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Não quero ser filho do Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

29/03/2011 11h09

Criei, anos atrás, o humorado Troféu Frango para premiar bizarrices em geral – quem é leitor deste blog já está acostumado com ele. Hoje, o Frango vai para Jair Bolsonaro:

Em um quadro de perguntas e respostas do programa CQC, veiculado na noite desta segunda na TV Bandeirantes, ele compartilhou impressões sobre o mundo. Um filho que fuma maconha merece levar "porrada". Ser um pai presente e dar boa educação garante que a prole não seja gay. Ótimo, para uma figura pública.

(Questionado sobre o que faria se seus filhos se apaixonassem por uma negra, Bolsonaro respondeu que eles eram educados e que não viveram em ambiente de promiscuidade, como a cantora Preta Gil, autora da pergunta – ver vídeo abaixo. Na manhã de hoje, não havia nada sobre o ocorrido em seu site. Minha opinião era de que, talvez, ele não tivesse entendido essa questão, porque a resposta dada foi nonsense. Horas depois, sua página trouxe uma justificativa: de que a pergunta foi "percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay". Ah, tá! Então, com gay tudo bem, né?)

Chamar o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) de figura folclórica seria um elogio desmesurado. É uma vergonha para o país que esse viúvo da ditadura militar ainda circule com poder pelo corredores do Congresso, defendendo as barbaridades do período mais tenebroso da história republicana brasileira e rasgando o respeito aos direitos fundamentais. Por outro lado, isso é, ao mesmo tempo, a maior prova de que somos uma democracia.

Bolsonaro tinha 29 anos quando Figueiredo deixou o Planalto para cuidar de seus cavalos – é saudosista de um período que não viveu por completo. Ficou 15 anos no Exército e mantém-se no Câmara dos Deputados devido à sua defesa dos direitos trabalhistas dos militares (pela quantidade de rifles que desaparecem dos quartéis no Rio e reaparecem nas mão do tráfico, verifica-se como os salários são vergonhosamente baixos). E, com isso, ganha carta branca para falar essas coisas estranhas.

Outro bom exemplo disso aconteceu há algum tempo, quando ele colocou um cartaz na porta de seu gabinete na Câmara dos Deputados com os dizeres "Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro", zombando das famílias de vítimas da Gloriosa e dos esforços do governo federal para encontrar as ossadas dos guerrilheiros mortos pela ditadura e enterradas em local que o Exército nega revelar. Vale lembrar que o PP é um dos filhotes da Arena, partido da ditadura.

Ou uma entrevista dada para a revista Isto é Gente, em 2000: "Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Ela era uma dona-de-casa. Por minha causa, teve 7 mil votos na eleição. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou a freqüentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores. (…) Foi um compromisso. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas idéias. Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar o poder e liberdade que lhe dei". Note o "que lhe dei".

Outra frase de efeito: "O grande erro foi ter torturado e não matado" – esta dita após seminário no Clube Militar, no Rio de Janeiro, em 2008, contra manifestantes do Grupo Tortura Nunca Mais e da União Nacional dos Estudantes. Segundo ele, essa teria sido a melhor solução para evitar que, hoje, pessoas perseguidas pela ditadura pedissem indenização ou reclamassem a justa e correta abertura dos arquivos que contam o que aconteceu na época.

(Com isso, o deputado se mostrou menos "humano" que o seu colega de partido Paulo Maluf, que outrora sugeriu aos criminosos "estupre, mas não não mate". Ou que seu outro partidário Celso Russomano, que chegou a defender a redução da idade mínima para trabalho, o que possibilitaria que crianças de 12 anos pegassem no batente.)

É claro que Bolsonaro e alguns militares da reserva (com a ajuda de alguns "estrelados" da ativa) querem que o direito à verdade e à memória permaneça enterrado em cova desconhecida junto com assassinados pela ditadura. E, pelo que parece, que sejam enviados para as mesmas covas, os direitos conquistados a duras penas depois que a ditadura, que ele apoiou, caiu.

Atualizado às 17h20 do dia 29/03/2011.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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