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Leonardo Sakamoto

A solução para Rio e São Paulo: Jogar os pobres fora

Leonardo Sakamoto

27/09/2015 19h22

Um paulista tentava convencer um carioca (parece começo de piada, mas a história rolou mesmo em um avião saindo de Brasília tempos atrás) de que o Rio é um lugar muito bom para se viver.

O outro, dizendo-se cansado do "Estado das coisas" por lá, defendia que São Paulo era o máximo e sua cidade era a barbárie:

– É porque você só conhece a Zona Sul do Rio e a Barra da Tijuca… Mas aquilo é uma ilha em um mar de pobreza. São Paulo, não. Morar nessa cidade é bem diferente, mais seguro. É mais rica, a qualidade de vida é maior…

– Em que bairro você mora em São Paulo?

– Morumbi.

Ambas as capitais possuem estatísticas de criminalidade que deveriam fazer corar seus gestores e os que os antecederam. Mas acho inglório procurar quem é o vencedor no quesito "violência" ou "pior lugar para se morar", mesmo com base em estatísticas – que variam de tempos em tempos.

Na prática, as duas já são quatro: a São Paulo dos ricos (do Centro Expandido) se reconhece na Rio dos ricos (da orla e da Lagoa Rodrigo de Freitas), enquanto a São Paulo dos pobres sofre junto com a Rio dos pobres – representada, grosso modo, pela maioria que ficou fora do butim, mas que conta com mais gente do que as bolhas das quais falei acima.

Contudo, o que marcou mesmo na conversa dos engravatados foi uma frase que praticamente encerrou a discussão, não sei por cansaço, por constrangimento dos que participavam da conversa ou pela aproximação do aeroporto (não importa se você é ateu, você vai rezar se chegar em Congonhas com tempo ruim). O carioca disse algo do tipo:

– Olha, quer saber de uma coisa? A solução para o Rio é tirar toda essa gente das favelas e mandá-los para algum lugar, Campo Grande [extremo oeste da cidade], por exemplo. Depois, tombar o Rio, não deixando que se construa mais nada de novo nos morros. Aí sim, aí tem jeito.

O pior é que a solução proposta pelo passageiro não é novidade, já vem sendo adotada pelas grandes capitais brasileiras. Chama-se "gentrificação", ou seja, o encarecimento do custo de vida que expulsa os moradores mais pobres para longe.

Empurrar o problema para longe, sempre que possível, tirando-o da vista. Afinal, os protestos de senhoras que perdem tudo no mar de esgoto das históricas enchentes do Jardim Pantanal (e, lembrem-se, levaram gás de pimenta por parte da PM ao protestar na frente da prefeitura em 2010) vale menos que o de bairros nobres, como o Morumbi.

A verdade é que excluir esse pessoal para fora dos muros da cidadania ao invés de atuar por seu ingresso significa, na prática, isolar quem ficou do lado de dentro, pois é minoria. Jogar o povo para longe de seus direitos é a forma fácil de caminharmos para o buraco, em nossos castelos frágeis que não resistem a uma lufada mais forte. Se um dia ela vier a existir e eu torço para que venha.

As polícias carioca e paulista agem, preventivamente, sobre as cidades dos pobres para não atrapalhar a tranquilidade das cidades dos ricos. Quem cometeu o crime de ter nascido negro e pobre e ser jovem tá lascado.

A cordialidade do povo brasileiro me dá a certeza de que levará muito tempo ainda até que "as hordas bárbaras" se rebelem violentamente contra essa situação. Mas, quando isso acontecer, creio que mudar de cidade não irá resolver o problema.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.