Blog do Sakamoto

PIB vai “renunciar” a Temer por Reformas Trabalhista e da Previdência

Leonardo Sakamoto

Michel Temer está sangrando, em praça pública, por causa da divulgação de mais elementos trazidos pela delação dos donos da JBS (que o envolveram em esquemas de corrupção, organização criminosa e obstrução de Justiça), mas também pelo desembarque de parte do Produto Interno Bruto da sustentação de seu governo.

Este último escândalo, que o trouxe diretamente para o olho do furação, pode adiar, por tempo indeterminado, a aprovação da Reforma Trabalhista (sonho de parte do grande empresariado) e da Reforma da Previdência (sonho de bancos e instituições financeiras). Contudo, ambas as reformas têm prazo de validade. Iniciado o período de discussões eleitorais, em abril do ano que vem, dificilmente se encontrará algum deputado federal ou senador que aceite defendê-las abertamente sob o risco de não ser reeleito. Pesquisas apontam que a maioria da população é contra as mudanças por enxergar nelas uma precarização de sua qualidade de vida.

A manutenção de Michel Temer – e de todo o passivo de corrupção de sua equipe e aliados – depende dos resultados que é capaz de apresentar. Avalia-se, portanto, que se não for mais capaz de levar adiante essas reformas, terá que ser substituído por alguém que seja. Alguém que, como ele, não tenha pretensões eleitorais e, portanto, poderá seguir aplicando uma distribuição de riqueza às avessas para o Brasil sair da crise, em que se tira dos pobres para manter o dos ricos.

Ao mesmo tempo em que ele deixa de ser visto como uma ferramenta útil e passa a ser encarado como um entrave, há um esforço para tentar blindar Henrique Meirelles e sua equipe econômica a fim de garantir uma transição segura para o próximo governo – quando continuarão a tocar esse mesmo projeto.

Temer não pode se queixar disso, pois foi o ''acordo'' estabelecido quando se propôs a encampar o impeachment e substituir Dilma Rousseff. Não que a ex-presidente acreditasse em um modelo de desenvolvimento sustentável e includente ou que o governo do PT não estivesse até o pescoço envolvido em denúncias de corrupção. Mas apenas alguém que não foi eleito e que não precisaria ser reeleito e, por isso, não estaria preso à viabilidade eleitoral, seria capaz de aprovar uma quantidade grande de propostas e projetos que reduzem direitos.

Pelo menos, é isso no que uma parcela da elite econômica e seus representantes acreditava. Agora, perceberam que o quadro é mais complicado do que planejaram, menos por conta da resistência da oposição (que não demonstrou força e competência para tanto), mas pela própria incompetência e falta de lisura de parte do governo.

A troca de Temer pode ter se tornado necessária para garantir que este período de limbo de representatividade política não seja desperdiçado. Muitos ainda querem que este ano seja usado para refundar a República. Mas, ao invés de garantir que essa repactuação passe por uma Reforma Política que reinvente a representatividade e reforce a democracia, busca-se reduzir o poder de fiscalização e de regulação do Estado ou mesmo de sua presença e ação em nome da competitividade.

Se ele vai conseguir resistir e obter mais um ''voto de confiança'' desse grupo que, agora, começa a lhe dar as costas, saberemos em breve. Certamente, essa é uma dor de cabeça que o mandatário não precisaria ter se fosse respaldado pelo voto popular.