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Leonardo Sakamoto

Atravessar a rua em São Paulo continua uma aventura

Leonardo Sakamoto

07/12/2011 11h41

Tirei parte da manhã para fazer um experimento social na esquina das ruas Apinagés e Capital Federal, no bairro do Sumaré – uma das mais movimentadas da capital paulista.

Acidentes ocorrem ali quase diariamente, fazendo com que a vida dos taxistas do ponto que fica exatamente no cruzamento seja tudo, menos um tédio. Solicitações e petições assinadas pelos moradores para a instalação de um semáforo já foram feitas à administração municipal, mas até agora nada. Três das quatro ruas dessa esquina são ladeiras, pirambeiras para falar a verdade, em que os automóveis podem quebrar a barreira do som se descerem na banguela. Motoristas com o mínimo de inteligência reduzem, param e olham antes de seguir, mas muitos optam por brincar de roleta russa, confiando na proteção de forças sobrenaturais.

Mas, enfim, o experimento: atravessar 20 vezes a rua Apinagés na faixa de pedestres, na hora do rush da manhã, para ver se já está surtindo efeito a campanha de conscientização da Prefeitura a fim de que os transeuntes sejam devidamente respeitados na Paulicéia ao cruzar vias públicas.

Resultado: uma lástima.

O modus operandi: colocava o pé na faixa e lentamente tentava atravessar, estendendo a minha mão, como indicam os comerciais ou como faz o pedestre de Brasília e de outras cidades do mundo mais civilizadas.

Nas 20 travessias:

  • 52 carros não pararam. Dos quais, 15 buzinaram, seis buzinaram e levantaram a mão (creio que minha mãe não gostaria de ouvir o que disseram) e um cara (de uma SUV) parou para reclamar e me chamar de folgado (!)
  • Dos que não pararam, sete – surpreendentemente – aceleraram quando viram este pedestre. Ou porque lêem este blog, vai saber…
  •  26 pararam (o número é maior, pois às vezes dois carros paravam lado a lado). Desses, oito pararam a um metro ou menos da própria faixa e não antes do cruzamento. Tenho que revelar que, em determinados momentos, cansado de esperar, eu atravessava e ponto.
  • Dos que pararam, mais da metade não estava com cara amigável. E, pelo menos, cinco saíram cantando os pneus após eu ter atravessado. Digo pelo menos, porque não sei se as outras cantadas foram de propósito ou por imperícia.
  • A maioria dos carros que paravam eram mais novos e caros. Uma Brasília, uma Variant e um Corcel II avançaram lentamente mas não olharam nem para os lados. Porém não houve uma significativa divisão de comportamento entre carros novos e caros e velhos e simples.
  • Do ponto de vista etário, quem aparentava entre 30 e 50 anos foram os mais solidários. Os mais jovens e os mais velhos passavam reto. Destaque para os jovens de óculos escuro cobertos por SUVs, que foram os que mais aceleraram quando viram este aqui.
  • Por fim, uma senhora de avançada idade e voz aveludada, chegou até mim e perguntou se podia me ajudar de alguma forma, uma vez que eu não parava de atravessar a rua.

Para além de me sentir como uma das galinhas amarelas do jogo Freeway, do saudoso Atari nos anos 80, acredito que as reclamações da grande quantidade dos sem-carro de São Paulo procede.

A avaliação do resultado (uma lástima) advém de uma comparação entre a realidade das coisas e o que elas deverias ser. Daqui a alguns meses, repito a experiência para termos um outro efeito comparativo – que também não vai me garantir um Nobel, haja visto que não usei nenhum método científico para escolher a amostra, muito menos o número de atravessadas, pior ainda para definir o cruzamento.

O ato de atravessar a rua é algo tão pequeno e insignificante. Mas capaz de revelar que nós não somos donos da cidade em que vivemos. Donos são carros e motos.

O medo de colocar o pé na faixa de pedestres mostra que sabemos que estamos adentrando território inimigo. Ao mesmo tempo, como no desenho do Pateta, o Sr. Pedestre continua se transformando, feito Dr. Jekyll em Mr. Hyde, no Sr. Volante quando entra em um carro, esquecendo tudo o que sofreu. Ou, pior, indo para a vingança.

Numa sociedade de consumo, como a nossa, quem não tem um carro – como eu – é um idiota. Ou, pelo menos, não é uma pessoa poderosa, muito menos sexualmente atraente, quiçá inteligente. Não é isso que nos ensinam as propagandas de automóveis? Que a busca pela felicidade acaba atrás do volante, quando aparecem enxames de mulheres, paisagens maravilhosas e amigos sorridentes?

É possível viver em São Paulo sem automóvel? Sim, mas continua sendo perigoso.

Paul is dead.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.