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Leonardo Sakamoto

Você teve o azar de ser batizado com o mesmo nome que eu?

Leonardo Sakamoto

15/12/2014 16h46

– Um cara que trabalha comigo te detesta muito.
– Por conta de algo que escrevi?
– Não. Porque ele também se chama Leonardo Sakamoto.

Acostumado a ser xingado ao longo dos anos, nunca parei para pensar sobre a dura vida dos homônimos. Pessoas que, sem terem feito absolutamente nada para merecer ofensas, são trucidados e vilipendiados por quem, inadvertidamente, tem certeza que eles são outros.

Não raro, os homônimos discordam totalmente de nossa visão de mundo ou professam outros credos e ideologias, mas são julgados. Quantas vezes meus homônimos já não foram chamados de "comunista comedor de criancinha", "esquerdopata burro" ou, pior, "gordo cabeçudo"?

Certo dia recebi uma mensagem de um homônimo me perguntando se eu não tinha um nome do meio que poderia começar a usar a fim de evitar confusões. Ele me relatou uma vida digital conturbada e, por mais que compartilhasse de "parte significativa das minhas posições", não aguentava mais esses microbullyings.

Fiquei tocado. Juro. Mas não dá. E, acredite, minha mãe já pediu várias vezes para não ignorar o nome da família dela.

Quando criança, pensava que era único. Afinal, nome italiano, sobrenome japonês. Daí, você cresce e se toca que mora em uma metrópole global, com levas de imigrantes vindos de todas as partes e copulando entre si.

Sem contar que as novelas são um fonte inesgotável para nomes de crianças. Quantas Helenas de sobrenome japonês, italiano, alemão, coreano, grego, judeu, libanês ou boliviano o Manoel Carlos não produziu?

Se não fossem os homônimos, em que mundo poderia dizer que perdi as contas das ocasiões em que dancei ao som de Katia Abreu, quando ela atacava de DJ? Ou de quantas vezes já sequei garrafas de cerveja com ela ou tomei emprestado seu ouvido para lamuriar minhas desventuras amorosas?

A Katia Abreu jornalista cansou de receber mensagens endereçadas à Kátia Abreu senadora. Mas também reclamações e elogios. Em suma, os homônimos não raro carregam duas vidas: as suas e a outra. E merecem nosso respeito por isso.

Até porque vida é grande via de mão dupla. Neste domingo, enquanto aguardava uma mesa para sentar em um bar, uma moça veio efusivamente me agradecer por conta de eu alimentar o mundo com coisas tão boas.

Alguns minutos depois, ela volta meio encabulada e pergunta: "desculpa, você não é o Jun Sakamoto, é?"

Em tempo: Aproveito para pedir desculpas públicas a ele, um dos mais premiados e geniais chefs de cozinha do Brasil, por todo o incômodo causado. Afinal, o primeiro nome do Jun também é Leonardo.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.