para que possamos estar todos na moda sem gastar ou esquentam nosso comércio, mas normalmente passam invisíveis aos olhos da administração pública e do resto de nós.

O aumento da imigração de pessoas que procuram uma vida melhor em um país com maior oportunidade de emprego tem mostrado o que certas nações têm de pior. Os Estados Unidos erguem uma cerca entre eles e o México, para regular o fluxo de faxineiros, operários e serventes. Na Espanha, turistas, se piscarem, são tidas como prostitutas querendo invadir o território. Na Inglaterra, brasileiros levam bala. Por aqui, chineses tomam porrada e  bolivianos são escravizados e assassinados.

Em todo o mundo, culpamos os migrantes de roubar empregos, trazer violência, sobrecarregar os serviços públicos porque é mais fácil jogar a responsabilidade em quem não tem voz (apesar de darem braços para gerarem riqueza para o lugar em que vivem) do que criar mecanismos para trazê-los para o lado de dentro do muro que os separa da dignidade – que, inclusive, geraria recursos através de impostos.

Vivemos sim uma dúvida parecida àquela enfrentada pelo Velho Mundo. Não, não é se haverá trabalho e espaço para todos com os deslocamentos de imigrantes em busca de emprego (ou fugindo de catástrofes ambientais). Mas se as características que nos fazem humanos não estarão corroídas até lá.

A depender de alguns que cuidam de nossa segurança, já temos a resposta.

Atualizado às 15h10 do dia 13 de janeiro de 2014 para inclusão do posicionamento do metrô de São Paulo.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.