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Leonardo Sakamoto

Obama, as células-tronco embrionárias e a religião

Leonardo Sakamoto

09/03/2009 18h02

O presidente dos Estados Unidos Barack Obama suspendeu hoje as restrições ao financiamento público de pesquisas com células-tronco embrionárias impostas pela administração Bush. "Vamos trazer as mudanças pelas quais cientistas, pesquisadores, médicos, doentes e seus familiares esperaram nos últimos oito anos", disse, cumprindo uma promessa de campanha. Células-tronco possuem a capacidade de se converterem em quase todos os tipos de células humanas.

Já abordei este tema neste blog várias vezes, mas aproveito a decisão do presidente norte-americano para reafirmar a importância dessas pesquisas. É claro que não sou inocente de achar que a indústria da saúde nos Estados Unidos (talvez a mais selvagem das selvagens indústrias do capitalismo, que ganha bilhões explorando o sofrimento) não lucrará muito com o know-how que será acumulado a partir dessa porta que se abre. O próprio Obama reclamou que os EUA estão ficando para trás do ponto de vista técnico-comercial. Mas o uso desse tipo de terapia deve ajudar a reduzir o sofrimento de milhões de pessoas no futuro, ricas e pobres, e portanto, deve ser incentivado.

No Brasil, após um longo debate, o Supremo Tribunal Federal aprovou em maio do ano passado as pesquisas com células-tronco embrionárias, rejeitando uma ação direta de inconstitucionalidade que tentava barrá-las. A votação foi apertada, seis a cinco, com os ministros Carlos Ayres Britto, Ellen Gracie, Carmen Lúcia Antunes Rocha, Joaquim Barbosa, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello votando a favor.

Há aqueles que defendem apenas as pesquisas com células-tronco adultas, para evitar o descarte de embriões. Essa linha também é promissora, mas não pode ser a única adotada frente aos excelentes resultados alcançados pelas células-tronco embrionárias até aqui.

Um grupo de algumas células embrionárias congeladas após terem sido preteridas em um tratamento de fertilização in vitro e que seriam descartadas em um incinerador mais cedo ou mais tarde não podem ter o mesmo valor de um ser humano nascido. Se for necessário utilizar essas células para que alguém volte a andar, ouvir e enxergar ou seja curado de uma doença degenerativa fatal, que se faça. Já disse aqui uma vez e direi novamente: caso determinada religião seja contra, sem problema.

Oriente seus fiéis a viver (ou morrer) sem utilizar o tratamento.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.