Blog do Sakamoto

Será que há um inferno reservado para quem dialoga só com seus “iguais”?

Leonardo Sakamoto

Deveria haver um círculo do inferno especialmente reservado para os que não aceitam dialogar com quem pensa diferente. Para os que acreditam que, se a pessoa não compartilha da mesma opinião, não merece ser digna de interlocução. Se rolasse uma revisão geral em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, sugeriria um inferno em que essas almas ficariam presas, pela eternidade, de frente a um Messenger, um WhatsApp ou um Google Talk com milhões de contatos postando as maiores aberrações, mas sem um teclado para que as almas condenadas pudessem responder.

Veja, creio que é o ó do borogodó só ter amigos e amigas que concordam com você. Há pessoas que parecem não aceitar serem questionadas. Desejam, ao contrário, uma boa claque. Talvez para afastar os medos e inseguranças sobre suas próprias crenças.

Certas frases soam para mim como um estalar de martelo em uma bigorna. “Porque sim, ué” é o que me vem à cabeça como resposta para a pergunta “Por que você é amigo de fulano de tal?”.

É um absurdo termos que ouvir frases como ''por que você é amigo de tal fulana que é de direita?''. E, depois, ainda por cima escutar argumentos do porquê de uma pessoa X, Y ou Z ser inapropriada para o convívio social, dado os seus posicionamentos políticos e escolhas profissionais.

Talvez o sobressalto e a tentativa de me convencer a largar mão de almoçar com alguém que considero agradável sejam até maior pelo fato de me enxergarem como uma pessoa progressista.

Quando dou risada da situação ou insisto na perda de tempo dessa discussão, surgem teorias para explicar o comportamento humano – afinal, muitos acham que são PhD no assunto só por passarem horas lendo sites anônimos em rede social.

Acredito que meu ponto de vista está correto, mas isso não faz dele uma Verdade Absoluta – até porque verdades absolutas não existem. Uma outra pessoa pode defender que a forma mais correta de acabar com a fome, a violência, as guerras, a injustiça seja por outro caminho. Desse enfrentamento de ideias e de propostas, que pode ser duro e irônico, sairá um vetor resultante que apontará para uma direção, dependendo da correlação de forças envolvidas, dos atores dedicados a isso, da aceitação dessas propostas pelo restante de uma sociedade.

Não acredito que o livre mercado seja a panaceia para tudo, mas há quem diga que sim. Ótimo, vamos discutir os argumentos que embasam as diferentes posições e não chamar o outro de canalha ou burro, esquerdista idiota ou direita fascista, e travar por aí a discussão. Ou pior, defender o fechamento de um veículo de comunicação.

Discordo visceralmente de muitas reportagens que leio, mas nem por isso acho que elas não tenham o direito de vir a público (a menos que tenham sido produzidas para incitar a violência ou difamar outras pessoas). Pelo contrário, discordo, mas defendo o direito de que seja dito. A saída para contrapor uma voz não é o silêncio, mas sim outra voz (o fato de pessoas que defendem um ponto de vista semelhante ao meu não terem conseguido construir uma alternativa – ainda – diz tanto sobre a nossa incapacidade de comunicação quanto sobre o poder de fato do outro).

Muitos simplesmente repetem mantras que lêem na internet, ouvem em bares ou vêem na igreja e não param para pensar se concordam ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando esse outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que alguns colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais bisonhos. Pois não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a esposa como uma serva em casa, não é mesmo?

É mais fácil pensar de forma binária. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos.

Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Como já disse aqui mais de uma vez, de uns tempos para cá, tornou-se mais frequente ter que defender algumas amizades publicamente diante de insultos de outros amigos.

Humildemente, sugiro que busquemos a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e nos perguntemos se achamos que estamos certos a todo o momento, uma vez que nossa natureza não é de certezas e sim de dúvidas e falhas que só poderão ser melhor percebidas no tempo histórico.

As relações que se estabelecem no ''lado de fora'' da internet ainda são uma das melhores formas de rompermos a limitação do contato com a diferença criada pelos algoritmos das redes sociais – que mostram em nossas timelines aquilo que gostaríamos de ver, tornando o mundo um lugar mais quentinho. O problema é que bolhas digitais matam, aos poucos, a empatia. E a falta de empatia faz com que o pedido de socorro de grupos sociais que não são nossos familiares ou amigos, aos poucos, se torne tão irrelevante quanto um pedido de amizade de um desconhecido online.