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Meu olho está vermelho é de gás lacrimogênio

Leonardo Sakamoto

21/05/2011 17h01

A Polícia Militar utilizou bombas de gás lacrimogênio para tentar dispersar uma passeata pela "liberdade de expressão" – manifestação que ocupou o lugar da proibida Marcha da Maconha, neste sábado (21), em São Paulo.

Cerca de mil manifestantes, de acordo com a organização, partiram do vão livre do Masp em direção ao Centro, via rua da Consolação, convocados principalmente por redes sociais. Cartazes pedindo diálogo e questionando o cerceamento de liberdade dividiam espaço com alguns pedidos de legalização da maconha. Parte dos manifestantes usavam narizes de palhaço para protestar contra a proibição da marcha original. O Ministério Público conseguiu derrubar, no final da tarde de ontem, os habeas corpus que garantiriam aos organizadores o direito de não serem presos por apologia às drogas por promoverem a Marcha da Maconha.

Em determinado momento, a Tropa de Choque avançou para cima dos participantes, usando bombas, cacetetes e escudos. Muitas pessoas ficaram com olhos e garganta irritados por conta do gás – incluindo este que vos escreve. O gás também atingiu carros que seguiam no sentido Consolação-Paraíso. Uma motorista passou mal e teve que ser socorrida.

"Eles simplesmente partiram para cima, ignorando o que foi acordado conosco. A polícia descumpriu o combinado", afirma Marco Magri, um dos organizadores da manifestação. "Porque o que estávamos realizando era isso: uma passeata pela liberdade de expressão." Pessoas foram detidas e levadas para o 78º e para o 4º Distritos Policiais de São Paulo.

Mesmo seguidos de perto por policiais, que continuaram usando bombas de gás, um grande número de pessoas desceu até a Praça Dom José Gaspar, onde fica a Biblioteca Municipal de São Paulo, antes de começarem a se dispersar.

O comando da operação policial não se manifestou até o fechamento deste texto. Cerca de 200 participantes do protesto se dirigiram para a frente do 78º DP a fim de exigir a soltura dos detidos. Dessa vez, a Tropa de Choque ficou à distância. Três pessoas tiveram que assinar um termo circunstanciado por descumprimento de decisão judicial e foram libertados.

Marco Magri afirma que a reação da polícia neste sábado pode contribuir para agilizar o julgamento da legalidade da Marcha para os próximos anos, matéria que está no Supremo Tribunal Federal (ADPF 187).

PS: Ao trazer uma opinião dos organizadores da Marcha da Maconha nesta sexta, afirmei que a discussão não é apenas sobre como a sociedade encara o consumo de drogas tidas como ilícitas, mas também quais os limites para a liberdade de expressão. Pois não é compreensível que o Estado garanta a segurança de pessoas que protestem contra a sexualidade alheia e desça o cacete em quem defende um ponto de vista diferente sobre o consumo de maconha. Presenciando as cenas de hoje, acho que meu comentário foi bastante premonitório.

Texto atualizado às 18h30 do dia 21/05.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.