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E se o Brasil devolvesse quem não é índio para seu "país de origem"?

Leonardo Sakamoto

26/09/2010 19h00

Perguntinha idiota essa acima, não é? Mas vamos fazer um exercício de reflexão e imaginar, por um instante, a mesma coisa sob uma perspectiva possível.

Vou dar uma mãozinha. Paragominas, no Estado do Pará, conta com um programa oficial a fim de devolver migrantes para suas regiões de origem. Não é a primeira nem será a última cidade a ter um política desse tipo. O nome do programa, na minha opinião, é irônico de doer: "Mão Amiga". Amiga de quem? – pergunto… Afinal de contas, dar um lanche, uma passagem e um "até logo" não é a melhor forma de lidar com pessoas que viajaram em busca de emprego seguindo a propaganda que, durante décadas, foi martelada no inconsciente dos nordestinos: vá para a Amazônia, pois lá correm rios de leite e mel.

Paragominas fica em uma região de fronteira agropecuária e extrativista mais consolidada e, hoje, não necessita de tanta mão de obra não-especializada (como é o caso da maioria dos migrantes com baixa escolaridade) como outros municípios que estão em pleno boom de crescimento. A cidade já enfrenta, aliás, algumas consequências do colapso posterior à sanha dilapidatória da exploração dos recursos naturais. De acordo com boa matéria sobre o caso, publicada na Folha de S.Paulo deste domingo, o prefeito já chegou a enviar representantes ao Maranhão para fazer contrainformação, ou seja, espalhar que não há emprego em Paragominas. Não seria mais útil investir em um sistema de informações sobre empregos, como um Sine rural, que envolvesse acordos entre municípios emissores e receptores de mão de obra?

O caso me lembra outro, dessa vez claramente hostil, mas que carrega o mesmo DNA. Tempos atrás, um grupo de guaranis foi enxotado de uma cidade gaúcha, pois os donos do lugar não queriam índios zanzando na região. Colocaram a carga indesejada em uma kombi e a depositaram no município de São Miguel das Missões que, de acordo com a prefeitura descontente, dona da kombi e do direito de ir e vir, lá sim era terra de índio.

A prática de desaguar o problema em outro município é mais frequente no Brasil do que relata a mídia. Quem acompanha o dia-a-dia de populações tradicionais sabe o quão isso é comum. Com ciganos então, nem se fala. O preconceito aflora de tal maneira que não me admiraria começarem a surgir placas com dizeres do tipo "Proibido Ciganos e Cachorros" na entrada das cidades (na França, falta muito pouco para isso…)

(Infelizmente, ainda acreditamos que a) estamos em uma democracia racial e b) vivemos em um país socialmente justo – em que não são necessárias políticas específicas para grupos sociais vulneráveis. Ilusões só comparáveis ao Coelhinho da Páscoa ou à Mulher de Branco – que mora nos banheiros das escolas.)

Ou, pior, culpamos os migrantes de roubar empregos, trazer violência, sobrecarregar os serviços públicos porque é mais fácil jogar a responsabilidade em quem não tem voz (apesar de darem braços para gerarem riqueza para o lugar em que vivem) do que criar mecanismos para trazê-los para o lado de dentro do muro que os separa da dignidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.